30 de março de 2019

Humanidade

Patricia Ariel
Depois de conhecer a humanidade
suas perversidades
suas ambições
Eu fui envelhecendo
E perdendo
as ilusões
o que predomina é a
maldade
porque a bondade:
Ninguém pratica
Humanidade ambiciosa
E gananciosa
Que quer ficar rica!
Quando eu morrer…
Não quero renascer
é horrível, suportar a humanidade
Que tem aparência nobre
Que encobre
As péssimas qualidades.

Notei que o ente humano
É perverso, é tirano
Egoísta interesseiros
Mas trata com cortesia
Mas tudo é hipocrisia
São rudes, e trapaceiros.

Carolina Maria de Jesus (1914-1977)

27 de março de 2019

Que insônia

James H. Crank
Como faz frio neste quarto agora!
A chuva bate em cheio na vidraça
E o relógio da igreja, de hora em hora,
Soa. Há passos na rua… E a ronda passa…

Não consigo dormir. Como demora
Essa vigília que me torna lassa!
Se abro um livro, não leio. E lá fora
Chove. Há passos na rua… E a ronda passa…

Dormes? Não creio. Eu sei que estás velando,
Porque eu pressinto que, de quando em quando,
Vem o teu corpo fluídico e me enlaça.

O relógio da igreja está batendo.
São quatro horas. Que insônia! Está chovendo.
Ouço passos na rua… E a ronda passa.

Coryna Ferreira Rebuá

25 de março de 2019

ÚLTIMO DIA DE UM ANO QUALQUER

Edward de Gale
Eis a chuva do último dia.
Levados são todos os outros
neste ar de chuva,
mais que o sol, dissipador de imagens.
Mas quem é que tange as cordas de um instrumento
delicadamente desafinado,
sobressaltando objetos sobre a mesa
e a madeira polida?
Há uma nota imprevista: leve pisar de outrora.

A chuva cessa. O ano findou
com seu vestido sóbrio, quase elegante.

Dora Ferreira da Silva (1918-2006)

23 de março de 2019

Viver sempre também cansa

Picasso - Blue Nude
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.

Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exato.
Ainda por cima os homens são os homens.

Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida…

E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima de um divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.

Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…

José Gomes Ferreira (1900-1985)

21 de março de 2019

Vida num amor

Tarsila do Amaral
Escapares de mim?
Nunca —
Meu amor!
Enquanto eu seja eu e essa alma for tua,
Enquanto o mundo, aos dois, nos contiver —
Eu te querendo e tu sem nada quereres —
Se há um que hesita, o outro continua.
Temo ser minha vida algum erro, por fim —
Antes parece uma fatalidade!
Quase nada consigo, na verdade —
Mas que fazer, se não atinjo o fim?
Há que manter os nervos em tensão,
Os olhos enxugar em cada ruína,
Se malogrado, erguer-me em repelão —
Assim, na caça, a presa se elimina.
No entanto, olha uma vez dessa distância,
Para mim, tão no fundo, em poeira e negrume;
Mal cai por terra uma velha esperança,
Renascido, visando o mesmo lume,
Tomo feitio —
Sempre
Transmudado.

Elizabeth Barrett Browning (1806-1861)
Tradução: A. Herculano de Carvalho

19 de março de 2019

Jornal de domingo

Heinrich Maria Davringhausen
Domingo é o espaço
onde todos cabem
sem lhes ser preciso
fazer vénia ao sol

Acontece então
um homem sentir
a água escorrer
dentro do pescoço
e fazer-lhe um nó
como de gravata

que lhe vai bem
nesse fato inútil
vestido à pressa
para ler o jornal
para matar a fêmea
que o recusou

e se lhe afeiçoa
o fato depois da vingança
e o faz igual
a alguém que dança

Aranha ao de leve
arranha no corpo
e o homem não lê
porque está esquecido
— a pensar em quê?

— Mais um domingo —
é o que dirá
se não o matarem
por qualquer razão
mil punhais salobros
saídos do chão

se voltar a casa
é o que dirá

Na casa não há domingo
há um fio de amor partido
que sangra pingo por pingo.

Luiza Neto Jorge (1939-1989)

17 de março de 2019

Expectação

James Holland
Devolvo à tarde triste a luz que me entristece,
E vou entristecendo
O largo,
O rio,
O campo
E, mais além, a linha do horizonte.
Mas repreendo os olhos e regresso
À página vazia
Onde, possesso,
Aguardo que desponte
A luz de um novo dia.

Um dia alegre,
Limpo,
Singular,
De nenhuma semana,
De nenhum mês,
De nenhum ano,
Miraculosamente amanhecido
Nas sílabas de um verso enfeitiçado,
A ressoar, medido e desmedido,
Na concha do ouvido
Deslumbrado.

Miguel Torga (1907-1995)

15 de março de 2019

Retratos de Família

Mário Botas
Olha
aqui a avó!
Com o avô
Ao lado a tia o tio a outra
tia
E a mãe a minha

Morreram todos já

Seguro na mão
esse raminho
de rosas-chá

Cheiro-as:
a cada u

o seu perfume

Apenas isso são
agora
na lembrança

Teresa Rita Lopes

13 de março de 2019

É Tarde

Carl Larsson
Futuro, passei a idade
De passar a novo rumo:
Preso nesta sociedade
Me consumo.

Ainda me restam restos
De poesia e de coragem?
Não servem pra manifestos
Nem mensagens.

Irão na próxima leva,
Quando o pão for raro e ralo.
Depois, na fome da treva,
Tremo e calo.

Futuro, que queres de mim?
Fechei pra demolição
Escrevo fé, leio fim.
E tu não.

António Manuel Couto Viana (1923-2010)

11 de março de 2019

Infância

Paula Rego
Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
esse rumor
de lume:
o teu perfume,
lenha
da melancolia.

Carlos de Oliveira (1921-1981)

9 de março de 2019

Crepúsculo

Pablo Picasso
Por que esta ânsia de sobreviver
assim se amoita no âmago de mim
sempre que as lerdas pálpebras da noite
baixam nas altas ramas com os morcegos?
Por que o poente assim me abala o eixo
e de fúnebre pompa alma me embrulha
tal qual mortalha um pouco prematura?
Por que me pesa suportar as trevas
que o implacável fim do dia instaura
quando já estagiei em precipícios
saltando trampolins perto de abismos?
Por que morrer me assusta e paralisa
se o que temo perder, de longe sei
nada tem de eldorado ou paraíso?

Astrid Cabral

7 de março de 2019

Lição

Childe Hassan
Sai desse livro, meu filho, e dá um pulo cá fora:
olha esta rua
onde boiada não passa
nem passa boi
mas moreninha de cabelo cacheado
passa e passa moreno e passa preta
e passa preto e passa branca e passa branco
numa lição de cores brasileira
humanizando o azul da tarde franca.
Agora vai naquele muro e caligrafa este exercício:
“Abaixo o Homem Sanguessuga do Homem!”

Geir Campos (1924-1999)

5 de março de 2019

Canção

Laurence Stephen Lowry
As horas dançam no tempo
e o tempo, na madrugada.

Do cimo da vida, apenas
vejo a poeira na estrada.

Meus rastros viraram pedras
na terra do antigamente.

E as horas morrem no tempo
como o tempo, no poente.

– Gilberto Mendonça Teles

3 de março de 2019

Casamento Perfumado

Ada Breedveld
Queria certa donzela
de olfato bem apurado
que o seu casamento fosse
de sempre o mais perfumado.
Seu nome era Rosa Branca
Cravo Vermelho seu noivo
madrinha, D. Açucena,
padrinho, o senhor D. Goivo.
Sua grinalda enfeitou
com flores de laranjeira
e na sua mão levou
um ramo de erva cidreira.
Seus pajens, os Manjericos;
Violetas, suas aias,
seu pai, o senhor Junquilho
Madressilva em lindas saias.
Veio dizer a cozinheira
que ía tudo perfumar:
“trago salsa e hortelã
para pôr no seu jantar.
Que belo aroma que dão
a canela e o coco
para perfumar os bolos
vou juntar vinho do Porto.
A bela Erva-Luísa
veio para servir o chá
como é toda perfumada
que belo jeito me dá.
Diga-me lá D. Rosa,
se mais perfumes deseja.”
Haverá um casamento
que mais perfumado seja?

António Gedeão (1906 - 1997)

1 de março de 2019

O enterro da cigarra

As formigas levavam-na… Chovia…
Era o fim… Triste outono fumarento!..
Perto, uma fonte, em suave movimento,
cantigas de água trêmula carpia.

Quando eu a conheci, ela trazia
na voz um triste e doloroso acento.
Era a cigarra de maior talento,
mais cantadeira desta freguesia.

Passa o cortejo entre árvores amigas…
Que tristeza nas folhas… Que tristeza!
Que alegria nos olhos das formigas!…

Pobre cigarra! Quando te levavam,
enquanto te chorava a Natureza,
tuas irmãs e tua mãe cantavam. . .

Olegário Mariano (1889-1958)