30 de setembro de 2019

Pobre amor

Ostritskogo Arcadia Gershevich
Calcula, minha amiga, que tortura!
Amo-te muito e muito, e, todavia,
Preferira morrer a ver-te um dia
Merecer o labéu de esposa impura!

Que te não enterneça esta loucura,
Que não te mova nunca esta agonia,
Que eu muito sofra porque és casta e pura,
Que, se o não foras, quanto eu sofreria!

Ah! Quanto eu sofreria se alegrasses
Com teu beijos de amor, meus lábios tristes,
Com teus beijos de amor, as minhas faces!

Persiste na moral em que persistes.
Ah! Quanto eu sofreria se pecasses,
Mas quanto sofro mais porque resistes!

Aluísio Azevedo (1857-1913)

29 de setembro de 2019

Frase


Vincent van Gogh
“A ambição universal dos homens
é viver colhendo
o que nunca plantaram.”

Adam Smith (1723-1790)


O Sol

Michael James Smith
Diariamente, o sol amarelo vem por cima do monte.
Bela é a floresta, o animal sombrio,
O homem: caçador ou pastor.

Fulvo, emerge o peixe no lago verde.
Sob a curva do céu
Desliza levemente o pescador no barco azul.

Lentamente, amadurece a uva, o trigo.
Quando, no silêncio, declina o dia,
Obras boas e más estão preparadas.

Quando chega a noite
O viajante ergue levemente as pesadas pálpebras;
De sombrio abismo jorra sol.

Georg Trakl (1887-1914)
Tradução: João Barrento

28 de setembro de 2019

Musa pueril

Jean-Antoine Watteau
Um não sei quê de glória, e de tormento,
Um és, não és, de gosto, e de alegria,
Uma paixão, que engana a fantasia,
Me traz entre o pesar contentamento.

Uma aflição cruel entre o lamento,
Uma doidice em um, e outro dia,
Uma doce esperança em que se fia,
Me dá conforto ao bem no pensamento.

Um tal desassossego, que me rende
Uma valente dor, que me não cansa,
É a que mais me mata, e não me ofende.

Isto é amor, que posto em fiel balança,
Se a cousa amada com mais fé se atende,
Nunca se sabe o fim a uma esperança.

João Cardoso da Costa

27 de setembro de 2019

Meu Epitáfio

Carlos Almaraz
Morta, serei árvore
serei tronco, serei fronde
e minhas raízes enlaçadas às pedras de meu berço
são as cordas que brotam de uma lira

Enfeitei de folhas verdes
a pedra de meu túmulo num simbolismo
de vida vegetal.

Não morre aquele
que deixou na terra
a melodia de seu cântico
na música de seus versos.

ℂora ℂoralina (1889-1985)

26 de setembro de 2019

Uma ideia

Jiri Petr
Me veio uma ideia
para um versinho? para um poema?
Está bem – digo – fique, vamos bater um papo.
Você tem de me contar mais sobre si mesma.
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
Ah, então é isso – digo – interessante.
Faz tempo que estas coisas me pesam no peito.
Mas fazer versos sobre elas? Não, nem pensar.
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
Isso é só impressão sua – respondo –
você superestima minhas forças e capacidade.
Não saberia nem por onde começar.
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
Você se engana – digo – um poema curto e conciso
é muito mais difícil de escrever do que um longo.
Não me canse, não insista, não vai dar.
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
Que seja, vou tentar, já que você insiste.
Mas já vou avisando do resultado.
Vou escrever, rasgar e jogar no cesto de lixo.
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
Você tem razão – digo – decerto que há outros poetas.
Alguns farão isto melhor que eu.
Posso lhe dar os nomes, endereços.
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
É claro que vou ficar com inveja deles.
Invejamos uns aos outros até os poemas medíocres.
E me parece que este precisa... que tem que ter...
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
É isso, ter as características que você enumerou.
Portanto, melhor mudar de assunto.
Que tal um café?

Ao que ela apenas soltou um suspiro.

E começou a sumir.

E sumiu.

Wisława Szymborska (1923-2012)
Tradução: Regina Przybycien

25 de setembro de 2019

Seios

Carlos Mendonça Lopes

Eu amo seios, duros
Seios cheios, coroados
Por um botão.

Vêm pela noite.
Os bestiários dos antigos
Que incluem o unicórnio
Deixaram-nos sair.

Perlados, como o oriente
Uma hora antes do sol nascer,
Dois fornos da única
Pedra filosofal
Que merece a nossa atenção.

Trazem nos seus mamilos
Grãos de inaudíveis suspiros,
Vogais de deliciosa clareza
Para a pequena e rubra escola das nossas bocas.

Algures, a solidão
Faz outra entrada sombria
Na sua lage, a miséria
Toma outra taça de arroz.

Eles aproximam-se: Presença
Animal. No celeiro
O leite estremece no balde.

Gosto de ir até eles
De baixo, como uma criança
Que sobe a uma cadeira
Para alcançar o doce proibido.

Suavemente, com os lábios,
Solto o botão.
Tê-los soltos entre as mãos
Como duas recém-tiradas canecas de cerveja.

Cuspo nos tolos que não incluem
Os seios na sua metafísica
Astrónomos que não os enumeraram
Entre as luas da terra …

Eles dão a cada dedo
A forma verdadeira, a sua alegria:
Sabão novo, espuma
Onde as nossas mãos se limpam.

E como a língua honra
Esses dois pãezinhos azedos,
Pois a língua é uma pena
Mergulhada em gema de ovo.

Insisto que uma miúda
Despida até à cintura
É o primeiro e último milagre,
Que o velho porteiro no seu leito de morte
Ao pedir para ver os seios da esposa
Uma última vez
É o maior poeta que já viveu.

Oh minha doce, melancólica gaitas de foles.
Olha, toda a gente está dormindo na terra.
Agora, na absoluta imobilidade
Do tempo, puxando para mim
A cintura de quem eu amo,

Vou saborear cada seio
Como densa e escura uva
Dentro da colmeia
Desta minha lânguida boca.


Charles Simic
Tradução: Carlos Mendonça Lopes

24 de setembro de 2019

As Nuvens

Childe Hassam
As Nuvens são deusas. Na verdade, são as únicas que existem e praticam a metamorfose, isto é, podem tomar a aparência de muitas coisas — centauro, leopardo, lobo, touro. Pelo menos é o que defende Sócrates na comédia As Nuvens, de Aristófanes, no século V a.C. Nela, o filósofo conta a Estrepsíades que elas, as Nuvens, se transformam em tudo que desejam. Para expor a ganância de ladrões dos bens públicos, por exemplo, podem tomar a forma de lobos (quase podemos imaginá-las hoje em terras brasileiras fazendo o desenho de mãos simulando arminhas no céu).
Seja como for, a associação entre desejo e observação das imagens acompanha a história da poesia. E o Sócrates de As Nuvens faz parte dessa linhagem que se coloca do lado da inconstância do desejo. As imagens formadas pelas deusas Nuvens (o seu próprio ser) não podem ser fixadas, são passageiras, como os diversos fenômenos astronômicos que as acompanham, os raios, os arco-íris, as chuvas.
Contra a ideia fixa sobre um mesmo objeto de desejo, eterno e imutável, o transformismo das imagens das nuvens. Parece ser essa a paixão de Charles Baudelaire, ainda no século 19, com um pequeno poema em prosa, O estrangeiro. Na tradução de Aurélio Buarque, vemos o estrangeiro ser inquirido. Amas mais a tua família, perguntam ao homem enigmático, e ele responde que não. E nega também que sejam os amigos, a pátria, a beleza ou o ouro o seu objeto amoroso. “— Então! a que é que tu amas, excêntrico estrangeiro?” E ele responde, finalmente: “— Amo as nuvens… as nuvens que passam… longe… lá muito longe… as maravilhosas nuvens!”
Hilda Machado (1951-2007)

23 de setembro de 2019

Cartas de amor, frio e morto papel

Edvard Munch

As minhas cartas! Todas elas frio,
Mudo e morto papel! No entanto agora
Lendo-as, entre as mãos trêmulas o fio
Da vida eis que retomo hora por hora.

Nesta queria ver-me — era no estio —
Como amiga a seu lado... Nesta implora
Vir e as mãos me tomar… Tão simples! Li-o
E chorei. Nesta diz quanto me adora.

Nesta confiou: sou teu, e empalidece
A tinta no papel, tanto o apertara
Ao meu peito, que todo inda estremece!

Mas uma… Ó meu amor, o que me disse
Não digo. Que bem mal me aproveitara,
Se o que então me disseste eu repetisse…


Elizabeth Barrett Browning (1806-1861)
Tradução: Manuel Bandeira

22 de setembro de 2019

Amor e Tempo

James Ensor
Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera! São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor?! O mesmo amar é causa de não amar e o ter amado muito, de amar menos.
Padre Antônio Vieira (1608 1697)

21 de setembro de 2019

A Palmeira

Anysio Dantas - Serigrafia

Alta, esguia, majestosa,
De uma beleza sem par,
Contemplo a esbelta palmeiraaaaa
Banhada pelo luar.

A seus pés um lago azul,
Onde em calma ela se mira,
Põe na paisagem noturna
Cintilações de safira.

De longe, chega em surdina
A voz rouca das cascatas:
É a sinfonia dos rios
Soluçando serenatas.

Nessa hora em que a noite é um templo,
E o firmamento, um altar,
Sob os círios das estrelas
Em silêncio a vi rezar.

Na linguagem da saudade,
O coração da palmeira,
Pedia as bênçãos do céu
Para a terra brasileira.


Walter Nieble de Freitas

20 de setembro de 2019

Frase


“Quem olha para fora,
sonha; quem olha para
dentro, desperta.”

Carl Gustav Jung


Egito Antigo: as mulheres faraós

As mulheres no Egito Antigo tinham alguns poucos direitos, como o de administrar seus bens, assumir os negócios do marido em caso de ficarem viúvas e até escolher com quem se casar, claro que com a aprovação dos pais. Entretanto, a sociedade egípcia era uma sociedade na qual os homens governavam.
Os egípcios acreditavam que havia um equilíbrio cósmico, que deveria ser mantido pelas dualidades de opostos, como o dia e a noite, caos e ordem, vida e morte, masculino e feminino, etc. Portanto, como o grande governante do mundo era um deus masculino, o falcão Hórus, os faraós eram a representação do próprio deus, eram sua encarnação. Dessa forma apenas homens podiam governar.
Entretanto, mesmo com todas essas normas rígidas, algumas mulheres governaram o Egito, como regentes de filhos, sobrinhos ou enteados. Vejamos algumas:
1‒ Hatchepsut (1542 -1458 a.C.) foi uma grande esposa real, regente e rainha-faraó do Antigo Egito. Era a filha mais velha do faraó Tutmósis I e da rainha Amosis. Por ser mulher, não poderia governar. Por isso casou-se com um meio irmão, filho de uma das amantes de seu pai.
Com a morte de Tutmósis I, o próximo faraó, marido de Hatshepsut, seguiu as conquistas, pacificando as fronteiras egípcias.
Com a saúde fraca, Tutmósis II morreu enquanto seu filho era ainda muito criança. Dessa forma, a rainha Hatshepsut assume o governo como regente de seu enteado-sobrinho. Vestia-se de homem nas cerimônias oficiais e mudou seu nome, adotando um nome masculino para apoiar sua posição no trono.
O governo de Hatshepsut durou 22 anos e foi um período de paz e prosperidade. Seu governo é interligado ao governo de seu enteado-sobrinho, Tutmósis III, embora quem tenha governado de fato tenha sido a rainha, ela incentivou o rapaz a realizar campanhas militares e nessa época o Egito conquistou toda a Núbia, a península do Sinai e retomou caravanas comerciais com a Palestina, Mesopotâmia, Síria e com o reino de Punt (Somália atual). A rainha morreu com 84 anos. Tendo ordenado a construção de pequenos templos, obeliscos e seu complexo funerário, o hipogeu de Deir-el-Bahari.

2‒ Nefertiti (1370 - 1330 a.C.) rainha da XVIII dinastia do Antigo Egito, esposa principal do faraó Amenófis IV.
Nefertiti e o seu esposo tornaram-se conhecidos pela revolução religiosa, na qual adoravam apenas um deus, Áton, ou o disco solar. Com o seu esposo, reinou naquele que foi o período mais próspero na história do Antigo Egito. Tornou-se famosa pelo seu busto, agora no Museu de Berlim. É um dos objetos mais copiados da arte do antigo Egito. O busto é notável para exemplificar a compreensão dos antigos egípcios tinham a respeito das proporções faciais realistas.

3‒ Nefertari (1290-1254 a.C.) rainha egípcia, esposa de Ramessés II. faraó do Egito, cujo nome significa a mais bela.
Nefertari exerceu um importante papel nas negociações de paz com os povos vizinhos, nomeadamente com os hititas. Ficou a seu cargo realizar os rituais sagrados do estado, o que evidencia a sua importância na corte. O amor de Ramsés pela rainha ficou imortalizado no magnífico templo que mandou talhar na rocha em Abu Simbel. Seu túmulo foi encontrado em 1904 e, mesmo tendo sido saqueado diversas vezes nos séculos passados, ainda era um dos mais luxuosos do Vale das Rainhas. Com 520 metros quadrados, tem as paredes inteiramente recobertas por pinturas da rainha. Acredita-se que, antes dos saques, continha muitos tesouros. Mas a múmia de Nefertari não foi encontrada. Apenas um par de joelhos mumificados que, pesquisas realizadas em 2016 revelaram pertencerem, de fato, a Nefertari.

Sir Lawrence Alma-Tadema - The Meeting of Antony and Cleopatra
4‒ Cleópatra (69-30 a.C.) Filha do rei egípcio Ptolomeu Aulete, nasceu no ano 69 a.C.
O trono do Egito havia sido legado a Cleópatra e seu irmão mais velho, porém com a condição de que eles se casassem. Desejando governar sozinho, Ptolomeu Dionísio exilou a irmã.
Quando César entrou em Alexandria, depois de Farsália, Potium, ministro do Egito, tratou-o com desprezo, sublevando contra ele as tropas aguerridas do Egito e a população da própria cidade.
Em represália, César trouxe Cleópatra para a cidade, introduzindo-a secretamente no palácio. Ptolomeu Dionísio não teve outra alternativa senão a de reconciliar-se com a irmã.
Novamente, porém, o rei egípcio revolta-se contra César, morrendo afogado num combate. Cleópatra sobe então ao trono, casando com seu irmão mais jovem.
César ficou ainda alguns meses no Egito. Quando voltou a Roma, mandou vir a rainha, cuja estátua, feita na época, foi colocada no templo de Vênus. Com a morte de César, couberam a Antônio os negócios do Oriente.
Cleópatra seduziu-o, tornando-o instrumento de suas ambições. Quando Roma o chamou, tomado de paixão, Antônio recusou-se a regressar. Otávio volta-se contra o Egito, e Cleópatra foge seguida por Antônio. Depois da batalha de Accio, retornaram à África. Tentam negociar, porém Cleópatra trai Antônio. Otávio marcha sobre o Egito e a bela rainha entrega-lhe Alexandria, fazendo chegar a falsa notícia de sua morte a Antônio, que se mata.
Depois ela tenta seduzir Otávio, mas nada consegue.
Não querendo servir de ornamento ao triunfo de Otávio, Cleópatra suicida-se com seus hábitos reais, a 15 de agosto de 30 a.C.

19 de setembro de 2019

Talvez

Frank Wilson - Autumns Glory

Talvez nem tenha nome.
Anunciado só pelo frêmito
da folhagem.
O riso invisível, o grito
de um pássaro, o escuro
da voz. Certa doçura,
certa violência.
O espesso, volúvel
tecido da noite agora a roçar
o corpo da água. E por fim
a muito lenta paixão
do fogo, sufocada.
Era o verão.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

18 de setembro de 2019

Se tu, meu irmão

Sandro Botticelli - Regreso de Judit

Se, vivo, regressasses ao meu encontro,
Com a mão estendida,
Poderia ainda,
No elã de esquecer, apertá-la,
Irmão.

Mas de ti, de ti já nada me envolve
Senão sonhos, vislumbres,
O fogo sem foco do passado.

A memória não me traz senão imagens
E para mim mesmo, eu mesmo
Já não sou mais
Que o vazio nada de meu pensamento.

Giuseppe Ungaretti (1888-1970)
Tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti

17 de setembro de 2019

O verão há de vir

George Dunlop Leslie
O tempo não é uma medida.
Um ano não conta, dez anos não representam nada.
Ser artista não significa contar,
é crescer como a árvore que não apressa
a sua seiva e resiste, serena, aos grandes ventos
da primavera, sem temer que o verão possa não vir.
O verão há de vir.
Mas só vem para aqueles que sabem esperar,
tão sossegados como se tivessem na frente a eternidade.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)

16 de setembro de 2019

Regresso a Sísifo

Henri Serrur
Rodou a pedra e outra vez como antes
a empurrarei, a empurrarei ladeira acima
para vê-la rodar de novo.
Começa a batalha que aconteceu mil vezes
contra a pedra e Sísifo e mim mesmo.

Pedra que nunca deterás no alto:
dou-te as graças por rodar ladeira abaixo.
Sem este drama inútil, a vida seria inútil.

José Emilio Pacheco (1939-2014)
Tradução: Floriano Martins

15 de setembro de 2019

Parada

Zinaida Serebriacova

Ele achou sua fonte,
Ele pôs pão na sopa,
Ele dormiu à mesa,
Ele saciou-se em sonho,
Ele botou um ovo,
Ele se aviva em cisma,
Ele se ativa em força,
Ele se acopla à lira,
Ele se cumpre em voto
Do sopro do Espírito.
Esse homem é um poeta.

André Frénaud (1907-1993)
Tradução: Mário Laranjeira

14 de setembro de 2019

Frase




“Seja a mudança que
você quer ver no mundo”.

Mahatma Ghandi (1869-1948)


À Minha Mulher

Com um exemplar de meus “Poemas”
Jeanne Illenye
Escrever não posso um proêmio imponente
Como um prelúdio ao meu cantar;
“De um poeta a um poema”
Só a dizer me atreveria.

Pois se dessas pétalas caídas
Alguma te parecer bela,
O amor a soprará até que pouse
Nos teus cabelos.

E quando o vento e o inverno devastarem
A terra toda sem amor,
Ela há de falar, do jardim, em surdina,
E tu compreenderás.

Oscar Wilde (1854-1900)
Tradução: Oscar Mendes

13 de setembro de 2019

Rondel do Adeus

Ma Bu

Partir, morrer um pouco,
Morrer para o que amamos
De nós mesmos um pouco vai-se
A toda hora, em qualquer parte,

Dum voto, sempre um luto,
Do poema o verso derradeiro:
Partir, morrer um pouco:
Partimos, sim, parte de um jogo,

Do qual, até ao adeus supremo
Sua alma semeamos
E a cada adeus a semeamos:
Partir, morrer um pouco...

Edmond Haraucourt (1856-1941)
Tradução: Cunha e Silva Filho

12 de setembro de 2019

A Vaselina

Praça da Ópera: por uma farmácia a dentro
Entra um senhor bem-posto feito um pé-de-vento:
“ Estou com pressa”, diz. “Eu quero vaselina.”
Gentil, o boticário indaga o cliente
Impaciente
A que uso se destina
O graxo ingrediente:
“Se for para o rosto, é melhor levar fina…
Qual?
Que tal
Este artigo
Que o senhor, sem perigo,
Pode usar no rosto?
Eu por mim recomendo sempre a boricada.”
E o cliente, a bufar: “Mas que papagaiada!
Pouco me importa qual, pois é para enrabar!”


Guillaume Apollinaire (1880-1918)
Tradução: José Paulo Paes

11 de setembro de 2019

A Era do Eixo

Donato Bramante - Heráclito chorando e Demócrito rindo.

A Era do Eixo é um termo cunhado pelo filósofo alemão Karl Jaspers (1883-1969) para descrever o período de 800-200 a.C., mais concretamente durante o primeiro milénio antes de Cristo, durante o qual, houve uma transformação essencial na consciência humana em áreas geográficas distantes e aparentemente sem interferência: índia, China, Pérsia, Grécia.
China
Índia
Pérsia
Grécia
Confúcio
Sidarta Gautama
Ciro
Sócrates
(551-478 aC.)
(560-480 aC.)
(558-528 aC.)
(470-399 aC.)
O homem passou de uma consciência predominantemente cósmica a uma consciência reflexiva, de uma consciência submersa no grupo e na coletividade a uma consciência de identidade individual e pessoal. Foi também nesse quadro que emergiu uma decisiva transformação religiosa, com a necessidade e a procura da salvação pessoal, com o aparecimento das religiões universais e uma mudança na concepção do divino, com três orientações fundamentais:
o monismo
¹,
o monoteísmo,
a exigência crítica racional na sua representação.
É dessas correntes que ainda hoje vivemos. Estas bases foram estabelecidas por pensadores individuais dentro de um quadro de um ambiente de mudança social.
As mudanças incluem a ascensão do platonismo, que mais tarde se tornaria uma grande influência sobre o mundo ocidental, tanto através do cristianismo e do pensamento secular ao longo da Idade Média e no Renascimento.
O Budismo, também da tradição da Índia, foi outra das filosofias mais influentes do mundo, fundada por Sidarta Gautama, ou Buda, que viveu durante este período.
Na China, o confucionismo surgiu durante esta época, onde permanece sendo uma profunda influência sobre a vida social e religiosa.
O Zoroastrismo é crucial para o desenvolvimento do monoteísmo, que na verdade surge com a unificação de Ciro, o Grande da Pérsia.
Jaspers também incluiu os autores dos Upanishads, Lao Tzu, Homero, Sócrates, Parmênides, Heráclito, Tucídides, Arquimedes, Elias, Isaías, Jeremias como figuras dessa era.
Sócrates, Confúcio e Sidarta Gautama foram especialmente elevados.
Além de Jaspers, o filósofo Eric Voegelin se referiu a esta idade, como O Grande Salto do Ser, constituindo um novo despertar espiritual e uma mudança de percepção da sociedade para os valores individuais.
Características da Era do Eixo:
deu à luz a filosofia como uma disciplina.
uma pausa para a liberdade,
✓ uma respiração profunda trazendo a consciência mais lúcida.
A historiadora religiosa Karen Armstrong explora o período de grandes transformações e formação de teorias como foco de suas conferências acadêmicas, argumenta que o Iluminismo foi uma "Segunda Era do Eixo", incluindo pensadores como Isaac Newton, Sigmund Freud e Albert Einstein, e que a religião hoje precisa voltar para as ideias transformadoras do eixo.

¹ Monismo = Sistema que pretende reduzir o Universo a um único domínio, o da substância cujos atributos inseparáveis são a matéria e a energia.
Na linguagem informal, significa ter uma visão única e definí-la como completa para alguma coisa.

10 de setembro de 2019

Virtude

Lorenzo Lotto
Doce dia, tão fresco, tão calmo, tão luminoso,
O conúbio entre a terra e o céu;
O orvalho pranteará nesta noite o teu declínio,
Pois haverás de morrer.

Doce rosa, cujo colorido austero e elegante
Traz lágrimas aos olhos do admirador passageiro:
A tua raiz permanecerá na terra,
Mas tu haverás de morrer.

Doce primavera, cheia de dias suaves e de rosas,
Um repertório de doçuras condensadas;
Meu canto mostra que terás o teu final,
E tudo haverá de morrer.

Somente uma alma doce e virtuosa,
Qual madeira sazonada, perdura sempre;
Enquanto o mundo todo se converte em carvão,
Ela sobrevive plenamente.

George Herbert (1593-1633)
Tradução: Angela Gasperin