22 de janeiro de 2019

Consolação

Robert Auer
Quando à noite no baile esplendoroso
Vais na onda da valsa arrebatada
Com a serena fronte reclinada
Sobre o peito feliz do par ditoso...

Mal sabes tu que existe um desditoso
Faminto de te ver, oh minha amada!
E .que sente a sua alma angustiada
Longe da luz do teu olhar piedoso.

Mas quando a roxa aurora vem nascendo,
E a cotovia acorda o laranjal,
E os. astros vão de todo esmorecendo;

Eu cuido ver-te, oh lírio divinal,
As minhas cartas ávida relendo
Semi-nua no leito virginal.

Gonçalves Crespo (1846-1883)

20 de janeiro de 2019

Feridos, Silenciaram

Jerci Maccari
Era tempo de colheita.

Auroras inesperadas,
a Letra das Escrituras
ungindo as horas para
a Eternidade.

E
eu segredava:

podes levar o que quiseres,
deixando-me
as dimensões da Cruz,
para conferir o que restar.

Então vieste,
sem aviso.

Cega de espanto,
quis regatear.

Cega diante da Tua Vontade,
espada de gume ardente,
fogo a lavrar
nos ermos da minha fé,
nos ermos da minha dor.

Cega, feri os pulsos no Teu Sigilo.

Feridos, silenciaram.

Era tempo de dar.

Carminha Gouthier (1903-1983)

18 de janeiro de 2019

Fogo da paixão

Belles Heures of Jean de France - Duc de Berry
Deixai de reprovar-me a paixão e desculpai-me,
emprestai-me vossas lágrimas se choro,
não censureis sua paixão a alguém como eu,
louco de amor. Sentísseis vós o que eu sinto,
mandar-me-íeis ignorar o sono:
pois eu, pela paixão, estou privado dele.
Vós conheceis o sono, mas meus olhos,
na amargura do tempo,
não conhecem a união com o descanso.
Amigos, dizei-me a verdade,
que sabor tem o sono, que eu já o esqueci?

Ibn Sahl de Sevilha (1212-1251)
Tradução: Carlos Mendonça Lopes

16 de janeiro de 2019

O quarto poder

Cecília Meireles - batuques, sambas e macumba
O jornal reporta pessoas como sempre.
O duplo de papel da carnalidade,
Mantém a vida na moda
E incensa o incerto original.
Lemos com fé, esfregando a lâmpada fictícia,
E logo surgem gênios para se fofocar
Da ampla página, e pela matéria
Sabemos sobre nós, silenciados
Por nossas fotos impressas suspensas
Numa parede frágil.

E a folha circula talvez além
Dos limites privados do boato carnal.
E a propaganda é a de um retrato ativo
Que serve a um modelo calado,
Pleiteia um bom lugar na galeria remota,
Garante à criatura a imortalidade empoeirada
De um fantástico memorando
Num arquivo perdido.

Laura Riding (1901-1991)
Tradução: [Rodrigo Garcia Lopes]

14 de janeiro de 2019

Do verbo o verbo...

Hassina Bouglam
É o poema em mim que escreve o meu poema,
do verbo o verbo se origina.
Ele é meu ocupante; e nem sei se me ama.
Quer a poesia, essa inquilina,

meu espaço vital gerir e, furibunda,
ralha: quem sabe estou errado.
Há de absolver-me um dia; em sua porção mais funda,
eu lhe preparo um melhor fado.

Faremos par feliz; há de a minha alegria
vencer-lhe toda inquietação.
Os trêmulos detesta; a mim não cederia
emprego algum: a narração,

nem a trama, ou a letra, ou mesmo a melodia,
pois tudo quer decidir logo.
Meu cérebro retrai-se e a minha razão fria
Não vale um dado posto em jogo.

Sou para o meu poema esqueleto ilusório;
numa mortalha ia melhor.
Ele é adulto, pode ser o promontório,
a ave, o azul e a tília em flor. br>
Nada mais a dizer, poeta; quieto assim
sonhando com sonhar eu vou.
Em si mesmo se pensa o poema, sem mim;
luxúria de que me privou.

Alain Bosquet(1919-1998)
Tradução: Mário Laranjeira

12 de janeiro de 2019

Prognóstico

Loui Jover - Ilustração
Poeta,
Creia,
Nem tudo está perdido,
Porque,
Felizmente,
Sobretudo o mais,
O seu ideal,
A muitos outros ainda comove, Demove
e

Predomina.


- Ada Ciocci Curado (1916-1999)

10 de janeiro de 2019

Caos climático

Gustav Klimt
É temerário descartar
a memória das Águas
o grito da Terra
o chamado do Fogo
o clamor do Ar.

As folhas secas rangem sob os nossos pés.
Na ressonância o elo da nossa dor
em meio ao caos
a pavorosa imagem
de que somos capazes de expor
a nossa ganância
até não mais ouvir
nem mais chorar
nem meditar,
nem cantar...
só ganância, mais nada.

É temerário descartar
a memória das Águas
o grito da Terra
o chamado do Fogo
o clamor do Ar.

- Graça Graúna

8 de janeiro de 2019

Vestibular 2ª Fase da Fuvest 2019

Leia os textos:
Texto I
Devo acrescentar que Marx nunca poderia ter suposto que o capitalismo preparava o caminho para a libertação humana se tivesse olhado sua história do ponto de vista das mulheres. Essa história ensina que, mesmo quando os homens alcançaram certo grau de liberdade formal, as mulheres sempre foram tratadas como seres socialmente inferiores, exploradas de modo similar às formas de escravidão. “Mulheres”, então, no contexto deste livro, significa não somente uma história oculta que necessita se fazer visível, mas também uma forma particular de exploração e, portanto, uma perspectiva especial a partir da qual se deve reconsiderar a história das relações capitalistas.
FEDERICI, Silvia, Calibã e a Bruxa: mulheres,
corpo e acumulação primitiva. S.l.: Elefante, 2017.
Texto II
Em todas as épocas sociais, o tempo necessário para produzir os meios de subsistência interessou necessariamente aos homens, embora de modo desigual, de acordo com o estádio de desenvolvimento da civilização.
MARX, Karl, O capital. São Paulo: Boitempo, 2017.
a) Existe diferença de sentido no emprego da palavra “homens” em cada um dos textos? Justifique.

b) Explique o uso das aspas em “’Mulheres’”, no texto I
Resolução:
a) No texto 1 “homens” foi empregado como pessoas do gênero masculino em oposição a “mulheres”. No texto II, “homens” foi empregado com sentido de humanidade.

b) As aspas foram usadas para destacar o significado atribuído à palavra “mulheres” que, segundo o autor, foi empregada no capitalismo como indicadora de seres “socialmente inferiores”.

7 de janeiro de 2019

Vestibular 2ª Fase da Fuvest 2019

Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever
Mas o correio andou arisco
Se me permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
A Marieta manda um beijo para os seus
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo pessoal
Adeus.
(Adeus Meu caro amigo). - Chico Buarque e Francis Hime, 1976.
a) Levando em conta o período histórico em que a letra da música foi composta, justifique o uso do plural no terceiro verso.

b) A letra da canção apresenta características de qual gênero discursivo? Aponte duas dessas características:
Resolução
a) O 3º verso apresenta o verbo permitir (“permitem”), com sujeito indeterminado, referindo-se aos censores, que, na época da ditadura militar eram encarregados de analisar as produções artísticas, antes de sua divulgação, a partir de critérios políticos e ideológicos do regime militar.

b) O texto apresenta características do gênero epistolar (carta), apesar de ser uma letra de música, que comenta a dificuldade de se comunicar com o amigo em razão da censura prévia (“o correio andou arisco”). Pode-se classificá-la como carta-canção, considerando que há um remetente (o próprio autor) e um destinatário (“meu caro amigo”). A comprovação do gênero epistolar encontra-se na estrutura da canção: o uso de vocativo (“meu caro amigo”) e a despedida (“Um beijo na família, na Cecília e nas crianças”, “Adeus”).

6 de janeiro de 2019

Reis Magos

Zanobi Strozzi
E para ouvir a sua história
vieram três reis encantados:

um vermelho, o que lhe trouxe
a manhã como presente;

outro branco, o que lhe havia
feito presente do dia;

outro preto, finalmente,
rosto cortado de açoite.
O que lhe trouxera a Noite…

Cassiano Ricardo (1895-1974)

4 de janeiro de 2019

Paraquedistas

Yavuz Sariyildiz - Paragliding
escrever é dedicar
os dedos à marcenaria
de qualquer jardim

desatamos as mãos
e a tontura que dá
vem do alto

o cair das nuvens folhas
passarinho avião papel
picado a lua no mar

silêncio de planta, euforia
de cama elástica, alegria
de piquenique no parque

e tanto carinho
guardo pra você
numa luva de boxe

- Bruna Beber

2 de janeiro de 2019

Esta é uma declaração de amor

Esta é uma declaração de amor:
amo a língua portuguesa.
Ela não é fácil. Não é maleável.
E, como não foi profundamente trabalhada
pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutileza
e de reagir às vezes com um pontapé contra
os que temerariamente ousam transformá-la numa
linguagem de sentimento de alerteza. E de amor.

A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve.
Sobretudo para quem escreve tirando das coisas
e das pessoas a primeira capa do superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado.
Às vezes assusta com o imprevisível de uma frase.
Eu gosto de manejá-la - como gostava de estar montando
num cavalo e guiá-lo pelas rédeas,
às vezes lentamente, às vezes a galope.
Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo
nas minhas mãos - e este desejo todos os que escrevem têm.
Um Camões e outros iguais não bastaram
para nos dar uma herança de língua já feita.
Todos nós que escrevemos estamos fazendo
do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos.
Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua
que não foi aprofundada.
O que recebi de herança não me chega.

Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever
e me perguntassem a que língua eu queria pertencer,
eu diria: inglês, que é preciso e belo.
Mas como nasci muda e pude escrever,
tornou-se absolutamente claro para mim
que eu queria mesmo era escrever em português.
Eu até queria não ter aprendido outras línguas:
só para que minha abordagem do português
fosse virgem e límpida.

Clarice Lispector (1920-1977)

31 de dezembro de 2018

O limite Diáfano

Vincent van Gogh
Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.

Sebastião Alba (1940-2000)

28 de dezembro de 2018

Dia de Outono

Edward Cucuel
Senhor: é tempo. Foi muito grande o verão.
Nos relógios de sol estira as tuas sombras,
deixa que pelo prado os ventos vão.
Manda aos últimos frutos a espessura,
dá-lhes do sul ainda mais dois dias,
força a plenitude neles, vê se envias
ao vinho forte a última doçura.
Quem não tem casa agora, já não constrói nenhuma,
quem agora está só, vai ficar só, sombrio,
perder o sono, ler, escrever cartas a fio,
e a um ir e vir inquieto nas áleas se acostuma,
vagueando enquanto as folhas lá vão num rodopio.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Tradução: Vasco Graça Moura

26 de dezembro de 2018

Délfica

Michelangelo - Delphic Sibyl
Tu a conheces, Dafne, esta antiga romança,
Do sicômoro aos pés, sob os louros pendentes,
Sob a oliveira, o mirto e os salgueiros trementes,
Esta canção de amor que além sempre se lança?...

Reconheces o TEMPLO onde a cornija avança,
E os amargos limões onde entravam teus dentes,
E a caverna fatal a hóspedes imprudentes
Onde o dragão vencido esconde a íntima herança?...
Eles retornarão, os Deuses que tu choras!
O tempo recriará a ordem das velhas horas;
De um profético sopro o chão foi sacudido...

Enquanto isso a sibila de rosto latino
Ainda dorme por sob o arco de Constantino:
— E nada perturbou o Pórtico esquecido.

Friedrich Schiller (1759-1805)
Tradução: Alexei Bueno

24 de dezembro de 2018

Poema de Natal

Frederic Montenard
É dia de natal a festa da família um deus nasceu
não me sinto sozinho mas estou sozinho
toda a minha família sou só eu
Levo nas algibeiras alguns versos e caminho
quando sinto de súbito o desejo de reler o herculano
a única pessoa que nos livros e na vida hoje me faz falta
única companhia para o meu natal
Entro nas poucas livrarias de peniche
e gasto em livros de herculano o dinheiro que tenho
O herculano entre outras coisas bem sabia distinguir os tempos
sabia o que num tempo é distinto de outro tempo
tinha muitos amigos entre os seus e meus antepassados
e deu sempre à verdade o que os demais costumam dar à vida
Era casmurro abandonou um dia as casas de má nota
deixou o parlamento e a vida literária
e procurou no campo a companhia
de árvores bem mais que os homens verticais
Tinha muito mau génio fulminava com os olhos
franzia a testa e não havia nada que fazer
era teimoso o velho como antero lhe chamava
Penso nele e caminho pelas ruas de peniche
e só vão a meu lado uma má música daquelas
que ferem os ouvidos nestas quadras do natal
e a fotografia num jornal de um elevado dignitário da hierarquia
para quem o mistério do natal não sei bem que mistério ou que natal
encerra o verdadeiro humanismo novo
frase que me provoca comoções
porquanto as aliterações são dos meus pratos favoritos
Vou encerrar-me em casa a sós com herculano
que tanto quanto sei não era humanista
ou que se porventura o era o não sabia
ou não dizia ao menos ser tal coisa como
se duvidássemos que o fosse se é que o era
É dia de natal estou sozinho e penso ler o herculano
que há tanto ano já me não fazia
a falta que me faz precisamente neste dia
em que só me faz falta a sua companhia
Vamos pra minha casa ó herculano
vou fechar as janelas acender a luz
e aguardar contigo o fim do ano
Prefiro-te herculano a músicas e altos dignitários pois
nem talvez tenha já a convicção de quem anualmente
escreve pontual se não contente o seu poema de natal
(Transporte no Tempo)

Ruy Belo (1933-1978)

22 de dezembro de 2018

Os sonhos teus vão acabar contigo

Giovanni Battista Tiepolo
Os sonhos teus vão acabar contigo.
O interesse pela vida austera
Irá desaparecer feito fumaça. Então
Desejos e paixões irão murchar,
O mensageiro do céu não virá a correr
Nem a juventude do ardente pensar…
Para, meu amigo, de tanto sonhar,
Exime o entendimento de morrer.

Daniil Kharms (1905-1942)
Tradução: Aurora Bernardini

21 de dezembro de 2018

Vestibular Unesp 2019 segunda fase

Creation of Adam (detail - hands)
Texto 1
Qual seria a [religião] menos má? Não seria a mais simples? Não seria a que ensinasse muita moral e poucos dogmas? A que se empenhasse em tornar os homens justos sem os tornar absurdos? A que não ordenasse a crença em coisas impossíveis, contraditórias, injuriosas para a Divindade e perniciosas para o gênero humano e não se atrevesse a ameaçar com penas eternas quem quer que tivesse um juízo normal? Não seria a que não sustentasse a sua crença com carrascos e não inundasse a terra com sangue por causa de sofismas ininteligíveis? […] A que unicamente ensinasse a adoração de um só Deus, a justiça, a tolerância e a humanidade?
(François M. A. de Voltaire. Dicionário filosófico, 1984.)
Texto 2
[A religião cristã] ensina […] aos homens estas duas verdades: tanto que há um Deus de que os homens são capazes, quanto que há uma corrupção na natureza que os torna indignos dele. Importa igualmente aos homens conhecer um e outro desses pontos; e é igualmente perigoso para o homem conhecer a Deus sem conhecer a própria miséria, e conhecer a própria miséria sem conhecer o Redentor que pode curá-lo dela. Um só desses conhecimentos faz ou a soberba dos filósofos que conheceram a Deus, e não a sua miséria, ou o desespero dos ateus, que conhecem a sua miséria sem o Redentor.
(Blaise Pascal. Pensamentos, 2015.)
a) Com base no texto 1, justifique por que Voltaire foi um pensador que defendeu a emancipação do gênero humano. Explique por que o caráter dogmático da religião é irracionalista.
b) Justifique por que o texto 2 apresenta um olhar positivo sobre a religião, quando comparado ao texto 1. Explique por que Pascal pode ser considerado um teólogo.

Resposta
a) No texto 1, Voltaire defende a emancipação humana em relação ao papel controlador assumido pelas autoridades eclesiásticas ao estabelecerem os parâmetros do comportamento humano. Para o filósofo, os dogmas religiosos não são demonstráveis, são matéria de crenças que não podem ser racionalmente ou empiricamente contestadas.
b) O texto 2 apresenta a religião como fonte de equilíbrio e autoconhecimento para o ser humano, o que acarretaria uma melhora de vida para os crentes. Se forem considerados teologia os estudos e as reflexões sobre a relação entre divindade e humanidade, pode-se considerar Pascal um teólogo.

20 de dezembro de 2018

O Amanhã

Loretta Lux
Aos vinte anos disseram-me: “Há
Que sacrificar-se pelo amanhã”.
E oferecemos a vida no altar
Do deus que nunca chega.
Gostaria de me encontrar já no final
Com os velhos mestres desse tempo.
Teriam que dizer-me se de verdade
Todo o horror de hoje era o amanhã.

José Emilio Pacheco (1939-2014)

18 de dezembro de 2018

O Destino a ti pertence

Franz von Stuck
Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade. “Acho que tudo está bem”, diz Édipo e essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem. Ensina que nem tudo está perdido, que nem tudo foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto das dores Inúteis. Faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe.
Albert Camus (1913-1960)

16 de dezembro de 2018

O cão que traz um pau na boca

«Um grande inventor respondia um dia a quem lhe perguntava como fazia para ter tantas ideias novas: 'pensando ininterruptamente nelas'. E, de fato, bem pode dizer-se que as ideias inesperadas nos vêm porque estávamos à espera delas. São em grande parte o resultado conseguido de um carácter, de certas inclinações constantes, de uma ambição tenaz, de uma incessante ocupação com elas. Que tédio uma perseverança assim! Mas vista de outro ângulo, a solução de um problema intelectual não acontece de modo muito diferente, como um cão que traz um pau na boca e quer passar por uma porta estreita; vira a cabeça para a esquerda e para a direita tantas vezes até que consegue passar com o pau; o mesmo acontece conosco [...] de repente estamos do outro lado, e sentimos claramente um ligeiro desconcerto em nós pelo fato das ideias terem vindo por sua iniciativa, em vez de esperarem pelo autor.»
Robert Musil (1880-1942)
- “O Homem sem Qualidades”.

14 de dezembro de 2018

O mistério da brutal morte de Hipatia, a primeira matemática da História

Quadro rafaelita representando a escola de Alexandria. No centro, vestindo uma túnica branca e manto carmesim, encontra-se a filósofa Hipátia.
Esta é a história de um assassinato envolvo em mistério. E o enigma não é quem cometeu o crime, nem como, mas sim por quê. Em meados do primeiro milênio, uma mulher erudita foi despedaçada por uma multidão que usou telhas dos telhados e conchas de ostras para cortar a carne viva do seu corpo.

A vítima havia sido professora, conferencista, filósofa e matemática. E despertou a fúria de fundamentalistas cristãos. Era Hipatia, a primeira mulher matemática de que se tem conhecimento seguro e detalhado.
O lugar do crime foi Alexandria, cidade fundada por Alexandre o Grande, em 331 antes de Cristo, e que se converteu rapidamente em um centro de cultura e aprendizado no mundo antigo.
Uma mulher excepcional
Como é comum ocorrer no caso de personagens da antiguidade, o tempo dissipou muitas informações sobre Hipatia. Mas, diversas fontes históricas garantem que ela existiu.
Como poucas mulheres de sua época, Hipatia pode estudar porque era filha de um homem com formação educacional: Teón de Alexandria, astrônomo e prolífico autor, que editou e comentou obras de pensadores como Euclides.
Segundo o filósofo Damacius, Hipatia excedia muito o conhecimento do seu pai: "Ela não se contentou com a educação matemática que poderia receber de seu pai. Seu nobre entusiasmo a conduziu a outras fronteiras da filosofia".
Hipatia professava a filosofia do neoplatonismo e ensinava essas ideias com mais ênfase que os seguidores anteriores dessa corrente. O historiador grego da antiguidade Sócrates Escolástico concordava que a sabedoria de Hipatia era excepcional, assim como sua habilidade para falar em público: "Obteve tais conhecimentos em literatura e ciência, que sobrepassou muito todos os filósofos de sua época. Explicava os princípios da filosofia aos ouvintes, muitos dos quais vinham de longe para receber sua instrução".
"Frequentemente, aparecia em público na presença dos magistrados. E não se sentia envergonhada de ir a uma assembleia de homens. Pois, devido sua extraordinária dignidade e virtude, todos os homens a admiravam".

Inventou um novo e mais eficiente método para fazer grandes divisões

O trabalho de Hipatia era tão importante que ela se converteu na matemática mais importante de Alexandria - e, por extenção, provavelmente na principal matemática do mundo.
Há evidências históricas de que Hipatia fez suas próprias descobertas e inovações. Inventou, por exemplo, um novo e mais eficiente método para fazer grandes divisões. Não haviam calculadoras na época, então, qualquer melhora na eficiência era muito bem vinda.
Além disso, Hipatia esteve envolvida na criação do atrolábio, uma espécie de calculadora astromônica que foi usada até o século 19, e o hidroscópio, um aparato para medir líquido. Nesses casos, Hipatia não foi responsável pela invenção desses artigos, mas foi consultada para desenhá-los.

Entre pagãos e cristãos

No século 4, ocorreu uma importante transição no Império Romano: de um Estado totalmente pagão a um Estado misto pagão e cristão.
Isso gerou conflitos. E Alexandria, no Egito, estava no centro dessa disputa. Era um lugar onde pagãos, judeus e cristãos compartilhavam o mesmo espaço.
Foi esse conflito religioso que decidiu o destino de Hipatia. Para entender o final da história, é preciso conhecer outros dois personagens históricos: Orestes e Cirilo.
No século 5, o prefeito imperial de Alexandria era Orestes, um cristão tolerante com outros grupos religiosos. Já o bispo da igreja de Alexandria era o patriarca Cirilo, um homem nada tolerante - uma das primeiras medidas que tomou após assumir o cargo foi fechar à força um grupo cristão que considerava herege.
Os dois acabaram travando uma batalha por Alexandria. E é este o contexto do assassinato de Hipatia.

Redação BBC News Mundo

13 de dezembro de 2018

[Só mãos verdadeiras]

Pablo Picasso
A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio ato de dar-se
O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta.

Ana Hatherly (1929-2015)

11 de dezembro de 2018

Orla marítima

Claude Monet
O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali para como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios da vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão* solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida.

Ruy Belo (1933-1978)