30 de julho de 2018

Visão dos Profetas de Congonhas

Emeric Racz Marcier: Congonhas do Campo
Nestas solenes solidões pousados,
que querem os profetas de Congonhas?
Por que verbos sublimes arrebatados

erguem os vagos olhos penitentes,
enquanto hesitam tristes e tardonhas
luzes, nas ruas ermas, quase ausentes?

Que querem os profetas? Silenciam
um segredo maior? Em vão lamentam,
serenamente, a dor de os terem posto

aí, nesse deserto onde o seu rosto
de dura pedra é carne a que atormentam
ventos cruéis, estrelas que os espiam

indiferentes, como a seres mortos?
Que querem os profetas? Que esperança
inculcam? Que sugerem, se de estranhas

solidões de montanhas e montanhas,
de arenosos suspiros, desses tortos
becos e estradas sem destino, avança

o seu perfil sereno? Que desejam
além do que nos narram sem dizer
nada de nada, na postura grave

dos que conhecem? Que repouso almejam,
que além da pedra deve renascer
ao mesmo tempo áspero e suave?

Que querem os profetas, nesta hora
em que Minas Gerais, triste e profunda,
nas encostas se deita contemplando

o que foi ontem mas se faz agora,
o que de ouro repontou – fecunda
noite de que não surge nunca a aurora?

Que querem os profetas? Revolvendo
as túnicas imóveis, passa um vento
que ninguém sabe ao menos porque passa,

e um frio de outros dias, aquecendo
os corações, é como algum lamento
de ave invisível que no céu esvoaça...

Mas que querem? Que sonham? Silenciam.
E, no grande sossego da colina,
na paz das Minas ermas e severas,

a sua sombra se projeta – e as eras
que evocam, ressonância da divina
Presença, aos poucos voltam, se anunciam,

e eles que no desterro se ocultavam,
eles que transplantados se deixavam
perder-se em névoa e ausência, agora são

mais humanos, talvez acolhedores,
– enquanto a noite envolve em novas dores
o seu peito de pedra e solidão.

Alphonsus de Guimaraens Filho (1918-2008)

Nenhum comentário: