15 de outubro de 2019

A saída

Alphonse Mucha
Havia no seu corpo uma saída.
Podia através dela ir até onde quisesse, de momento que a porta não ficasse a bater com um ruído que a maior parte das pessoas confundia com o bater do coração. Não consta que o sangue o perseguisse senão muito raramente e mesmo assim não para além da beira-mar.
Trazia há algum tempo na memória um espelho onde quem quer que se abeirasse dele podia contemplar-se. Pelo espelho era possível ver os poços através dos quais a pele desaparece, as ondas momentaneamente imóveis, as areias a assaltar-lhe o coração.
Luís Miguel Nava (1957-1995)

14 de outubro de 2019

Bucólica Nostalgia

Rubens Vargas
Ao entardecer no mato, a casa entre
bananeiras, pés de manjericão e cravo-santo,
aparece dourada. Dentro dela, agachados,
na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo,
rápidos como se fossem ao Êxodo, comem
feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis,
muitas vezes abóbora.
Depois, café na canequinha e pito.
O que um homem precisa pra falar,
entre enxada e sono: Louvado seja Deus!

Adélia Prado

13 de outubro de 2019

Um ofício

Caravaggio
Você só tem que esperar, com a caneta pronta:
Os versos zumbem ao redor como falenas bêbadas;
Uma vem até a chama e você a agarra.
Claro, não terminou, uma não basta,
Mas já é muito, é o início do trabalho.
As outras aterram em disputa ali perto,
Em fila ou em círculo, em ordem ou desordem,
Simples e quietas, obedientes ao seu comando:
Você é quem manda, não se discute.
Se o dia é bom, você as dispõe em fileira.
É um belo trabalho, não? Honrado pelo tempo,
Antigo sessenta séculos e sempre novo,
Com regras precisas ou então lassas,
Ou sem regras, como mais lhe agrada.
Assim se sente em boa companhia,
Não ocioso, não perdido, não sempre inútil,
Nimbado e togado,
Imantado de bisso, laureado.
Só tenha cuidado com a soberba.

Primo Levi (1919-1987)
Tradução: Maurício Santana Dias.

12 de outubro de 2019

Uma vez mais, uma vez mais

Henry Scott Tuke
Uma vez mais, uma vez mais
Sou para você
Uma estrela. Ai do marujo que tomar
O ângulo errado de marear
Por uma estrela:
Ele se despedaçará nas rochas,
Nos bancos sob o mar.
Ai de você, por tomar
O ângulo errado de amar
Comigo: você
Vai se despedaçar nas rochas
E as rochas hão de rir
Por fim
Como você riu
De mim.

Vielimir Klébnikov (1885-1922)
Tradução: Augusto de Campos

11 de outubro de 2019

A Defesa do Poeta

Michelle Reid
Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

Natália Correia (1923-1993)

10 de outubro de 2019

Soneto a Uma Imagem da Virgem

Fra FilippoLippi
Imagem em tudo rara e peregrina,
Retrato de beleza virginal,
Se tão bela te fez a mão mortal,
Que tal faria a própria mão divina?
Belezas nunca vistas imagina
Quem bem te vê no próprio original,
Mas serão sombras, onde a sombra é tal
Que a vista no conceito desatina.

Ficam os mais retratos sombra escura
Diante ti, tu menos ante quem
Tão branda representas, tão formosa.

Se tanta luz uns cegos olhos tem,
Se tal espírito morta formosura,
Qual sereis vós, oh Virgem piedosa?

Diogo Bernardes (1530-1605)

9 de outubro de 2019

LVIII

Eugène Delacroix

Quando o governante é tranquilo e discreto,
O povo é leal e honesto.
Quando o governante é perspicaz e rude,
O povo é desleal e não confiável.
É sobre a infelicidade que repousa a felicidade;
a infelicidade espreita a felicidade.
Quem, no entanto, reconhece que o bem supremo
consiste na inexistência de ordens?
A ordem transforma-se em caprichos
e o bem se converte em superstição
e os dias de cegueira do povo
duram realmente muito tempo.

Assim também o Sábio:
serve de modelo sem castrar os outros,
é escrupuloso sem ferir,
é natural sem ser arbitrário
e brilha sem ofuscar.


Lao Tzu (604 a.C. - 531 a.C.)
Tradução: Margit Martincic

8 de outubro de 2019

Eu vi a linda Jônia…

Thomas Gainsborough

Eu vi a linda Jônia e, namorado,
fiz logo voto eterno de querê-la;
mas vi depois a Nise, e é tão bela,
que merece igualmente o meu cuidado.

A qual escolherei, se, neste estado,
eu não sei distinguir esta daquela?
Se Nise agora vir, morro por ela,
se Jônia vir aqui, vivo abrasado.

Mas ah! que esta me despreza, amante,
pois sabe que estou preso em outros braços,
e aquela me não quer, por inconstante.

Vem, Cupido, soltar-me destes laços:
ou faze destes dois um só semblante,
ou divide o meu peito em dois pedaços!

Alvarenga Peixoto (1742-1793)

7 de outubro de 2019

Aventura doméstica

Willem Haenraets

Sozinho em casa procuro nos armários.
Encontro antigos mapas de estradas,
contratos que venceram, esferográficas
que não escreverão mais cartas, velhas calculadoras
sem pilhas, relógios que o tempo derrotou.
O passado aninha-se no fundo das gavetas
como um rato triste. Vazios, os vestidos pendem
como velhas personagens que nos interpretaram.
Mas de súbito encontro a tua lingerie,
da cor da noite, da areia; fina, com pequenos bordados.
Cuecas, soutiens e meias que desdobro
e que me fazem regressar ao brilhante, embora misterioso,
fundo de amor e sexo: é ele que, de facto,
dá vida às casas, como os faróis e as luzes
de barcos e cafés a um porto ignorado.


Joan Margarit
Tradução: Miguel Filipe Mochila

6 de outubro de 2019

Frase


“Se as portas da percepção
se abrissem, tudo
pareceria como é: infinito.”

William Blake (1757-1827)


Para cultivar pássaros

Jennifer Lommers
Para cultivar pássaros
e falar com as flores
subir à montanha,
capturá-la em seus abismos
com viril delicadeza
mergulhar na amplidão
de suas formas.

Um mergulho perigoso
de onde se sai aos pedaços.

Reunir os cacos
em melancólico mosaico
recompor a paisagem
do que se foi um dia
mesmo sabendo que inteiro
não se é nunca mais.

Dirce de Assis Cavalcanti

► Dirce de Assis Cavalcanti é filha de ➔ Dilermando de Assis aquele que matou Euclides da Cunha.

5 de outubro de 2019

O azul do mar

Pavel Mitov
O azul do mar desprende-se da água.
Dos ossos que cravei na realidade, onde pensava
que o mar se sustivesse e da qual sempre
supus também que o mar alimentasse (de tal forma
por vezes o sentimos
encher-se de realismo), nem um só, mesmo pintado,
subsiste agora
que o tempo tudo apaga à minha volta.

Luis Miguel Nava (1957-1995)

4 de outubro de 2019

As ocasiões do poema

Edouard Manet - Monet pintando
Razão tinha Borges se dizia
não serem cotidianas as ocasiões do poema.
Cuido agora de informes e de róis
o nec plus ultra do ofício
que o pão me justifica
e as ambições me aplaca.

Em mil segundos tudo o que
de privações do espírito me aflige
será memória de poeira
não mais, talvez, poeira de arquivo
de poluição dourada
mas poeira eletrônica
recuperável e irrecuperada.

Li Po cantava o pé da mulher amada
e mil anos o conservam fresco e perfumado.
Mas eu não sou Li Po
e tenho mulher e filhos em quem pensar.

Geraldo Holanda Cavalcanti

3 de outubro de 2019

O Fim da Arte

Ivailo Nikolov
Tu não deves, disse a coruja ao galo silvestre,
tu não deves cantar o sol
O sol não é importante

O galo silvestre tirou
o sol do seu poema

Tu és um artista,
disse a coruja ao galo silvestre

E foi uma beleza de escuridão.

Reiner Kunze
Tradução: Renato Correia

2 de outubro de 2019

Frase


“Felicidade em pessoas
inteligentes é a coisa
mais rara que conheço.”

Ernest Hemingway (1899-1961)


Assim falou Zaratustra

Imortalizado no mundo ocidental pelo livro "Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém" de Nietzsche, o protagonista real da história foi um dos profetas mais importantes do mundo antigo. Zaratustra ou Zoroastro (versão grega do nome) nasceu na Pérsia (Irã atual), provavelmente no século VII a.C.. Ele foi o fundador do Zoroastrismo ou Masdeísmo, a primeira religião monoteísta registrada na história da humanidade.
Zaratustra e os pensadores (Quadro de Rafael Sanzio)
A vida do profeta
Zaratustra nasceu para realizar grandes feitos e prodígios. Segundo a lenda, ao nascer, Zaratustra não chorou e em vez disse riu. As parteiras, vendo aquilo, admiraram-se, pois nunca tinham visto um bebê rir ao nascer. Na vila onde morava, o sacerdote local percebeu que aquele menino iria enfraquecer as religiões politeístas e tentou de todas as formas matá-lo com testes que provariam que ele tinha um demônio. Graças a milagres, Zaratustra sobreviveu a todos os testes. Diante de tantos prodígios o sacerdote ficou envergonhado e mudou-se do local.
Ao crescer, Zaratustra peramburalava pelas estepes meditando e indagando as questões universais sobre a criação e o pensamento humano. Um dia, ele encontrou um ser estranho com o nome de "Vohu Mano, a Boa Mente" que o levou a um lugar maravilhoso onde sete outros seres o esperavam. Então Boa Mente disse "Zaratustra, se você quiser, pode encontrar em você mesmo todas as respostas que tanto busca e também questões mais interessantes ainda. Aúra-Masda, deus que tudo cria e sustenta, assim escolheu partilhar a sua divindade com os seres que cria. Agora, sabendo disso, você pode anunciar essa mensagem libertadora a todas as pessoas." Zaratustra com modéstia: "Por que eu? Não sou poderoso e nem tenho recursos!". Os outros seres responderam: "Você tem tudo o que precisa, o que todos igualmente têm: Bons pensamentos, boas palavras e boas ações". Zaratustra voltou para casa e contou a todos o que lhe acontecera. Ele tinha 30 anos.
A voz do deserto
Suas ideias iniciamente foram rejeitadas por todos. Em dez anos de pregação teve somente um crente: o seu primo. Durante este período, o chamado de Zaratustra foi como uma voz no deserto. Ninguém o escutava. Ninguém o entendia. Foi perseguido e hostilizado pelos sacerdotes e por toda a sorte de inimigos ao longo de dez anos. Os príncipes recusaram dar-lhe apoio e proteção e encarceraram-no porque a sua nova mensagem ameaçava a tradição e causava confusão nas mentes de seus súditos.
Com 40 anos, realizou milagres e preocupava-se com a instrução do povo. Converteu o rei Vishtaspa, que se tornou um fervoroso seguidor da religião por ele pregada, iniciando a verdadeira difusão dos ensinamentos de Zaratustra e de uma grande reforma religiosa. O Masdeísmo chegou a ser a religião oficial da Pérsia. Aos 77 anos de idade ele teria morrido assassinado por um sacerdote enquanto rezava no templo. Segundo alguns relatos, o seu túmulo estaria em Persépolis.
Zoroastrismo: Bem e o Mal
Na doutrina zaratustriana, antes de o mundo existir, reinavam dois espíritos ou princípios antagônicos: os espíritos do Bem, representados pelo deus Aúra-Masda, e do Mal. O mal era representado pela serpente. Ela era a criadora de tudo que há de ruim (crime, mentira, dor, secas, trevas, doenças, pecados, entre outros), hostil, destruidora, que vive no deserto entre sombras eternas. No entanto, Aúra-Masda, é o criador original, organizador do mundo perfeito.
Bem e Mal não são apenas valores morais reguladores da vida cotidiana dos humanos, mas são transfigurados em princípios cósmicos, em perpétua discórdia. A luta entre Bem e Mal origina todas as alternativas da vida do universo e da alma humana.
Faça boas ações
Zaratustra propõe que o homem encontre o seu lugar no planeta de forma harmoniosa, porém são livres para pecar ou para praticar boas ações. Contudo serão recompensados ou punidos na vida futura conforme a sua conduta.
Os principais mandamentos são: falar a verdade, cumprir com o prometido e não contrair dívidas. O homem deve tratar o outro da mesma forma que deseja ser tratado. Por isso, a maior regra do Masdeísmo é: "Age como gostarias que agissem contigo".
A vinda do messias e Nietzsche
De acordo com os seus ensinamentos, o mundo duraria 12 mil anos. No fim de nove mil anos, ocorreria a segunda vinda de Zaratustra como um sinal e uma promessa de redenção final dos bons. Isso seria seguido do nascimento miraculoso do messias, cuja missão seria aperfeiçoar os bons para o fim do mundo e para a vitória do Bem sobre as forças do Mal. A cada mil anos viria um messias.
Assim, nos últimos três milênios, três messias preparariam a completude do grande ano cósmico. É neste sentido que Nietzsche menciona Zaratustra como "aquele que compreendeu a História em toda a sua completude".

1 de outubro de 2019

Bosque da maldição

Pierre Puvis de Chavannes
Bosque da maldição
estandarte do crepúsculo
destinos chegam
para repousar

Coleções de cadáveres
boiam sob a terra
nomes esquecidos
brotam com as pedras

Dias perdidos
sóis esparramados
feito nuvens mortas
afogam-se no rio

Os séculos conversam por telefone
apenas a mentira
imagina ter direito ao regresso.

Miodrag Pávlovitch (1928-2014)
Tradução: Aleksandar Jovanovic

30 de setembro de 2019

Pobre amor

Ostritskogo Arcadia Gershevich
Calcula, minha amiga, que tortura!
Amo-te muito e muito, e, todavia,
Preferira morrer a ver-te um dia
Merecer o labéu de esposa impura!

Que te não enterneça esta loucura,
Que não te mova nunca esta agonia,
Que eu muito sofra porque és casta e pura,
Que, se o não foras, quanto eu sofreria!

Ah! Quanto eu sofreria se alegrasses
Com teu beijos de amor, meus lábios tristes,
Com teus beijos de amor, as minhas faces!

Persiste na moral em que persistes.
Ah! Quanto eu sofreria se pecasses,
Mas quanto sofro mais porque resistes!

Aluísio Azevedo (1857-1913)

29 de setembro de 2019

Frase


Vincent van Gogh
“A ambição universal dos homens
é viver colhendo
o que nunca plantaram.”

Adam Smith (1723-1790)


O Sol

Michael James Smith
Diariamente, o sol amarelo vem por cima do monte.
Bela é a floresta, o animal sombrio,
O homem: caçador ou pastor.

Fulvo, emerge o peixe no lago verde.
Sob a curva do céu
Desliza levemente o pescador no barco azul.

Lentamente, amadurece a uva, o trigo.
Quando, no silêncio, declina o dia,
Obras boas e más estão preparadas.

Quando chega a noite
O viajante ergue levemente as pesadas pálpebras;
De sombrio abismo jorra sol.

Georg Trakl (1887-1914)
Tradução: João Barrento

28 de setembro de 2019

Musa pueril

Jean-Antoine Watteau
Um não sei quê de glória, e de tormento,
Um és, não és, de gosto, e de alegria,
Uma paixão, que engana a fantasia,
Me traz entre o pesar contentamento.

Uma aflição cruel entre o lamento,
Uma doidice em um, e outro dia,
Uma doce esperança em que se fia,
Me dá conforto ao bem no pensamento.

Um tal desassossego, que me rende
Uma valente dor, que me não cansa,
É a que mais me mata, e não me ofende.

Isto é amor, que posto em fiel balança,
Se a cousa amada com mais fé se atende,
Nunca se sabe o fim a uma esperança.

João Cardoso da Costa

27 de setembro de 2019

Meu Epitáfio

Carlos Almaraz
Morta, serei árvore
serei tronco, serei fronde
e minhas raízes enlaçadas às pedras de meu berço
são as cordas que brotam de uma lira

Enfeitei de folhas verdes
a pedra de meu túmulo num simbolismo
de vida vegetal.

Não morre aquele
que deixou na terra
a melodia de seu cântico
na música de seus versos.

ℂora ℂoralina (1889-1985)

26 de setembro de 2019

Uma ideia

Jiri Petr
Me veio uma ideia
para um versinho? para um poema?
Está bem – digo – fique, vamos bater um papo.
Você tem de me contar mais sobre si mesma.
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
Ah, então é isso – digo – interessante.
Faz tempo que estas coisas me pesam no peito.
Mas fazer versos sobre elas? Não, nem pensar.
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
Isso é só impressão sua – respondo –
você superestima minhas forças e capacidade.
Não saberia nem por onde começar.
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
Você se engana – digo – um poema curto e conciso
é muito mais difícil de escrever do que um longo.
Não me canse, não insista, não vai dar.
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
Que seja, vou tentar, já que você insiste.
Mas já vou avisando do resultado.
Vou escrever, rasgar e jogar no cesto de lixo.
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
Você tem razão – digo – decerto que há outros poetas.
Alguns farão isto melhor que eu.
Posso lhe dar os nomes, endereços.
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
É claro que vou ficar com inveja deles.
Invejamos uns aos outros até os poemas medíocres.
E me parece que este precisa... que tem que ter...
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
É isso, ter as características que você enumerou.
Portanto, melhor mudar de assunto.
Que tal um café?

Ao que ela apenas soltou um suspiro.

E começou a sumir.

E sumiu.

Wisława Szymborska (1923-2012)
Tradução: Regina Przybycien