30 de junho de 2019

Rubáiyát (extrato)

Photographer Dustin LeFevre
Noite, silêncio, folhas imóveis;
imóvel o meu pensamento.
Onde estás, tu que me ofereceste a taça?
Hoje caiu a primeira pétala.

Eu sei, uma rosa não murcha
perto de quem tu agora sacias a sede;
mas sentes a falta do prazer que eu soube te dar,
e que te fez desfalecer.

Acorda... e olha como o sol em seu regresso
vai apagando as estrelas do campo da noite;
do mesmo modo ele vai desvanecer
as grandes luzes da soberba torre do Sultão.

- Omar Khayyám – (1048-1131)
Tradução: Alfredo Braga

28 de junho de 2019

Fábula de um arquiteto

Tytus Brzozowski
A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.
2.
Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até refechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

26 de junho de 2019

Aluviões

Cindy Thornton
Findou o poente nas paredes.
Breves e desconhecidos
os pássaros
assomam ao repouso dos telhados.
As últimas enxadas levantam
pela penumbra dos aroeiros
a maresia musgosa dos terrenos.
Nos quelhos com rebanhos
voltam os tratores.
Arvoredo rasteiro, cila marítima,
marcos geodésicos, a despedida,
a devastação.

Joaquim Manuel Magalhães

24 de junho de 2019

A festa de São João

Papas Stéfanos
No casarão antigo da Fazenda,
tudo é jogos, brinquedos e festança:
na varanda do lado jogam prenda
e no salão o baile não descansa;

A fogueira, tão célebre na lenda,
estala em labaredas. Canta e dança,
o povo do batuque, na contenda,
aos pulos e aos requebros da folgança.

No cururu manhoso a caboclada,
rasca nas violas, canta ao desafio,
provocando constante gargalhada,

Depois, das diversões cortando o fio,
o povo em procissão, de madrugada,
vai lavar o São João, além, no rio.

Cornélio Pires (1884-1958)

22 de junho de 2019

Na Terra dos Brucutus

Rugendas – Guerrilha

Na Terra dos Brucutus
quem tiver tacape é rei;
para quem anda de tanga
a força bruta é a lei.

Na Terra dos Brucutus
os jornais não dizem nada
que o Rei-Brucutu não queira;
e o Conselho dos Pajés
não passa de brincadeira,
jogo sutil de palavras
que logo depois de impressas
nas folhas de bananeira
se tornam murchas, vazias.

Na Terra dos Brucutus
os nativos não conhecem
as coisas boas da vida
e cumprem suas tarefas
com a alma ressentida.
Os feiticeiros da tribo
prometem anos melhores
e contam a velha história
do povo Pele-Vermelha
que morreu a chumbo e fome
e hoje, com outro nome,
se vê coberto de glória.

Às vezes, no meio da taba
confirmando a mesma lenda,
surge um guerreiro estrangeiro,
falando língua de gente;
mora na praia Vermelha,
envolto em grande mistério
e dizem que o ministério
encarregado da guerra
nada resolve sem ele

Na Terra dos Brucutus
ninguém se quer responsável
pela miséria da tribo;
acreditam na banana
como fator ponderável
no balanço das rações
e citam mesmo nações
que atravessaram o tempo
comendo apenas arroz.
A banana é tão saudável
– dizem os sábios da taba –
que tribo Pele-Vermelha
concede sua amizade
aos reis que fazem seu povo
plantar bananeira.

Na Terra dos Brucutus
o trabalho é planejado
por um nativo instruído
que passa os dias fechado
em sua babanoteca,
procurando a diferença
entre o ter e o não ter.
É um homem respeitado,
mais de um que de outro lado
do Grande Rio.
Às vezes sai de piroga
e se alguém o interroga
sobre as razões da viagem,
responde laconicamente:
A Balança Orçamentária.
Volta sempre com novo empréstimo
de ossos, conchas e contas.
Contas que são colares
para dobrar o pescoço
de tão pesados e caros.

Na Terra dos Brucutus
são assim todas as coisas,
de rara cosmogonia.
São quase pornografia,
de tão cínicas, fechadas,
girando sobre si mesmas.
Um reino tão desolado,
que a juventude da tribo
resolveu cruzar o rio
e esperar do outro lado
que o Rei e seus Pajés
morram empanturrados
de bananas e decretos.

Eduardo Alves da Costa

19 de junho de 2019

Trilha da saudade

Leopoldo Gotuzzo
Gotinha meiga e mansa
acaricia meu rosto,
descendo suave
a trilha da saudade.

Lá fora as rosas rosas
E os hibiscos dourados
saúdam o outono.

Negro curió entre os poleiros
saltita de júbilo e gorjeia,
mesmo nos confins
das grades da vida.

Só eu,
do outro lado das coisas,
choro.

Tornei-me o poro por onde passa,
no vazio de uma lágrima,
o peso de tua falta.

Sonia Carneiro Leão

17 de junho de 2019

Saudade

Winslow Homer
Posto que nem é de bom-tom falar
sobre a tristeza insossa
cujo vaivém, quando se apossa
de mim, me embala como o som

sem fim das ondas do Leblon,
dispondo-me a curtir a fossa
a sós, pus na vitrola a bossa
nova de João, Vinícius, Tom,

menos pra ouvir o que ela tem,
porque talvez já nem me agrade
a ausência tanto faz de quem,

do que pra que, pouco à vontade,
meu coração se encha, se bem
que sob protesto, de saudade.

Nelson Ascher

15 de junho de 2019

História de vampiros

Edvard Münch
Era um vampiro que tomava água
pelas noites e pelas madrugadas
ao meio-dia e no jantar

era abstêmio de sangue
e por isso a vergonha
dos outros vampiros
e das vamps

contra vento e maré se propôs
fundar uma bandada
de vampiros anônimos

fez campanha sob a minguante
sob a cheia e a crescente
seus modestos cartazes proclamavam
vampiros bebam água
o sangue dá câncer

é claro que os quirópteros
reunidos em sua ágora de sombras
opinaram que isso era inaudito

aquele louco aquele alucinado
podia convencer os vampiros fracos
esses que tomam boldo após o sangue

de maneira que uma noite
com nuvens de granizo
cinco vampiros fortes
sedentos de hemácias plaquetas leucócitos
cercaram o adoidado o insurrecto
e acabaram com ele e sua imprudência
quando por fim a lua
pôde aparecer viu lá embaixo
o pobre corpo do vampiro anônimo
com cinco feridas que manavam
formando uma grande poça d’água

o que não pôde ver a lua
foi que os cinco executores
se refugiavam numa árvore
e a contragosto reconheciam
que o gosto não era ruim

dessa noite histórica em diante
nem os vampiros nem as vamps
chupam mais sangue resolveram
por unanimidade beber água

como costuma acontecer nesses casos
o singular vampiro anônimo
é venerado como um mártir.

Mario Benedetti (1920-2009)
Tradução: Julio Luís Gehlen

13 de junho de 2019

Soneto XLVIII

Daniel F Gerhartz
Já por bárbaros climas entranhado,
Já por mares inóspitos vagante,
Vítima triste da fortuna errante,
dos mais desprezíveis desprezado:

Da fagueira esperança abandonado,
Lassas as forças, pálido o semblante,
Sinto rasgar meu peito a cada instante
A mágoa de morrer expatriado.

Mas, ah! Quem bem maior, se contra a sorte
Lá do sepulcro no sagrado hospício
Refúgio me promete a amiga Morte!

Vem, pois, ó nume aos míseros propício,
Vem livrar-me da mão pesada e forte,
Que de rastos me leva ao precipício!


Manuel Maria Barbosa Du Bocage (1765-1805)

11 de junho de 2019

Poema 79: O Amor

Pierre-Auguste Renoir
Muitos, querendo dizer o que é o Amor,
preferiram muitas palavras, mas não puderam
dizer dele o que realmente parecesse
nem definir qual fosse seu valor.
Houve até quem dissesse que era ardor
da mente imaginado pelo pensamento;
e alguém disse que era desejo
de querer nascido por prazer do coração.
Eu afirmo que Amor não é substância
nem coisa corporal que tenha imagem,
mas é paixão em desejo,
prazer de forma dado pela natureza,
de tal modo que o querer do coração tudo excede:
e isso basta até que o prazer dure.

Dante Alighieri (1265-1321),
Tradução: Carlos E. Zampognaro

9 de junho de 2019

POR MIM?

Edvard Munch
Teus negros olhos uma vez fitando
Senti que luz mais branda os acendia,
Pálida de langor, eu vi, te olhando,
Mulher do meu amor, meu serafim,
Esse amor que em teus olhos refletia...
Talvez! – era por mim?

Pendeste, suspirando, a face pura,
Morreu nos lábios teus um ai perdido...
Tão ébrio de paixão e de ventura!
Mulher de meu amor, meu serafim,
Por quem era o suspiro amortecido?
Suspiravas por mim?

Mas...eu sei!...ai de mim? Eu vi na dança
Um olhar que em teus olhos se fitava...
Ouvi outro suspiro... d’ esperança!
Mulher do meu amor, meu serafim,
Teu olhar, teu suspiro que matava...
Oh! não eram por mim.

Alvares de Azevedo (1831-1852)

8 de junho de 2019

Poema Noturno

James Allen lagasse
Não há nada a temer,
É apenas o vento
Movendo para o leste, é apenas
Teu pai o trovão
Tua mãe a chuva

Neste país aquático
Com sua lua parda e úmida feito cogumelo,
Seus tocos submersos e enormes aves
Que nadam, aonde o musgo cresce
Por todos os lados das árvores
E tua sombra não é tua sombra,
Mas teu reflexo,

Teus verdadeiros pais desaparecem
Quando as cortinas cobrem tua porta.
Nós somos os outros,
Os do fundo do lago
Silentes estamos ao pé de tua cama,
Com nossas cabeças de escuridão.
Viemos para cobrir-te
Com lã vermelha,
Com nossas lágrimas e sussurros distantes.

Tu balanças nos braços da chuva
A fria arca do teu sono,
Enquanto esperamos, teus noturnos
Pai e mãe
Com nossas mãos frias e lanternas mortas,
Sabendo que somos somente
As oscilantes sombras lançadas
Por uma vela, neste eco
Que ouvirás vinte anos mais tarde.

Margaret Atwood
Tradução: Lidia Rogatto

7 de junho de 2019

MEDO DA VIDA

Rembrandt
Dia de pedra
sol de pedra
silêncio de pedra

Morreram os cavalos na montanha
morreram as árvores na cal
tu não morreste

O som de seus cascos ao longe
o som do velho ofego
dentro do meio-dia marmóreo

E o medo de que talvez não tenhas morrido
e o medo da água que irá correr
o medo, a água, a respiração — vida.

Yiannis Ritsos (1909-1990)
Tradução: José Paulo Paes

5 de junho de 2019

Soneto 29

Peter Paul Rubens
Quando em desgraça aos olhos dos humanos,
Sozinho choro o meu maldito estado,
e ao surdo céu gritando vou meus danos,
e a mim me vejo e amaldiçoo o Fado,

Sonhando-me outro, rico de esperanças,
com a imagem dele , como ele tão respeitado,
invejo as artes de um, d’outro as usanças,
do que mais gosto menos sou tentado.

Mas se ao pensar assim, quase me odiando,
acaso penso em ti, logo meu estado,
como ave, às portas celestiais cantando,
se ergue da terra, quando o sol é nado.

Pois que lembrar-te, amor, tem tal valia,
que nem com grandes Reis me trocaria.

William Shakespeare (1564-1616)
Tradução: Jorge de Sena

4 de junho de 2019

O estudo de Amor

Hendrick Goltzius
Nasceste, Marcia formosa,
Nasceste só para amar;
Não queiras em tanto estudo
Rápida vida passar.

As doces horas do sono
Não queiras diminuir;
De nada presta a ciência,
Se não ensina a sentir.

Encaneceram os homens
Sem nada poder saber
São nada as artes, mais vale
Um dia só de prazer.

A rosa vive um momento,
E os nossos olhos encanta
Que nos importa esse cedro
Que altivo aos céus se levanta?

Agrada a pomba inocente
Que não se eleva no ar:
Deixa que as águias soberbas
Os astros vão devassar.

Do teu Pastor as endeixas
Traze contínuo na mão;
Que ao lado de uma beleza
Nunca achei graça a Platão.

Para uma eterna memória
Profundo estudo que vale?
Nos versos que tu me inspiras
Já tens um nome imortal.
José Agostinho de Macedo (1761-1831)

3 de junho de 2019

Amor e Medo

Edouard Manet
Quando eu te fujo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, oh! bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
— Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!

Como te enganas! meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo, é que te adoro louco…
És bela,— eu moço; tens amor,— eu medo!…

Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes.
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.

O véu da noite me atormenta em dores,
A luz da aurora me entumece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes
Eu me estremeço de cruéis receios.

É que esse vento, que na várzea — ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!

Ai! se abrazado crepitasse o cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia,
Diz: — que seria da plantinha humilde
Que à sombra dele tão feliz crescia?

A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho,
E a pobre nunca reviver pudera
Chovesse embora paternal orvalho!
II
Ai! se eu te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas!…

Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos — palpitante o seio.

Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trémula a fala a protestar baixinho…
Vermelha a boca, soluçando um beijo!…

Diz: — que seria da pureza de anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
— Tu te queimaras, a pisar descalça,
— Criança louca, — sobre um chão de brasas!

No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!

Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço
Anjo enlodado nos paúis da terra.

Depois… desperta no febril delírio,
— Olhos pisados — como um vão lamento,
Tu perguntaras: — que é da minha coroa?…
Eu te diria: — Desfolhou-a o vento !…

Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo, é que te adoro e muito,
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo!…


Casimiro de Abreu (1839-1860)

1 de junho de 2019

O ódio

Aurelio Bulzatti - Os Emigrantes
Reparem como é eficiente,
e como se conserva bem
o ódio no nosso século.
Na leveza com que encara as maiores dificuldades.
No fácil que lhe é saltar, precipitar-se.
Não é como os outros sentimentos.
Mais velho e mais novo do que eles, ao mesmo tempo.
A dar ele próprio à luz as razões
que o acordam para a vida.
E se adormece, nunca é num sono eterno.
A insónia não lhe rouba as forças, antes lhas acrescenta.
Religião ou não —
contanto ajoelhe para o arranque.
Pátria ou não pátria —
contanto se atire correndo para a frente.
De início é bom e é justiça.
Depois seu próprio impulso lhe basta.
Ódio. O ódio.
De face arrepanhada num esgar de êxtase amoroso.
Pobres dos outros sentimentos —
frouxos e enfermiços.
Desde quando pode uma confraria destas contar com multidões?
Já alguma vez a piedade cortou a meta em primeiro?
Quantos voluntários leva atrás de si a dúvida?
Leva-se só a si mesma, ela que sabe das suas.
Wislawa Szymborska (1923-2012)
Tradução: Júlio Sousa Gomes