terça-feira, maio 24, 2022

Mulheres que aguardam navios

Eugène Benoît Baudin

As pequenas torres alvas,
postadas sobre os telhados, feitas certa vez
para esperar navios de outrora.
Parecem lanternas,
Gaiolas partidas de onde a luz escapou.
Recipientes celestiais para lágrimas...

Sinto que essas figuras também estão vazias
Porque deixamos
de notar
as pequenas torres alvas,
destinadas às solitárias,
às eternamente à espera,
às mulheres dos capitães.

Estamos cercados por outros oceanos.
Os submarinos atômicos estendidos atravessados
no fundo de Groton.
Mas por certo eles também já se tornaram
figuras esvaziadas de um tempo exaurido...

Ainda assim, tudo permanece
para preencher-nos, brilhar em nós,
enquanto rechaçamos longas ondas,
mas e depois?

Sobrevivestes apenas vocês,
mulheres silentes, tristes e formosas,
mulheres
que aguardam baleeiras...

Aparições do antigo porto,
Afundaremos.
Vocês não são capazes de acreditar.

Querida,
abre as portas do sonho –
vou-me.
Retorno voluntário
à gaiola para as labaredas.

Desponta, no entanto, um cosmos estrelado.
Meu coração envia o seu sinal a você.

O farol marinho pulsa em dactílicos –
Duas luzes curtas e uma longa treva.

Liubomir Lévtchev (1935-2019)

segunda-feira, maio 23, 2022

Quem é quem?

Steven Kenny

Posso dizer: estou pronto
para me dar ao que vier.
Posso errar, mas não por medo
de me ser no que fizer.
Quem me pode responder
que sabe ser, sendo inteiro
fiel e simples, sendo a tudo
que faz e não quer fazer?

Thiago de Mello (1926-2022)

sábado, maio 21, 2022

Dialetos

Keith Jarrett

Amo os pianos que tocam sozinhos
entre o mofo das paredes
e o silêncio da casa vazia.
Amo os lobos que uivam sozinhos
e a noite que os acolhe
na solidão das ravinas.
Amo as criaturas que falam sozinhas
diante da erudição dos parvos
e sua inepta afasia.

Alexandre Marino

sexta-feira, maio 20, 2022

A Poesia

Jarek Grudzinski

Chegas, silenciosa, secreta,
e despertas os furores, os gozos,
e esta angústia
que acende o que toca
e engendra em cada coisa
uma avidez sombria.

O mundo cede e se desmancha
como metal ao fogo.
Entre minhas ruínas me ergo,
sozinho, desnudo, despojado,
sobre a rocha imensa do silêncio,
como um solitário combatente
contra invisíveis tropas.

Verdade abrasadora,
para o que me empurras?
Não quero tua verdade,
tua insensata pergunta.
Para que esta luta estéril?
Não é o homem criatura capaz de conter-se,
avidez que só na sede se sacia,
chama que a todos os lábios consome,
espírito que não vive em nenhuma forma
mas faz arder todas as formas.

Sobes desde o mais fundo de mim,
desde o centro inominável de meu ser,
exército, maré.
Cresces, tua sede me afoga,
expulsando, tirânica,
aquilo que não cede
à tua espada frenética.
Já tão somente tu me habitas,
tu, sem nome, furiosa substância,
avidez subterrânea, delirante.

Golpeiam meu peito teus fantasmas,
despertas para meu tato,
gelas minha testa,
abres meus olhos.

Percebo o mundo e te toco,
substância intocável,
unidade de minha alma e de meu corpo,
e contemplo o combate que combato
e minhas bodas de terra.

Nublam meus olhos imagens opostas,
e as mesmas imagens
outras, mais profundas, negam-nas,
ardente balbucio,
águas que afoga uma água mais oculta e densa.
Em sua húmida treva vida e morte,
quietude e movimento, são o mesmo.

Insiste, vencedora,
porque existo tão somente porque existes,
e minha boca e minha língua se formaram
para dizer tão somente tua existência
e tuas secretas sílabas, palavra
impalpável e despótica,
substância de minha alma.

És tão somente um sonho,
porém em ti sonha o mundo
e sua mudez fala com tuas palavras.
Ao tocar teu peito roço
a elétrica fronteira da vida,
a treva de sangue
onde pactua a boca cruel e enamorada,
ávida ainda por destruir o que ama
e reviver o que destrói,
com o mundo, impassível
e sempre idêntico a si mesmo,
porque não se detém em nenhuma forma
nem se demora sobre o que engendra.

Leva-me, solitária,
leva-me entre os sonhos,
leva-me, mãe minha,
desperta-me do todo,
me faz sonhar teu sonho,
unta meus olhos com azeite,
para que ao conhecer-te me conheça.

Octavio Paz (1914-1988)
Tradução: Floriano Martins

Os Filósofos

Jacques-Louis David - A Morte de Sócrates

Ante o empolgamento
que foi galvanizando
sucessivamente
os frades copistas,
os geômetras,
os astrônomos,
os pálidos almirantes com suas lunetas,
os monarcas augustos com suas esferas armilares,
e os tabeliões
Ante as maravilhas da Ciência
e do Progresso Tecnológico,
Aconteceu que
os filósofos, pouco a pouco,
com suas ideias vagas,
suas caraminholas na cabeça,
um após outro,
entre chacotas mal disfarçadas,
foram sendo jogados ao mar,
tichipum, tichipum,
por cima do parapeito do convés
do Barco do Conhecimento
que navega por mares ignotos,
levando à proa
a orgulhosa máscara
de Francis Bacon...

Cuidado, Capitão,
cuidado...

Carlos Saldanha

quinta-feira, maio 19, 2022

A Galinha

Mauro DeVereaux

A Galinha
Morta
Flutua no chão
Galinha.

Não teve mar, nem
Quis, nem compreendeu
Aquele ciscar quase feroz. Ciscava.
Olhava o muro.

Aceitava-o negro e absurdo.
Nada perdeu. O quintal
Não tinha
Qualquer beleza.

Agora
As penas são só o que o vento
Roça, leves.
Apagou-se-lhe
Toda cintilação, o medo.
Morta. Evola-se do olho seco
O sono. Ela dorme.

Onde? Onde?

Ferreira Gullar (1930-2016)

segunda-feira, maio 16, 2022

Poema

Hans Zatzka

A vida é uma cereja
A morte um caroço
O amor uma cerejeira.

Jacques Prévert (1900-1977)

domingo, maio 15, 2022

A coisa mutante

Martin Johnson Heade

O tempo
é coisa mutante
e o seu emissário
o Vento
lembra sempre
a todo instante
que este “sempre”
é inconstante
e o que é, já foi
ou seria
e o que vai ser
se anuncia
num passado ancestral,
que não garante alforria
do presente ou do futuro
fruto de vez ou maduro
mas ai de quem imagina
que O domina
e na ilusão,
perde o tempo da existência
por não entender a valia
do tempo
do dia a dia.

Abel Silva

sexta-feira, maio 13, 2022

Outono

Paul Allier

O outono é a mágica da Natureza! É sua estrondosa celebração. Último suspiro? Talvez. Mas quem não gostaria de morrer depois do aplauso encerrando o maior espetáculo da Terra? Para começar há a despedida da umidade asfixiante dos dias de calor extremo do verão. Sim, porque verão no hemisfério norte nem sempre quer dizer temperaturas amenas. Dias claros, sem chuva, são característicos da época. E flores, crisântemos e seus primos, margaridões, margaridas e mal-me-queres aparecem vestidos da cores da época, refletindo as mudanças das árvores. Lá vem eles em potes, nos canteiros, mas guirlandas decorativas das casas, nos jardins, amarelos, laranjas, vermelho escuros, quase marrons.
O outono é a estação das colheitas, da preparação para a sobrevivência no inverno. É o ponto de partida para garantirmos, tanto quanto possível, a continuação da vida. É a época do investimento. Dos frutos colhidos se tornarem comida para os meses seguintes. É a hora de usarmos os conhecimentos ancestrais, de avós e bisavós, para enchermos a despensa com geleias, salgar os peixes, as carnes, secar as flores, as folhas para os chás, de fazer conservas de frutas e legumes. É também a época de plantar os bulbos que só virão a florescer na primavera: tulipas, narcisos, jacintos, anêmonas, lírios e muitos outros que necessitam de hibernação. Portanto, é uma estação encantadora, num bom ano, repleta de alegrias.

segunda-feira, maio 09, 2022

 Maio

Maurice B. Prendergast

Maio nasceu nas grutas das colinas.
Nas colinas azuis Maio nasceu.
As suas mãos são pombas cristalinas
e paira-lhe na boca, entre cravinas,
o sorriso melódico de Orfeu.

Maio nasceu nas grutas das colinas.
Nas colinas azuis Maio nasceu.
Ao pé de Maio as musas bailarinas
estão bailando esgalgas e mais finas
que uma jarra, uma lira, um caduceu.

Maio nasceu nas grutas das colinas.
Não vá feri-lo o temporal judeu!
Seus cabelos são como os das ondinas,
verdes madeixas muito esmeraldinas,
mais verdes do que os olhos de Nereu.

Porque Maio nas grutas das colinas
há cinco dias, cândido, nasceu,
a terra veste galas e boninas
e está, por entre as rosas solferinas,
mais bela que a Marília de Dirceu.

Maio nasceu nas grutas das colinas,
com seu lindo perfil de camafeu.
Maio das rezas, das canções divinas,
irmão das doces musas bailarinas,
filho das rosas, adorado meu.

Sosígenes Costa (1901-1968)

domingo, maio 08, 2022

Os Lobos

Lucie Bilodeau

Há lobos de tocaia no quarto aí do lado.
De cabeça abaixada, tensos, respirando
No escuro, contra o nada; há entre nós
Alva porta crivada pela luz do vestíbulo
Onde parece nunca (tão calma a casa) alguém
Ter andado da porta até a escada.
Eu, que anjos engendrei e arquidemônios,
Jamais vi sentar-se alguém no quarto ao lado,
Transbordante de lobos e afirmo, para honra
Dos homens, que eu tampouco. Mas, enquanto
Buscava, à janela fria, a estrela vespertina,
E assobiava quando Arturo vertia sua luz,
Ouvi o rugir dos lobos e disse: então é isto
O homem: então – que conclusão melhor tirar? –
O dia não virá depois da noite, e o coração
Do homem tem certa dignidade, porém menos paciência
Que o de um lobo, e sentidos embotados, incapazes
De farejar sua própria mortalidade. (Estas e outras
Meditações são mais para outros tempos, quando
O silêncio canino uivar seu epitáfio).
Agora lembra-te, coragem, vai e abre a porta.
Vê como envolta na cama, ou enroscada
Junto à parede, uma besta selvagem
Talvez de juba de ouro, de olhos fundos
Tal aranha peluda em piso ensolarado,
Rosnará para ti, rilhando os dentes
– Pois o homem não pode estar a sós.

Allen Tate (1899-1979)
Tradução: Mário Faustino

Guerra

Silvestro Lega

São meus filhos. Gerei-os no meu ventre.
Via-os chegar, às tardes, comovidos,
nupciais e trementes
do enlace da Vida com os sentidos.

Estiveram no meu colo, sonolentos.
Contei-lhes muitas lendas e poemas.
Às vezes, perguntavam por algemas.
Respondia-lhes: mar, astros e ventos.

Alguns, os mais ousados, os mais loucos,
desejavam a luta, o caos, a guerra.
Outros sonhavam e acordavam roucos
de gritar contra os muros que há na Terra.

São meus filhos. Gerei-os no meu ventre.
Nove meses de esperança, lua a lua.
Grandes barcos os levam, lentamente...

Natércia Freire (1919-2004)

quarta-feira, maio 04, 2022

Teu verdadeiro amor

Ichiro Tsuruta

"Atuo em todos os planos da vida, em todas as coisas. [...] Lembra que Eu te escolho: não és tu que Me escolhes. Todavia, Me escolhes quando me vês como sou. Isso te leva a confiar em Mim, e às vezes tua escuridão é abrandada pelos raios de Amor que te envio.
Na medida em que recebes mais fé, e te libertas da consciência-eu, Me aproximo mais de ti. Ainda Me deixas te visitar de vez em quando, e ter um pouco do teu amor; mas algum dia te conquistarei por inteiro, e tu e Eu seremos Um para sempre.
Jacob Beilhart (1867-1908)
Texto extraído do Capítulo 8: - Te amo, pois Sou Amor -

sábado, abril 30, 2022

Poema Relativo

Albert Eckhout

Vem, ó
bem-amada
Junto à minha casa
Tem um regato (até quieto o regato).

Não tem pássaros que pena!

Mas os coqueiros fazem,
Quando o vento passa,
Um barulho que às vezes parece
Bate-bate de asas.

Supõe, ó bem-amada,
Se o vento não sopra,
Podem vir borboletas
À procura das minhas jarras
Onde há flores debruçadas,
Tão debruçadas que parecem escutar.

Todos os homens têm seus crentes,
Ó bem-amada:
– os que pregam o amor ao próximo
e os que pregam a morte dele.

Mas tudo é pequeno
E ligeiro no mundo, ó amada.
Só o clamor dos desgraçados
É cada vez mais imenso!

Vem, ó bem-amada.
Junto à minha casa
Tem um regato até manso.
E os teus passos podem ir devagar
Pelos caminhos:
– aqui não há a inquietação
de se atravessar o asfalto.

Vem, ó bem-amada,
Porque como te disse
Se não há pássaros no meu parque,
Pode ser, se o vento
Não soprar forte
Que venham borboletas.
Tudo é relativo
E incerto no mundo.
Também tuas sobrancelhas
Parecem asas abertas.

Jorge de Lima (1893-1953)

terça-feira, abril 26, 2022

 Recado

Frank Dicksee

Se eu morrer longe
sepulta-me no mar
dentro das algas ignorantes
e lúcidas.

Cobre o meu rosto de palavras
antigas
e de música.

Deixa em meus dedos
a memória mais recente
de outras coisas inúmeras

e nos meus cabelos
o incerto movimento
do vento e da chuva.

Eu vogarei sob as estrelas
com pálidas luzes entre os cílios
e pequenos caramujos
entrarão nos meus ouvidos.

Estarei assim idêntica
a todos os motivos.

Glória de Sant'Anna (1925-2009)

domingo, abril 24, 2022

Robespierre

Maximilien de Robespierre - Pintor anônimo

Alma inquebrável – bravo sonhador
De um fim brilhante, de um poder ingente,
De seu cérebro audaz, a luz ardente
É que gerava a treva do Terror (6)!

Embuçado num lívido fulgor,
Su’alma colossal, cruel, potente,
Rompe as idades, lúgubre, tremente,
Cheia de glórias, maldições e dor!

Há muito que, soberba, essa’alma ardida
Afogou-se cruenta e destemida
– Num dilúvio de luz. Noventa e três...

Há muito já que emudeceu na história
Mas ainda hoje a sua atroz memória
É o pesadelo mais cruel dos reis!....

Euclides da Cunha (1866-1909)
Robespierre: político francês (1758-1794). Advogado. Deputado na Assembleia Constituinte de 1785, como representante do Terceiro Estado (o Povo, isto é, a burguesia). Os outros dois Estados ou classes sociais eram a Nobreza e o Clero. Esses “Estados” desapareceram com a Revolução Francesa. Apelidado “O Incorruptível”, por sua rigidez moral. Dominando a anarquia revolucionária, impôs-se como ditador da França e instalou o “Grande Terror”, com a eliminação dos partidos da oposição. Uma coligação de moderados derrubou-o, julgou-o por crimes contra o povo e o condenou à guilhotina, com outros seguidores. Poema datado de 1883.

(6). Terror: nome dado a dois períodos da Revolução Francesa: o Primeiro Terror (agosto e setembro de_1792) se caracterizou pela prisão do rei Luís XVI, quando ele fugia para a Áustria, e a consequente invasão da França pela Prússia. O Segundo Terror (setembro de 1793 a julho de 1794) caracterizou-se pela ditadura de Robespierre, a eliminação do partido dos girondinos (moderados) e o julgamento perante o Tribunal Revolucionário de numerosos suspeitos de atividades contrarrevolucionárias e de oposição a Robespierre, com a condenação à guilhotina de muitos deles. O regime despótico de Robespierre acabou levando-o, igualmente, a ser deposto e guilhotinado.

Danton

Retrato de Georges Danton por Constance M. Charpentier

Parece-me que o vejo iluminado,
Erguendo delirante a grande fronte
– De um povo inteiro o fúlgido horizonte
Cheio de luz, de ideias constelado!

De seu crânio vulcão – a rubra lava
Foi que gerou essa sublime aurora
– Noventa e três (2) – e a levantou sonora
Na fronte audaz da populaça brava!

Olhando para história – um século e a lente
Que mostra-me o seu crânio resplandente
Do passado através o véu profundo...

Há muito que tombou, mas inquebrável
De sua voz o eco formidável
Estruge ainda na razão do mundo!

Euclides da Cunha (1866-1909)
Danton (1759-1794). Advogado e político francês. Revolucionário. Desempenhou papel de destaque durante a Revolução Francesa (1789). Foi ministro da Justiça, deputado e membro do Conselho Executivo Provisório de 1792. Grande orador. Guilhotinado em Paris, em 1793, durante o “Terror”. Euclides lhe grafa o nome de acordo com as tradições e regras vernáculas, hoje esquecidas. Este soneto está datado de 1883.

(2). Noventa e três: referência ao ano de 1793, de grande significado na história da Revolução Francesa, quando foi aprovada a Constituição do Ano 1, da República. Período do “Terror”, com a vitória dos radicais (Robespierre) e a instalação da guerra civil entre republicanos e realistas (partidários da monarquia deposta).

Marat

A Morte de Marat - Jacques-Louis David

Foi a alma cruel das barricadas!...
Misto de luz e lama!... se ele ria,
As púrpuras (4) gelavam-se e rangia
Mais de um trono, se dava gargalhadas!...

Fanático da luz... porém seguia
Do crime as torvas, lívidas pisadas.
Armava, à noite, aos corações ciladas,
Batia o despotismo à luz do dia.

No seu cérebro tremente negrejavam
Os planos mais cruéis e cintilavam
As ideias mais bravas e brilhantes.

Há muito que um punhal gelou-lhe o seio...
Passou... deixou na história um rastro cheio
De lágrimas e luzes ofuscantes.

Euclides da Cunha (1866-1909)
Marat: jornalista e político revolucionário francês, da extrema esquerda (1743-1793). Fundador e redator do jornal popular L’Ami du peuple. Deputado, eleito por Paris, decidiu pela condenação à morte de Luís XVI. Morreu apunhalado por Carlota Corday, quando tomava um banho de banheira. Este soneto é datado de 1883.

(4). Púrpura: cor vermelha; matéria corante vermelha, utilizada antigamente para tingir mantos e tecidos ricos, usados pelos imperadores, césares, reis, cardeais, etc. Símbolo da nobreza e alta dignidade. Figura de retórica empregada pelo poeta com o significado de “tronos”, “coroas”, os “reis”, a monarquia, o poder real, o absolutismo reinante.

Louis Antoine Léon de Saint-Just

Saint-Just por Pierre-Paul Prud’hon

Quando à tribuna ele se ergueu, rugindo,
– Ao forte impulso das paixões audazes –
Ardente o lábio de terríveis frases
E a luz do génio em seu olhar fulgindo,

A tirania estremeceu nas bases,
De um rei na fronte ressumou, pungindo (10),
Um suor de morte e um terror infindo
Gelou o seio aos cortesãos sequazes... (11)

Uma alma nova ergueu-se em cada peito,
Brotou em cada peito uma esperança,
De um sono acordou, firme, o Direito –

E a Europa – o mundo – mais que o mundo, a França –
Sentiu numa hora sob o verbo seu
As comoções que em séculos não sofreu!...

Euclides da Cunha (1866-1909)
Saint-Just: político francês (1767-1794). Deputado na Convenção (1792), amigo de Robespierre. Membro do partido radical (jacobinos). Advogou a execução do rei, sem julgamento, e bateu-se por uma república igualitarista. Foi apelidado de “O Teórico do Terror”. Ministro do Exército, foi derrubado do poder com Robespierre e foi, com este, condenado à guilhotina.

(10). Pungir: causar grande dor moral.

(11). Cortesãos sequazes: aduladores, bajuladores que seguem atrás do rei; que vivem na Corte ou nos palácios dos nobres e governantes, à custa de elogios aos que estão no poder; “puxa-sacos”.

Noite

Pablo Picasso

Roxos e brancos foram descartados,
sobre o verde jogaram um monte de ducados,
e nas palmas negras das mãos das janelas,
distribuíram incendiárias cartas amarelas.

Avenidas e praças não pareciam surpreendidas
ao vislumbrarem togas azuis sobre as casas.
E fogos cercavam de braceletes, como feridas
amarelas, pernas que há pouco tinham asas.
A turba – gato furtivo de pelo multicor –
flutuava, sinuosa, em busca de portas-guizo;
todos queriam tirar um pouco do calor
da enorme bola rolante do riso.

Ao apelo de vestes que pediam patas,
infiltrei em seus olhos um sorriso gaio;
negros gaiatos gargalharam batendo latas,
e em suas frontes floriam asas de papagaio.

Vladimir Maiakovski (1893-1930)
Tradução: Augusto de Campos

domingo, abril 17, 2022

-Toulouse Lautrec

Porque me dás a mão
com timidez e às escondidas?
Tão longínquo é o país de onde vens?
Não conheces o nosso vinho?

Vives em tamanha solidão
que não conheces a nossa tão bela ferocidade
quando estamos um no outro
com o coração e com o sangue?

Não conheces as alegrias diurnas
quando se vai com o amado?
Nem conheces a despedida vespertina
de quem vai de luto sofrendo?

Vem comigo e deseja-me,
não penses nos teus medos.
Conseguirás ser sincero?
Vem, toma e dá!

Logo percorreremos os campos dourados
- papoila e trevo silvestre -
mais tarde, o mundo inteiro
nos fará sofrer

quando sentirmos que a recordação
sopra com força o vento
quando, estremecendo, a nossa alma
suspirar pela ternura sonhada.

Hannah Arendt (1906-1975)
Tradução: José Aigner

Amor

Charles James Lewis

Amor significa aprenderes a olhar para ti próprio,
Da mesma maneira que olhamos para coisas distantes,
Para ti és apenas uma coisa entre muitas.
E aquele que assim vê, cura o seu coração,
Sem o saber, de vários males –
Um pássaro e uma árvore dizem-lhe: Amigo.

Depois ele quer usar-se e às coisas,
De modo que permaneçam no brilho da maturidade.
Não importa se ele sabe o que serve:
Aquele que serve melhor nem sempre compreende.

Czeslaw Milosz (1991-2004)
Tradução: Carlos Machado

sábado, abril 16, 2022

As Adolescentes

Constance Rea

A pele mosqueada da maçã reineta,
um ar vago e doce, feliz.
Subitamente correm como rapazes,
são a corda do arco
que se dilata e a seta do corpo
chega aos quinze anos,
quando abrem as ancas
e amam como se fossem mães.

António Osório

sexta-feira, abril 15, 2022

Rapariga descalça

Domingo Álvarez Gómes

Chove. Uma rapariga desce a rua.
Os seus pés descalços são formosos.
São formosos e leves: o corpo alto
parte dali, e nunca desprende.

A chuva em Abril tem o sabor do sol:
cada gota recente canta na folhagem,
O dia é um jogo inocente de luzes,
de crianças ou beijos, de fragatas.

Uma gaivota passa nos meus olhos.
E a rapariga - os seus formosos pés -
canta, corre, voa, é brisa, ao ver
o mar tão próximo e tão branco.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

quarta-feira, março 30, 2022

Muitas vezes verifiquei…

Gustav Klimt

Muitas vezes verifiquei que os homens dão pouca importância às palavras. Vou explicar-me. Uma pessoa banal (com banal não quero eu dizer que seja tola, apenas alguém que não é relevante) tem uma ideia qualquer que é de censura a uma instituição ou a uma opinião generalizada; sabe que a grande maioria pensa o contrário e por tal razão cala-se, pensa que não lhe convém falar e argumenta que a discussão não altera nada. É um grande erro. Eu atuo de outra maneira. Censuro, por exemplo, a pena de morte. Quando a ocasião se proporciona declaro-o, não porque esteja convencido de que os Estados vão fazer a sua abolição no dia seguinte, mas por estar convencido de que vou contribuir para o triunfo da minha opinião. É indiferente que ninguém esteja de acordo. As minhas palavras não caem em saco roto. Talvez alguém chegue a repeti-las, e possam ir ter a ouvidos que as ouçam e apoiem. Pode ser que alguém, entre os que não concordam agora, no futuro vá recordá-las em circunstância favorável e, havendo o concurso de outras circunstâncias, se convença ou ponha em dúvida a sua convicção, que lhe é contrária. E o mesmo se passa com outros problemas sociais, e outras coisas em que é sobretudo necessário haver Ação. Reconheço que sou um covarde e não posso atuar. Limito-me, por isso, a falar. Embora não acredite que as minhas palavras sejam supérfluas. Outro existirá que vai atuar. E as minhas palavras – palavras de um cobarde – vão facilitar-lhe a atuação. Prepara-lhe o terreno.
Konstantinos Kaváfis (1863-1933)
Tradução: João Carlos Chainho