2 de março de 2011

Personalidades HIstóricas:

Conheça a História de Chica da Silva
Pintura de Márcio Ávila
Francisca da Silva de Oliveira, ou simplesmente Chica da Silva, foi uma escrava, posteriormente alforriada, que viveu no Arraial do Tijuco, atual Diamantina, Minas Gerais, durante a segunda metade do século XVIII.
Não se sabe exatamente a data de nascimento de Francisca da Silva de Oliveira, provavelmente nasceu entre 1731 e 1735, sabe-se que ela era filha de Maria da Costa, uma escrava africana oriunda da Costa da Mina e de um português chamado Antônio Caetano de Sá, fato comum na sociedade da época, em que as mulheres, principalmente brancas, eram raras. A sua certidão de batismo foi registrada no arraial de Milho Verde, na cidade de Serro Frio, atual município do Serro, Minas Gerais. Xica da Silva, como ficou conhecida, foi vendida como escrava ainda jovem a Manuel Pires Sardinha, médico e proprietário de lavras no Tejuco, com quem teve seu primeiro filho, Simão Pires Sardinha, nascido em 1751. O registro de batismo deste filho bastardo não declara a sua paternidade, mas Manuel Pires Sardinha deu-lhe alforria e nomeou-o como um de seus herdeiros no seu testamento.
Pouco tempo depois, em 1753, João Fernandes de Oliveira chegou ao arraial do Tijuco, para assumir a função de contratador dos diamantes, que vinha sendo exercida por seu pai desde 1740. Em uma visita a casa de Manuel Pires, o contratador ficou encantado com a jovem escrava, que tinha a beleza das mulheres mestiças descendentes das africanas. Em 1754, ele a comprou do médico português por 800 réis, o triplo do que valia um bom escravo na época. Poucos meses depois, João Fernandes surpreendentemente, envolveu-se com Xica, não só se amancebou com ela, como no Natal do mesmo ano, lhe concedeu alforria. Teve uma relação estável, mas não oficial, pois, na época, o casamento era reservado apenas aos indivíduos do mesmo status sociais. Sobre a proteção do marido rico, deixou de ser escrava e escandalizou a sociedade hipócrita de sua época, movida pela cobiça do diamante. Apesar de ser uma concubina, Xica alcançou prestigio e se tornou a mulher mais respeitada e poderosa na sociedade local e usufruiu das regalias privativas das senhoras brancas. Ela ficou reconhecida na região como a Xica que manda, chegou até a ficar conhecida na corte portuguesa.
Com base em fatos históricos, João Fernandes para satisfazer o desejo de sua amada, construiu um palácio com vinte e um cômodos, onde havia um jardim com plantas exóticas vindas da Europa e cascatas artificiais. Também foi feito um sobrado com uma capela própria, dedicada a Santa Quitéria, sua casa ficava na rua do Bonfim, local prestigiado do arraial . Embora ex-escrava, tornou-se proprietária de vários serviçais negros para o trabalho doméstico, inclusive adorava andar rodeada de escravas. Como não conhecia o mar, Xica mandou formar um lago artificial, para fazer uma viagem marítima sem sair da região, transportando os convidados das grandes festas que oferecia à sociedade local. Essas festividades eram animadas por uma orquestra particular e pelas apresentações de um teatrinho de bolso, onde atores contratados na corte e no Rio de Janeiro, vinham encenar as peças mais famosas da época.
Entre 1755 e 1770, o casal tiveram 13 filhos. Todos foram registados no batismo como sendo filhos de João Fernandes, ato incomum na época quando os filhos bastardos de homens brancos e escravas eram registrados sem o nome do pai. Preocupada com a educação das filhas, Xica agia como qualquer senhora da sociedade, fez questão de educar suas nove filhas no Recolhimento de Macaúbas, melhor educandário da região das Minas. Por cada matricula, ela pagou o dote de 900 mil-réis em barras de ouro e mais uma anuidade para despesas de 60 mil-réis. Cada uma de suas filhas levou uma escrava, já as filhas mais velhas contavam com mais um casal de escravos que ficavam do lado de fora do educandário. Cinco de suas filhas fizeram os votos e se tornaram freiras, as outras largaram o hábito para se casar.
Em 1771, João Fernandes teve que se ausentar do Brasil, convocado pela coroa para prestar contas sobre a acusação de violar regras do contrato que tinha com a corte, também aproveitou a viagem, para cuidar de receber os bens deixados em testamento pelo pai. Ao retornar a Portugal, João Fernandes nomeou um tutor para seus filhos e um representante junto ao contrato de exploração dos diamantes, além de redigir um testamento que garantia a herança aos herdeiros ilegítimos. João Fernandes levou para o reino os quatro filhos homens, além de Simão Pires Sardinha, o primeiro filho de Xica, que se responsabilizaria pelo futuro dos irmãos. Disposto a introduzir os filhos na corte, o ex-contratador ocultou as origens deles e a relação que mantinha com a ex-escrava.
Em Lisboa, João Fernandes fica doente até falecer em 21 de dezembro de 1779. No testamento do contratador não constava o nome de Xica. Isso não ocorreu de forma proposital ou por ingratidão. A inexistência da sua mulher em seus legados, permitia dignificar os filhos perante a sociedade elitista do reino. Para manter uma vida confortável, Xica recebeu propriedades deixadas pelo contratador, que lhe garantiram a sobrevivência durante a ausência de seu amante. Mesmo depois da morte do seu amado, Xica se manteve sozinha e buscou vários meios para a sustentação de sua condição. Na época, associou-se a várias irmandades religiosas de acordo com a sua posição social. Xica tinha renda suficiente para se sustentar e realizar doações a quatro irmandades diferentes, era aceita como parte da elite composta quase que exclusivamente por brancos, mas também mantinha laços sociais com mulatos e negros por meio de suas irmandades. Chegou a ocupar cargos de direção, duas vezes como juíza e uma vez como diretora. No livro da Irmandade do Santíssimo do Tejuco, existem dezenas de registros de pagamentos feitos por Xica para viabilizar casamentos, batismos e enterros de seus escravos.
No dia 15 de fevereiro de 1796, Xica da Silva morria em sua casa, no arraial do Tejuco. Como era costume na época, ela tinha o direito de ser sepultada dentro da igreja de qualquer uma das quatro irmandades a que pertencia. O reconhecimento social ficou evidente no funeral: ela foi enterrada na tumba número 16, no interior da igreja da Irmandade de São Francisco de Assis. Em missa de corpo presente, com todos os ritos e sacramentos que distinguiam os irmãos, sua alma foi encomendada diante de todos os sacerdotes do arraial. Ao terminar o ofício, dobraram os sinos e o corpo foi levado em procissão à sepultura, acompanhado pelos irmãos e pelos párocos, que carregavam velas acesas.

Curiosidades:
Chica da Silva foi esquecida por longo tempo depois de sua morte. Em 1860, o advogado Joaquim Felício dos Santos foi contratado para cuidar da partilha da herança de uma neta de Chica da Silva. Por isto teve que pesquisar os antigos documentos das propriedades deixadas pelo contratador João Fernandes, descobrindo então a história familiar dos dois amantes.
Em 1868, Joaquim Felício dos Santos publicou a obra Memória do Distrito Diamantino na qual se conta pela primeira vez a história de Chica da Silva. Sem nenhuma fonte histórica, talvez influenciado pelo racismo da época, Joaquim Felício dos Santos descreveu Chica da Silva como uma mulata alta, corpulenta, boçal e careca cujo poder de sedução era incompreensível.
A obra Memória do Distrito Diamantino teve uma nova edição em 1924, na qual Nazaré Menezes inseriu notas defendendo a beleza de Chica da Silva, argumentando que, de outra forma, ela não poderia ter agradado tanto ao rico contratador João Fernandes. Na mesma época, os apontamentos sobre Diamantina escritos pelo jornalista Antônio Torres atraíram a atenção de historiadores, escritores e do público em geral para a história de Chica da Silva.A partir de então, Chica da Silva tornou-se então um personagem mítico, cujas histórias não comprovadas, improváveis ou impossíveis são mais conhecidas do que sua biografia real.
Em 1963, a escola de samba Acadêmicos do Salgueiro venceu a disputa do carnaval carioca com o enredo de Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona sobre Chica da Silva. Vários mitos foram recontados no filme de Carlos Cacá Diegues, Xica da Silva, de 1976, que foi um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema brasileiro. Mais recentemente, o mesmo aconteceu com a novela televisiva Xica da Silva da Rede Manchete, estrelada por Taís Araújo.
Todos estes sucessos foram obras de ficção feitas para atender ao público ansioso por boas histórias e com pouca base nos fatos históricos.
A Chácara de Chica da Silva, no bairro da Palha, era uma das residências mais luxuosas, mas não ultrapassava os padrões da região à época. Comparando como padrões europeus da época, era uma habitação quase rústica.
Apesar de rica, era discriminada pelo círculo social mais elevado. Considerada como concubina, estava impedida de frequentar os templos católicos. Desse modo, teria erguido uma capela, hoje desaparecida, anexa à residência, dedicada a Santa Quitéria, apenas para o seu uso privativo.
Está provado que Chica da Silva pertencia às Irmandades de São Francisco e do Carmo, exclusivas das pessoas brancas e ricas, e que foi enterrada na igreja da primeira. A construção de capelas particulares era um hábito comum na época e pode ainda ser visto em várias fazendas do século XIX.
Para não ter o seu sono perturbado pelo dobrar dos sinos da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, erguida em 1765 com o auxílio do contratador João Fernandes, Chica da Silva teria imposto a mudança de posição da torre.
Efetivamente, trata-se da única igreja em estilo barroco no Brasil que possui a torre sineira atrás da nave central. Fato tão singular necessitava de alguma explicação, nem que fosse lendária.
Criou a receita do Xinxim da Chica, um dos mais conhecidos da culinária mineira, ou este era seu prato preferido.
Francisca era um dos nomes mais usados na época tanto por escravas como por senhoras. Portanto, existiram muitas outras "Chicas" cozinheiras ou senhoras.

Fonte: Júnia Ferreira Furtado -
Chica da Silva e o contratador dos diamantes - O Outro Lado do Mito.
São Paulo: Cia. das Letras, 2003.
Xica da Silva
Ai! Ai! Ai! Ai! Ai!
Ai!Ai! Ai! Ai! Ai!
Ai! Ai!Ai! Ai! Ai! Ai!
Ai! Ai!Ai! Ai!
Ai! Ai! Ai! Ai!…
Xica da, Xica da, Xica da
Xica da Silva, a Negra!…(2x)
Xica da Silva
A Negra! A Negra!
De escrava a amante
Mulher!
Mulher do fidalgo tratador
João Fernandes
Ai! Ai! Ai!…
Xica da, Xica da,
Xica daXica da Silva,
a Negra!…(2x)
A imperatriz do Tijuco
A dona de Diamantina
Morava com a sua corte
Cercada de belas mucamas…
Num castelo
Na Chácara da Palha
De arquitetura
Sólida e requintada
Onde tinha até
Um lago artifical
E uma luxuosa galera
Que seu amor João Fernandes, o tratador
Mandou fazer, só para ela
Ai! Ai! Ai!…
Xica da, Xica da, Xica da
Xica da Silva, a Negra!…(2x)
Muito rica e invejada
Temida e odiada
Pois com as suas perucas
Cada uma de uma cor…
Joias, roupas exóticas
Das Índias, Lisboa e Paris
A negra era obrigada
A ser recebida
Como uma grande senhora
Da corte
Do Reis Luís!
Da corte Do Reis Luís!…
Ai! Ai! Ai! Ai! Ai! Ai!
Ai! Ai! Ai! Ai! Ai! Ai!…
Xica da, Xica da,
Xica daXica da Silva,
a Negra!…(2x)
Ai! Ai! Ai! Ai! Ai! Ai!
Ai! Ai! Ai! Ai! Ai! Ai!…
Xica da, Xica da,
Xica daXica da Silva…(3x)

Jorge Ben Jor

Nenhum comentário: