26 de abril de 2018

Maluquices do H

O H é letra incrível,
muda tudo de repente.
Onde ele se intromete,
tudo fica diferente…
Se você vem para cá,
Vamos juntos tomar chá.
Se o sono aparece,
tem um sonho e adormece.
Se sai galo do poleiro,
pousa no galho ligeiro.
Se a velha quiser ler,
vai a vela acender.
Se na fila está a avó,
vira filha, veja só.
Se da bolha ele escapar,
Uma bola vai virar.
Se o bicho perde o H,
com um bico vai ficar.
Hoje com H se fala,
sem H é uma falha.
Hora escrita sem H,
ora bolas vai ficar.
H é letra incrível,
muda tudo de repente.
Onde ele se intromete,
tudo fica diferente…

Pedro Bandeira

24 de abril de 2018

Do ciclo Dança da morte

Connie Chadwell
Noite. Fanal. Rua. Farmácia.
Uma luz estúpida e baça.
Ainda que vivas outra vida,
Tudo é igual. Não há saída.

Morres – e tudo recomeça,
E se repete a mesma peça:
Noite – rugas de gelo no canal.
Farmácia. Rua. Fanal.

Aleksandr Blok (1880-1903)
Tradução: Augusto de Campos.

22 de abril de 2018

Minha vida, uma arma carregada

William Powell
Minha vida, uma arma carregada,
Ficou pelos cantos até o dia
Em que o dono passou, e, ao reconhecer-me,
Levou-me dali consigo.

Agora, vagueamos por régios bosques
E damos caça ao cervo;
E sempre que por meu amo falo,
Os montes respondem céleres.

Se eu sorrio, uma luz tão calorosa
Rebrilha por sobre o vale
Como se a face de um Vesúvio
Seu prazer deixasse vazar.

E, cumprido mais um dia, estar à noite
Em guarda à cabeceira de meu mestre
É melhor que partilhar
Um farto travesseiro de penas.

De seu inimigo, mortal inimiga sou
E, ao que insiste em afrontá-lo,
Oponho um olho amarelo
Ou um polegar enfático.

Embora mais que ele, talvez eu viva,
Mais que eu deveria ele viver;
Pois tenho tão só o poder de matar,
Não me é dado o poder de morrer.

Emily Dickinson (1830-1886)
Tradução: Ivo Bender

20 de abril de 2018

Tapeçaria

Monet
É difícil separar a tapeçaria
Do lugar ou tear que a antecede.
Pois deve ficar sempre de frente ainda que pendendo para um lado.
Ela insiste nesse retrato da “história”
Por fazer, porque não há como escapar do castigo
Que ela propõe: a visão cega pelo sol.
A vista é engolida com o que é visto
Numa explosão da consciência súbita de seu esplendor formal.
A visão, vista como interior,
Registra sobre o impacto de si mesma
Recebendo fenômenos e, nisso,
Traça um esboço ou uma planta
Do que estava lá agora há pouc
o: certo na risca.
Se tem a forma de um cobertor, isso é porque
Ansiamos, ainda assim, por nos enrolarmos nela:
Esse deve ser o lado bom de não experienciá-la.
Mas, em alguma outra vida, que o cobertor retrata, de qualquer modo,
Os cidadãos mantém um com o outro um comércio agradável
E beliscam as frutas sem empecilhos, como querem,
E as palavras choram por si próprias, deixando o sonho
Revirado numa poça em algum lugar
Como se “morto” não passasse de mais um adjetivo.

John Ashbery (1927-2017)
Tradução: Adriano Scandolara

18 de abril de 2018

Oceano

Albert Bierstadt
Olho a praia. A treva é densa.
Ulula o mar, que não vejo,
Naquela voz sem consolo,
Naquela tristeza imensa
Que há na voz do meu desejo.

E nesse tom sem consolo
Ouço a voz do meu destino:
Má sina que desconheço,
Vem vindo desde eu menino,
Cresce quanto em anos cresço.

– Voz de oceano que não vejo
Da praia do meu desejo…

Manuel Bandeira (1886-1968)

16 de abril de 2018

Um jardim por entre as chamas

Jean Honoré Fragonard
Ó Maravilha,
um jardim por entre as chamas!

Meu coração pode agora
adotar todas as formas:
é pastagem das gazelas,
um claustro para monges,

Para os ídolos, chão sagrado,
a Ka’aba para o peregrino buscador,
as tábuas da Torah,
os pergaminhos do Santo Corão.

Eu sigo a Religião do Amor;
seja qual for a rota
que tome sua caravana:
esse é meu credo
e minha fé.

Ibn Arabi (1165–1240)
Tradução: Fábio Malavoglia, sobre a tradução inglesa de Michael Sells

14 de abril de 2018

Oráculo de Eros

William-Adolphe Bouguereau
Para que não seja o teu corpo
a parte proibida do horto.

Mas a volúpia que marcasse,
entre volutas, tua face.

Somente a tua: mais nenhuma
com tamanho langor de espuma.

Com tamanha extensão de chama,
que até a memória se inflama

a cada letra do teu nome
(pois todas as outras consome).

Que seja o teu corpo o instrumento
tocado em pelo contra o vento

e por ele, vento, encarnado,

por fim tão senhor quanto escravo:
corpo de onde eu mesmo me escavo.

Iacyr Anderson Freitas

11 de abril de 2018

Epigrama

Bernard van Orley
Que caminho seguir para o amor? Nas ruas,
lamentarás a luxúria ávida da mulher lasciva.
Se te aproximares do leito de uma virgem, espera-te
um casamento legal ou o castigo reservado aos sedutores.
Sustentar o amor insípido duma mulher legítima
quem o suportaria, se ela o exigisse como coisa devida?
O leito do adultério é detestável e estranho ao amor,
e dormir com os rapazes é igual perversidade.
A viúva corrupta toma por amante o primeiro que aparece
e enche a cabeça de pensamentos lúbricos.
A pudica, ainda mal se entregou ao amor,
é picada pelo ferrão de um cruel arrependimento
e sente horror do seu ato; e, movida por um resto de pudor,
bate em retirada, com o anúncio do fim da ligação amorosa.
Se tiveres uma relação com a tua escrava,
resigna-te a tornares-te a ti próprio um escravo.
Se for a escrava de outro, a lei aplicar-te-á uma marca infamante,
por atentares contra um ser que pertence a outro.
Diógenes evitou tudo isto, ele que cantava
o hino nupcial com a mão, sem necessitar de Laís.

Agátias, o Escolástico (536-582 d. C.)
Tradução: Albano Martins

9 de abril de 2018

A florista

Frederick Childe Hassam
Suspensa ao braço a grávida corbelha,
Segue a passo, tranquila... O sol faísca...
Os seus carmíneos lábios de mourisca
Se abrem, sorrindo, numa flor vermelha.

Deita à sombra de uma árvore. Uma abelha
Zumbe em torno ao cabaz... Uma ave, arisca,
O pó do chão, pertinho dela, cisca,
Olhando-a, às vezes, trêmula, de esguelha...

Aos ouvidos lhe soa um rumor brando
De folhas... Pouco a pouco, um leve sono
Lhe vai as grandes pálpebras cerrando...

Cai-lhe de um pé o rústico tamanco...
E assim descalça, mostra, em abandono,
O vultinho de um pé macio e branco.

Francisca Júlia da Silva (1871-1920)

7 de abril de 2018

Não há cisne tão Belo

Jan Brueghel the Elder
"Não há água tão quieta como as
fontes mortas de Versalhes”. Nem cisne tão
belo, esguio olhar cego de esguelha
e pernas gondoleantes, como
esse de porcelana com olhos foscos
de fauno e um colar auridenteado
para testificar de quem foi esta ave.

Encastoado numa árvore-candelabro
Luís XV com botões em flor
cor de cristal-de-galo, dálias,
ouriços do mar e sempre-vivas,
pousa em galhos de espuma, horto
de esculturadas e polidas
flores — altivo e plácido. O rei está morto.

Marianne Moore (1887-1972)
Tradução: Augusto de Campos.

5 de abril de 2018

Castro Alves do Brasil

Castro Alves (1847-1871)
Castro Alves do Brasil, para quem cantaste?
Para a flor cantaste? Para a água
cuja formosura diz palavras às pedras?
Cantaste para os olhos para o perfil recortado
da que então amaste? Para a primavera?

Sim, mas aquelas pétalas não tinham orvalho,
aquelas águas negras não tinham palavras,
aqueles olhos eram os que viram a morte,
ardiam ainda os martírios por detrás do amor,
a primavera estava salpicada de sangue.

- Cantei para os escravos, eles sobre os navios
como um cacho escuro da árvore da ira,
viajaram, e no porto se dessangrou o navio
deixando-nos o peso de um sangue roubado.

- Cantei naqueles dias contra o inferno,
contra as afiadas línguas da cobiça,
contra o ouro empapado de tormento,
contra a mão que empunhava o chicote,
contra os dirigentes de trevas.
- Cada rosa tinha um morto nas raízes.
A luz, a noite, o céu, cobriam-se de pranto,
os olhos apartavam-se das mãos feridas
e era a minha voz a única que enchia o silêncio.

- Eu quis que do homem nos salvássemos,
eu cria que a rota passasse pelo homem,
e que daí tinha de sair o destino.
Cantei para aqueles que não tinham voz.
Minha voz bateu em portas até então fechadas
para que, combatendo, a liberdade entrasse.

Castro Alves do Brasil, hoje que o teu livro puro
torna a nascer para a terra livre,
deixam-me a mim, poeta da nossa América,
coroar a tua cabeça com os louros do povo.
Tua voz uniu-se à eterna e alta voz dos homens.
Cantaste bem. Cantaste como se deve cantar.

Pablo Neruda (1904-1973)
Tradução: Paulo Mendes Campos

2 de abril de 2018

A Danação

Ismael Nery
Há fortes iluminações sem permanência.
A parte da Graça é tão pequena
Que me vejo esmagado pelo monumento do mundo.

Quem me ouvirá? Quem me verá? Quem me há de tocar?
Chorai sobre mim, sobre vós e sobre vossos filhos.

A fulguração que me cerca vem do demônio.
Maldito das leis inocentes do mundo
Não reconheço a paternidade divina.
Eu profanei a hóstia e manchei o corpo da Igreja:
Os anjos me transportam do outro mundo para este.

Murilo Mendes (1901-1975)

31 de março de 2018

Canção do mar aberto

August Hagborg
Onde puseram teus olhos
A mágoa do teu olhar?
Na curva larga dos montes
Ou na planura do mar?
De dia vivi este anseio;
De noite vem o luar,
Deixa uma estrada de prata
Aberta para eu passar.
Caminho por sobre as ondas
Não paro de caminhar.
O longe é sempre mais longe…
Morre o meu sonho comigo,
Sem te poder encontrar.

Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971)

29 de março de 2018

Poema 92

Hieronymus Bosch
não há muito tempo
ou antes uma vida
andando no escuro
encontrei Cristo

Jesus) meu coração
saltou-me do peito
e ficou quieto
enquanto ele passou (tão

perto como estou de ti
sim mais perto
feito de nada
exceto solidão.

E.E.Cummings(1894-1962)
Tradução: Carlos Mendonça Lopes

27 de março de 2018

Os Meus Amigos

Francisco de Goya
Amigos cento e dez, e talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia!
Pensei que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.

Amigos cento e dez, tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia,
Que eu, já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.
— Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver…
Que cento e nove impávidos marotos!

Camilo Castelo Branco (1825-1890)

25 de março de 2018

Agora, as coisas simples

Gustave Caillebotte
Agora, as coisas simples
antes cegas em nossos olhos.
E nada tocamos
mãos sobre as cordas mudas.
Se o som desperta é dele
o ouvido em flor. Mas corre o sangue
porque tudo é vivo sob as folhas mortas.
Sozinho se arma o acorde no piano
há surpresas na colheita deste ano, novos grãos na seara.
Sobre o braço em ângulo a fronte repousa
e o olhar reflete
uma flor

Dora Ferreira da Silva (1918-2006)

23 de março de 2018

Partiu-se em tristeza um olhar

Oskar Schlemmer
Foi tão de ave o meu chegar aqui
que de ti a mim sem que soubesse
no que de ouvido espanto comovi
posei canto silêncio todo prece.

Pousei e levantei secreta chama
envolta no brasio de teu vinho
contra o crime do céu tu me derramas
silenciosa doçura no caminho.

Chamei por ti, tão solitária eu
sem que me dessem outros mais de mim
e dura espada na hora que bateu
em tua mão segura me acolhi.

Salette Tavares (1922-1994)

21 de março de 2018

Para Marielle

como aceitar
que vá pra debaixo da terra
quem tinha nome de mar?

como suportar
o criminoso calar
de quem era a voz daqueles
que ninguém escuta?

como desejar
que descanse em paz
quem sempre foi de luta?

(Germana Zanettini)

20 de março de 2018

Desenganos

Sir Edward Burne-Jones
Muitas vezes sonhei nos tempos idos
Acalentando sonhos de ventura,
Então a voz da lira suave e pura
Era-me um gozo d'alma e dos sentidos.

Hoje, vejo meus sonhos convertidos
Num acervo de dor e de amargura
E percorro da vida a estrada escura
Recalcando no peito os meus gemidos...

E se tento cantar, como remédio
Minhas mágoas ao sombrio tédio
Que lentamente as forças me quebranta

Os sons que arranco à pobre lira agora
Mais parecem soluços de quem chora
Do que a doce toada de quem canta.

Padre Antônio Thomaz (1868-1941)

18 de março de 2018

O Jardim

Edouard Manet
Há um jardim sem cerca bem crescido
Com sementes e flores e toda sorte de folhas;
E uma vez, entre rosas e roldanas,
O jardineiro e eu estávamos sozinhos.
Ele me levou até o enredo onde eu tinha lançado
A erva-doce dos meus dias na terra estéril,
E na desordem das ervas daninhas tristes encontrei
O fruto de uma vida que era minha própria existência.

Minha vida! Ah, sim, havia minha vida, sem dúvida!
E aí estavam todas as vidas da humanidade;
E era como um livro que eu podia ler,
Com cada folha, milagrosamente assinalada,
Inscrita em si mesma a semente eterna do Pensamento,
Arraigada por amor no jardim da mente de Deus.

Edwin Arlington Robinson (1869-1935)
Tradução: Dalcin Lima

16 de março de 2018

A Liberdade é a Possibilidade do Isolamento

John Roddam Spencer Stanhope
A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre.
E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti, se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.
Fernando Pessoa (1888-1935)

14 de março de 2018

Com pesos e medidas

Ivan Aivazovsky
Com pesos e medidas
ou com axiomas,
filhos da lógica,
é impossível fixar
o princípio da rotação
desta cuia dourada
que nos cobre
– a máquina cósmica.

Ou prever a deterioração, a ruína
e o fim dos sólidos alicerces
sobre os quais
nos vemos assentados.

Como poderão interpretar –
pesos e medidas,
axiomas e raciocínios,
o tema imenso da criação.
este nosso Universo incomensurável?

Criando lendas?
Bosquejando fantasmas?

Omar Khayyám (1048-1131)
Tradução: Christovam de Camargo

12 de março de 2018

O Quarto Branco

Armando Barrios
O óbvio é difícil de
provar. Muitos preferem
o oculto. Eu também preferia.
Eu escutava as árvores.

Elas guardavam um segredo
que estavam prestes
a me revelar —
e não o fizeram.

Veio o verão. Cada árvore
de minha rua tinha sua própria
Xerazade. Minhas noites
faziam parte de suas histórias

selvagens. Entrávamos
em casas escuras,
casas sempre mais escuras,
silenciosas e abandonadas.

Havia alguém de olhos fechados
nos pisos superiores.
O medo e o fascínio me
mantinham bem desperto.

A verdade é nua e crua,
disse a mulher
que sempre se vestiu de branco.
Ela não saiu muito de seu quarto.

O sol apontava uma ou duas
coisas que tinham sobrevivido
intactas na longa noite.
As coisas mais simples,

difíceis em sua obviedade.
Essas não faziam barulho.
Era um dia do tipo
que as pessoas chamam “perfeito”.

Deuses disfarçados de
grampos de cabelo, espelho de mão,
um pente com um dente faltando?
Não! Não era isso.

Apenas as coisas como são
mudas, imóveis, sem piscar,
naquela luz brilhante —
e as árvores esperando a noite.

Charles Simic
Tradução: Carlos Machado

10 de março de 2018

Marieta

Ford Madox Brown
Como o gênio da noite, que desata
o véu de rendas sobre a espada nua,
ela solta os cabelos... Bate a lua
nas alvas dobras de um lençol de prata.

O seio virginal que a mão recata,
embalde o prende a mão... cresce, flutua...
Sonha a moça ao relento... Além na rua
preludia um violão na serenata.

Furtivos passos morrem no lajedo...
Resvala a escada do balcão discreta...
Matam lábios os beijos em segredo...

Afoga-me os suspiros, Marieta!
Ó surpresa! ó palor! ó pranto! ó medo!
Ai! noites de Romeu e Julieta!...

Castro Alves (1847-1871)

8 de março de 2018

Ginástica Aplicada

David Martiashvili
Meu verso cínico é minha terapêutica
e minha ginástica. Nele me penduro
e ergo, em sua precisão de barra fixa.
Nele me exercito em pino flexível,
sílaba a sílaba, movimento controlado
de pulso, e me volteio aparatoso
na pirueta lograda, no lance bem ritmado.

Há um sorriso discreto em minha segurança.

Porém, se às vezes me estatelo, folha seca
(o verso é difícil e escorregadio), meu verso,
como de vós, ri-se de mim em ar de troça.

Rui Knopfli (1932-1997)

6 de março de 2018

Conversa de café

Pierre Auguste Renoir
Claro, morremos para sempre.
A vida, então, é em grande parte uma coisa
De acontecer gostar-se, não de ter de.
E isso, também, claro, porque é que
Acontece eu gostar de arbustos vermelhos,
Relva cinzenta, e céu cinzento-esverdeado?
Que mais resta? Mas vermelho,
Cinzento, verde, porquê essas de entre todas?
Isso não é o que eu disse:
Não essas de entre todas. Mas essas.
Gosta-se do que acontece gostar-se
Gosta-se do modo como o vermelho cresce.
Não tem nenhuma importância.
Acontecer gostar-se é um
Dos modos como as coisas acontecem calhar.

Wallace Stevens (1879-1955)
Tradução: Luísa Maria Queiroz de Campos