30 de maio de 2019

As cinzas de Gramsci

The Mythical Phoenix Rising from Ashes
IV
O escândalo de me contradizer, de estar
com e contra ti; contigo no peito,
à luz, contra ti nas negras entranhas;

de meu estado paterno traidor
– numa sombra de ação, em pensamento –,
sei que a ele me apego no calor

dos instintos, da paixão estética;
atraído pela vida proletária
mesmo antes de ti, sua alegria é

para mim religião, não sua luta
milenar; sua natureza, não sua
consciência; é a força originária

do homem, perdida enquanto se fazia,
que lhe dá um fervor da nostalgia,
uma luz poética; e outra coisa

dizer não saberia que não fosse
justa, mas insincera, abstrato
amor, não dolorosa simpatia…

Pobre entre pobres, assim como eles
me apego a esperanças humilhantes,
e como eles para viver combato

todo dia. Mas nesta condição
desesperadora de deserdado
eu possuo, possuo a mais exaltante

das possessões burguesas, o estado
mais absoluto. Mas, se possuo a história,
ela me possui, e dela me ilumino:

mas de que serve a luz?

Pier Paolo Pasolini (1922-1975)
Tradução: Maurício Santana Dias

28 de maio de 2019

Miséria Oculta

Enrique Serra Auqué
Bate nos vidros a aurora,
Vem depois a noite escura;
E o pobre astro que ali mora,
Não abandona a costura!

Para uns a vida é d'abrolhos!
Para outros moita de lírios!
Bem o revelam seus olhos,
Pisados pelos martírios!

Miséria afugenta tudo!
Miséria tem dons funestos!
Quem é que gaba o veludo
D'aquelles olhos honestos!...

Ninguém seus olhos brilhantes
Descobre n'essas alturas...
E aquelas formas tão puras,
E aquelas mãos elegantes!

Sempre á costura inclinada!
Morra o sol ou surja a lua
Nunca vi descer á rua
Aquela loura encantada!

Aquele lírio dobrado
Por que assim vive escondido!
Eu bem sei!--não tem calçado!
E é muito usado o vestido!

Por isso não tem porvir
Morrerá virgem e nova,
E aguarda-a bem cedo a cova...
Que eu bem a ouço tossir!

Miséria afugenta tudo!
Miséria tem dons funestos!
Quem é que gaba o veludo
D'aquelles olhos honestos!

Pobre flor desfalecida
Tão nova e ainda em botão!
Como teve estreita a vida,
Terá estreito o caixão!
António Gomes Leal (1848-1921)

26 de maio de 2019

Guarda-chuvas

Claude Théberge
Tenho quatro guarda-chuvas
todos os quatro com defeito;
Um emperra quando abre,
outro não fecha direito.

Um deles vira ao contrário
seu eu abro sem ter cuidado.
Outro, então, solta as varetas
e fica todo amassado.

O quarto é bem pequenino,
pra carregar por aí;
Porém, toda vez que chove,
eu descubro que esqueci…

Por isso, não falha nunca:
se começa a trovejar,
nenhum dos quatro me vale –
eu sei que vou me molhar.

Quem me dera um guarda-chuva
pequeno como uma luva
Que abrisse sem emperrar
ao ver a chuva chegar!

Tenho quatro guarda-chuvas
que não me servem de nada;
Quando chove de repente,
acabo toda encharcada.

E que fria cai a água
sobre a pele ressecada!
Ai…

Rosana Rios

24 de maio de 2019

O Melro

Martin Johnson Heade
De que fala quando canta
o melro à minha janela?
Fala do amor ausente
ou recorda simplesmente
os tempos que não viveu
porque morreu?

Vestiu de luto para sempre
e as penas pretas que veste
não consentem alegria:
apenas deixam ouvir
a sua melancolia
num cantar de dor presente.

Carlos Mendonça Lopes

22 de maio de 2019

O Meu Guri

Retrato de Chico Buarque pintado por Di Cavalcanti em 1972
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim, levando, ele a me levar
E na sua meninice
Ele um dia me disse que chegava lá

Olha aí!
Olha aí!

Olha aí!
Ai, o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega

Chega suado e veloz do batente
Traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí!

Olha aí!
Ai, o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega

Chega no morro com carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assalto está um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente, acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí!

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri e ele chega (olha aí meu guri)

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá

Olha aí!
Olha aí!

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri (olha aí meu guri)

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri (olha aí meu guri)

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri (olha aí meu guri)

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guriQuando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim, levando, ele a me levar
E na sua meninice
Ele um dia me disse que chegava lá

Olha aí!
Olha aí!

Olha aí!
Ai, o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega

Chega suado e veloz do batente
Traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí!

Olha aí!
Ai, o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega

Chega no morro com carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assalto está um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente, acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí!

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri e ele chega (olha aí meu guri)

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá

Olha aí!
Olha aí!

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri (olha aí meu guri)

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri (olha aí meu guri)

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri (olha aí meu guri)

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri

Chico Buarque de Holanda

19 de maio de 2019

Canto da Morte de Abel

Keith Vaughan
Morto jaz na relva Abel:
fugiu seu irmão Caim.
Um pássaro aproxima-se, mergulha o bico
no sangue, leva um susto e sai voando.

Foge o pássaro pelo mundo inteiro,
molhado o voo, estridulante a voz,
carpindo o seu lamento interminável:
sobre o formoso Abel e a dor da sua morte,
sobre o feio Caim e seu mortal pecado,
sobre seus próprios dias juvenis.

Logo lhe atira Caim ao coração sua flecha:
e logo há de levar disputa e guerra e morte
a todas as cabanas e cidades,
fará inimigos para assassiná-los,
a eles e a si mesmo em desespero odiando,
a eles e a si mesmo por todos os becos
caçando torturado até à próxima Noite Universal,
até de si por fim vomitar-se Caim.

Foge o pássaro: do seu bico ensanguentado
um lamento de morte faz-se ouvir cobrindo o
mundo inteiro.
Caim o escuta, o morto Abel o escuta,
mil o escutam sob o toldo celeste,
dez mil e mais não o escutam, porém,
sobre a morte de Abel não querem saber nada,
nada sobre Caim e o peso em seu coração,
nada do sangue a jorrar de tantas feridas,
nada da guerra que estava aí ainda ontem
e da qual sabem agora lendo romances.
Para esses todos, alegres e satisfeitos,
fortes e brutos,
Caim e Abel, tristeza e morte, não existem:
louvam a guerra como um tempo formidável.

E quando passa voando o pássaro lamentoso
dizem que é agourento e pessimista,
sentem-se fortes e invictos,
e apedrejam o pássaro
até fazê-lo calar e sumir,
ou tocam música para não mais o ouvirem
porque a voz triste dele os incomoda.

O pássaro com suas pequeninas
gotas de sangue no bico, voa de um a outro lugar
e o seu pranto por Abel não para de ressoar.

Hermann Hesse (1877-1962)
Tradução: Geir Campos

17 de maio de 2019

Ilusões

Henri Gervex
Ela, que eu não julgo feia,
possui a pupila azul
e dá sempre certa ideia
das filhas de John Buli.
Os bons pintores de França
coloriram lhe o cabelo…
Que trança de ouro! Que trança
se os seios não fossem gelo!
Seduz quando se lhe vê
do colo a brancura, e enfim
tem de alvos lírios o pé
e a mão é como um jasmim.
Ninguém no mundo presuma
sonhar beldade maior;
nasceu num lençol d’espuma
depois de um sonho de amor.
É pena ter, como a face,
o seio desfeito em neve:
por mais que à porta se passe
a sorrir jamais se atreve!
Esbanjei tempos imensos
no fervor de remirá-la
e, apesar dos meus incensos,
nunca chegámos à fala.
Por fim mais me aproximei
um dia pelo sol posto
e então com pasmo notei
que era pintura o seu rosto.
Fez-lhe o vestido a Férin
de um estofo um pouco espesso,
mas logo vi muito bem
uma boneca de gesso.
Uma boneca de sala,
inerte, desanimada,
sem luz, sem vida, sem fala,
uma boneca e mais nada!

Diogo Macedo (1844-1938)

15 de maio de 2019

Ebulição da Escravatura

Tarsila do Amaral
A área de serviço é senzala moderna,
Tem preta eclética, que sabe ler “start”;
“Playground” era o terreiro a varrer.

Navio negreiro assemelha-se ao ônibus cheio,
Pelo cheiro vai assim até o fim-de-linha;
Não entra no novo quilombo da favela.

Capitão-do-mato virou cabo de polícia,
Seu cavalo tem giroflex (radiopatrulha).
“Os ferros”, inoxidáveis algemas.

Ração poder ser o salário-mímino,
Alforria só com a aposentadoria
(Lei dos sexagenários).

“Sinhô” hoje é empresário,
A casa-grande verticalizou-se.
O pilão está computadorizado.
Na última página são “flagrados”
Em cuecas, segurando a bolsa e a automática:
Matinal pelourinho.

A princesa Áurea canta,
Pastoreia suas flores.
O rei faz viaduto com seu codinome.

– Quantos negros? Quanto furor?
Tantos tambores... tantas cores...
O que comparar com cada batida no tambor?

¤¤¤¤ ¤¤¤¤ ¤¤¤¤ ¤¤¤¤

“A escravatura não foi abolida;
foi distribuída entre os pobres”.

Luís Carlos de Oliveira

13 de maio de 2019

As árvores

Vincent van Gogh
As folhas rebentam nas árvores
Como algo que quase se diz;
Os novos botões espreguiçam-se,
O verde é uma forma de mágoa.

Será que renascem, e nós
A envelhecer? Não, também morrem.
O truque que as faz parecer novas
Está escrito no grão dos anéis.

Porém os castelos inquietos
Adensam e crescem com o Maio.
Dizem: “passou, morreu o ano –
Recomecem, recomecem…”

Philip Larkin (1922–1985)
Tradução: Rui Carvalho Homem

11 de maio de 2019

Onde estará a Guilhermina?

Quando a minha irmã a convidou
e eu corri a abrir-lhe a porta,
entrou o sol, entraram estrelas,
entraram duas tranças de trigo
e dois olhos intermináveis.
Eu tinha catorze anos
e era orgulhosamente calado,
magro, severo, sisudo,
funéreo e cerimonioso:
vivia com as aranhas,
humedecido pela mata,
conheciam-me os coleópteros
e as abelhas tricolores,
adormecia com as perdizes
metido todo em hortelã.
Então entrou a Guilhermina
com dois relâmpagos azuis
que atravessaram o meu cabelo
e me cravaram como espadas
contra as paredes do Inverno.
Isto aconteceu em Temuco.
Lá para o Sul, na fronteira.
Passaram lentos os anos
pisando como paquidermes,
regougando como raposas loucas,
passaram impuros os anos
crescentes, poídos, mortuários,
e eu andei de nuvem pra nuvem,
de terra em terra, de olho em olho,
enquanto a chuva na fronteira
caía, com o mesmo fato.
Caminhou o meu coração
com intransmissíveis sapatos,
e digeri muitos espinhos:
não tive tréguas onde estive:
onde eu bati, bateram-me,
onde me mataram caí
e ressuscitei com frescura,
e depois, depois, depois, depois
é tão longo contar as coisas.
Não tenho nada para acrescentar.
Vim viver para este mundo.
Onde estará a Guilhermina?

Pablo Neruda (1904-1973)
Tradução: Fernando Assis Pacheco

9 de maio de 2019

Canção noturna do andarilho

Jean-Marc Janiaczyk
No alto das colinas
há paz;
não se ouve, ali nas
frondes, mais
que um sopro manso.
Nem há no bosque um trino. Aguarda:
tampouco tarda
o teu descanso.
o teu descanso.

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Tradução: Nelson Ascher

7 de maio de 2019

Canção da breve serenidade

Paul Gauguin
Ouço a chuva cair. Olho as ruas molhadas.
Penso nas violetas e nos jardins em flor.
Desce ao meu coração uma paz sem memória.
Desce ao meu coração uma doçura imensa…

Lembro o amor a dormir tranquilo e sossegado
A rua esquiva e sem pregões, a rua pobre,
A rua humilde e a casa pequenina, em que se abriga
Lembro a infância que foi e outras manhãs já longe.

Sinto a vida como a chuva descendo
Sobre os quietos beirais, sobre as ruas, descendo
Sinto que o tempo é bom porque não para nunca

Um ritmo de abrigo envolve as coisas, tudo,
Vontade de dormir o grande sono calmo
Ouvindo a chuva triste e mansa a descer sobre mim.

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965)

5 de maio de 2019

Do Supérfluo

Henri Matisse
Também as cousas participam
de nossa vida. Um livro. Uma rosa.
Um trecho musical que nos devolve
a horas inaugurais. O crepúsculo
acaso visto num país
que não sendo da terra
evoca apenas a lembrança
de outra lembrança mais longínqua.
O esboço tão somente de um gesto
de ferina intenção. A graça
de um retalho de lua
a pervagar num reposteiro.
A mesa sobre a qual me debruço
cada dia mais temerosa
de meus próprios dizeres.
Tais cousas de íntimo domínio
talvez sejam supérfluas.
No entanto
que tenho a ver contigo
se não leste o livro que li
não viste a rosa que plantei
nem contemplaste o pôr do sol
à hora em que o amor se foi?
Que tens a ver comigo
se dentro em ti não prevalecem
as cousas – todavia supérfluas –
do meu intransferível patrimônio?

Henriqueta Lisboa (1901-1985)

3 de maio de 2019

Pequena Elegia de Setembro

Giovanni di Paolo

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Eugénio de Andrade (1923-2005)

1 de maio de 2019

Estela e Nize

Renoir
Eu vi a linda Estela, e namorado
Fiz logo eterno voto de querê-la;
Mas vi depois a Nize, e é tão bela,
Que merece igualmente o meu cuidado.

A qual escolherei, se neste estado
Não posso distinguir Nize d’Estela?
Se Nize vir aqui, morro por ela;
Se Estela agora vir, fico abrasado.

Mas, ah! que aquela me despreza amante,
Pois sabe que estou preso em outros braços,
E esta não me quer por inconstante.

Vem, Cupido, soltar-me destes laços,
Ou faz de dois semblantes um semblante,
Ou divide o meu peito em dois pedaços!

Alvarenga Peixoto (1742-1793)