31 de agosto de 2019

As Harpas

Ernest Hérbert
Vai a brisa por vales e costados
E carregada de aromas e silêncio
Não leva, entre suas asas invisíveis,
Nem uma voz – nem uma música – nem um eco.
Porém num escuro bosque afastado
Pátria das dríadas e dos gênios,

No alto tronco suspensa encontra
Harpa eólia de místicos acentos,
Ao passar vibra nas sonoras cordas
Do doce e melancólico instrumento
E vão suas sossegadas harmonias
A perder-se ao longe!

A alma do poeta é delicada
Harpa – que quando vibra o sentimento,
Em suas cordas sensíveis – se estremece,
E produz seus cantos e seus versos.

José Asunción Silva (1865-1896)
Tradução: Geylson Alves

30 de agosto de 2019

Ode ao Tempo

Carl Adolf Gugel
A tua idade dentro de ti
crescendo,
a minha idade dentro de mim
andando.
O tempo é resoluto,
não faz soar o sino,
cresce e caminha
por dentro de nós,
aparece
como um lago profundo
no olhar
e junto às castanhas
queimadas dos teus olhos
um filamento, a pegada
de um minúsculo rio,
uma estrelinha seca
subindo para a tua boca.
Nos teus cabelos
enreda o tempo
os seus fios,
mas no meu coração
como uma madressilva
está a tua fragrância,
incandescente como o fogo.
Envelhecer vivendo
é belo
como tudo o que vivemos.
Cada dia
para nós
foi uma pedra transparente,
cada noite uma rosa negra,
e este sulco no meu ou no teu rosto
é uma pedra ou uma flor,
recordação de um relâmpago.
Gastaram sê-me os olhos na tua formosura
mas tu és os meus olhos.
Sob os meus beijos talvez tenha fatigado
os teus seios,
mas todos viram na minha alegria
o teu resplendor secreto.
Amor, o que importa
é que o tempo,
o mesmo que ergueu como duas chamas
ou espigas paralelas
o meu corpo e a tua doçura,
amanhã os mantenha
ou os desgarre
e com os seus mesmos dedos invisíveis
apague a identidade que nos separa
dando-nos a vitória
de um único ser final sob a terra.

Pablo Neruda (1904-1973)
Tradução: de Luis Pignatelli

29 de agosto de 2019

Frase


“O perigo do passado era que os
homens se tornassem escravos.
O perigo do futuro é que os
homens se tornem autômatos.”

Erich Fromm (1900-1980)


O coração do homem

András Markó
Existe o outro universo, o coração do homem,
do qual não sabemos nada e que não ousamos explorar.
Uma estranha e cinzenta distância separa
nossa pálida, silenciosa mente do continente pulsante
do coração do homem.
Os antepassados mal aportaram na praia
e nenhum homem sabe, nenhuma mulher sabe
o mistério do interior
quando mais escuro ainda que o Congo ou o Amazonas
fluem do coração os rios da completude, do desejo e da aflição.

D. H. Lawrence (1885-1930)
Tradução: Mário Alves Coutinho

28 de agosto de 2019

Frase

“Todos serão arrastados pela mesma catástrofe, a não ser
que se compreenda que o respeito
pelo outro é a condição de
sobrevivência de cada um”.

Lévi-Strauss (1908-2009)


Amar é mais denso que esquecer

Mher Evoyan
amar é mais denso que esquecer
mais tênue que lembrar
mais raro que fluida a onda pode ser
mais frequente que falhar

é mais louco e mais lunar
e menos não deve ser
que todo o mar que só
é mais fundo que o mar

amar é menos que ganhar
e nunca menos que viver
nem imenso que o menor começo
demais pequeno que perdoar

é mais sensato e intenso
e mais não morre ou finda
do que todo o céu que ainda
é mais alto que o céu imenso.

E.E.Cummings(1894-1962)
Tradução: Vanderley Mendonça

27 de agosto de 2019

Frase

“Você tem de aprender a
sair da mesa quando o
amor já não está sendo servido”.

Nina Simone (1933-2003)


Cais

Cláudio Tozzi
Na faina do porto gemia o guindaste,
jogando no pátio de pedras, de chofre,
a mercadoria pendendo-lhe da haste,
dezenas de sacos de pedra de enxofre.
Os trabalhadores das docas, externos,
não usam camisa, mas faixa na ilharga.
Trabalham nas furnas do pior dos infernos,
porões tenebrosos dos buques de carga.
O ar a empestado, sufoca; dá nojo
o pó amarelo, pesado, que dança
por cima dos homens que arrancam do bojo
do barco esse enxofre que ao porto se lança.
E o porto, ressoante de silvos, é teatro
de cenas medonhas, protestos, clamores!
Mas como o cargueiro sairá logo às quatro,
prossegue o trabalho dos estivadores.
Gaivotas inquietas esvoaçam à tona
das águas oleosas do estuário parado.
E finda o serviço só quando, com a lona,
se cobre o profundo porão esvaziado.
Mas logo no dia seguinte, de novo
começa o trabalho, com pragas e cantos.
É heróica a existência dos homens do povo,
dos trabalhadores das docas de Santos.

Cid Silveira (20 de janeiro de 1910, São Vicente, São Paulo),
foi um poeta, contador e economista brasileiro.

26 de agosto de 2019

Depois de Tudo

Marian Voicu
Mas tudo passou tão depressa
Não consigo dormir agora.
Nunca o silêncio gritou tanto
Nas ruas da minha memória.

Como agarrar líquido o tempo
Que pelos vãos dos dedos flui?
Meu coração é hoje um pássaro
Pousado na árvore que eu fui.

Cassiano Ricardo (1885-1974)

25 de agosto de 2019

O Último Suspiro

Alois Hans Schram
Com uma flecha morre um pássaro
Em teus ombros escombros
Pende uma réstia de luz
Valem menos os anos que os dias
E a vida é menos que o amor.

Tua vales ainda um beijo
Só o tempo de sentir
O quanto desperto estou
Tudo é claro sob este lençol branco
Que te liberta e me espera.

Paul Éluard (1895-1952)
Tradução: António Ramos Rosa e Luiza Neto Jorge

24 de agosto de 2019

Pré-História

Segundo o historiador Guglielmo
“o período mais longo e a mais antiga era da pré-história é chamada de Paleolítico. Iniciou-se há pelo menos 2,5 milhões de anos, como atestam os instrumentos [...] encontrados no sítio de Hadar, Etiópia, e pode ser estendido há cerca de 10.000 anos”.
(Fonte: GUGLIELMO, Antonio Roberto. A Pré-História.
São Paulo: Brasiliense, 1999, p. 35 e 36).
Considerando a Pré-história e a passagem do texto, é correto o que se afirma em:
Durante o Paleolítico Inferior ocorreu a produção dos primeiros instrumentos de pedra.
No decorrer da transição do Mesolítico para o Médio Paleolítico, ocorreu a produção dos primeiros instrumentos de pedra.
Foi durante o Paleolítico Inferior que houve a produção dos primeiros instrumentos de ossos e chifres.
Durante o Paleolítico Inferior houve a produção de lâminas e agulhas, que possibilitou o surgimento da Idade dos Metais.
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Ode à Máquina

Alessandro Milesi
Estamos frente a ti
como se foras inimiga.
Estas polias, rolamentos,
êmbolos, cilindros, caldeiras
que brilham tanto em nossos olhos
são quem devora nossa vida.
E no entanto em ti sentimos
(como inimigos que, se olhando,
descobrem razões de profunda
indestrutível amizade)
um bom calor, e um metal
límpido, um ruído que canta,
um sussurro que constrói
moinhos e ferramentas
para a colheita da vida!
Hoje, no entanto, irmã
dura máquina, estamos
separados pelo rio
fundo e lodoso do lucro:
por isso tu nos devoras.
Amanhã, em nossas mãos
serás cavalo tangido
pelos ventos do futuro.
Comum, amiga, lutando
conosco, tua canção
será nova melodia:
roseira florindo enxadas
tu serás em nossa usina
raiz do pão do futuro,
ó árvore poderosa
da vida afinal colhida!

Bandeira Tribuzi (1927-1977)

23 de agosto de 2019

Prelúdio

Frank Dicksee
Voltai a mim, ó vozes de outro tempo,
caras vozes discordes!
Quem sabe se em tristíssimos acordes
eu não vos faço ainda ressoar?

O dealbar
de mim está longe e as noites chegam plenas.
Poucas horas serenas
a dor me deixa, a minha e a de quantos
seres tenho em torno.
Oh, sede retorno,
vozes quase esquecidas!

Talvez última vez que em qualquer seio
- o meu - sereis ouvidas.
Como os meus pais me deram duas vidas,
e de as fundir em uma fui capaz,
em paz vos comporeis em extremo acorde,
ó vozear em vão discorde.
E luz e sombra e alegria e dor
se amam em vós.
Oh, regressai a nós,
caras vozes de outro tempo!

Umberto Saba (1883-1957)
Tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti

22 de agosto de 2019

Do poeta tudo se espera

Lilian May Miller
Do poeta tudo se espera
faça um poema aí, eles dizem,
que contenha a primavera,
estação que ainda vem

Um poeta se comanda
basta acionar, eles pensam
que o poema anda

Envie-me um soneto até a noite
quero um haikai de manhã
tenha uma ideia brilhante
para enfeitar este instante

Ao poeta se encomenda
rimas ricas, por favor,
não esqueça das aliterações
de ser raro, claro e breve
nos dê hoje, tudo que nos deve

Crie desejos
invente necessidades
encante a todos
com sua capacidade
pagamos pouco, é verdade,
mas você pode receber mais tarde

Afinal, o poeta
vive de vento, flores, sonhos,
basta, pensam eles,
alimentar sua vaidade

Me empresta tua emoção aí, artista,
é o que todos esperam
mas não tem ninguém à vista
querendo ouvir a poesia
que faz o coração do poeta
quando silencia.

Alice Ruiz

21 de agosto de 2019

Todos os dias

kandinsky

A guerra já não se declara,
continua-se apenas. O que brada aos céus
torna-se o dia a dia. Os heróis
ficam longe das batalhas. Os fracos
recuam para a linha de fogo.
O uniforme do dia é a paciência,
a medalha a mísera estrela
da esperança sobre o coração.

Atribui-se,
quando já nada acontece,
quando os canhões se calam,
quando o inimigo se torna invisível
e a sombra da armadura perpétua
cobre o céu.

Atribui-se
à deserção das bandeiras,
à audácia frente aos amigos,
à traição de segredos indignos,
ao não acatamento
de qualquer ordem.

Ingeborg Bachmann (1926-1973)
Tradução: Sephi Alter e Renato Suttana

20 de agosto de 2019

O primeiro olhar pela janela de manhã

Claude Monet
O primeiro olhar pela janela de manhã.
O velho livro redescoberto.
Rostos entusiasmados.
Neve, o câmbio das estações.
O jornal.
O cão.
A dialética.
Duchas, nadar.
Música antiga.
Sapatos cômodos.
Compreender.
Música nova.
Escrever, plantar.
Viajar, cantar.
Ser cordial.

⇝ Bertolt Brecht (1898-1956)
Tradução: [Haroldo de Campos]

19 de agosto de 2019

A morte e o amor

Zhao Chun
Só a morte põe fim seguro
às dores e aflições da vida.
A vida, porém, temerosa,
tudo faz para adiar esse encontro.

É que a vida vê da morte
apenas a mão sombria
e fecha os olhos à luzente taça
que a mesma morte oferece.

Assim também foge do amor
o coração apaixonado,
receoso de um dia morrer
da mesma paixão por que vive.

"Lá onde nasce o verdadeiro amor
morre o 'eu', esse tenebroso déspota.
Tu o deixas expirar no negro da noite
e livre respiras à luz da manhã."

Jalaludin Rumi (1207-1273)

18 de agosto de 2019

Aos leitores amigos

Claude Monet - The Luncheon

Poetas não podem calar-se,
Querem às turbas mostrar-se.
Há de haver louvores, censuras!
Quem vai confessar-se em prosa?
Mas abrimo-nos sub rosa
No calmo bosque das Musas.

Quanto errei, quanto vivi,
Quanto aspirei e sofri,
Só flores num ramo – aí estão;
E a velhice e a juventude,
E o erro e a virtude
Ficam bem numa canção.

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Tradução: Paulo Quintela

16 de agosto de 2019

Fazer fogo

Sirian Heaven
Que sei eu da tua vida feita de milhões de instantes?
Das tuas monstruosidades, tuas taras, teus dramas?
Que sei eu dos teus contrabandos no caminho até agora?
Se nem sei teu nome e as palavras de um pós-guerra
São como pedras que precisamos atritar para dar fogo...
Não é mau que o cenário seja pobre e antes uma questão
De sobrevivência fazer fogo: isso aproxima estranhos, dispensa
Cerimônia, protela a discórdia e nos chama a certos gestos
De linguagem universal, rosto de dor, corpo com sono, sede,
Medo, fome, e então se tocam a tua loucura, a minha sanha,
O meu desejo e o teu desejo, acordados, então queimamos,
E queimamos bem, como se assim fizéssemos juntos a vida toda.

- Mariana Ianelli

15 de agosto de 2019

O que diz a Morte

Max Ernst
Deixai-os vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim, os que padecem;
E os que cheios de mágoa e tédio encaram
As próprias obras vãs, de que escarnecem...

Em mim, os Sofrimentos que não saram,
Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da Dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem. -

Assim a Morte diz. Verbo velado,
Silencioso intérprete sagrado
Das cousas invisíveis, muda e fria,

É, na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.

Antero de Quental (1842-1891)

14 de agosto de 2019

O jogo que jogamos

Albrecht Dürer
Se me dessem para escolher, eu escolheria
esta saúde de saber que estamos multo enfermos,
esta dita de andar tão infelizes.

Se me dessem para escolher, eu escolheria
esta inocência de não ser um inocente,
esta pureza em que ando por ser impuro.

Se me dessem para escolher, eu escolheria
este amor com o qual odeio,
esta esperança que come pães desesperados.

Acontece, senhores, que aqui
aposto a minha morte.

Juan Gelman (1930-2014)
Tradução: Eric Nepomuceno
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13 de agosto de 2019

Fins de Junho

Sandro Botticelli
Sinto-me olhada a furto.
Olham-me,
espiam-me
com modo céptico
e meio terno.
Entra em mim,
toma-me inteira
um estranho retraimento,
desdém,
ou indiferença.
A minha vontade é de fugir,
de me libertar,
de me recuperar…

Depois, fora,
oprimida
e entristecida,
desejo reconstruir,
sem saber bem como,
o fio trémulo da vida…
Desejo sentir-me apreciada,
enobrecida!

Irene Lisboa (1892-1958)

11 de agosto de 2019

⇒ Árvores

John Martin
Invejo a pomba que apresa a palha
e a leva ao ninho, e invejo a vós, também,
silentes árvores, a cujas folhas
bem desenhadas redoura o sol; belas
quais jovens belos, ou velhos aos quais
a velhice enriquece. Quem vos olha
– verdes na axila negra onde a folhagem
desponta; alguns ramos estão mortos –
a vossa dura luta subterrânea
não ignora; a vossa paz admira,
ainda mais vasta.
E a vós retorna, amigo;
lagos de sombra em pleno verão.

Umberto Saba (1883-1957)
Tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti

10 de agosto de 2019

Um boi vê os homens

Edward M. Bannister
Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
até sinistros. Coitados, dir-se-ia que não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos – e perde-se
a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
e que secura e que reentrâncias e que
impossibilidade de se organizarem em formas calmas,
permanentes e necessárias. Têm, talvez,
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós?),
sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

8 de agosto de 2019

Sem nada de meu

David Martiashvili
Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou creem
que fazem). Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.

Rui Knopfli (1932-1997)