30 de novembro de 2019

O Pensamento

Bob Ross
O pensamento, amo o pensamento.
Não o titubear e retorcer de ideias pré-fabricadas –
Esse jogo de autossuficiência, eu o desprezo.
O pensamento é o manar da vida oculta à tona da mente,
O pensamento é o teste dos conceitos e a pedra de toque da consciência,
O pensamento é fitar a vida de frente e ler o que ali se pode ler,
O pensamento é ponderar a experiência e chegar a uma conclusão.
O pensamento não é um artifício, um exercício, uma esquivança –
O pensamento é um homem em sua inteireza e inteiramente alerta.

D. H. Lawrence (1885-1930)
Tradução: Aíla de Oliveira Gomes

29 de novembro de 2019

A Aranha

Piero di Cosimo
A aranha do meu destino
Faz teias de eu não pensar.
Não soube o que era em menino,
Sou adulto sem o achar.
É que a teia, de espalhada
Apanhou-me o querer ir...
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir
A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro...
Sou presa do meu suporte.

Fernando Pessoa (1888-1935)

28 de novembro de 2019

Chegada

Alex de Andreis
Feliz o homem que alcançou o porto,
Que deixa atrás de si mares e tormentas,
Cujos sonhos estão mortos ou jamais nasceram;
E se senta e bebe na taberna de Bremen,
Perto da lareira, e está em paz.
Feliz o homem como uma chama extinta,
Feliz o homem como areia de estuário,
Que depôs a carga e limpou a fronte
E repousa à beira do caminho.
Não teme nem espera nem aguarda,
Mas olha fixo o sol que se põe.

Primo Levi (1919-1987)
Tradução: Maurício Santana Dias.

27 de novembro de 2019

Adolescente romano

Antinous Ecouen Louvre
Eis a bela cabeça de bronze do remoto adolescente:
o cabelo é uma franjada coroa como de folhas de oliveira;
as sobrancelhas arredondam guirlandas serenas;
a narina respira o arcaico dia de vida;
há no lábio uma surpresa de sonho quase com forma de palavra.

E como o artista vazou-lhe a íris, tal pupila desmesurada,
cai-lhe sobre todo o rosto uma sombra densa, grave e profunda:
- redondas janelas por onde penetra a face móvel dos séculos,
redondas janelas por onde assoma esse abismo da eternidade,
silencioso, imenso, extático,
onde as imagens todas se apagam.
Que adolescente viveu com sua carne
o espetáculo de alma que o bronze traz de tão longe?

Cecília Meireles (1901-1964)
in [Em Poemas Italianos]

26 de novembro de 2019

Os Velhos e os Jovens

Jacob Jordaens
“Incompreensíveis nos são os jovens”
É constantemente cantado pelos velhos;
Da minha parte quero o seguinte colocar:
“Incompreensíveis me são os velhos”.
Esse querer ficar no comando
Em todas as peças e todos os papéis,
Esse se considerar imprescindível
Juntamente com o “chorar silencioso de seus olhos”,
Como se tivesse sido feito um agravo ao mundo –
Ah, eu não consigo entender.
Se nossos jovens, em seu atrevimento,
Realmente criam e contribuem com algo melhor,
Se chegaram mais perto do Parnaso
Ou se somente escalaram um monte de toupeiras,
Se eles, com outros defensores de novos costumes,
Melhoram ou pioram a humanidade,
Se eles semeiam paz ou desencadeiam tempestades,
Se fazem céu ou inferno –
U M A coisa os deixa estar sobre base vitoriosa:
Eles têm o dia, eles têm a hora;
O mouro pode ir, nova peça começa,
Eles dominam a cena, eles estão na vez.

Theodor Fontane (1819-1898)
Tradução: Dionei Mathias.

25 de novembro de 2019

Cantares de perda e predileção

Emma Sandys
Vida da minha alma:
Recaminhei casas e paisagens
Buscando-me a mim, minha tua cara.
Recaminhei os escombros da tarde
Folhas enegrecidas, gomos, cascas
Papéis de terra e tinta sob as árvores
Nichos onde nos confessamos, praças

Revi os cães. Não os mesmos. Outros
De igual destino, loucos, tristes,
Nós dois, meu ódio-amor, atravessando
Cinzas e paredões, o percurso da vida.

Busquei a luz e o amor. Humana, atenta
Como quem busca a boca nos confins da sede.
Recaminhei as nossas construções, tijolos
Pás, a areia dos dias

E tudo que encontrei te digo agora:
Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.
O arquiteto dessas armadilhas.

Hilda Hilst (1930-2004)

24 de novembro de 2019

Soneto VII

Richard Kretchmer
Onde estou? Este sítio desconheço:
Quem fez tão diferente aquele prado?
Tudo outra natureza tem tomado;
E em contemplá-lo tímido esmoreço.
Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
De estar a ela um dia reclinado:
Ali em vale um monte está mudado:
Quando pode dos anos o progresso!
Árvores aqui vi tão florescentes
Que faziam perpétua a primavera:
Nem troncos vejo agora decadentes.
Eu me engano: a região esta não era;
Mas que venho a estranhar, se estão presentes
Meus males, com que tudo degenera.
COSTA, C.M. Poemas. (1729-1789)

No soneto de Claudio Manuel da Costa, a angústia provocada pela sensação de solidão contemplação da paisagem permite ao eu lírico uma reflexão em que transparece uma empatia entre os sofrimentos do eu e a agonia da terra.

23 de novembro de 2019

O Espinho

Pierre-Joseph Redouté
Caluniado espinho na haste da rosa,
a ninguém ferirás nesta manhã
em que a rosa vermelha, a rosa airosa
oferta a sua vida à vida vã.

Neste dia de sol tudo é passagem.
E mesmo a eternidade é um caminho,
coito de luz e sombra, na viagem
entre o dia e a noite, a rosa e o espinho.

Lêdo Ivo

22 de novembro de 2019

O meu amado tinha tantas manias

John Watkins Chapman
O meu amado tinha tantas manias:
perdia canetas, lápis, chaves.
Houve um livro que comprou três vezes em um mês:
depois encontramos todos e mais um sob velhos jornais.
Mandei fazer uma estante nova para organizar seus
livros:
mas quando ele se foi, mais que livros havia ali de novo
jornais.
Nunca sabia bem por que os guardara. Eram parte do
seu ninho,
como nossos lençóis e os móveis da sala.
Não conseguia sentar-se mais que meia hora para escrever:
vinha ao meu escritório, usava de pretextos para me
distrair,
dava um beijo, fazia confidências, comentava assuntos
do dia.
Quando me via triste, dizia entre compassivo e magoado:
“Você hoje está numa melancolia profunda?”
Certa vez discutimos, e ele deixou sobre minha máquina
de escrever
um bilhete de amor.

Nunca tivemos mais que vinte anos.

Lya Luft

21 de novembro de 2019

Outrora

David Hockney
Outrora, num tempo distante,
fui eu tão feliz, não agora:
mas quanta doçura no instante
por tanta doçura de outrora!

Esse ano! por anos que após
fugiram e que fugirão,
não podes, ideia, não podes
levá-lo contigo, na mão…

Um dia ele foi… só uma essência
sem retorno e sem outro igual.
E a vida foi vã aparência
antes e após um dia tal.

Um instante… aí tão passageiro,
que menos passou que se diz;
mas tão belo assim, mas tão belo,
e eu nele tão feliz, tão feliz!

Giovanni Pascoli (1855-1912)
Tradução: Jorge de Sena

20 de novembro de 2019

Por si

Manoel Santiago - Alto Teresópolis
Quem quiser passar pela vida,
que aprenda com o sol:
ele é fogo: por força de si, se impõe.
Mas nasce e morre todos os dias,
ilumina o que vinga e depois esquece
e, a um só tempo, sabe sumir e se pôr.

Sandra Niskier Flanzer

19 de novembro de 2019

A foca

Ilustração Stacy Curtis
Quer ver a foca
Ficar feliz?
É por uma bola No seu nariz.
Quer ver a foca
Bater palminha?
É dar a ela
Uma sardinha.

Quer ver a foca
Fazer uma briga?
É espetar ela
Bem na barriga!

Vinicius de Moraes (1913-1980)

18 de novembro de 2019

(Unicamp 2020 - 1ª fase)

Que dizer das personagens? Creio que têm a força e ao mesmo tempo a fraqueza da caricatura. Mas, pensando melhor, não poderemos também alegar em defesa do romancista que a caricatura é uma tendência reconhecida e aceita da arte moderna, principalmente da pintura? Não haverá muito de deformação na obra de grandes pintores como Portinari, Di Cavalcante e Segall – todos eles inconformados com a sociedade em que vivem?
(Adaptado de Erico Verissimo, Prefácio, em Caminhos Cruzados.
São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 20-21.)



Tarsila do Amaral, A negra, 1923. Coleção Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo.







A ideia de deformação aplica-se ao quadro de Tarsila e ao romance Caminhos cruzados, de Érico Veríssimo, porque tal procedimento artístico acentua:
a crítica do modernismo à violência da escravidão e às desigualdades sociais, presentes no quadro e nas personagens do romance, respectivamente.
o imaginário da burguesia nacional, pois tanto as protagonistas do romance quanto a imagem da mulher negra retratam os traços característicos das reformas sociais do Estado Novo.
os princípios estéticos do movimento modernista, pois as duas expressões artísticas apresentam-se como reflexo dos valores da elite cafeeira paulista.
a moral implícita da modernidade, pois o narrador do livro e a representação do corpo negro criticam o comportamento social das personagens femininas no século XX.

O Poeta e seu Mestre

Charlie Chaplin by Paul Meijering
Tiro da sua cartola
repleta de astros,
mil sobrenaturais
paisagens de infância.

Sua bengalinha
queima os ditadores,
destrói as muralhas
libertando os anjos.

Calço seu sapato
e eis que percorro
a branca anatomia
de pássaros e flores

Repito seus gestos
de amor e renúncia,
de música ou luta,
de solidariedade.

Carlitos!

Teu bigode é a ponte
que nos liga ao sonho
e ao jardim tão perto.

José Paulo Paes (1926-1998)

17 de novembro de 2019

Perspectiva

Perspectiva. Técnica de representação, numa superfície plana, do espaço tridimensional, baseado no uso de certos fenômenos ópticos, como a diminuição aparente no tamanho dos objetos e a convergência das linhas paralelas à medida que se distanciam do observador.
(Ian Chilvers (org.). Dicionário Oxford de arte, 2007.)
Verificam-se distorções e ambiguidades em relação à técnica da perspectiva na seguinte obra:
a) René Magritte. "A Clarividência" (1936)
b) Maurits Cornelis Escher “Mirante" (1958)
c) Edward Hopper."Escritório de uma cidade pequena" (1953)
d) Käthe Kollwitz. "A marcha dos tecelões" (1897)
e) René Magritte. "O império da luz" (1954)
A resposta correta é b Maurits Cornelis Escher.

16 de novembro de 2019

Tempo das chuvas

Stanislav Sidorov
Antes que venham as primeiras chuvas
acender
Amarelas flores entre os rochedos
E o céu se torne móvel de compridos pássaros
E todo o chão se cubra do verde novo
Do capim
Saberás pelo vento que chegaste ao fim.

José Eduardo Agualusa

15 de novembro de 2019

A Formalística

Guglielmo Zocchi
O poeta cerebral tomou café sem açúcar
e foi pro gabinete concentrar-se.
Seu lápis é um bisturi
que ele afia na pedra,
na pedra calcinada das palavras,
imagem que elegeu porque ama a dificuldade,
o efeito respeitoso que produz
seu trato com o dicionário.
Faz três horas já que estuma as musas.
O dia arde. Seu prepúcio coça.
Daqui a pouco começam a fosforescer coisas no mato.
A serva de Deus sai de sua cela à noite
e caminha na estrada,
passeia porque Deus quis passear
e ela caminha.
O jovem poeta,
fedendo a suicídio e glória,
rouba de todos nós e nem assina:
‘Deus é impecável’.
As rãs pulam sobressaltadas
e o pelejador não entende,
quer escrever as coisas com as palavras.

Adélia Prado

14 de novembro de 2019

O tempo despiu o seu manto

Antoine de Beaumont - homenagem à Charles d'Orléans
O tempo despiu o seu manto
De chuva e de vente gelado:
Vestiu-se de ouro em brocado,
Fiado do sol claro e santo.

E diz todo bicho, em seu canto
E jargão, sem asas e alado:
O tempo despiu o seu manto.
O córrego, o regato e a fonte,

Em sua libré aristocrata,
De gotas de joias de prata,
Festejam as roupas do encanto:
O tempo despiu o seu manto.

– Charles d’Orleans (1394-1465)
Tradução: [Décio Pignatari].

13 de novembro de 2019

O Caminho

Nancy Merkle

Não é mais curto o caminho
só porque nele tu corres.
Caminhar tem a sua ciência,
e tem também sua magia:
um passo depois de um passo,
um outro e outro passo mais.
Vai caminhando o caminho,
mas não passa, nós passamos:
passo a passo, passo a passo
sobre ele passam os passos.
E quando acaba o caminho
termina-se o caminhar.

Luis Beltrán Prieto Figueroa (1902-1993)
Tradução: José Santiago Naud

12 de novembro de 2019

O Lago

Freydoon Rassouli
Mulher, és como um lago em flor, que se ilumina
Ao sol, e como a flor abre o seio esplendente;
Eu me banhava em ti desassombradamente,
Água, flor da manhã, branca flor da campina.

Dos pássaros em torno a canção matutina
Fazia rir de gozo e arfar de amor o ambiente;
Cantava pelo espaço a primavera olente,
Cantava a aura do céu, cantava a luz divina.

Mármore unido, que veia azul brando apenas,
Parecias ouvir, cismando, as cantilenas,
Que enchiam toda a veiga, abrasada de aurora.

O! lago, eu me banhava em ti; mas de improviso
Fui ao fundo, e no fundo achei o paraíso:
E onde o paraíso está, eu sei agora...

Luís Delfino (1834-1910)

11 de novembro de 2019

Espaço

Rafael Sanzio
Precisamos de espaço para a beleza e seu significado,
e como hoje não há mais espaço
para agir e falar, o rosto
da beleza não se mostra mais tão belo.

A árvore se destaca ao se erguer sozinha
contra a amplidão do céu,
uma vela, uma pequena mancha branca no mar aberto,
recoloca o horizonte em seu lugar.

Em meio à escuridão, a luz da vela
cria espaço à sua volta, enquanto queima,
dando forma, contorno e nome ao quarto,
neste momento nasce o seu significado.

Uma palavra rompe o silêncio como a estrela cadente
traçando seu voo belo e solitário
contra a imensidão do céu,
contra o insondável silêncio da noite.

Anne Morrow Lindbergh (1906-2001)
Tradução: [Thereza Christina Rocque da Motta]

10 de novembro de 2019

Do que Nada se Sabe

Edouard Bisson
A lua ignora que é tranquila e clara
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
Ao abstrato xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,
Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?

Jorge Luís Borges (1899-1986)
Tradução: Josely Vianna Baptista