29 de fevereiro de 2020

Barcos na Cerração

Leonid Afremov

Esportes, galanterias, o palco, as artes, trejeitos de bailarinos,
A exuberante voz da música,
Encantam as crianças, mas carecem de nobreza; é amarga severidade
Que faz o belo; a mente
Sabe disso, quando adulta.
Neblina súbita abafou o oceano,
Dentro dela moveu-se um pulsar de motores,
E, enfim, a um passo, em meio às rochas e ao vapor
Uma atrás de outra se moveram sombras,
Saindo do mistério, sombras, barcos de pesca, um na trilha do outro,
Seguindo a escarpa como orientação,
Mantendo um caminho difícil entre o perigo da bruma
E a espuma no granito litorâneo.
Um atrás do outro, na trilha do primeiro, seis se arrastaram por mim,
Saindo do vapor e nele entrando,
O pulsar dos motores reprimido pela névoa, pacientes, cautelosos,
Contornando a península inteira
De volta às boias no porto de Monterey. Um voo de pelicanos
Em nada é mais bonito de se olhar;
O voo dos planetas em nada é mais nobre; todas as artes perdem virtude
Ante a realidade essencial
De criaturas, tratando de sua vida em meio aos igualmente
Severos elementos naturais.

Robinson Jeffers (1887-1962)
Tradução: Paulo Vizioli

28 de fevereiro de 2020

Teu corpo: O mundo

Willem de Kooning
Lá fora o mundo e as suas pequenas misérias.
Aqui a difícil ciência do abraço,
a lentidão com que aprendo as tuas costas,
a arte de delapidar o tempo
no descobrimento cauteloso do outro corpo.
Lá fora o aborrecido lastro do que fomos
e esse manchado nome que não nos pertence.
Aqui, ao contrário, a inerme vulnerabilidade
do que sentimos pela primeira vez.
Lá fora os olhos que nos julgam
as desculpas que devemos inventar para alcançar o êxtase,
essas mentiras nas quais nem nós mesmos acreditamos.
Aqui o compassado ballet
graças ao qual as almas se amoldam,
isentas de qualquer remorso.
Lá fora o mundo e os seus mexericos néscios
tratando de contaminar este pudor que treme.
Lá fora o mundo, monótono como uma tragédia.
Carácter que modificou a força única de um beijo,
todo o mundo está aqui, no teu corpo.

Gustavo Cobo Borda
Tradução: Carlos Mendonça Lopes

27 de fevereiro de 2020

Máquina Inútil

a Dylan Thomas
Jim Warren
Não posso ouvir a música do ser.
Não recebi o poder de imaginá-la.
Meu amor se alimenta em um não-amor.
Só avanço atiçado por sua recusa.
Ele me leva em seus grandes braços de nada.
Seu silêncio me separa de minha vida.

Ser serenamente ardente que assedio.
Quando enfim vou atingi-lo bem nos olhos,
a sua chama já vazou os meus, já fez-me cinzas.
Que importa após, o murmúrio miserável do poema.
É nada isso, não o paraíso.

Eu acabara de tomar conhecimento, através de pessoa
amiga de Dylan Thomas, de que, no decorrer de uma
conversa, imaginando e sonhando, ele exclamara:
“Eu quisera fazer ouvir a música do Paraíso”.

André Frénaud (1907-1993)
Tradução: Mario Laranjeira

26 de fevereiro de 2020

A bondade de um homem

Francis Wheatley
A bondade de um homem vê-se
pelo que ele diz a um cão
quando tem de saltear da cama
a meio de uma noite de inverno
porque um maldito cão tem estado a ladrar

e vai, abre a porta
de camisola interior e boxers
e ali à frente no baldio cheio de buracos
a que chamam campo de jogos
dá com o rafeiro de pata

no ar na expectativa
e um ar que diz: Graças a Deus
por momentos pensei
que só eu estava acordado
nesta terra de merda.

Pat Boran
Tradução: Francisco José Craveiro de Carvalho

25 de fevereiro de 2020

A Obra da Criação

Giovanni di Paolo
O mistério da criação é o ímpeto divino de criar,
mas é um imenso, estranho ímpeto, não é a Mente.
Até um artista sabe que a sua obra
não esteve nunca em sua mente,
ele não poderia nunca tê-la pensado antes que ela acontecesse.
Uma dor estranha o possuiu e ele entregou-se à luta,
e da luta com o seu material, na magia daquela urgência,
sua obra veio à luz, aconteceu, firmou-se e saudou a sua mente.

Deus é um imenso ímpeto, assombroso, magnífico, misterioso,
mas ele não sabe nada de antemão.
Seu ímpeto toma forma na carne, e eis!
é a criação! O próprio Deus, maravilhado, a contempla pela
primeira vez.
Olha! lá está formada uma criatura! Como é estranho!
Deixa-me pensar nisso! Formar uma ideia!

D. H. Lawrence (1885-1930)
Tradução: Aíla de Oliveira Gomes

24 de fevereiro de 2020

Anunciação

para Babinski
Babinski
O grito verde do periquito
Flechando o alvo azul do céu
Anuncia o instante que passa
Rumo à soma do passado,
Nesta conta sem razão
A que se chama eternidade.

E fica a certeza da luz,
O voo e a lição ensinada:
Frente ao facho desta vida
Se o tempo tem que ter medida
Há de ser, em cada corpo,
Toda sombra projetada.

João-Francisco Duarte Jr.

23 de fevereiro de 2020

Primavera

Pol Ledent
Na Primavera, os marmeleiros
da Cidónia, regados pelas correntes
dos rios, lá onde das Virgens
está o puro jardim; e os pâmpanos
a crescerem sob folhagens sombrias,
rebentos de vinha. Mas para mim o amor
não descansa em nenhuma estação;
ardendo sob o relâmpago
como o Bóreas da Trácia,
lança-se de junto de ¹Cipris com sedentas
insânias, tenebroso, desavergonhado,
e com força, de cima a baixo, sacode
o meu espírito.

Íbico (séc. VI a.C.),
Tradução: Frederico Lourenço

¹ Cipris – Afrodite

Íbico: Poeta lírico coral grego, tendo nascido na primeira metade do século VI a.C. Inicialmente compôs poemas de temática mitológica, mas é mais conhecido pelos de tema levemente eróticos. Segundo a lenda, foi morto por assaltantes perto da cidade de Corinto, mas umas garças, tendo visto o crime, vingaram-no matando seus assassinos a bicadas.

22 de fevereiro de 2020

Meia-Noite

Edvard Munch - O Grito
A noite cala-se,
Estou de pé na longa rua deserta
e grito.
Grito.
Porque em algum lugar afiam facas
porque em algum lugar assassinaram criaturas.
Porque o mal se espalha no mundo,
porque não há mais limite para pilhagem, a miséria, a dor.
Grito.
Porque a noite se cala,
a noite cala-se.
Levanto meu punho
contra as janelas apagadas, as próximas e as distantes,
e bato.
Bato –
porque os corações dormem lá dentro,
porque fora galopam os Bárbaros
para exterminar e aniquilar
geração sobre geração,
o salvador e o oprimido,
a escravidão e a liberdade –
sangue!
Levantai-vos, ó embriagados pelo abraço da besta,
celebro hoje os funerais
do homem.
Rastejo e caminho de quatro pés,
enterro as unhas no chão
e escavo.
Escavo –
talvez venha a descobrir a consciência do mundo.
Talvez os mortos elevem sua voz.
Escavo
um túmulo para a minha carne perecível,
um túmulo para a minha voz que se revolta e esbraveja,
e grito –
E a noite cala-se.
A noite cala-se.

Schin Schalom (1904-1990)
Tradução: Cecília Meireles

21 de fevereiro de 2020

Acontece acontecer

Alexander Averin
Depois de alguns anos
de não o ver,
de novo nos encontramos.
Não o desejo, como antes,
mas a nostalgia
daqueles dias de desejo
nos levou à cama.
A alegria de então
foi ternura, e o gozo
e a voluptuosidade
só complacência.
Ambos, poderia jurá-lo,
tivemos a certeza
de havermos sobrevivido.

María Mercedes Carranza (1945-2003)
Tradução: Carlos Mendonça Lopes

20 de fevereiro de 2020

Para Clarice Lispector

In memorian
Giorgio de Chirico - Retrato de Clarice Lispector
Anjos cantam tua eterna alegria.
Aos que se sentem sós mandas dizer
que doce na terra é o vinho da música
e o silêncio, sabor.
Foste partitura, que só os anjos souberam decifrar,
nascida de um fragílimo novelo –
teus cabelos claros –
que só os anjos puderam destrançar.

Ouves além das lágrimas antigas
essas lágrimas que só os anjos foram capazes de enxugar.

Dora Ferreira da Silva (1918-2006)

19 de fevereiro de 2020

Pequeno poema

Mary Cassatt

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama (1924-1952)

18 de fevereiro de 2020

Retorno

Carlos V. Pinto
Silenciosa como é próprio para lugares assim;
A rua, calma, meio neve, meio chuva,
Sem fim, mas terminando nas portas escuras.
Dentro, aqueles que estão sempre lá,
Silenciosos como é próprio para pessoas assim —
Bastando por ora estar ali, e
Saber que a minha porta é uma destas.

Robert Creeley (1926-2005)
Tradução: André Caramuru Aubert

17 de fevereiro de 2020

Jacó e o Anjo

Eugène Delacroix
Antes do amanhecer ela suspirou e o prendeu
daquele jeito, e o venceu.
Ele a prendeu daquele jeito, e a venceu,
ambos sabiam que o prender
traz a morte.
E evitaram pronunciar um o nome do outro.

Mas à primeira luz da manhã
ele viu o corpo dela.
Que permanecia branco,
nos pontos cobertos ontem
pelo maiô.

Depois chamaram-na de repente lá de cima,
duas vezes.
Como se chama uma menina
que brinca no pátio.
Ele soube o nome dela e a deixou partir.

Yehuda Amichai (1924-2000)
Tradução: Moacir Amâncio

16 de fevereiro de 2020

Garrafa ao mar

Foto Youcef Kondil
Três rochedos alguns pinheiros queimados e uma ermida
e mais acima
a mesma paisagem copiada recomeça;
três rochedos em forma de pórtico, enferrujados
alguns pinheiros queimados, negros e amarelos
uma pequena casa quadrada enterrada na cal;
e mais acima muitas vezes ainda
a mesma paisagem recomeça em escadaria
até ao horizonte até ao pôr do céu.

Aqui atracamos o barco para remendar os remos partidos,
beber água e dormir.
O mar que nos amargurou é fundo e inexplorado
e desdobra uma serenidade infinda.
Aqui entre os seixos encontramos uma moeda
e jogamo-la aos dados.
Ganhou-a o mais novo e perdeu-se.

Voltamos a embarcar com os nossos remos partidos.

Giórgos Seféris (1900-1971)
Tradução: Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratisinis

15 de fevereiro de 2020

E daí?

Alexander Averin
Na escola achava, cada amigo mais chegado,
que ele viria a ser um homem celebrado;
pensando o mesmo, ele viveu com esse humor,
fartando os seus vinte anos de labor;
“E daí?” “E daí?” – cantou o fantasma de Platão.

Tudo o que ele escreveu, tudo foi lido;
Depois de certos anos tinha já obtido
dinheiro suficiente para sua precisão,
e amigos que deveras foram seus amigos;
“E daí?” “E daí?” – cantou o fantasma de Platão.

Seus sonhos mais felizes realizaram-se:
uma velha casinha; esposa, filha; um filho ele houve,
e em seu quintal cresciam ameixeira e couve;
poetas e intelectuais juntavam-se-lhe à mão;
“E daí?” “E daí?” – cantou o fantasma de Platão.

“A obra está feita”, pensou ele, envelhecido,
“segundo o que em menino dei por decidido;
que os tolos raivem, eu não me desviei em nada,
alguma coisa eu trouxe à perfeição”;
“E daí?” – cantou mais alto a sombra de Platão.

William Butler Yeats (1865 -1939)
Tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos

14 de fevereiro de 2020

Brincar de trabalhar

Greg Olsen
Um brinquedo de que eu gosto
é brincar de trabalhar.
Pensam vocês, eu aposto,
que isso não é brincar.

Sem a gente perceber,
vai brincando e aprendendo.
Com brinquedos a fazer,
coisas úteis vou fazendo.

Eu já fiz a minha estante,
um limpa-pés também fiz.
Tenho brincado bastante,
mas trabalhando… quem diz?

Renato Sêneca Fleury

13 de fevereiro de 2020

Poeira

John F. Sloan
Quanta é a poeira que se deposita
Sobre o tecido nervoso de uma vida?
A poeira não tem peso nem som
Nem cor nem escopo: vela e nega,
Oblitera, oculta e paralisa;
Não mata mas apaga,
Não está morta mas dorme.
Abriga esporos milenares
Prenhes de danos por vir,
Crisálidas minúsculas à espera
De cindir, decompor, degradar:
Pura emboscada confusa e indefinida
Pronta para o assalto futuro,
Impotências que se tornarão potências
Ao estalo de um sinal mudo.
Mas também abriga germes diversos,
Sementes dormidas que vão brotar em ideias,
Cada uma densa de um universo
Imprevisível, novo, belo e estranho.
Por isso respeite e tema
Esse manto cinzento e sem forma:
Contém o mal e o bem,
O perigo e muitas coisas escritas.

Primo Levi (1919-1987)
Tradução: Maurício Santana Dias.

12 de fevereiro de 2020

Soneto

Celso Bayo
Perdi-me dentro em mim como em deserto,
Minha alma está metida em labirinto
E posto em tal perigo já me sinto
Cair noutro maior nele encoberto.

Vejo o socorro longe e a morte perto,
Pois vivo do que temo e do que sinto
Se alguém me quer valer não lho consinto,
Por vir o que desejo de ser mais certo.

Nova invenção de mal, novo tormento,
Ser cutelo da vida a mesma vida,
Ser desatino usar do entendimento.

Vingai-vos dor cruel, mal conhecida,
Que a vosso pesar sei do pensamento
Que em grande dor não há vida comprida.

Martim de Castro do Rio (1548-1613)

11 de fevereiro de 2020

Moras num antiquário

Hanna Pauli
Moras num antiquário e nunca estás.
Um gato sonolento recebe instáveis visitantes
mas eu fico à espera. Conheço cada fresta da parede
suas manchas e os objetos estranhos que ninguém
pensa comprar: a pátina os cobre de suave indiferença.
Parecem meteoros expulsos de espaços
infinitos e eu sinto a esperança de ver-te
ainda que um só momento — ausente de ti mesmo
e a sós contigo. Aqui estou de joelhos. Imóvel.
Julgarias que lá estava — se tanto — uma pequena pirâmide
silenciosa. Ver-te-ia de pálpebras fechadas
teu modo de estar a sós tua possível neurastenia
debatendo-se no antiquário entre objetos.
E quando te fosses quem sabe desligarias
as pesadas correntes que me prendem.

Dora Ferreira da Silva (1918-2006)

10 de fevereiro de 2020

Ela, aos trinta e três

Konstantin Razumov
Ela imaginara tudo bem diferente.
Ainda este Volkswagen enferrujado.
Certa vez, quase casou-se com um padeiro.
Antes, costumava ler Hesse, depois, Handke.
Agora ela prefere resolver charadas na cama.
De homens, não tolera abusos.
Por anos foi trotskista, mas à sua maneira.
Jamais tocou num cupom de racionamento.
Quando pensa no Camboja, passa mal.
Seu último namorado, o acadêmico, gostava de apanhar.
Vestidos de batique esverdeados, largos demais para ela.
Parasitas nas plantas à janela.
Na verdade, queria pintar, ou emigrar.
Sua tese, Luta de classes em Ulm, 1500
a 1512, e suas marcas no cancioneiro:
bolsas, começos, e uma maleta cheia de notas.
De vez em quando, a avó manda-lhe dinheiro.
Danças acanhadas no banheiro, caretas,
horas de hidratante ao espelho.
Ela diz: pelo menos não morrerei de fome.
Quando chora, fica com cara de dezenove.

Hans Magnus Enzensberger
Tradução: Ricardo Domeneck

9 de fevereiro de 2020

Poema do aviso final

Mervin Jules
É preciso que haja alguma coisa
alimentando o meu povo;
uma vontade
uma certeza
uma qualquer esperança.
É preciso que alguma coisa atraia
a vida
ou tudo será posto de lado
e na procura da vida
a morte virá na frente
a abrirá caminhos.
É preciso que haja algum respeito,
ao menos um esboço
ou a dignidade humana se afirmará
a machadadas.

Torquato Neto (1944-1972)

8 de fevereiro de 2020

Salmo I

Maria Helena Vieira da Silva

Bem aventurado o homem que não segue as diretivas do Partido
nem assiste aos seus comícios
nem se senta na mesa com os gangsters
nem com os Generais no Conselho de Guerra
Bem aventurado o homem que não espia o seu irmão
nem delata o seu companheiro de colégio
Bem aventurado o homem que não lê os anúncios comerciais
nem escuta suas rádios
nem acredita nos seus slogans

Será como uma árvore plantada junto a uma fonte.

Ernesto Cardenal

7 de fevereiro de 2020

Um Rosto

Sandro Botticelli - Simonetta Vespúcio
“Eu não sou traiçoeira, insensível, ciumenta, supersticiosa,
arrogante, venenosa ou absolutamente hedionda”:
estudando e estudando a sua expressão,
exasperado desespero embora sem um verdadeiro impasse,
de bom grado quebraria o espelho;

quando o amor da ordem, ardor, insinuosa simplicidade
com uma expressão de indagação, são tudo o que alguém precisa ser!
Certos rostos, poucos, um ou dois — ou um
Rosto fotografado por lembrança —
na minha opinião, a meu ver,
devem permanecer um prazer.

Marianne Moore (1887-1972)
Tradução: Carlos Mendonça Lopes

6 de fevereiro de 2020

Deus, como eu te capto a hora

Sir Joseph Noel Paton
Deus, como eu te capto a hora
quando, para ela gravitar no espaço,
pões tua voz adiante de ti;
para ti o nada era que nem ferida
que com o mundo pensaste.
Agora sob nós ela se cura aos poucos.

Então os passados bebem
as numerosas febres do doente:
já na suave indefinição, sentimos
o pulso tranquilo que vem de dentro.

Mitigados jazemos sobre o nada
e todas as fendas nós disfarçamos:
tu porém fazes na indefinição,
na sombra, transformar-se o teu semblante.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Tradução: Geir Campos