26 de julho de 2008

Dante e Beatriz

Henry Holyday - Dante e Beatriz
Qual é a propaganda mais difundida, mais poderosa e mais eficaz do mundo? Coca-Cola? Malboro? IBM? Nada disso. É a do amor romântico. Ela existe há 800 anos, mas até o século passado, apesar de arrebatar corações, não podia se misturar a uma relação fixa e duradoura. Casamento por amor, nem pensar! Impossível de se realizar, inatingível e tormentoso, nele a pessoa amada é sempre idealizada.
As histórias de Tristão e Isolda e de Romeu e Julieta ilustram bem como o amor romântico é regido pela impossibilidade. Quanto mais obstáculos a transpor, mais apaixonado ele se torna. Entretanto, em um determinado momento, interesses econômicos introduziram esse tipo de amor no casamento, transformando toda a sua história.
Até a Revolução Industrial, no final do século 18, as pessoas moravam mais no campo, junto a vários outros membros da família, o que fazia com que sentissem afetivamente amparadas. Os casamentos aconteciam por razões econômicas e políticas. Por isso é que duravam a vida toda. Não havendo romance nem expectativa de satisfação sexual, não havia decepções, e ninguém pensava em se separar.
Mas as fábricas e os escritórios que surgiam foram atraindo os homens para trabalhar nos centros urbanos. Nasceu, então, a família nuclear – mãe, pai, filhos - agora sozinhos na cidade. Para que o casal suportasse viver assim, longe daqueles com quem tinha laços afetivos, inaugurou-se o amor romântico no casamento.
Atualmente existe uma campanha, incorporada por todos os meios de comunicação, que procura nos convencer de que só é possível ser feliz vivendo um romance, que traz a ilusão do amor verdadeiro. Tão grande quanto o desejo de vivê-lo. Por isso, poucos suportam ouvir que, apesar de toda a magia prometida, ele não passa de uma mentira. Sem contar que traz mais tristeza do que alegria, além de muito sofrimento.
Desde que nascemos nos empurram o amor romântico goela abaixo, como se fosse um pacote econômico do governo. Não se discute, cumpre-se. Uma criança de um ano, por exemplo, já toma sua sopinha com a babá, assistindo à novela das sete. Na hora de dormir, a mãe conta a história de Branca de Neve ou Cinderela, e assim por diante. Todas as expectativas e ideias do amor romântico são passadas como uma única forma de amor, e aprendemos a sonhar e a buscar um dia viver tal encantamento. Entretanto, são várias as mentiras que o amor romântico impõe para manter a fantasia do par amoroso idealizado, em que duas pessoas se completam, nada mais lhes faltando. Entre elas estão afirmações absurdas como:

.............Só é possível amar uma pessoa de cada vez.
.............Quem ama não sente tesão por mais ninguém.
............. O amado é a única fonte de interesse do outro.
.............Quem ama sente desejo sexual pela mesma pessoa a vida inteira.
........Qualquer atividade só tem graça se a pessoa amada estiver presente.
........
Todos devem encontrar um dia a pessoa certa. Como nenhuma delas corresponde à realidade, em pouco tempo de relação vêm a decepção e a frustração. No amor romântico idealizamos a pessoa amada e projetamos nela tudo que gostaríamos de ser ou como gostaríamos que ela fosse. Não nos relacionamos com a pessoa real, mas com a inventada. É claro que, na intimidade da convivência do dia-a-dia, para manter a idealização a consequência natural é o desencanto. É por isso que se faz tanta música de dor de amor. E, para completar, todo mundo adora.
Regina Navarro Lins - Psicanalista

Um comentário:

Ricardo disse...

Tem horas que me sinto assim...