20 de abril de 2018

Tapeçaria

Monet
É difícil separar a tapeçaria
Do lugar ou tear que a antecede.
Pois deve ficar sempre de frente ainda que pendendo para um lado.
Ela insiste nesse retrato da “história”
Por fazer, porque não há como escapar do castigo
Que ela propõe: a visão cega pelo sol.
A vista é engolida com o que é visto
Numa explosão da consciência súbita de seu esplendor formal.
A visão, vista como interior,
Registra sobre o impacto de si mesma
Recebendo fenômenos e, nisso,
Traça um esboço ou uma planta
Do que estava lá agora há pouc
o: certo na risca.
Se tem a forma de um cobertor, isso é porque
Ansiamos, ainda assim, por nos enrolarmos nela:
Esse deve ser o lado bom de não experienciá-la.
Mas, em alguma outra vida, que o cobertor retrata, de qualquer modo,
Os cidadãos mantém um com o outro um comércio agradável
E beliscam as frutas sem empecilhos, como querem,
E as palavras choram por si próprias, deixando o sonho
Revirado numa poça em algum lugar
Como se “morto” não passasse de mais um adjetivo.

John Ashbery (1927-2017)
Tradução: Adriano Scandolara

Nenhum comentário: