terça-feira, outubro 27, 2020

Platão ou o porquê?

Anselm Feuerbach - The Banquet (after Plato)

Por obscuros motivos,
em circunstâncias desconhecidas,
o Ser Ideal deixou de ser suficiente a si próprio.

Mas poderia durar e durar sem fim,
talhado das trevas, forjado da claridade
nos seus jardins sonolentos sobre o mundo.

Por que diabo começou a procurar aventuras
na má companhia da matéria?

De que lhe serviram imitadores
falidos, malfadados,
sem perspectivas de eternidade?

A Sabedoria coxa
com um espinho cravado no calcanhar?
A Harmonia dilacerada pelas
águas revoltas?
A Beleza
com os seus nada atraentes intestinos?
E o Bem –
para quê a sua sombra
se antes não a tinha?

Deve ter havido algum motivo
por mais fútil que pareça,
mas isso não será revelado nem pela Verdade Nua,
ocupada em remexer
no vestuário terreno.

E ainda, meu Platão, todos estes poetas horríveis,
aparas varridas pelo vento de debaixo das estátuas,
resíduos do grande Silêncio nas alturas…
Wislawa Szymborska (1923-2012)
Tradução: Elzbieta Milewska e Sérgio Neves

segunda-feira, outubro 26, 2020

XLIX

Timothy Easton

Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas-noites.
E a minha voz contente dá as boas-noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,

A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, sem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.
Alberto Caeiro
Fernando Pessoa (1888-1935)

domingo, outubro 25, 2020

O retrato icônico da Declaração dos Direitos (análise de imagem)

Ainda em 1789, quando a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão foi publicada, o pintor Jean-Jacques-François Le Barbier pintou uma representação do documento que se tornou um ícone por suas simbologias. A pintura a óleo traz o texto completo da Declaração, escrito em letras douradas, e disposto como as tábuas dos Dez Mandamentos. A analogia traz uma mensagem clara: tal como as tábuas dadas Moisés representavam a aliança de Deus com o povo de Israel, a Declaração era a aliança do povo em benefício de toda a Nação, e seus artigos, a lei e o mandamento do cidadão.
Jean-Jacques-Francois Le Barbier - Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.
No centro do quadro, servindo como linha separadora dos artigos, há um feixe de varas unidas por uma correia ou fita. É um antigo símbolo romano (fasces), significando a soberania, a união e a força em torno do chefe. Diferente do fasces romano que traz um machado, este tem uma lança, símbolo da autoridade pública e do Direito tendo a função de proteger os contratos. A Declaração é um contrato social. O barrete frígio (gorro vermelho) espetado na lança, é outro antigo símbolo romano. Era entregue ao escravo alforriado como sinal de sua libertação. Na Revolução Francesa, o barrete foi usado pelos sans-culottes e burgueses como símbolo da liberdade e de adesão à causa revolucionária. Hoje serve, também, de símbolo do Senado dos Estados Unidos. A figura feminina à esquerda representa a Nação ou o povo francês: ela usa as cores da revolução (vermelho, azul e branco) e em suas mãos segura as algemas e correntes do Antigo Regime, agora rompidas. A Nação está coroada simbolizando a soberania popular. O anjo à direita é o mensageiro divino. Sua mão esquerda aponta para o texto da Declaração enquanto a direita, segurando um cetro, símbolo de força e autoridade, aponta para o triângulo radiante. O triângulo é o Olho da Providência ou do Pai omnisciente, que tudo vê, irradiando a luz divina. É o olho de Deus observando a humanidade. Representa a aprovação divina às normas ali presentes. É também símbolo adotado pela maçonaria significando o olho supremo da Razão e das Luzes que dissipam as nuvens da ignorância e da intolerância. O mesmo símbolo está presente, por exemplo, no verso das notas de um dólar e no selo dos Estados Unidos.

Onde é que está a verdadeira lâmpada de Deus?

Vincent Van Gogh
“Agora, que mais idoso me vejo, e quanto mais remoto aquilo reside, a lembrança demuda de valor – se transforma, se compõe, em uma espécie de decorrido formoso. Consegui o pensar direito: penso como um rio tanto anda: que as árvores das beiradas mal nem vejo…
Quem me entende? O que eu queira. Os fatos passados obedecem à gente; os em vir, também. Só o poder do presente é que é furiável?
Não. Esse obedece igual – é o que é. Isto, já aprendi. A bobeia? Pois, de mim, isto o que é, o senhor saiba – é lavar ouro. Então, onde é que está a verdadeira lâmpada de Deus, a lisa e real verdade? ”
João Guimarães Rosa (1908-1967)
Grande Sertão: veredas

sábado, outubro 24, 2020

Casamento de raposa

Ilustração de Georgia Dunn

Chuva com sol é tão raro
como pérola de Ormuz;
da chuva pingos tão claros
e do sol pingos de luz.

Chuva com sol é tão doce
que parece a redenção
do bem e do mal reunidos
numa suave canção.

Chuva com sol nos sugere,
se é que pode sugerir,
olhos tristes a chorar
lábios felizes a rir…

Wilson W. Rodrigues (1916- )

quinta-feira, outubro 22, 2020

A vida por aqui é só um traço

Paul Klee
Não sei o que me faz, o que me salva
Quando é cru e atroz todo o meu medo.
O barco onde eu piso, uma miragem
Carrega a lassidão, feita u’a imagem
Armada nas carcaças do degredo.

A ponte onde lento eu permaneço
E sei de cor a pedra onde eu embaço
É ponte sobre nada. Eu amanheço
Com uma dor que come o meu abraço
E morde os mares onde eu estremeço.

A vida por aqui é só um traço.

Romério Rômulo

Napoleão Bonaparte – Inspiração do mal

O imperador francês foi muito pior que
aquilo que sua eterna fama de louco faz supor.
Jacques-Louis David - “Napoleão Bonaparte atravessando os Alpes”

Preconceito Racial
Napoleão foi um racista de carteirinha. Restabeleceu a escravidão nas colônias francesas na América Central (onde ela havia sido abolida em 1794), proibiu que soldados negros morassem em Paris e perseguiu com afinco o general Thomas-Alexandre Dumas, primeiro negro a alcançar uma alta patente no Exército francês e avô de Alexandre Dumas, autor de Os Três Mosqueteiros. O ódio racial do imperador ia além: chegou a declarar que judeus seriam “lagartas, gafanhotos que assolam a França”. Detalhe: assim como há hipóteses de que o Führer tivesse um avô judeu, Napoleão seria descendente de africano.
Carnificina pouca é bobagem
O circo de horrores na América Central não tinha limites. Buldogues famintos, treinados em Cuba para comer carne humana, davam expediente na colônia francesa de Saint-Domingue (hoje Haiti), disputando os corpos de ex-escravos que se negassem a voltar ao trabalho. Outro castigo comum para os rebeldes – e até mesmo para as crianças negras – era o afogamento: os soldados de Napoleão prendiam bolas de ferro nos pescoços dos adultos e apunhalavam crianças ensacadas antes de atirá-los ao mar. A estimativa é de que 100 mil pessoas tenham sido assassinadas nas colônias caribenhas entre 1802 e 1804.
Protótipo do Holocausto
Um cunhado de Napoleão Bonaparte teria sido o primeiro a utilizar algo parecido com as câmaras de gás mais tarde popularizadas pelo nazismo. Com a permissão do imperador, Victor Emmanuel Leclerc encarcerou os próprios soldados (negros) que serviam a França no Haiti em porões de navios, onde morriam asfixiados pelo dióxido de enxofre resultante da desinfetação do barco. As ilhas de Elba e Córsega também sediaram algo como os “avós” dos campos de concentração. Além dos milhares de africanos mortos nas colônias, foi grande o volume de deportações de prisioneiros para as ilhas.
Homenagem ao ídolo
Hitler foi um fã declarado de Napoleão. Tanto que, durante a invasão nazista em Paris, em 1940, fez questão de visitar o túmulo do imperador no complexo Les Invalides. De terno branco, o Führer curvou-se diante da lápide do ídolo. Outro momento emblemático: mandou derrubar a estátua do general Thomas-Alexandre Dumas, desafeto de Napoleão.
Bibliografia Bombástica
Boa parte do currículo de maldades do imperador – e sua influência nada sutil sobre o nazismo – foi trazida à tona em 2005 pelo historiador francês Claude Ribbe, autor do livro Os Crimes de Napoleão –Atrocidades que Influenciaram Hitler. A publicação da obra causou polêmica na França, onde sobrevive a admiração pelo homem que, apesar das maldades, outorgou o Código Civil e projetou o país no mundo.
Inreiga da Oposição
Uma das grandes obras do antigo Egito, a esfinge de Gizé teria perdido o nariz por obra de… Napoleão, claro. Isso é o que diz a lenda. Mas nesse caso o imperador é inocente, já que desenhos de 1755 – quatro décadas antes da chegada das tropas francesas ao Egito – já retratavam a dita-cuja desfigurada. O mais provável é que, entre os séculos 16 e 17, cristãos coptas ou otomanos tenham feito o estrago.
Amor à Arte
Napoleão adorava obras de arte. Tanto que as levava para a França como lembrancinha. Os quatro cavalos de bronze do século 4 a.C. hoje expostos no museu da basílica de São Marcos passaram uma temporada em Paris – só foram devolvidos após a queda do imperador. Do Egito ele levou a Pedra de Roseta, importante fragmento com inscrições hieroglíficas, mais tarde confiscada pelos ingleses. Pinturas do espanhol Bartolomé Esteban Perez Murillo e do italiano Paolo Veronese também foram surrupiadas durante as guerras napoleônicas.

quarta-feira, outubro 21, 2020

Noite do tatu

Carlin Blahnik
Você se aloja numa toca ou armadura,
um sussurro na noite convocando os seus pares
um a um ao longo da fronteira. No seu reino,
cavalheiro errante do mato, até em seu temor
mais íntimo, você está sempre à beira de um novo limite
ou prestes a alcançar o interior
de falsas profecias. O deserto floresce e as amoras
caem num silêncio lodoso. Em torno de uma curva brusca
luzes planetárias surgem do nada.
No que você pecou? Apenas com sua fé cega
& uma estrela morta nos olhos, onde fica a América
do Norte? Você vem atravessando eras,
sem saber quando saiu de uma época
& entrou em outra, mas eu encontrei o seu Olimpo
de coisas insignificantes no mundo moderno.
Amantes nos carros, caminhões de entrega fazem as folhas
tremerem à beira da estrada. Se você sabe disso,
pequena mala de entranhas & unhas,
é porque ainda está vivo,
mesmo com as suas dobradiças quebradas.

Yusef Komunyakaa
Tradução: Flávia Rocha

terça-feira, outubro 20, 2020

A arte de começar

Giotto di Bondone
“Que horas são, a manhã vem já aí. Ardem-me os olhos de vigília, o corpo cansado. À porta da capela, fica num alto junto ao mar. À porta da capela, olho à volta o horizonte noturno, olho o céu cheio de estrelas. Está uma noite tranquila de inocência, como a paz que me invade. Poderia achar razões que me turbassem a paz. Não encontro. Tudo aconteceu fora do meu alcance, não encontro. Um pouco de sono talvez, de fadiga, que horas são? Há em todo o céu lá em cima um pouco de claridade que não é das estrelas. E há uma certa agitação invisível, um profundo estremecer do mundo que vai acordar. E sempre o ressoar das águas, mas tenho de prestar atenção. Longe, no limite do mar, pequenas luzes de barcos na pesca. Estremecem devagar como se cintilassem na sua luz mortal. É um cintilar já breve na claridade que vem aí. Estou parado à porta da capela, há um terreno à frente e depois a queda a pique para as águas. Passei a noite sozinho, fui homem. Quero dizer fui perfeito. Não é que eu tivesse muito a conversar com o meu filho, que dorme ali no caixão. Mas o que houvesse a dizer era só entre os dois.”
Vergílio Ferreira (1916-1996)

segunda-feira, outubro 19, 2020

As Três Coisas Preciosas

Gyokudo Kawai
Dizem os homens que eu sou grande,
Como se eu fosse algo especial.
Grande só é quem nada se importa
Com sua grandeza.
Quem deseja ser grande perante os outros,
Esse é pequeno.
Três palavras me são sagradas:
1. A primeira é bondade,
2. A segunda, suficiência,
3. A terceira, modéstia.
A bondade dá força,
A suficiência alarga a estreiteza,
A modéstia faz do homem um veículo
Para a atuação das forças eternas.
Hoje em dia não é assim.
O homem não conhece mais bondade,
E, ainda assim, se julga forte.
Não tem mais suficiência.
Só reclama seus direitos;
Ninguém sabe ser modesto,
Mas só pensa em sucesso.
E isto conduz à ruína.
Quem é realmente bom
Vence na luta
Porque é invencível.
Quando o inimigo avança,
Esse homem é amparado pelo céu.

Lao-Tzu (604-531 a.C.)
Tradução: Huberto Rohden

Explicação filosófica por Huberto Rohden: Bondade, suficiência e modéstia representam o carisma do homem cósmico. E dessa trindade cósmica brotam todos os atos externos do homem realmente grande. Quem age em nome do seu ego humano é pequeno. Quem é agido pelo Eu cósmico, esse é grande. O grande homem assume atitude de um eterno aprendiz e nunca se considera mestre de ninguém.
(LAO-TSÉ, 2009, p. 160)

domingo, outubro 18, 2020

O que seria viver?

Henri Rousseau

O que seria viver,
Sem a ânsia
De ir sempre além do tangível?

O que seria sonhar
Sem necessidade
De Amor
E ver flamejar
A cada carícia
A chama ascensional
Do sentimento humano
Em busca de Deus?

De que serviria tantos paraísos
Tantos versos, tantos céus,
Sem ouvidos para ouvi-los,
Sem mentes para tocá-los?

De que adiantaria
Mergulhar no desconhecido do Eu
Para trazer de lá, embriagado,
Esses poemas,
Sem corações
Para recebê-los
E protegê-los
Da insensatez do mundo?

Carlos Aurélio Soares Cardoso

sábado, outubro 17, 2020

Pensamento nº 311

Odilon Redon
“Quanto mais, por nossas características pessoais, por nossa aguda sensibilidade, por nossa esmerada educação, estivermos preparados para a leitura, tanto melhor sentiremos cada pensamento lido e cada poema, no que têm de singular, de próprio, de intimamente fascinante. Vemos então que toda a sua beleza, todo o seu encanto, repousam precisamente nesse seu caráter peculiar e inconfundível. Contudo percebemos também e de maneira bem clara que todos esses milhares de vozes dos povos mais diversos anseiam pelo mesmo objetivo, invocam os mesmos deuses sob nomes diferentes, sonham os mesmos sonhos, sofrem e padecem as mesmas dores. Vinda dos albores da história, feita do emaranhado tecido de inúmeras línguas e livros, eis que se põe a fitar o leitor, num momento iluminado, uma estranha, rica e potentíssima quimera: − a efígie do homem, miraculosamente una em seus milhares de traços contrastantes”.
Hermann Hesse (1877-1962)
Tradução: Bélchior Cornelio da Silva

sexta-feira, outubro 16, 2020

O papel da História

Brian Kershisnik
“O papel da História será o de mostrar que:
  • as leis enganam,
  • que os reis mascaram,
  • que o poder ilude e que
  • os historiadores mentem”.
Michel Foucault (1926-1984)

Tua mão

Amadeo Modigliani
A tua mão pequena de escultura
é cópia da pérola mais rara
ou duma rosa branca a miniatura,
talhada em fino bloco de Carrara.

O mundo inteiro deslumbrado a encara
quando, soltando a cabeleira escura,
ostentas essa mão, mimosa e clara,
num glorioso esplendor de formosura.

Tua mão lembra as trêmulas papoulas,
as conchas de nacar, as verde algas
o aroma penetrante das caçoulas

Trabalho dum antigo colorista
a tua mão, que tem poses fidalgas,
foi feita para impressionar a vista.

Naide Vasconcelos

quinta-feira, outubro 15, 2020

Dia do Professor

Jerry LoFaro

Mesmo tendo papel fundamental na vida das pessoas, o profissional ainda é muito desvalorizado no Brasil.
15 de outubro é celebrado o Dia do Professor. No entanto, este profissional merece muito mais que um dia:
  • merece respeito, boas condições de trabalho e valorização.
  • É ele quem, na maioria das vezes, ensina a ler e a escrever e, mais tarde,
  • a argumentar, a defender uma teoria, a ir atrás de um sonho.
O professor é quem está por trás de todos os profissionais.
A importância do professor em nossa sociedade é marcante. Apesar disso, muitas vezes, não é o que se percebe no ambiente escolar e, até mesmo, na sociedade. Além das precárias condições em que muitos professores têm de lecionar, percebe-se também o ambiente hostil, com violência, agressividade e tentativas de censura ao professor, situações que têm-se tornado comuns em sala de aula.
Apesar disso, vamos conhecer um pouco sobre a história do dia desse profissional tão significativo para nossa sociedade.
Esta carreira é uma das mais perigosas que existe. “Lidamos com pessoas e qualquer erro pode causar danos irreparáveis. Não precisa ter dom para ensinar, mas boas técnicas, muito estudo e vontade de mediar conflitos o tempo todo”.
“Para que o governo vai investir em educação e deixar os alunos inteligentes, críticos e questionadores, para cobrar as coisas dele mais tarde?”.
“A boa educação levaria o povo a conhecer melhor os problemas e tomar decisões que incomodariam alguns setores da sociedade”.
O problema é que, muitas vezes o professor é forçado a dar aula em várias escolas, o que o impede de estudar mais, se especializar, assistir filmes, ler livros, pesquisar e observar o mundo, o que faria dele um profissional melhor”.

quarta-feira, outubro 14, 2020

Lindas palavras

Ted Nasmith - Lúthien Tinúviel
“Só tão alto quanto o que alcanço pode crescer.
Só tão longe quanto exploro posso chegar.
Só na profundidade para que olho posso ver.
Só à medida que sonho posso ser”.
Karen Ravn

O Canto e o Pensamento

Ludwig von Hofmann

Ao Princípio era o Ritmo, a Rima a terminar,
E a Música entra nisto qual seu almo Pio
¹:
A tão divino riquiquio
²
Chama-se Canto. Mas, para encurtar,
Um Canto, isso é "Palavras para pôr em Música".

O Pensamento é de uma outra esfera.
Se ele troça, ou se exalta, ou se encanta,
Jamais, é claro, um pensamento canta.
É "Sentido sem Canto" o Pensamento.
As duas coisas juntas: minha audácia é tanta?

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900),
Tradução: Jorge de Sena
¹ Almo Pio = piedoso
² Riquiquio = canto

terça-feira, outubro 13, 2020

Alphonse Mucha

A árvore perdoa o vento
que saqueia suas folhas
e abraça-o com galhos.
O pássaro perdoa a nuvem
sair ao sol
e a cumprimenta com asas.
A onda perdoa a pedra
que o impede de pular
e envolvê-la em carícias.
Só o homem não perdoa.
para o ar, para a água, para a pedra,
para qualquer criatura terrestre.
Ele persegue tudo em um emaranhado.

Blaga Dimitrova (1922-2003)
Tradução: José Mesquita

segunda-feira, outubro 12, 2020

A tortura e as atrocidades de Cristóvão Colombo

O Reinado do Terror de Colombo é um dos capítulos mais sombrios da nossa história. Tudo que for feito para reparar a colonização ibérica e os crimes dos colonizadores é pouco, muito pouco diante dos crimes cometidos.
Retrato de Cristóvão Colombo (foto: Wikipedia)

Não há reparação que consiga se contrapor à barbárie colonial e que se reproduz e permanece até hoje através dos torturadores e os adeptos e defensores da tortura: O que Cristóvão Colombo trouxe e não é ensinado nas escolas.
O Reinado do Terror de Colombo é um dos capítulos mais sombrios da nossa história. Surpreendentemente, Colombo supervisionou a venda de meninas nativas para escravidão sexual.
As meninas de 9 a 10 anos eram as mais desejadas por seus homens. Em 1500, Colombo casualmente escreveu sobre isso em seu diário. Ele disse: “Cem castelos são tão fáceis de conseguir para uma mulher quanto para uma fazenda, e isso é muito geral e há muitos contrabandistas procurando meninas; agora há demanda por crianças de nove a dez anos.”
Ele forçou esses pacíficos nativos a trabalhar em suas minas de ouro até morrerem de exaustão. Se um trabalhador “indiano” não entregasse sua cota inteira de ouro em pó antes do prazo de Colombo, os soldados cortavam suas mãos e as amarravam em volta do pescoço para enviar uma mensagem. A escravidão era tão insuportável para esse povo doce e gentil da ilha que, a certa altura, uma centena deles cometeu suicídio em massa. A lei católica proibia a escravidão de cristãos, mas Colombo resolveu esse problema. Ele simplesmente se recusou a batizar os nativos de Hispaniola.
Em sua segunda viagem ao Novo Mundo, Colombo trouxe canhões e cães de ataque. Se um nativo resistisse à escravidão, ele cortaria um nariz ou uma orelha. Se os escravos tentassem escapar, Colombo os queimava vivos.
Outras vezes, ele enviava cães de ataque para caçá-los, e os cães arrancavam os braços e as pernas dos nativos que gritavam enquanto ainda estavam vivos. Se os espanhóis ficassem sem carne para alimentar os cães, os bebês Arawak seriam mortos para comer. Os atos de crueldade de Colombo foram tão indescritíveis e tão lendários – mesmo em sua época – que o governador Francisco De Bobadilla prendeu Colombo e seus dois irmãos, prendeu-os em correntes e os enviou à Espanha para responder por seus crimes contra os Arawaks. Mas o rei e a rainha da Espanha, com seu tesouro cheio de ouro, perdoaram Colombo e o libertaram.
Um dos homens de Colombo, Bartolomé De Las Casas, ficou tão mortificado pelas atrocidades brutais de Colombo contra os nativos que parou de trabalhar para Colombo e se tornou padre católico. Ele descreveu como os espanhóis sob o comando de Colombo cortaram as pernas de crianças que fugiam deles para testar a nitidez de suas lâminas. De acordo com De Las Casas, os homens apostavam em quem, com um único golpe de espada, poderia cortar uma pessoa ao meio.
Diz que os homens de Colombo encheram as pessoas com sabão fervente. Em um único dia, De Las Casas foi uma testemunha ocular de quando soldados espanhóis desmembraram, decapitaram ou estupraram 3.000 nativos. “Essas desumanidades e barbáries foram cometidas aos meus olhos como nenhuma idade pode ser comparada”, escreveu De Las Casas. “Meus olhos viram esses atos tão estranhos à natureza humana que agora tremo enquanto escrevo.”
De Las Casas passou o resto de sua vida tentando proteger os nativos indefesos. Mas depois de um tempo, não havia mais nativos para proteger. Os especialistas geralmente concordam que antes de 1492, a população da ilha de Hispaniola provavelmente ultrapassava os 3 milhões de habitantes. Vinte anos após a chegada da Espanha, foi reduzido para apenas 60.000. Em 50 anos, nem um único habitante nativo original foi encontrado.
Em 1516, o historiador espanhol Pedro Mártir escreveu:
“Um navio sem bússola, mapa ou guia, mas apenas seguindo o rastro dos índios mortos que haviam sido atirados dos navios onde poderiam encontrar o caminho das Bahamas para Hispaniola.”
Cristóvão Colombo ganhava a maior parte de sua renda com a escravidão, observou De Las Casas. Na verdade, Colombo foi o primeiro comerciante de escravos nas Américas. Quando os escravos nativos morreram, foram substituídos por escravos negros. O filho de Colombo se tornou o primeiro negociante de escravos africano em 1505.
Fontes:
Comércio de escravos – Assassinos em massa,
Cólon Central Irlandês – Livro de Todorov,
A Conquista da América - Trechos de Bartolome de las Casas.

Mulheres que se destacam


Laudelina de Campos Melo (1904-1991). Ativista sindical e trabalhadora doméstica. Sua trajetória foi marcada pela luta contra o preconceito racial, subvalorização das mulheres e exploração da classe trabalhadora. Combateu a discriminação da sociedade em relação às empregadas domésticas, exigindo melhor remuneração e igualdade de direitos sociais. Sua atuação permitiu a regulamentação do emprego doméstico como fundadora do Sindicato das empregadas domésticas.
Laudelina nasceu em 12 de outubro de 1904, em Poços de Caldas, Minas Gerais. Aos sete anos de idade, começou a trabalhar como empregada doméstica, aos 16 anos deu início à sua atuação em organizações de cunho cultural, sendo eleita presidenta do Clube 13 de Maio, agremiação que promovia atividades recreativas e políticas entre os negros de sua cidade.
Aos 18 anos, Laudelina mudou-se para São Paulo, onde se casou, mudando-se para Santos em 1924. Participou junto com seu marido da agremiação Saudade de Campinas, grupo cultural negro de Santos. Somente depois da separação (1938), e já com seus dois filhos, ela passaria a agir de forma atuante em movimentos populares. Sua militância ganhou conteúdo político e reivindicatório com sua filiação ao Partido Comunista Brasileiro, em 1936. Ainda em 1936, fundou a primeira Associação de Trabalhadores Domésticos do país, fechada durante o Estado Novo, e voltando a funcionar em 1946. Trabalhou para a fundação da Frente Negra Brasileira, militando na maior associação da história do movimento negro, que chegou a ter 30 mil filiados ao longo da década de 1930.
Laudelina mudou-se para Campinas em 1955, entrou para o movimento negro da cidade e participou de atividades culturais e sociais, especialmente com o Teatro Experimental do Negro (TEN), cujo objetivo era elevar a autoestima e a confiança da juventude negra, através da formação de grupos de teatro e dança. Criou uma escola de música e de balé na cidade. Trabalhou como empregada doméstica até 1954, quando abriu seu próprio negócio, uma pensão, e passou a vender também salgados nos dois campos de futebol da cidade (Guarani e Ponte Preta). A partir daí, ela se dedicou integralmente à militância sindical e cultural, inclusive promovendo, em 1957, um baile de debutantes (Baile Pérola Negra) para jovens negras, no Teatro Municipal de Campinas.
Fundou, com o apoio do Sindicato da Construção Civil do município de Campinas, o sindicato/associação das domésticas em Campinas. À frente da associação, apoiou dois tipos de ações: um voltado para alfabetização, pois considerava que seria o primeiro passo para conscientização e entendimento da legislação trabalhista e consequentemente reivindicação dos direitos da classe; e atividades que tinham como objetivo estimular a solidariedade entre as trabalhadoras.
Laudelina acumulou experiência com a fundação das associações e foi convidada, a partir de 1962, para participar da organização de diversos sindicatos (ainda na forma de associação) da categoria, como o do Rio de Janeiro e o de São Paulo. A militância sindical não a fez deixar de lado as demandas sociais, sempre participando dos movimentos negros e feministas.
Durante o regime militar (1964-1985), ela passou a atuar no interior da igreja progressista, nas comunidades eclesiais de base. Entre 1968 e 1979, as atividades da associação de Campinas ficaram paralisadas. Mesmo assim, seguiu em defesa das domésticas e virou uma referência nacional na batalha pela regulamentação dos direitos das trabalhadoras domésticas. A atuação de Laudelina foi fundamental na década de 1970 para a categoria conquistar o direito à Carteira de Trabalho e à Previdência Social. Em 1982, ela auxiliou a reestruturação da associação de Campinas, possibilitando a transformação da associação em sindicato, em 20 de novembro de 1988.
Laudelina faleceu em 12 de maio de 1991 em Campinas, deixando sua casa para o sindicato de Campinas.

O fardo do homem branco

School Begins / Créditos: Wikimedia Commons

Tomai o fardo do Homem Branco
Enviai vossos melhores filhos
Ide, condenai seus filhos ao exílio
Para servirem aos vossos cativos;
Para esperar, com chicotes pesados
O povo agitado e selvagem
Vossos cativos, tristes povos,
Metade demônio, metade criança.

Tomai o fardo do Homem Branco
Continuai pacientemente
Ocultai a ameaça de terror
E vede o espetáculo de orgulho;
Ao discurso direto e simples,
Uma centena de vezes explicado,
Para buscar o lucro de outrem
E obter o ganho de outrem.

Tomai o fardo do Homem Branco
As guerras selvagens pela paz
Enchei a boca dos famintos,
E proclamai o cessar das doenças
E quando o vosso objetivo estiver próximo
(O fim que todos procuram)
Assisti a indolência e loucura pagã
Levai toda sua esperança ao nada.

Tomai o fardo do Homem Branco
Sem a mão de ferro dos reis,
Mas o trabalho penoso de servos
A história das coisas comuns
As portas que não deveis entrar,
As estradas que não deveis passar,
Ide, construí com as suas vidas
E marcai com seus mortos.

Tomai o fardo do homem branco -
E colha sua antiga recompensa -
A culpa de que farias melhor
O ódio daqueles que você guarda
O grito dos reféns que você ouve
(Ah, devagar!) em direção à luz:
"Porque nos trouxeste da servidão
Nossa amada noite no Egito?"

Tomai o fardo do homem branco -
Vós, não tenteis impedir -
Não clamem alto pela Liberdade
Para esconderem sua fadiga
Porque tudo que desejem ou sussurrem,
Porque serão levados ou farão,
Os povos silenciosos e calados
Seu Deus e tu, medirão.

Tomai o fardo do Homem Branco!
Acabaram-se seus dias de criança
O louro suave e ofertado
O louvor fácil e glorioso
Venha agora, procura sua virilidade
Através de todos os anos ingratos,
Frios, afiados com a sabedoria amada
O julgamento de sua nobreza.
Rudyard Kipling (1865-1936)
Tradução: autor desconhecido

domingo, outubro 11, 2020

A fera do tempo nunca se sacia

René Magritte

A fera do tempo nunca se sacia
tudo se perde, se cria
e nada muda o seu movimento
almas, ânimos, sinas
da minha cara ao que ninguém imagina
o que sobra é esse momento
joguem-se os relógios ao vento
queimem-se os calendários
o tempo não mais se conta
a fera que ande às tontas.

Ricardo Silvestrin

sábado, outubro 10, 2020

Pensar historicamente

“Pensar historicamente supõe a capacidade de identificar e explicar permanências e rupturas entre o presente, passado e futuro, a capacidade de relacionar os acontecimentos e seus estruturantes de longa e média duração em seus ritmos diferenciados de mudança; capacidade de identificar simultaneidade de acontecimentos no tempo cronológico; capacidade de relacionar diferentes dimensões da vida social em contextos sociais diferentes. Supõe identificar, no próprio cotidiano, nas relações, nas ações políticas da atualidade, a continuidade de elementos do passado, reforçando o diálogo passado e presente. Como desenvolver nos alunos esse modo de pensar? Advogamos a favor da ideia de que devamos introduzi-los mais cedo possível nessa tarefa, pois o seu desenvolvimento não é inato e, muito mais cedo do que pensamos, as crianças podem, por meios diversos, iniciarem-se em modos de pensar a História.”
(Lana Mara Castro Siman, 2003: 119)

Um Verso

Peter Paul Rubens
Se me fosse dado escolher um verso apenas,
seria o “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
Não se trata de “os fins justificam os meios”,
lema dos inescrupulosos.
É muito mais que “ama e faz o que queres”.
Por amor nem sempre se faz o mais digno.
Mas, se a alma não é pequena,
não pode haver proposta indecorosa.
Se a alma não é pequena,
toda afronta é irrelevante
e todo sonho é lúcido.

Márcio Catunda Gomes

sexta-feira, outubro 09, 2020

A Fênix

Mahmoud Farshchian: O último suspiro da fênix

Fui soberbo/acreditei
que eras uma página em branco
como tua alma/confundi
tua bondade com candor/teu candor
com desvio do mundo/escrevi
linhas equivocadas/palavras
na noite obsedada de mim/mas não
fui olhos para o cego/pés para o coxo
me acreditava revestido de justiça/pensava
“perecerei em meu ninho e como a fênix
redobrarei meus dias”/mas fui
insensato e grosseiro/errei
meu caminho rumo a ti
quebrado o muro/forçada a porta
as aflições se precipitaram sobre mim
aferram-se em mim/que já sou nada
partiste como o vento/tu/o que mais amei
meus ossos/linhagem
do pó e a cinza
clamam por ti e não me ouves
estou em tua presença e não me vês
dirijo meus passos rumo a ti
pactuo não te ver com minha vista
e tenho um só paradeiro: a morte

Juan Gelman (1930-2014)
Tradução: Andityas Soares de Moura