terça-feira, setembro 28, 2021

Sobre mim as flores não brotaram

Salvador Dali

Eu fiz da tua mão o meu pedaço
te naveguei, abraço com abraço.
Abri todo o meu olho em teu espaço
teu corpo martelado, meu bagaço.

Só um pedaço de mim
caminha aqui.
Quanto, não sei. E é muito
não saber.
Cada pedaço é sobra.
Um canhão em cada olho
É o que levo.

Não aperfeiçoarei a violência, prometo.
Mas trevas serão extirpadas.

Romério Rômulo

segunda-feira, setembro 27, 2021

Defesa

Joaquim Passini

Guarda a manhã como uma rosa,
Molha-a, que a noite vem aí.
Dorme tu nos espinhos; goza
O que é próprio de ti.

Não dês flores a ninguém
Que tua mão lhe corte,
E, se puderes,
Leva as mais que puderes à tua morte
Em coroa que te fique bem.

Não gastes o jardim puro
De que tu mesmo és terra:
A tua vida, muro,
Teu coração a encerra.

Rosas façam de sangue os que as desejam;
Cada um se floresça:
As tuas não se vejam
Quando a roseira cresça.

Abre ao lume doído
Os botõezinhos novos.
No ninho despido,
Ave, os teus ovos.

Ao frio e ao escuro cria
Larvas de luz compostas
Do que deita alegria
Sobre as coisas que gostas.

Mas rosas dadas, não:
Nem que tu fosses flores
E raiz teu destino
Engrossando no chão.
As tuas flores
São do menino
Sempre foste. Não!

Vitorino Nemésio (1901-1978)

domingo, setembro 26, 2021

Os amantes submarinos

Anupam Pal

Esta noite eu te encontro nas solidões de coral
Onde a força da vida nos trouxe pela mão.
No cume dos redondos lustres em concha
Uma dançarina se desfolha.
Os sonhos da tua infância
Desenrolam-se da boca das sereias.
A grande borboleta verde do fundo do mar
Que só nasce de mil em mil anos
Adeja em torno a ti para te servir,
Apresentando-te o espelho em que a água se mira,
E os finos peixes amarelos e azuis
Circulando nos teus cabelos
Trazem pronto o líquido para adormecer o escafandrista.
Mergulhamos sem pavor
Nestas fundas regiões onde dorme o veleiro,
À espera que o irreal não se levante em aurora
Sobre nossos corpos que retornam às águas do paraíso.

Murilo Mendes (1901-1975)

sábado, setembro 25, 2021

É o êxtase langoroso...

Alexandre Cabanel

É o êxtase langoroso,
É o cansaço amoroso,
É todo o bosque a vibrar
Ao enlace das aragens,
São, nas grisalhas ramagens,
Mil vozes a cochichar.

Óh! o fino e fresco cicio!
É chilreio e balbucio,
Parece esses doces ais
Que a relva móvel suspira ...
Dirias, na água que gira,
Rolar de seixos casuais.

Essa alma que se lamenta
Nessa queixa sonolenta
Não será a nossa, ai de nós?
A minha à tua enlaçada,
Exalando a humilde toada
Nesta tarde, a meia voz?

Paul Verlaine (1844-1896)
Tradução: Guilherme de Almeida

sexta-feira, setembro 24, 2021

Theophile-Emmanuel Duverger

Desde criança nunca fui como outros foram
Nem meus olhos nunca viram o que outros viram,
Já que minhas paixões não têm a mesma origem,
Não vêm da mesma fonte as dores que me afligem.
Também o prazer era de outra natureza –
Tudo que amei ninguém amou, tenho certeza.
Lá – no despontar de um viver atormentado –,
Do âmago do bem e do mal foi arrancado
Este mistério que ainda me traz prisioneiro:
Da cascata e da torrente – do ocre do outeiro –
Do sol a desfilar sua outonal majestade
E da nuvem que a meus olhos tomou o perfil
De um demônio neste céu azul anil.


Edgar Allan Poe (1809-1849)
Tradução: João Moura Jr.

quinta-feira, setembro 23, 2021

És só um homem esquecido pela terra

Foto de Jessica Jenney

És só um homem esquecido pela terra,
os que te cercam não te reconhecem,
nada sabem das tuas mãos, dos teus olhos,
da coisa mais ínfima que seja tua.
Tu vês os que te cercam, mas eles
Rodeiam-te da tua ausência
com a perseverança de sobreviventes
do mundo aos lábios: a separação do olhar de Deus.

Rui Nunes

quarta-feira, setembro 22, 2021

Embora soneto

Isidor Kaufmann

Vivo meu porém
No encontro do todavia
Sou mas.
Contudo
Encho-me de ainda
Na espera do quando
Desando ou desbundo.
Viver é apesar
Amar é a despeito
Ser é não obstante,
Destarte
Sou outrossim
Ilusão, sem embargo
Malgrado senão.

Artur da Távola (1936-2008)

terça-feira, setembro 21, 2021

As vidas dos Alquimistas

David Teniers

O maior trabalho sempre foi o de apagar-se,
Ressurgir como algo inteiramente distinto;
O travesseiro de uma jovem apaixonada,
Uma bola de sujeira fingindo ser uma aranha.

Pretos tédios de noites chuvosas do campo
A folhear os escritos de adeptos ilustres
Oferecendo conselhos sobre como continuar a transmutação
De um figmento do tempo na eternidade.
O verdadeiro mestre, um dos do conselho,
Requer cem anos para aperfeiçoar sua arte.

Nesse ínterim, o segredinhos arcanos da frigideira,
O cheiro de azeite de oliva e alho soprando
De cômodo a cômodo vazio, a gata preta
Se esfregando na sua perna descoberta
Enquanto você hesita em ir até a luz distante
E o tilintar de copos na cozinha.


Charles Simic
Tradução: Adriano Scandolara

segunda-feira, setembro 20, 2021

Tivesse eu sabido

Victor-Nizovtsev

Tivesse eu sabido, quando a vida era
como um vento tépido e feliz,
Brando e ruidoso na aurora e
na névoa brilhante do orvalho,
Que havia de chegar o tempo em que,
suspirando, os corações diriam:
«Tivesse eu sabido…»

Nem sequer as rosas rindo ao beijarem-se,
Nem, ao sol, o mais encantador
riso ondulante do mar,
Teriam vindo fascinar a minha alma
para que neles reparasse.

Agora o vento é como uma alma
desterrada a rezar inutilmente
As preces que não conseguimos
ouvir se o coração lhes resiste,
Agora que a minha própria alma,
à deriva e perdida como o vento, suspira:
«Tivesse eu sabido.»

A. C. Swinburne (1837-1909)
Tradução: Maria Lourdes Guimarães

domingo, setembro 19, 2021

Maturidade

Paul Cézanne

Nada vale o que passou.
Nada diz o que morreu
sem terra ou caixão nenhum,
onde descansar seus ossos.

A ponte de Waterloo
e a valsa da despedida
são coisas do teu passado.
E o passado não tem peso.

Não apodrece o teu passado
no túmulo da memória,
essa pertinaz moenda
que sem cana ou mel de açúcar
mói o imputrescível das coisas
com suas gavetas e bocas
abrindo papéis e beijos
para a volúpia do nada.

Nada vale o que passou.
O que mata é o teu presente.
É a certeza do cachorro
a morrer de fato e sempre

(sem que dele tu soubesses
mais que o soube ele de ti)
nesse conhecimento ímpar
de pedra em arame farpado.

Não vale a pena nascer,
abrir-se, dar-se de fato,
para um jogo que é travado
com a certeza da perda.

Nauro Machado (1935-2015)

sábado, setembro 18, 2021

Choque monárquico: o encontro entre a rainha Vitória e Dom Pedro II

Em 1871, dois dos principais líderes do mundo se conheceram — e a nobre inglesa ficou bastante surpresa com o imperador brasileiro.
Dom Pedro II e Rainha Vitória em pinturas oficiais - Domínio Público

Entre os muitos líderes que reinaram no século 19, poucos governaram mais que o Imperador do Brasil, dom Pedro II, e a Rainha Vitória, da Inglaterra. As duas figuras foram mandatários de seus países por décadas e até se encontraram em duas ocasiões.
Os encontros ocorreram em uma das jornadas do monarca brasileiro pelo mundo, segundo constata o jornalista histórico Laurentino Gomes, que comentou o caso em sua conta oficial no Facebook. “D. Pedro II se encontrou duas vezes com a rainha Vitoria na viagem que fez a Londres em junho de 1871”.
Com apenas 45 anos naquela época (apesar de, nas anotações da rainha britânica, constar erroneamente que ele tinha 44), ele surpreendeu Vitória, que o achou, apesar de bonito e simpático, muito envelhecido e grisalho para sua idade.
Segundo Laurentino, essas foram as palavras de Vitória em seu diário pessoal (traduzidos do original em inglês): “Muito alto, largo e robusto, um homem bonito, mas muito grisalho, embora com apenas 44 anos… O Imperador anda por toda parte e vê tudo, mas não vai para dentro da sociedade. Ele levanta 5 e já sai às 6”.
Dom Pedro II, durante seu governo, realizou diversas viagens ao redor do mundo, conhecendo diversos líderes mundiais diferentes em seus momentos de pausa da vida pública (característica, inclusive, que foi criticada pela população, que não via sentido em um monarca usar dinheiro da Casa Real para viajar no lugar de governar). Reconhecido e admirado em diversos locais por onde passou, Pedro era tido como um líder amigável.

André Nogueira
Aventuras na História [Referência]

Estrela

Roberto Weigand

Escutai! Se as estrelas se acendem
será por que alguém precisa delas?
Por que alguém as quer lá em cima?
Será que alguém por elas clama,
por essas cuspidelas de pérolas?
Ei-lo aqui, pois, sufocado, ao meio-dia,
no coração dos turbilhões de poeira;
ei-lo, pois, que corre para o bom Deus,
temendo chegar atrasado,
e que lhe beija chorando
a mão fibrosa.
Implora! Precisa absolutamente
duma estrela lá no alto!
Jura! Que não poderia mais suportar
essa tortura de um céu sem estrelas!
Depois vai-se embora,
atormentado, mas bancando o gaiato
e diz a alguém que passa:
“Muito bem! Assim está melhor agora, não é?
Não tens mais medo, hein?”

Escutai, pois! Se as estrelas se acendem
é porque alguém precisa delas.
É porque, em verdade, é indispensável
que sobre todos os tetos, cada noite,
uma única estrela, pelo menos, se alumie.


Vladimir Maiakovski (1893-1930)
Tradução: Emílio Carrera Guerra

sexta-feira, setembro 17, 2021

A Chuva

Joana Kruse

Uma chuva miudinha embebeu tudo,
com muita doçura e em silêncio. Ainda chove um pouco.
Vou sair. Abrigar-me sob as árvores. Descalça,
para não sujar os sapatos.

Na primavera, a chuva é deliciosa. Os ramos,
cobertos de flores molhadas, exalam um perfume
que me entontece. Vê-se brilhar ao sol a pele delicada
das árvores.

Dá pena ver tantas flores no chão. Tende piedade
das flores caídas. Não devem ser varridas e misturadas
com a lama, mas deixadas para as abelhas.

Os escaravelhos e as lesmas cruzam o caminho
por entre as poças de água; não quero pisá-los,
nem assustar o lagarto dourado que se espreguiça
e pisca os olhos.

Pierre Louÿs (1870-1925)
Tradução: Maria Gabriela Llansol

quinta-feira, setembro 16, 2021

Não se fica melhor com os anos

Gerard ter Borch

Não se fica melhor com os anos
Também pudera, fica-se acomodado
Alinhando, para se poupar do arrependimento,
Os erros todos num sistema.

Isso então produz uma superfície lisa,
Desliza-se desimpedidamente sem parar,
E a “comum fraqueza humana”
Torna-se nossa palavra de consolo e lema.

As perguntas todas estão resolvidas,
Uma coisa funciona, outra não,
Só às vezes um tácito sermão
Nos dá das crianças a face.

Theodor Fontane (1819-1898)
Tradução: Dionei Mathias

quarta-feira, setembro 15, 2021

Saudade do tempo

Stig Hole

Saudade do tempo
Do tempo passado,
O tempo feliz
Que não volta mais.

Deus queira que um dia
Eu encontre ainda
Aquela inocência
Feliz sem saber.

Mas hoje que eu sei
De toda a verdade
Já não acredito
Na felicidade,

E quando eu morrer
Então outra vez
Pode ser que eu seja
Feliz sem saber.

Dante Milano (1899-1991)

terça-feira, setembro 14, 2021

Prece

Gurudwara Baba Atalti - Indian School

Ah! se soubesses como eu choro
Por viver só meus pobres dias,
Muitas vezes por onde eu moro
Tu passarias.

Se soubesses o que revela
Ao triste o olhar de uma alma boa,
Olharias minha janela
Assim, à toa.

Se soubesses como conforta
Uma presença amiga e sã,
Ficarias à minha porta
Como uma irmã.

Se soubesses, se adivinhasses
Como eu te amo, principalmente,
É possível até que entrasses
Bem simplesmente.

Sully Prudhomme (1839-1907)
Tradução: [Guilherme de Almeida]

domingo, setembro 12, 2021

O poeta em todos nós

Julio Romero de Torres

O poeta em todos nós, asa de jade,
subjaz no endêmico da entidade orgânica.
Construímos o lar que nos confina
no apocalipse da mente, sempre dramático,
mesmo provisório, apenas suficiente
para equilibrar o pensamento.
Todo verso é ornato, toda poesia
é exaltação que engrandece o parco.

Hugo Mund Júnior

Irmãs de Esperança

Berthe Morisot

Irmãs de esperança ó mulheres corajosas
Que contra a morte tendes feito um pacto
O de unir as virtudes do amor

Irmãs sobreviventes
Que jogais vossa vida
P’ra que a vida triunfe

Aproxima-se o dia ó irmãs de grandeza
Para rir das palavras guerra dor e miséria
E do que foi a dor já nada restará

Cada rosto terá seu direito à carícia.

Paul Éluard (1895-1952)
Tradução: Carlos Grifo

sábado, setembro 11, 2021

Houve um Salvador

Matteo Arfanotti

Houve um salvador
Mais raro do que o rádio,
Mais comum do que a água, mais cruel do que a verdade;
Atraídas por suas palavras,
As crianças se protegiam do sol
Para ouvir a nota de ouro rodopiar num sulco,
Prisioneiras de desejos trancavam seus olhos
Nas celas e gabinetes de seus sorrisos sem chave.

Desde um ermo perdido
Diz a voz das crianças
Que devia haver calma em sua segura inquietação.
Quando o homem adverso feria
O homem, o animal ou o pássaro
Ocultamos nossos temores nesse sopro assassino,
Silêncio, silêncio a ser cumprido, quando a Terra cresceu ruidosa,
Nos refúgios e asilos do tremendo alarido.

Havia glória a ser ouvida
Nas igrejas de suas lágrimas,
Suspiravas toda vez que o seu braço peludo te golpeava,
Oh, tu que não pudeste chorar
Sobre a terra quando um homem morria
Verteste uma lágrima de júbilo no dilúvio sobrenatural
E reclinaste a face numa concha em forma de nuvem:
Agora estamos sós, tu e eu, na escuridão.

Dois sombrios e arrogantes irmãos,
Aferrolhados lado a lado pelo inverno,
Gritam a esse inóspito ano desértico,
Oh, nós que sequer podíamos exalar
Um tíbio suspiro quando ouvimos
Pulsar a cupidez em nosso próximo e o fogo no vizinho
Mas aninhados e gemebundos na parede azul do céu
Vertemos agora uma lágrima imensa pela queda quase ignorada,

Pelo declínio dos lares,
Que não amamentam nossos ossos,
Nossa genuína poeira de estrangeiros
Nem as mortes indômitas de uns poucos a quem jamais encontramos,
Cavalgar através das portas de nossa casa inviolada,
Vemos agora, solitários em nós,
Exilados em nós mesmos, despertamos o tenro,
Desenfreado, indefeso, sedoso e áspero amor que espedaça todas as rochas.

Dylan Thomas (1914-1953)
Tradução: Ivan Junqueira

sexta-feira, setembro 10, 2021

Os lugares

Paul Camille Guigou

Passei pelos lugares
que inventamos

o mar
o gesto
o parapeito

mas não encontrei
o sol
nem o recanto em seu espanto

nem o motivo
o vitral
nem a chama que colhemos

Apenas as estradas me indicavam
a rota das mãos que as não tocavam.

Maria Teresa Horta

quinta-feira, setembro 09, 2021

Entardecer

Carl Spitzweg

A luz passa
de crista em crista
de flor em flor —
as hepáticas, abertas
sob a luz
vão sumindo —
as pétalas se introvertem,
as pontas azuis se curvam
ao mais azul do seu âmago
e as flores se perdem.

Ainda brancos os cornisos em botão,
mas sombras se lançam
das raízes dos cornisos —
rasteja o negror de raiz em raiz,
cada folha
corta outra folha no capim,
sombra segue sombra,
e tanto folha quanto
sombra-de-folha se perdem.

H.D. − Hilda Doolittle (1886-1961)
Tradução: Dalcin Lima

quarta-feira, setembro 08, 2021

Guerra civil

Vincent van Gogh

É contra mim que luto.
Não tenho outro inimigo.
O que penso,
O que sinto,
O que digo
E o que faço,
É que pede castigo.
E desespera a lança no meu braço.

Absurda aliança
De criança
E de adulto,
O que sou é um insulto
Ao que não sou;
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou.

Infeliz com loucura e sem loucura,
Peço à vida outra vida, outra aventura,
Outro incerto destino.
Não me dou por vencido,
Nem convencido,
E agrido em mim o homem e o menino.

Miguel Torga (1907-1995)

terça-feira, setembro 07, 2021

Ir beber-te

Hieronymus Bosch

Ir beber-te num navio de altos mastros
no alto mar
ó grande noite alucinada
e pura,
brilhante e escura,
bordada de astros.

Para ti sobe a minha inquietação e sobressalto,
o meu caos, desilusão e agonia,
pois trazes nos teus dedos
a sombra, o silêncio e os segredos,
a perfeição, a pureza e a harmonia.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

segunda-feira, setembro 06, 2021

O amor aos sessenta

Richard Whitney

Isto que é o amor (como se o amor não fosse
esperar o relâmpago clarear o degredo):
ir-se por tempo abaixo como grama em colina,
preso a cada torrão de minuto e desejo.

Ser contigo, não sendo como as fases da lua,
como os ciclos de chuva ou a alternância dos ventos,
mas como numa rosa as pétalas fechadas,
como os olhos e as pálpebras ou a sombra dos remos

contra o casco do barco que se vai, sem avanço
e sem pressa de ausência, entre o mito e o beijo.
Ser assim quase eterno como o sonho e a roda
que se fecha no espaço deste sol às estrelas

e amar-te, sabendo que a velhice descobre
a mais bela beleza no teu rosto de jovem.

Alberto da Costa e Silva