28 de junho de 2018

Prisão da Palavra

Rembrandt: São Paulo na prisão
Olho redondo entre as barras.
Pálpebra de animal cintilante
rema para cima,
libera um olhar.

Íris, nadadora, sem sonhos e triste:
o céu, cinza-coração, deve estar próximo.

Inclinada, no bico de ferro,
a limalha fumegante.
No sentido da luz
adivinhas a alma.

(Se eu fosse como tu. Se fosses como eu.
Não estaríamos
sob um mesmo alísio?
Somos estranhos.)

Os ladrilhos. Por cima,
uma junto à outra, as duas
poças cinza-coração:
dois bocados de silêncio.

Paul Celan (1920-1970)
Tradução: Marco Antonio Casanova

Nenhum comentário: