13 de novembro de 2018

INGRATOS

Jean-Antoine Watteau
Não maldigo o rigor da iníqua sorte,
Por mais atroz que fosse e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade,
Quando a dois passos só estou da morte.

Do jogo das paixões minha alma forte
Conhece bem a estulta variedade,
Que hoje nos dá contínua felicidade
E amanhã nem — um bem que nos conforte.

Mas a dor que excrucia e que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora,
Que fere o coração e pronto mata,

É ver na mão cuspir a extrema hora
A mesma boca aduladora e ingrata,
Que tantos beijos nela pôs — outrora.

Pedro II do Brasil (1825-1891)

11 de novembro de 2018

Gargalhada

Edvard Munch
Quando me disseste que não mais me amavas,
e que ias partir,
dura, precisa, bela e inabalável,
com a impassibilidade de um executor,
dilato-se em mim o pavor das cavernas vazias...
Mas olhei-te bem nos olhos.
belos como o veludo das lagartas verdes,
e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos,
tive pena de ti, de mim , de todos,
e me ri
da inutilidade das torturas predestinadas,
guardadas para nós, desde a treva das épocas,
quando a inexperiência dos Deuses
ainda não criara o mundo...
Quando me disseste que não mais me amavas,
e que ias partir,
dura, precisa, bela e inabalável,
com a impassibilidade de um executor,
dilato-se em mim o pavor das cavernas vazias...
Mas olhei-te bem nos olhos.
belos como o veludo das lagartas verdes,
e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos,
tive pena de ti, de mim , de todos,
e me ri
da inutilidade das torturas predestinadas,
guardadas para nós, desde a treva das épocas,
quando a inexperiência dos Deuses
ainda não criara o mundo...
João Guimarães Rosa (1908-1967)

9 de novembro de 2018

Tempo das chuvas

Emma Jeffryes

Antes que venham as primeiras chuvas
acender
Amarelas flores entre os rochedos
E o céu se torne móvel de compridos pássaros
E todo o chão se cubra do verde novo
Do capim

Saberás pelo vento que chegaste ao fim.

José Eduardo Agualusa

7 de novembro de 2018

Cantiga de enganar

Edmund Blair Leighton
O mundo não vale o mundo,
meu bem,
Eu plantei um pé-de-sono,
brotaram vinte roseiras.
Se me cortei nelas todas
e se todas se tingiram
de um vago sangue jorrado
ao capricho dos espinhos,
não foi culpa de ninguém.
O mundo,
meu bem,
não vale
a pena, e a face serena
vale a face torturada.
Há muito aprendi a rir,
de quê, de mim? Ou de nada?
O mundo, valer não vale.
Tal como sombra no vale,
a vida baixa... E se sobe
algum som desse declive,
não é grito de pastor
convocando seu rebanho.
Não é flauta, não é canto
de amoroso desencanto.
Não é suspiro de grilo,
voz noturna de nascentes,
não é mãe chamando filho,
não é silvo de serpentes
esquecidas de morder
como abstratas ao luar.
Não é choro de criança
para um homem se formar.
Tampouco a respiração
de soldados e de enfermos,
de meninos internados
ou de freiras em clausura.
Não são grupos submergidos
nas geleiras do entressono
e que deixem desprender-se,
menos que simples palavra,
menos que folha no outono,
a partícula sonora
que a vida contém, e a morte
contêm, o mero registro
de energia concentrada.
Não é nem isto nem nada.
É som que precede a música,
sobrante dos desencontros
e dos encontros fortuitos,
dos malencontros e das
miragens que se condensam
ou que se dissolvem noutras
absurdas figurações.
O mundo não tem sentido.
O mundo e suas canções
de timbre mais comovido
estão calados, e a fala
que de uma para outra sala
ouvimos em certo instante
é silêncio que faz eco
e que volta a ser silêncio
no negrume circundante.
Silêncio: que quer dizer?
Que diz a boca do mundo?
Meu bem, o mundo é fechado,
se não for antes vazio.
O mundo é talvez: e é só.
Talvez nem seja talvez.
O mundo não vale a pena,
mas a pena não existe.
Meu bem, façamos de conta
de sofrer e de olvidar,
de lembrar e de fruir,
do escolher nossas lembranças
e revertê-las, acaso
se lembrem demais em nós.
Façamos, meu bem, de conta
- mas a conta não existe -
que é tudo como se fosse,
ou que, se fora, não era.
Meu bem, usemos palavras.
Façamos mundos: ideias.
Deixemos o mundo aos outros,
já que os pura mentira
do mundo que se desmente,
recortemos nossa imagem,
mais ilusória que tudo,
pois haverá maior falso
que imaginar-se alguém vivo,
como se um sonho pudesse
dar-nos o gosto do sonho?
Mas o sonho não existe.
Meu bem, assim acordados,
assim lúcidos, severos,
ou assim abandonados,
deixando-nos à deriva
levar na palma do tempo
- mas o tempo não existe -,
sejamos como se fôramos
num mundo que fosse: o Mundo.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

5 de novembro de 2018

ENEM - Exame Nacional do Ensino Médio 04/11/2018

Não é verdade que estão ainda cheios de velhice espiritual aqueles que nos dizem: “Que fazia Deus antes de criar o céu e a terra? Se estava ocioso e nada realizava”, dizem eles, “por que não ficou sempre assim no decurso dos séculos, abstendo-se, como antes, de toda ação? Se existiu em Deus um novo movimento, uma vontade nova para dar o ser a criaturas que nunca antes criara, como pode haver verdadeira eternidade, se n’Ele aparece uma vontade que antes não existia?”.
AGOSTINHO. Confissões. São Paulo; Abril cultural, 1984.

A questão da eternidade, tal como abordada pelo autor, é um exemplo de reflexão filosófica sobre a(s) alternativas:
  1. Essência da ética cristã.
  2. Natureza universal da tradição.
  3. Certezas inabaláveis da experiência.
  4. Abrangência da compreensão humana.
Resolução:
Para Agostinho, há uma oposição entre a eternidade e temporalidade. A eternidade é divina e não tem limites, enquanto a temporalidade é dimensional, situada entre o nascimento e a morte do indivíduo.
No texto, Agostinho trata da inabilidade humana de compreender a eternidade.

Letra D

ENEM - Exame Nacional do Ensino Médio 04/11/2018

“A quem não basta pouco, nada basta”.
EPICURO. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1985.

Remanescente do período helenístico a máxima apresentada valoriza a seguinte virtude:
  1. Esperança, tida como confiança no porvir.
  2. Justiça, interpretada como retidão do caráter.
  3. Temperança, marcada pelo domínio da vontade.
  4. Coragem, definida como fortitude na dificuldade.
Resolução:
O epicurismo prega a busca de prazeres moderados para se atingir a serenidade desejada pelos seres humanos. Epicuro que o controle dos desejos (temperança) e o conhecimento sobre o mundo produziriam a felicidade.
Letra C

4 de novembro de 2018

Novembro

Rob Li
Vejo, presa do inverno, em minha câmara,
Para terras distantes,
Pelos céus de novembro irem os pássaros,
– Últimos imigrantes.

Vão, das chuvas cortando as grossas bátegas
Vão..., noutros céus azuis,
Há de enxugar-lhes a plumagem úmida
Outro sol, outra luz.

Sou como a toutinegra fria e trêmula
Sob um clima pluvioso,
E um sol apenas rutilando alegra-me:
– Seu olhar amoroso!

Pior que as aves, sou no exílio vítima
De mais duro penar,
Pois não tenho direito como os pássaros
De voar... de voar...

François Coppée (1842-1908)
Tradução: Raimundo Correia e Valentim Magalhães

2 de novembro de 2018

Livro de Horas

Vicente Romero Redondo
Deus fala a cada um só antes de o fazer.
Então sai calado, com ele para fora da noite.
As palavras, porém, antes que cada um comece,
essas palavras nubladas, são:

Enviado pelos teus sentidos,
vai até ao limite da tua saudade;
dá-me roupagens.

Atrás das coisas cresce como incêndio,
que as suas sombras dilatadas
me cubram sempre todo.

Deixa que tudo te aconteça: beleza e pavor.
Só é preciso andar: nenhum sentimento é mais longínquo.
Não te deixes apartar de mim.
É perto a terra
a que chamam vida.

Hás de reconhecê-la
pela sua gravidade.

Dá-me a tua mão.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Tradução: Paulo Quintela

31 de outubro de 2018

Nascemos para amar

Frederick Morgan
Nascemos para amar; a humanidade
Vai tarde ou cedo aos laços da ternura.
Tu és doce atrativo, ó formosura,
Que encanta, que seduz, que persuade.

Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão n’alma se apura,
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.

Qual se abisma nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na ideia acesas.

Amor ou desfalece, ou para, ou corre;
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.

Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)

29 de outubro de 2018

Poeta, o que é a Morte?

Max Weber
A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.

A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.
Fernando Pessoa (1888-1935)
Fernando Pessoa dobrou a curva da estrada em 30.11.1935.
Continua, porém, a ser "visto" .

27 de outubro de 2018

[Nem cristão, ou judeu, ou muçulmano]

Konstantin Razumov
Nem cristão, ou judeu, ou muçulmano,
nem hindu, budista, sufi ou zen;
nenhuma religião ou sistema cultural;
eu sou nem do leste nem do oeste,
nem do oceano nem do chão,
nem natural ou etéreo,
nem composto de elementos;
eu não existo.

Não sou uma entidade
neste mundo ou no próximo,
nem descendo de Adão e Eva
ou qualquer história de origem;
meu lugar é o sem lugar,
um rastro do sem rastro...
Nem corpo nem alma,
pertenço ao Amado.
Vi os dois mundos como um só,
e esse "um", chamo e conheço;
primeiro, último,
fora, dentro,
só este respirar de ser humano...

Jalaludin Rumi (1207-1273)
Tradução: Jorge Pontual

25 de outubro de 2018

Sócrates e Alcibíades

Anton Petter - Sócrates e Alcibíades

“Por que honras, sagrado Sócrates,
“Sempre esse jovem? Não conheces nada maior?
“Por que o fitam com amor,
“como aos deuses, os teus olhos?”

Aquele que pensou o mais fundo ama o mais [vivaz,
Aquele que encarou o mundo entende a [juventude altiva
E enfim frequentemente os sábios
curvam-se aos belos.

Friedrich Hölderlin (1770-1843)
Tradução: Antonio Cicero

23 de outubro de 2018

Improviso corrigido

Ceasar Boëtius van Everdingen

Se minto? Quantas vezes!
Mas em palavras. Não
Nos meus olhos castanhos portugueses,
Nestas linhas atávicas da mão...
Se minto?... Minto, pois!
Mas nas orais palavras que vos digo.
Não nas que entoo a sós comigo,
E em que enfim deixo de ser dois.
Não nas que entrego a músicas, miragens,
Alegorias, fábulas, mentiras,
Cadências, símbolos, imagens,
Ecos da minha e mil milhões de liras.
Se minto?... Minto! É regra de viver.
Mas não quando, poeta, me desnudo,
E a mim me visto de inocência, e a tudo.
Venha quem saiba ver!
Venha quem saiba ler!

José Régio (1901-1969)

21 de outubro de 2018

Ângelus

(pintura de Sandro Botticelli)
Desmaia a tarde. Além, pouco e pouco, no poente,
O sol, rei fatigado, em seu leito adormece:
Uma ave canta, ao longe; o ar pesado estremece
Do Ângelus ao soluço agoniado e plangente.

Salmos cheios de dor, impregnados de prece,
Sobem da terra ao céu numa ascensão ardente.
E enquanto o vento chora e o crepúsculo desce,
A ave-maria vai cantando, tristemente.

Nesta hora, muita vez, em que fala a saudade
Pela boca da noite e pelo som que passa,
Lausperene de amor cuja mágoa me invade,

Quisera ser o som, ser a noite, ébria e douda
De trevas, o silêncio, esta nuvem que esvoaça,
Ou fundir-me na luz e desfazer-me toda.

Francisca Júlia da Silva (1871-1920)

19 de outubro de 2018

O Azul

Edgar Degas

De um infinito azul a serena ironia
Bela indolentemente abala como as flores
O poeta incapaz que maldiz a poesia
No estéril areal de um deserto de Dores.

Em fuga, olhos fechados, sinto-o que espreita,
Com toda a intensidade de um remorso aceso,
A minha alma vazia. Onde fugir? Que estreita
Noite, andrajos, opor a seu feroz desprezo?

Vinde, névoas! Lançai a cerração de sono
Sobre límpido céu, num farrapo noturno,
Que afogarão os lodos lívidos do outono,
E edificai um grande teto taciturno.

E tu, ó Tédio, sai dos pântanos profundos
Da desmemoria, unindo o limo aos juncos suaves,
Para tapar com dedos ágeis esses fundos
Furos de azul que vão fazendo no ar as aves.

Que sem descanso, enfim, as tristes chaminés
Façam subir de fumo uma turva corrente
E apaguem no pavor de seus torvos anéis
O sol que vai morrendo amareladamente!

– O céu é morto. – Vem e concede, ó matéria,
O olvido do Ideal cruel e do Pecado
A um mártir que adotou o leito de miséria
Ao rebanho feliz dos homens reservado,

Pois quero, desde que meu cérebro vazio,
Como um pote de creme inerme ao pé de um muro,
Já não sabe adornar a ideia-desafio,
Lúgubre bocejar até o final obscuro...

Ele rola na bruma, antigo, lentamente
Galga tua agonia e como um gládio a sul-
Ca. Onde fugir? Revolta pérfida e imponente.
O azul! O azul! O azul! O azul! O azul! O azul!


- Stéphane Mallarmé (1842-1898)
Tradução: Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos

17 de outubro de 2018

Nestes últimos tempos

Giovan F. Locatelli

Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros
Caiu em desmandos confusões praticou injustiças

Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?

Que diremos do lixo do seu luxo – de seu
Viscoso gozo da nata da vida – que diremos
De sua feroz ganância e fria possessão?

Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?

Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
De suas fintas labirintos e contextos?

Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto

Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

15 de outubro de 2018

O Menino Que Carregava Água Na Peneira

(Ilustração de Ofra Amit)
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o voo de um pássaro
botando ponto final na frase.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher
os vazios com as suas peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus despropósitos.
Manoel de Barros (1916-2014)

13 de outubro de 2018

Antífona

Marc Chagall

Ó coruscante luz das estrelas,
ó esplêndida especial beleza de núpcias reais,
ó fúlgida gema,
em excelsa pessoa és ornamento
sem qualquer maculada ruga.
És também sócia dos Anjos
e concidadã dos santos.
Foge, foge ao antro do inimigo antigo,
e apressada vem ao palácio do Rei.


Hildegard Von Bingen (1098-1179)
Tradução: Joaquim Félix de Carvalho e José Tolentino Mendonça

11 de outubro de 2018

Vivo em Círculos

Catrin Welz-Stein
A minha vida eu a vivo em círculos crescentes
sobre as coisas, alto no ar.
Não completarei o último, provavelmente,
mesmo assim irei tentar.

Giro à volta de Deus, a torre das idades,
e giro há milênios, tantos…
Não sei ainda o que sou: falcão, tempestade
ou um grande, um grande canto.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Tradução: José Paulo Paes

9 de outubro de 2018

Poesia Matemática

Pablo Picasso
Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezoide,
corpo retangular, seios esferoides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
“Quem és tu?”, indagou ele
em ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
frequentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como, aliás, em qualquer
sociedade.

Millôr Fernandes (1923 - 2012)

7 de outubro de 2018

Julgamento

Graham Gercken
Não julgues…
Habitas num recanto mínimo desta terra.
Os teus olhos chegam
Até onde alcançam muito pouco…
Ao pouco que ouves
Acrescentas a tua própria voz.
Mantém o bem e o mal, o branco e o negro,
Cuidadosamente separados.
Em vão traças uma linha
Para estabelecer um limite.

Se houver uma melodia escondida no teu interior,
Desperta-a quando percorreres o caminho.
Na canção não há argumento,
Nem o apelo do trabalho…
A quem lhe agradar responderá,
A quem lhe agradar não ficará impassível.
Que importa que uns homens sejam bons
E outros não o sejam?
São viajantes do mesmo caminho.
Não julgues,
Ah, o tempo voa
E toda a discussão é inútil.

Olha, as flores florescem à beira do bosque,
Trazendo uma mensagem do céu,
Porque é um amigo da terra;
Com as chuvas de Julho
A erva inunda a terra de verde,
E enche a sua taça até à borda.
Esquecendo a identidade,
Enche o teu coração de simples alegria.
Viajante,
Disperso ao longo do caminho,
O tesouro amontoa-se à medida que caminhas.

Rabindranath Tagore (1861-1941)
Tradução: José Agostinho Baptista

5 de outubro de 2018

Outubro

Willard Metcalf
Antes que o frio gele as águas; antes
Que o azul cubram as névoas hibernais;
Ouve as últimas aves suspirantes;
Vê o florir dos últimos rosais.

Por um momento ainda outubro louro
Todas as cousas com seu brilho inunda,
À púrpura do ocaso, as folhas de ouro
Têm um ar de beleza moribunda.

Sabes que essa tristeza fria e austera
Não dura muito tempo – ó coração!
E apesar dela, ó coração, espera
E susta o curso à rápida estação.

Constrói o teu castelo derradeiro,
Esquece o inverno, que nos bate às portas
E vem varrer com o rígido pampeiro
Folhas caídas, esperanças mortas.

François Coppée (1842-1908)
Tradução: Raimundo Correia e Valentim Magalhães

4 de outubro de 2018

A felicidade de uns

Jacopo Bassano
Peixes amigos amados
Amantes dos que foram pescados em tamanha quantidade
Vocês assistiram a essa calamidade
A esta coisa horrível
A esta coisa terrível
A este tremor de terra
A pesca milagrosa
Peixes amigos amados
Amantes dos que foram pescados em tamanha quantidade
Dos que foram pescados cozidos comidos
Peixes... peixes... peixes...
Como vocês devem ter rido
No dia da crucificação.

Jacques Prévert (1900-1977)
Tradução: Silviano Santiago

2 de outubro de 2018

Um Manto

Jean Baptiste Greuze
Fiz para o verso um manto
de alto a baixo ornado
com mitos do passado.
Tolos, no entanto,
ao mundo reles
o expõem como se urdido
fosse por eles.
Levem-no em paz,
pois, verso, andar despido
é mais audaz.

William Butler Yeats (1835-1939)
Tradução: Nelson Ascher

30 de setembro de 2018

Antes da abolição, intelectuais faziam "vaquinha" para libertar escravos

Há 149 anos, escritores libertaram 21 crianças escravizadas diante da elite do Rio Grande do Sul, Estado que foi também palco de campanhas 'de porta em porta' pedindo que os senhores libertassem seus escravos.
O primeiro teatro construído em Porto Alegre, o São Pedro, recebeu centenas de pessoas em 19 de setembro de 1869. Com sua fachada imponente no estilo neoclássico, o prédio ficou com o salão e os camarotes lotados naquela noite. O público saiu de casa para assistir a um espetáculo com desfecho impensável para a elite econômica da época.
Ex-escravos fotografados em estúdio, no final do século XIX, em Porto Alegre:
Luta pela liberdade começou muito antes da abolição
Foto: Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo / BBC News Brasil
Quando a cortina foi levantada, a plateia viu a personagem Liberdade visitando o Brasil. Na peça, ela encontra um escravo, "coberto de andrajos e cicatrizes recentes, entregue à lida diurna". A Liberdade, então, "invoca o auxílio do céu". Um anjo mensageiro responde o chamado e devolve o escravo à Liberdade. Além disso, ele também ordena a libertação das crianças escravizadas.
No palco, então, surgem 21 crianças. Nenhuma delas é aspirante a ator mirim. Todas são negras e filhas de escravas. Elas recebem cartas legítimas de alforria.
"A este espetáculo as lágrimas correram e o entusiasmo dos corações sensíveis tocou até o delírio", escreveu depois o médico José Antonio do Valle Caldre Fião, presidente da Sociedade Partenon Literário, grupo criado há 150 anos, que organizou o espetáculo abolicionista e que fazia "vaquinhas" para comprar a liberdade de escravos.
Vista do Teatro São Pedro, em Porto Alegre, em 1881;
no local, apresentação libertou 21 crianças escravas
Mas não só no Rio Grande do Sul atividades de libertação de escravos ocorreram no período. Por todo o Brasil, de 1868 a 1888, há registros de grupos mobilizados pela causa abolicionista. No Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará, Pernambuco e Espírito Santo, por exemplo, as cartas de alforrias também eram entregues em apresentações culturais com direito a registro na imprensa.
Em 10 de agosto de 1886, Nadina Bulicioff, uma cantora russa, apresentou a opera Ainda, de Verdi, no Teatro Lírico do Rio de Janeiro. Ao final, "arrebentou suas algemas cenográficas e, diante do público, que de pé afitava lenços, entregou-lhes (a seis escravas) cartas de liberdade", conta a pesquisadora Angela Alonso, no livro Flores, votos e balas: o movimento abolicionista brasileiro (Cia das Letras, 2015). A apresentação carioca foi organizada pelos abolicionistas André Rebouças, José do Patrocínio e Joaquim Nabuco.
Quanto ao grupo gaúcho Partenon Literário, sua bandeira ia além das letras.
"O Partenon não foi uma sociedade meramente literária, mas de ordem cultural e com viés político. A maioria dos partenonistas tinha dois ideais. Eles defendiam sobretudo a República, sendo contrários à Monarquia vigente, e eram abolicionistas", explicou Maria Eunice Moreira, professora da Faculdade de Letras da PUCRS à BBC News Brasil.
Juntamente com os pesquisadores Alice Campos Moreira e Mauro Nicola Póvoas, a professora escreveu um estudo que servirá de apresentação a todo o acervo digitalizado da "Revista Mensal da Sociedade Partenon Literário". A revista, publicada entre 1869 e 1879, poderá ser acessada pela internet a partir de outubro (o site ainda não divulgado). No periódico também eram publicados textos contra a escravidão, como o registro de Caldre Fião sobre o teatro apresentado no São Pedro.
Ex-escravos que trabalhavam como vendedores ambulantes
em Porto Alegre, no final do século 19
Atualmente, quem deseja pesquisar todas as 71 edições precisa alternar visitas a diferentes acervos, entre eles o da coleção especial da biblioteca da PUCRS, onde esteve a reportagem.
As revistas eram diminutas para o padrão atual, com menos de vinte centímetros de largura e altura, com somente a capa em papel colorido e raras ilustrações, como nos casos de textos sobre figuras históricas. 'Ultraje'
A peça teatral de 1869 foi considerada um ultraje por quem defendia a escravidão. Vale lembrar que, no Brasil, a abolição ocorreu 19 anos depois do espetáculo, em 13 de maio de 1888. A Lei do Ventre Livre, que daria liberdade às crianças, também foi posterior à montagem teatral, assinada em 1871. A Lei dos Sexagenários, que libertou os escravos idosos, foi firmada em 1885.
No Rio Grande do Sul, a escravidão foi abolida em 1884, resultado da pressão de diversos grupos, como o Centro Abolicionista e o Partenon Literário.
O livro que contém a ata original da sessão na Câmara de Vereadores da capital gaúcha que acabou com a escravidão no Estado está preservado no Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Vellinho, da prefeitura.
Ex-escravos fotografados em estúdio, no final do século 19, em Porto Alegre
Os integrantes do Partenon Literário não organizaram o espetáculo sem encontrar barreiras. Pelo contrário. Se conseguiram libertar as 21 crianças em 19 de setembro foi por que foram impedidos na data originalmente planejada - 7 de setembro, Dia da Independência do Brasil, declarada em 1822.
"Alguns senhores mal-intencionados especularam. Riu-se com estúpido desdém, e a situação pressentiu um golpe certeiro que lhe dirigíamos. Daí os óbices, as dificuldades com que o Partenon teve que lutar e que retardaram a festa da santa liberdade até o dia 19", relembrou Caldre Fião. A passagem também está registrada no livro História da Academia Rio-Grandense de Letras (1901-2016) e Parthenon Litterario (1868-1885)(Metamorfose, 2016), de José Carlos Laitano.
Segundo a historiadora Marília Conforto, autora de Escravo de Papel (Educs, 2012) e Faces da Personagem Escrava (Educs, 2001), muitos dos escravos que chegavam ao Rio Grande do Sul vinham pela rota do comércio interno, já que o tráfico internacional era proibido desde 1850. O tráfico passou a ser ilegal por pressão da Inglaterra, que chegou a apreender navios negreiros. Com o desenvolvimento do capitalismo inglês e da consequente industrialização, novos mercados consumidores eram necessários para o comércio dos produtos da Inglaterra.
"Escravo não tinha salário e não consumia", resumiu criticamente a pesquisadora durante a entrevista.
Mulher identificada como escrava de Martin Gestum, em 1880, em Porto Alegre
Conforme Conforto, ser vendido com destino ao Rio Grande do Sul era um novo castigo aos escravizados. "Se criou a ideia de que o Estado era o 'purgatório dos negros'. O negro que se rebelava era o primeiro a ser vendido e mandado para o Rio Grande do Sul. No inverno, as temperaturas eram gélidas, muitas vezes abaixo de zero. Se não ficavam no espaço urbano, como em Porto Alegre, eram mandados para o campo. Lá, trabalhavam nas charqueadas, que exigia manejo de facas afiadas. Eles tinham que matar os bois a pauladas, tirar o couro, cortar, colocar o sal nas chamadas 'mantas' de carne, algo muito bruto", explica a pesquisadora. Além de Caldre Fião, outro líder do Partenon que teve forte atuação abolicionista foi o professor Apolinário Porto Alegre. O primeiro estudou Medicina no Rio de Janeiro, o segundo, estudou direito em São Paulo. Segundo Conforto, "estudar fora" influenciava os intelectuais que depois retornavam ao Estado trazendo novas ideias influenciados pelos ideais do positivismo europeu, entre eles a liberdade, por exemplo.
Apolinário publicou na revista do Partenon diversas peças de teatro e textos abolicionistas. Uma peça, em especial, foi a mais polêmica e chegou a ser proibida pela polícia. Os Filhos da Desgraça contava a história de amor entre uma senhora e um escravo (o contrário era mais aceito no Brasil colonial). "Com tal temática, Apolinário não poderia colocar a ação em Porto Alegre, porque provocaria a revolta de muitos chefes de família", explicou o historiador Moacyr Flores, em artigo de 1978, sobre a obra do autor.
Como a ideia de "proximidade" chocava demais os "chefes de família", o escritor optou por situar a trama em Salvador. "O drama está inserido na filosofia dos abolicionistas que por princípios éticos, além dos econômicos, não admitem a escravidão", acrescentou Flores sobre a peça.
Apolinário também liderou o projeto de aulas gratuitas noturnas para os pobres e libertos, explica a professora Maria Eunice Moreira, da PUCRS. Ainda de acordo com ela, enquanto ficcionistas, o tema da liberdade interessava os partenonistas de maneira abrangente, incluindo figura do gaúcho cavalgando livre pelos campos, o mítico "centauro dos pampas", que surge na literatura regionalista do período influenciada pelo Partenon.
Rua dos Andradas, em Porto Alegre, na década de 1860; nesta rua, em 1884, os abolicionistas fizeram uma campanha, batendo de porta em porta, para que os senhores libertassem seus escravos
No mesmo ano em que a escravidão foi abolida no Rio Grande do Sul, em 1884, 15 anos depois da alforria das crianças no teatro, o Partenon Literário fez uma nova campanha de libertação. Os integrantes batiam de porta em porta das casas da região central, especialmente na Rua das Andradas, pedindo a liberdade dos escravos. Com dinheiro arrecadado em ações, compravam alforrias. Os libertos foram reunidos no local que hoje é conhecido como Parque da Redenção, oficialmente chamado de Parque Farroupilha. Próximo dali, montavam barracos na chamada "Colônia Africana".
Com tamanha movimentação abolicionista, no início do ano seguinte, em janeiro de 1885, a Princesa Isabel, que assinou a Lei Áurea em 1888, visitou Porto Alegre. A princesa chegou a lançar a pedra fundamental da construção da sede do Partenon, com projeto inspirado no templo de Atenas, o que não se concretizou.
Se não há registro fotográfico da visita de Isabel ou do espetáculo de 19 de setembro de 1869, o Museu Municipal de Porto Alegre Joaquim José Felizardo guarda um verdadeiro tesouro em forma de retratos. São diversos registros fotográficos, alguns de 1868, de escravos e ex-escravos, em Porto Alegre. Quase nenhum dos retratados, porém, está identificado.
Uma das fotografias encontrada pela reportagem, do final do século 19, mostra dois ex-escravos: são duas crianças, uma aparentemente com três anos e outra por volta de dez anos. Elas estão de pés descalços, vestidas, seguram ramalhetes de flores e olham para a câmera de Virgílio Calegari, um fotógrafo italiano que instalou um estúdio na capital gaúcha. Calegari fotografou outros escravos e ex-escravos no seu estúdio, mas era conhecido por fotografar também a alta sociedade porto-alegrense. Além de Calegari, os Irmãos Ferrari também fotografaram escravos libertos no seu estúdio montado na rua Voluntários da Pátria.
Crianças alforriadas no final do século XIX, em foto de estúdio, em Porto Alegre
Porém, as imagens encontradas de ex-escravos fora de estúdio foram feitas por um fotógrafo amador, que assinava sob o psudônimo de Lunara (das iniciais de Luiz do Nascimento Ramos). Lunara era um comerciante que revelava as fotos em casa. Mesmo amador, chegou a vencer diversos concursos.
Ele registrou cenas bucólicas da capital gaúcha na virada do século. Em 1900, Lunara fotografou um casal de negros libertos, em frente ao seu barraco. A foto está catalogada como "Deixa disso, nhô João".
"Os abolicionistas não-negros, os abolicionistas brancos, tinham uma visão ligada ao Iluminismo, de humanização. O que dava a possibilidade de uma pessoa negra ser escravizada era sua não-humanização. Até 1850, o código comercial colocava os negros como 'ser movente', categoria de coisas que se movem. Estão nessa categoria ate hoje, por óbvio, cavalos, cachorros da polícia militar. Então, a discussão dos abolicionistas era de que negros não eram coisas, mas pessoas", afirma o especialista em direito público Gleidison Renato Martins, da coordenação nacional do Movimento Negro Unificado.
Martins aponta o paradoxo de a própria "era da razão" ter dado origem a artigos e experiências que tentavam provar a inferioridade dos negros e apontavam os brancos como "raça superior" o que, se sabe, é falso. "Não basta apenas colocar as pessoas nessa outra estrutura sem mudar o pensamento racista e processos de discriminação", conclui.
Casal de ex-escravos de mãos dadas em frente ao seu barraco, em Porto Alegre, em 1900