4 de fevereiro de 2019

Trabalhar cansa

Munir Alawi: O Homem Solitário
Atravessar uma rua para escapar de casa
só o faz o menino, mas este homem que gira
o dia todo pelas ruas não é mais um menino
e não escapa de casa.

O verão tem tardes
que até as praças são vazias, vastas
sob o sol que vai se pondo, e este homem, que chega
por uma avenida de inúteis plantas, para.
Vale a pena ser só para ser sempre mais só?
Somente contorná-las, as praças e as ruas
estão vazias. É preciso abordar uma mulher
e falar-lhe e decidi-la a viver juntos.
De outro modo, se fala sozinho. É por isso que às vezes
se encontra o bêbado noturno que faz discursos
e conta os projetos da vida toda.

Não é certamente esperando na praça deserta
que se encontra alguém, mas quem gira pelas ruas
para de vez em quando. Se fossem em dois,
mesmo que andando pela rua, a casa seria
onde está aquela mulher e valeria a pena.
De noite, a praça volta a ser deserta
e este homem que passa não vê as casas
entre inúteis luzes, não ergue mais os olhos:
sente só o calçamento que fizeram outros homens
de mãos endurecidas como as suas.
Não é justo restar na praça deserta.
Existirá certamente aquela mulher pela rua
que se suplicada ajudaria em casa.

Cesare Pavese (1908-1950)
Tradução: Maria Betânia Amoroso

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