4 de junho de 2020

Caratuja

Rembrandt
Rexroth (*), seu rosto refletindo a cansada
bem-aventurança humana
Cabelo branco, sobrolho vincado
bigode tagarela
flores jorrando
da cabeça triste,
ouvindo Edith Piaf e suas canções de rua
enquanto ela passeia com o universo
e toda sua vida que passou
e as cidades que desapareceram
só ficou o Deus do amor
sorrindo.

Allen Ginsberg (1926-1997)
Tradução: Claudio Willer
(*) Rexroth – Kenneth Rexroth

3 de junho de 2020

Dormes

John Hoppner
Dormes. Surgem de ti coisas pressagas.
Ó bela adormecida, não tens sexo,
como as algas marítimas que as vagas
jogam na praia em renovado amplexo.

O vendaval é o mesmo em que te apagas
num torvelinho de ímpeto convexo;
dormindo, rodopias, e te alagas
num turbilhão de diálogos sem nexo.

Sonâmbula parada, és a andarilha,
ilhada entre lençóis. Virgem tens prole,
pois és ao mesmo tempo avó, mãe, filha.

E que o sono multíparo te viole,
anjo desnudo, salamandra de asas
ressuscitada de dormidas brasas.

Jorge de Lima (1893-1953)

2 de junho de 2020

O Anjo do Relógio / Chartres

Anjo com um relógio de sol na fachada da Catedral de Chartres
Ainda o vi, o anjo do relógio. Era como Rilke
nos dissera: nada sabia do nosso ser,
sorria no seu pétreo resplendor, apenas
segurando a mensagem da sombra
que obedecia à convenção das horas. Asas curtas
nos ombros, demasiado curtas
para o voo, para qualquer viagem...

Na segunda vez já não estava. O sorriso
estatelara-se
no solo. Rilke saberia já da tempestade
que assaltaria a forte catedral
para deixar o poema solitário?
Ou o anjo
tentara com as suas asas frágeis
quebrar o tempo, o cansaço das horas
negadas às estrelas?

Egito Gonçalves (1920-2001)

1 de junho de 2020

A beleza

Charles-Joseph Natoire
Neste crisol do coração, Beleza
Que iluminas a nossa noite escura,
És a Bondade – que se fez Grandeza
E a Dor sofrida – que se fez Doçura.

És a muda expressão da Natureza;
Beijo no amor, sorriso na candura,
Prece na morte, pranto na tristeza
E, para os poetas, mística tortura.

Ninfeia azul no pântano estagnado,
Flores brotando na aridez das lousas,
Ou mistério no páramo
planalto deserto estrelado,

Em tudo o que nos cerca tu repousas,
Porque a Beleza é Deus manifestado
A nos sorrir pela expressão das cousas.

Afonso Schmidt (1890-1964)

31 de maio de 2020

Os trópicos em Nova York

Daniel Francisque
Bananas suculentas e verdes, e gengibre,
Cacau em cachos e abacates,
E tangerinas e mangas e toranjas,
Feitos para pegar preço alto nas feiras paroquiais,

Apoiado na janela, buscando lembranças
De árvores frutíferas trazidas por riachos serenos,
E manhãs brilhantes, e místicos céus azuis
Abençoando as colinas que pareciam freiras.

Meus olhos se turvaram, e eu não pude mais olhar;
Uma onda de saudade varreu meu corpo,
E, faminto por caminhos antigos, familiares,
Eu me voltei para o lado, abaixei minha cabeça e chorei.

Claude McKay (1889-1948)
Tradução: André Caramuru Aubert

30 de maio de 2020

O Icebergue

(um sonho)
Frederic Church
Vi um barco de porte marcial
(De flâmulas ao vento, engalanado)
Como por mera loucura dirigindo-se
Contra um impassível iceberg,
Sem o perturbar, embora o enfatuado barco se afundasse.
O impacto imensos cubos de gelo cair fez,
Soturnos, toneladas esmagando o convés;
Foi essa avalanche, apenas essa –
Nenhum outro movimento, o naufrágio apenas.

Ao longo das escarpas de pálidos cumes,
Nem um ínfimo, frágil raio de luz,
Um prisma sobre os solitários desfiladeiros de verde espelhados,
Vacilou; ou rendas de fino recorte,
Nem ínfimos pendentes em grutas ou minas
Se agitaram quando o perplexo barco se afundou.
Nem as solitárias nuvens de gaivotas, descrevendo
Círculos em torno de um distante cume coberto de neve;
Mas as aves mais próximas, as massas de gelo deslizando
E as praias de cristais, tão pouco se agitaram.
Tremor algum agitou a base
Do feixe de frágeis agulhas de gelo;
Torres escavadas pelas vagas – rochedos
Suspensos, instáveis – imóveis persistiram.
Gaivotas, dormitando lustrosas em escorregadios recifes
Não escorregaram quando, impelido em diante
Pela força da sua própria inércia,
O impetuoso barco, perplexo, se afundou.

Insensível iceberg (pensei), tão frio, tão vasto,
De mortais névoas envolto;
Exalando ainda tua respiração úmida e fria –
À deriva dissolvendo, suscitando a morte;
Embora desajeitado, pesado –
Um marinheiro desajeitado, indolente,
Pesaroso, contigo colide e afunda-se,
Sondando as profundezas do teu precipício,
Nem agita o viscoso verme que, indolente,
Percorre a funérea indiferença de tuas paredes.

Herman Melville (1819-1891)
Tradução: Mário Avelar

29 de maio de 2020

Cárcere de amor

Lluis Ribas
De todas as mulheres que tu tiveste
a mim me queres mais que nenhuma outra
é o que sempre me dizes. Porém
elas puderam dividir tua cama.
E a mim tu me fechaste neste quarto
em que só visitas pelas tardes.
Trazes-me doces e livros, e me falas
de arte e literatura. Ao despedir-se
me dás um beijo paternal na testa
e assim até outro dia. E permaneço
só e me entedio. E sinto falta de um homem.
Por isso, não estranhes nem me insultes
meu amor, se surges de surpresa
e me vês abraçada ao carcereiro.

Amalia Bautista
Tradução Ronaldo Costa Fernandes

28 de maio de 2020

Catarina Eufémia

Catarina Eufémia
O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida, porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos
Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre
o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)
Catarina Eufémia (1928-1954) foi uma ceifeira portuguesa que, na sequência de uma greve de assalariadas rurais, foi assassinada a tiro, pelo tenente Carrajola da Guarda Nacional Republicana, com vinte e seis anos de idade.

27 de maio de 2020

O Relógio

O relógio do saber, século XV. — L’Horloge de Sapience (Bruxelles, Bibliothèque Royale , ms. IV 111
Relógio, meu amigo, és a Vida em Segundos…
Consulto-te: um segundo! E quem sabe se agora,
Como eu próprio, a pensar, pensará doutros mundos
Alma que filosofa e investiga e labora?

Há de a morte ceifar somas de moribundos.
O relógio trabalha… E um sorri e outro chora,
Nas cavernas, no mar ou nos antros profundos
Ou no abismo que assombra e que assusta e apavora…

Relógio, meu amigo, és o meu companheiro,
Que aos vencidos, aos réus, aos párias e ao morfético
Tem posturas de algoz e gestos de coveiro…

Relógio, meu amigo, as blasfêmias e a prece,
Tudo encerra o segundo, insólito — sintético:
A volúpia do beijo e a mágoa que enlouquece!

Jorge de Lima (1893-1953)

26 de maio de 2020

Trecho de 'Olhai os Lírios do campo'

Egidio Antonaccio
“Que bom se pudesse ficar no campo,
à beira da estrada, encostar as faces na
frescura do capim molhado, dormir, esquecer,
ser apenas uma pedra no caminho,
a folha duma árvore...”

Erico Veríssimo (1905-1975)

25 de maio de 2020

Eu, no tempo

Vladimir Pervuninsky
Meu espírito caminha irreversivelmente
para a irrealidade de tudo.
O universo para, de repente,
à espera de minha infância.
Tudo repousa em seu lugar.
O tempo, no relógio.
O silencio, na pedra.
Jogo as máscaras fora e me identifico
comigo que me esperava há séculos.

Emílio Moura (1902-1971)

24 de maio de 2020

Nitidez

Albert Bierstadt
Sob o céu limpo
a paisagem é um claro lampejamento
de ágatas e cristais.

Pelo recorte límpido das colinas
escorre o sol.
Os barrancos próximos são de ouro velho
e as montanhas distantes são águas-marinhas diáfanas.
Todas as linhas se desenham nítidas,
infinitamente definidas:
Cada árvore é uma presença prodigiosa
e cada pedra
uma lanterna acesa.

Senhor, como a tua beleza é pura.
E como as coisas exprimem lucidamente
as tuas lúcidas intenções divinas...

Tasso da Silveira (1895-1968)

23 de maio de 2020

Infância

Greg Olsen
I

Terra
sem uma gota
de céu.

II

Tão pequenas
a infância, a terra.
Com tão pouco
mistério.

Chamo às estrelas
rosas.

E a terra, a infância,
crescem
no seu jardim
aéreo.

III

Transmutação
do sol em oiro.

Cai em gotas,
das folhas,
a manhã deslumbrada.

IV

Chamo
a cada ramo
de árvore
uma asa.

E as árvores voam.

Mas tornam-se mais fundas
as raízes da casa,
mais densa
a terra sobre a infância.

É o outro lado
da magia.

V

E a nuvem
no céu há tantas horas,
água suspensa
porque eu quis,
desmorona-se e cai.

Caem com ela
as árvores voadoras.

VI

Céu
sem uma gota
de terra.

Carlos de Oliveira (1921-1981)

22 de maio de 2020

Escrever

Pierre Bonnard
Escrever é riscar o fósforo
e sob seu pequeno clarão
dar asas ao ar – distância, destino
segurando a chama contra
a desatenção do vento, mantendo
a luz acesa, mesmo que o pensamento
pisque, até que os dedos se queimem.

Escrever é cortar, mas somente
quando se está perto da perícia
de quem faz com que a mão seja
o punho da lâmina que o sol
alimenta, e, talho a talho, sem erro
se enterra, sai e tira - célere -
a cor verde-escura da pele da casca
do coco, até que a carne alvejada
com tanta precisão, se deixe ver:
clara, rente à superfície, sangrada
não ferida, a não ser pela delicadeza
aberta ao cerne, onde se sacia a sede.

Armando Freitas Filho

21 de maio de 2020

Máscaras

Guillaume Seignac - Abraço de Pierrot
— O teu beijo é tão quente, Arlequim
— O teu sonho é tão manso, Pierrot

Pudesse eu repartir-me e encontrar minha calma
dando a Arlequim meu corpo e a Pierrot a minh’alma!

Quando tenho Arlequim, quero Pierrot tristonho,
pois um dá-me o prazer, o outro dá-me o sonho!

Nessa duplicidade o amor todo se encerra:
um me fala do céu... outro fala da terra!

Eu amo, porque amar é variar, e em verdade
toda a razão do amor está na variedade...

Penso que morreria o desejo da gente,
se Arlequim e Pierrot fossem um ser somente,

porque a história do amor pode escrever-se assim:
Um sonho de Pierrot... E um beijo de Arlequim!

Menotti del Picchia (1892-1988)

20 de maio de 2020

Diferente

Gerbrand van den Eeckhout
Eu me levantei da cama
com duas pernas fortes.
Poderia ter sido
diferente. Comi
cereal, leite com
açúcar, um pêssego
suculento. Poderia
ter sido diferente.
Levei o cachorro morro
acima, até o bosque.
A manhã toda trabalhei
no que amo.

Ao meio-dia me deitei
com meu companheiro. Poderia
ter sido diferente.
Jantamos juntos,
a mesa com castiçais
prateados. Poderia
ter sido diferente.
Dormi numa cama
em um quarto com pinturas
nas paredes, e
planejei mais um dia
exatamente como este dia.
Mas um dia, eu sei,
vai ser diferente.

Jane Kenyon (1947-1995)
Tradução: André Caramuru Aubert

19 de maio de 2020

Frase

A realidade nunca me basta;
necessito de mágica.

Herman Hesse (1877-1962)

Eu e a árvore

Elisabeth Davy-Bouttier
Quando nasci, papaizinho
plantou, em nosso quintal,
uma arvorezinha esguia,
para ver qual de nós duas
cresceria mais depressa,
qual mais alta ficaria.

Mamãe cuidava de mim
e papai cuidava da árvore,
toda noite e todo dia.
Mas, enquanto eu engordava,
crescendo para todo lado,
a arvorezinha subia…

Hoje, já estamos crescidas.
Ela bate no telhado…
Eu só alcanço a janela;
mas por vingança, eu me trepo
nos galhos, até ficar
muito mais alta que ela.

Martins d’Alvarez (1903- 1993)

18 de maio de 2020

Salmo

Rembrandt
Ninguém nos molda de novo com terra e barro,
ninguém evoca o nosso pó.
Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por ti queremos
florescer.
Ao teu
encontro.

Um nada éramos nós, somos, continuaremos
sendo, florescendo:
a rosa-de-nada, a
rosa-de-ninguém.

Com
o estilete claralma,
o estame alto-céu,
a coroa rubra
da palavra púrpura, que cantamos
sobre, oh, sobre
o espinho.

Paul Celan (1920-1970)
Tradução: Claudia Cavalcanti

17 de maio de 2020

Frase


“Remove os querubins do portal e verás que tudo é infinito. Limparás o desejo e o medo de teus olhos e contemplarás tudo como uma revelação do Divino”.
William Blake (1757-1827)


Valquírias arfam

Loui Jover-little maestro
Valquírias arfam. Finam violinos.
A ópera perora com seus ais.
Mármore. Escadarias. Nos umbrais,
Librés empunham os casacos finos.

Vai caindo a cortina de cetim.
Um tolo bisa do seu camarote.
Cocheiros dançam ao fogo. O chicote
Aguarda a carruagem. Eia! Fim.

Óssip Mandelstam (1891-1938)
Tradução: Augusto de Campos

16 de maio de 2020

Quebra coco

Albert Bierstadt
“Os maus temem tuas garras,
Os bons se alegram de tua graça!”

Algo assim
Gostaria de ouvir
Do meu verso.

⇝ Bertolt Brecht (1898-1956)
Tradução: [Paulo Cesar Souza]

Teu nome

Pablo Picasso
Nasce de mim, de minha sombra,
amanhece em minha pele,
aurora de luz sonolenta.

Pomba brava teu nome,
tímida sobre o meu ombro.

Octavio Paz (1914-1998)
Tradução: Luis Pignatelli