29 de abril de 2019

Dialética

Ruth Palmer
As ideias cresceram demais
e as palavras começaram a crescer
pra alcançar as ideias

A vida cresceu demais
e as ideias começaram a crescer
pra alcançar a vida

Isso foi no começo
do meio pro fim
e do fim pro começo

Antes de o homem compreender
que ele também precisava crescer
mais do que as palavras
bem mais do que as ideias.

Guilherme de Campos

27 de abril de 2019

Balada das duas mocinhas de Botafogo

Théodore Chassériau
Eram duas menininhas
Filhas de boa família:
Uma chamada Marina
A outra chamada Marília.
Os dezoito da primeira
Eram brejeiros e finos
Os vinte da irmã cabiam
Numa mulher pequenina.
Sem terem nada de feias
Não chegavam a ser bonitas
Mas eram meninas-moças
De pele fresca e macia.
O nome ilustre que tinham
De um pai desaparecido
Nelas deixara a evidência
De tempos mais bem vividos.
A mãe pertencia à classe
Das largadas de marido:
Seus oito lustros de vida
Davam impressão de mais cinco.
Sofria muito de asma
E da desgraça das filhas
Que, posto boas meninas
Eram tão desprotegidas
E por total abandono
Davam mais do que galinhas.
Casa de porta e janela
Era a sua moradia
E dentro da casa, aquela
Mãe pobre, e melancolia…
Quando à noite as menininhas
Se aprontavam pra sair
A loba materna uivava
Suas torpes profecias.
De fato, deve ser triste
Ter duas filhas assim
Que nada tendo a ofertar
Em troca de uma saída
Dão tudo o que têm aos homens:
A mão, o sexo, o ouvido
E até mesmo, quando instadas
Outras flores do organismo.
Foi assim que se espalhou
A fama das menininhas
Através do que esse disse
E do que aquele diria.
Quando a um grupo de rapazes
A noite não era madrinha
E a caça de mulher grátis
Resultava-lhes maninha
Um deles qualquer lembrava
De Marília e de Marina
E um telefone soava
De um constante toque cínico
No útero de uma mãe
E suas duas filhinhas.
Oh, vida torva e mesquinha
A de Marília e Marina
Vida de porta e janela
Sem amor e sem comida
Vida de arroz requentado
E média com pão dormido
Vida de sola furada
E cotovelo puído
Com seios moços no corpo
E na mente sonhos idos!
Marília perdera o seu
Nos dedos de um caixeirinho
Que o que dava em Coca-Cola
Cobrava em rude carinho.
Com quatorze apenas feitos
Marina não era mais virgem
Abrira os prados do ventre
A um treinador pervertido.
Embora as lutas do sexo
Não deixem marcas visíveis
Tirante as flores lilases
Do sadismo e da sevícia
Às vezes deixam no amplexo
Uma grande náusea íntima
E transformam o que é de gosto
Num desgosto incoercível.
E era esse bem o caso
De Marina e de Marília
Quando sozinhas em casa
Não tinham com quem sair.
Ficavam olhando paradas
As paredes carcomidas
Mascando bolas de chicles
Bebendo água de moringa.
Que abismos de desconsolo
Ante seus olhos se abriam
Ao ouvirem a asma materna
Silvar no quarto vizinho!
Os monstros da solidão
Uivavam no seu vazio
E elas então se abraçavam
Se beijavam e se mordiam
Imitando coisas vistas
Coisas vistas e vividas
E enchendo as frondes da noite
De pipilares tardios.
Ah, se o sêmen de um minuto
Fecundasse as menininhas
E nelas crescessem ventres
Mais do que a tristeza íntima!
Talvez de novo o mistério
Morasse em seus olhos findos
E nos seus lábios inconhos
Enflorescessem sorrisos.
Talvez a face dos homens
Se fizesse, de maligna
Na doce máscara pensa
Do seu sonho de meninas!
Mas tal não fosse o destino
De Marília e de Marina.
Um dia, que a noite trouxe
Coberto de cinzas frias
Como sempre acontecia
Quando se achavam sozinhas
No velho sofá da sala
Brincaram-se as menininhas.
Depois se olharam nos olhos
Nos seus pobres olhos findos
Marina apagou a luz
Deram-se as mãos, foram indo
Pela rua transversal
Cheia de negros baldios.
Às vezes pela calçada
Brincavam de amarelinha
Como faziam no tempo
Da casa dos tempos idos.
Diante do cemitério
Já nada mais se diziam.
Vinha um bonde a nove-pontos.
Marina puxou Marília
E diante do semovente
Crescendo em luzes aflitas
Num desesperado abraço
Postaram-se as menininhas.
Foi um só grito e o ruído
Da freada sobre os trilhos
E por toda a parte o sangue
De Marília e de Marina.

Vinícius de Moraes (1913-1980)

25 de abril de 2019

Que somos nós

Galya Bukova
Que somos nós senão o que fazemos?
Que somos nós senão o breve traço
da vida que deixamos passo a passo
e é já sombra de sombra onde morremos?

Que somos nós se não permanecemos
no por nós transformado neste espaço?
Que serei eu senão só o que faço
e é tão pouco no tempo em que não temos

para viver senão o tempo de
transformar neste tempo e neste espaço
a vida em que não somos mais do que

o sol do que fazemos. Porque o mais
é sombra de sombra e o breve traço
de quem passamos para nunca mais.

Manuel Alegre

23 de abril de 2019

A Mente Indecisa

Hans Dahl
Às vezes o rio
torna-se um rio na mente
ou da mente
ou na e da mente.

Suas margens nevam
a maré, caindo uma escura
borda estendida entre
a água e a praia.

E a mente indecisa
mirando o curso
sente
uma semelhança que

há de colher – uma complexa
imagem: qualquer coisa
de sobrancelhas brancas
atadas por uma fita

de um pensamento imerso
além, sim, bem além
dos traços móveis
de ligeiras

águas fluentes, antes
que a maré
mude
e erga-se novamente, talvez.

William Carlos Williams (1883-1963)
Tradução: José Lino Grunewald

21 de abril de 2019

Salmo 139

Giovanni di Paolo: Five dancing angels
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe tu escrutas as menores intenções,
reconheces a minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.

Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estas em frente do meu rosto, estas atrás das minhas costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
— Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.
Como fugir à tua Face, como evitar teu Espirito?
Acho-te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das aguas,
agarra-me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.
Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho-me ao pensar no enigma criado.
De há muito já́ decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer-se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.

Herberto Helder (1930-2015)

19 de abril de 2019

Incêndio

Giovanni Battista Piazzetta
Convoco o cheiro, a polpa sensitiva
Dos dedos curiosos e da boca,
Convoco a cor dos olhos, e os cabelos,
E o lume que neles há, e a voz rouca.
Convoco o grito, o espanto e o temor,
O corpo recurvado, a violência,
O suor que arrefece — e o sorriso
Que te cobre de paz e inocência.
Reúno estas memórias. No meu sangue
As infundo e converto como brasas,
E ardo, violento: assim, ao vento,
Ardem de lés a lés searas rasas.

José Saramago (1922-2010)

17 de abril de 2019

Fragmento do grego, de Simônides

Jean Auguste Dominique Ingres
Todo o mundano evento
De Jove está nas mãos, de Jove, ó filho,
Que, por seu próprio intento,
Tudo traz já contado.
Mas de um lugar passado
Nosso cego pensar se alegra e apura,
Se bem que o humano rito,
Como prepara o céu nossa ventura,
De dia em dia dura.
Nutre a nós todos a bela esperança
De semblante bendito
Onde cada um se cansa:
Um busca a aurora mansa,
Um outro a idosa meta;
E nada em terra segue
Que nos anos a vir extraordinários
Com Pluto e os deuses vários
A mente não prometa.
Eis que antes que a esperança ao porto chegue
Um traz de velho a face
Outro por doença o turvo Letes traga;
Este o ríspido Marte, aquele a vaga
Do pélago arrebata,- outro desfaz-se
De árduos cuidados, o outro, um nó atando
Ao pescoço, dentro do chão se encerra.
Assim de muitos ais
Aos míseros mortais
Bando vário e feroz dissolve e aterra.
Antes certo eu diria
Que um sábio, livre do vulgar error,
Sofrer não quereria
Nem poria na dor
E no seu próprio mal tamanho amor.

Giacomo Leopardi (1798-1837)
Tradução: Alexei Bueno

15 de abril de 2019

Metafísica

Tom Wesselmann
A sós contigo, em qualquer parte
nem meu nem teu só nosso o mundo,
aceso coração da vida!
Fiando um tempo indiferente
ao que fomos e seremos
fogo de desejo a tua face
trémula de querer-te a minha voz…

Ou febre ou calma dum presente
em que os beijos não acabam
e as carícias reverdecem
em sucessivas primaveras!
Espuma de taça sempre cheia
num extinguir-se inextinguível,
sede infinita, lava ao rubro,
em que morremos renascendo!

Adolfo Casais Monteiro (1908-1972)

13 de abril de 2019

As Metamorfoses do Macaco

Otto Dix
Jacó, flor das raças monas
E aluno de um piemontês,
Fazia entre mil gaifonas
Coisas que o demo não fez.

Quanto via, arremedava
Por modo tão natural,
Que o piemontês lhe chamava
Daguerreótipo animal.

Se falasse assombraria;
Porém, mesmo sem falar,
Em toda a macacaria
Era um bichinho sem par.

Um dia em certa barraca
De uma feira, onde brilhou,
Com arte mais que velhaca,
Lustroso espelho empalmou.

Viu-se; pasmou. «Que diabo!
Pois eu tenho a cara assim?!
Ó bruxas, de mim dai cabo,
Ou condoei-vos de mim!

Machuchas mestras de tretas,
Se cabe em vós pio dó,
Deixai-me o dom das caretas,
No mais transformai Jacó.»

Bruxinha de génio gaio
Despachou-lhe a petição.
Eis, o mono, papagaio!
Eis nova consumição!

«O meu falar é mui rico!
Quanto às penas, guapo estou!
Mas este bico!… este bico!
Quem tal ratice inventou?!

Bruxa honrada! eu to aconselho,
Vá nova transformação.»
Diz: torna a encarar o espelho…
Vê-se estrelado pavão!

Espaneja-se garboso!
Ama-se; está como um dez.
Senão quando… ai, desditoso!
Repara… que horrendos pés!

Novo rogo impertinente:
«Por esta vez, e não mais»,
Diz a velha impaciente,
«Quero ceder aos teus ais.

Do que tu mesmo aprovaste
Nas três formas que te dei,
Para teu consolo baste,
Que esta final te armarei;

Terás as visagens ricas,
O papagaial palrar;
Do pavão as galas ricas…
Pegar no espelho! mirar!»

Mira-se, exulta. Só nota
Perfeições no todo seu.
Hoje chamam-lhe «janota»,
Bicho incógnito a Lineu.

António Feliciano de Castilho (1800 -1875)

11 de abril de 2019

A Canção do Tédio

Marc Chagall
Anda uma estrela pelo céu,
sozinha, arrastando um véu
de viúva.
- É a chuva.

Rola um soluço leve no ar,
bem longo no seu rolar,
bem lento.
- É o vento.

Perpassa o passo oco de algum
fantasma, quieto como um
segredo.
- É o medo.

Batem à porta. Abro. Quem é?
Uma alta sombra, de pé,
se eleva.
- É a treva.

Mas, desde então, alguém está
comigo. É inútil. Não há
remédio.
- É o tédio.

Guilherme de Almeida (1860-1969)

9 de abril de 2019

Oração à Alma

Max Ernst
É tempo, ó minha alma, é mais que tempo, se quiseres conhecer-te
a ti própria, o teu ser e o teu destino.
Donde vens, e onde precisas repousar.
Se a vida é o que nós vivemos, ou se esperamos melhor.
Põe-te ao trabalho, ó minha alma, é preciso purificar a tua vida.
Busca a Deus e os seus mistérios:
O que houve antes do mundo, o que representa para ti o mundo
Donde vem e qual é o seu destino.
Põe-te ao trabalho, ó minha alma, é preciso purificar a tua vida.
Porque aqui é o movimento e no além o repouso.
Porque nós somos levados pela corrente da vida.
Põe-te ao trabalho, ó minha alma, olha apenas a Deus.
O que foi o meu orgulho, hoje é a minha vergonha.
Qual a minha ligação à vida, e qual é o seu final?
Ilumina o meu espírito, dissipa todos os erros,
Põe-te ao trabalho, ó minha alma, e não sucumbas à dor.

Gregório de Naziano (329-389)
Tradução: Armando Silva Carvalho

7 de abril de 2019

Soneto de Arvers

Frank Bramley - Delicious Solitude
Tenho na alma um segredo e um mistério na vida:
um amor que nasceu, eterno, num momento.
É sem remédio a dor; trago-a pois escondida,
e aquela que a causou nem sabe o meu tormento.

Por ela hei de passar, sombra inapercebida,
sempre a seu lado, mas num triste isolamento,
e chegarei ao fim da existência esquecida
sem nada ousar pedir e sem um só lamento.

E ela, que entanto Deus fez terna e complacente,
há de, por seu caminho, ir surda e indiferente
ao murmúrio de amor que sempre a seguirá.

A um austero dever piedosamente presa,
ela dirá lendo estes versos, com certeza:
“Que mulher será esta? ” e não compreenderá.

Alexis-Félix Arvers (1806-1850)
Tradução: Guilherme de Almeida

5 de abril de 2019

Na roça

Eliseu Visconti
Cercada de mestiças, no terreiro,
Cisma a Senhora Moça; vem descendo
A noite, e pouca a pouco escurecendo
O vale umbroso e o monte sobranceiro.

Brilham insetos no capim rasteiro,
Vêm das matas os negros recolhendo;
Na longa estrada ecoa esmorecendo
O monótono canto do tropeiro.

Atrás das grandes, pardas borboletas,
Crianças nuas lá se vão inquietas
Na varanda correndo ladrilhada.

Desponta a lua; o sabiá gorjeia;
Enquanto às portas do curral ondeia
A mugidora fila da boiada.

Gonçalves Crespo (1846-1883)

3 de abril de 2019

O Fuzilado

Kuzma Petrov-Vodkin
As flores, os jardins, os repuxos, os risos,
e a doçura da vida.
Jaz um homem no chão e banha com seu sangue
as lembranças, as flores, repuxos e jardins
e sonhos infantis.
Jaz um homem no chão, qual embrulho sangrento,
e flores e jardins, repuxos e lembranças
e doçura da vida.
Jaz um homem no chão, criança adormecida.

Jacques Prévert (1900-1977)
Tradução: Carlos Drummond de Andrade

1 de abril de 2019

Quadro rural

Bustamante Sá
Longe no interior sente-se o drama silencioso do homem.
O horizonte traça os limites do seu mundo.
O espaço físico se estira ante os seus olhos cansados.
As distâncias o abatem.

Passam os tempos lentos...
A fisionomia rural continua a mesma com terras de baixo rendimento.
A saúva tomou conta das lavouras.
Populações resignadas se acomodam num plano do deixa-estar.

Paisagem deprimida
com uma linha de mato mutilada a machado.
João Candango subnutrido e apático senta-se à porta do rancho.
Pesa o silêncio entre os tições apagados.

A estrada se desenrola entre morros acocorados.
Sobem cargueiros lentos pelos aclives da serra.

Aparece lá embaixo um povoado desanimado
com uma cruz de madeira negra na estrada
para espantar o diabo.

Pasta na rua um cavalo coxo.

O vento varre as ladeiras
com os seus velhos muros descascados.
Mulher de sexo solto
foi morar na rua de trás.

Raul Bopp (1898-1984)