9 de fevereiro de 2019

Livro

Mark Lilla explica a razão de Platão não ter se submetido à tirania
e Sartre tê-la justificado
.
Assim como Isaiah Berlin e John Gray, filósofos britânicos, o historiador e cientista político americano Mark Lilla é um mestre da difícil e deliciosa arte do ensaio. O ensaio é o conto do pensamento. O professor de Columbia é autor de livrinhos, no tamanho, que são livrões, em termos de qualidade. “A Mente Imprudente — Os Intelectuais na Atividade Política” (Record, 195 páginas, tradução de Clóvis Marques) contém textos sobre Heidegger, Hannah Arendt, Karl Jaspers, Carl Schmitt, Walter Benjamin, Alexandre Kojève, Michel Foucault, Jacques Derrida e, no epílogo, Platão. Recomendo a leitura de todos, mas, neste comentário, circunscrevo-me ao ensaio “A sedução de Siracusa”, de dezoito páginas.
“A Sedução de Siracusa” é sobre Platão e intelectuais modernos. Tendo recebido um convite de Díon, seu discípulo na Sicília, aproximadamente em 368 a. C., o filósofo, mesmo relutante, decidiu dialogar com o rei Dionísio, o Jovem. Díon esclareceu que o governante “era um homem aberto à filosofia e desejava ser justo”. O que lhe faltava era uma instrução “construtiva”.
Platão, registra Mark Lilla, postulava que “o máximo que se pode esperar na política é o estabelecimento de um governo moderado sob o estável império da lei”. Dionísio não era lá grande coisa, como estadista, mas Díon convenceu o filósofo de que poderia ser mudado por uma educação adequada.
Ao ouvir Dionísio, Platão decepcionou-se. Mark Lilla sublinha que o político “queria dotar-se de uma capa de cultura, mas carecia de disciplina e do compromisso necessários para se submeter à argumentação dialética e alinhar sua vida com as conclusões desse processo. Revelou-se impossível trazer o teimoso Dionísio à filosofia e à justiça”.
No lugar de ouvir as ideias e sugestões do filósofo, por exemplo de “dotar as cidades conquistadas de boas leis”, o tirano começou a desconfiar de Díon e acabou por expulsá-lo de Siracusa. “Como não conseguisse promover a reconciliação entre os dois, Platão decidiu partir.”
Mesmo exilado, Díon, por ter ouvido “dizer que Dionísio retomara o estudo da filosofia”, convenceu Platão a voltar a Siracusa. “O que encontrou ao chegar foi um homem ainda mais arrogante que já se considerava filósofo e supostamente teria escrito um livro. A causa estava perdida, mas Platão não culpou ninguém, senão a si mesmo: ‘Eu não tinha mais motivos de ficar indignado com Dionísio do que comigo mesmo e com aqueles que me obrigaram a vir’”.
Ao perceber que era impossível “reeducar” Dionísio, Díon deu um golpe de Estado e o expulsou de Siracusa. Mas acabou assassinado, três anos depois. Dionísio reassumiu o trono e, depois, foi “deposto pelo exército de Corinto, a cidade-mãe de Siracusa”.
O intelectual filotirânico
“O tirano sobreviveu” com os nomes de Lênin, Stálin, Hitler, Mussolini, Mao Tsé-tung,Ho Chi Minh, Fidel Castro, Rafael Trujillo, Idi Amin Dada, Bokassa, Saddam Hussein, Khomeini, Ceausescu e Milosevic. “O problema de Dionísio é velho como a criação. Já o dos seus partidários intelectuais é novo”, frisa Mark Lilla. Surgiram, com o fascismo e o comunismo, os intelectuais filotirânicos. Tais homens serviram “ao moderno Dionísio abertamente em palavras e atos, e seus casos são deploráveis: Martin Heidegger e Carl Schmitt na Alemanha nazista, Georg Lukács na Hungria. Os peregrinos às novas Siracusas que estavam sendo construídas em Moscou, Berlim, Hanói e Havana foram em número surpreendente. Eles eram os voyeurs políticos que faziam turnês cuidadosamente coreografadas pelos domínios do tirano. Mas dando um jeito de nunca visitar as prisões”. Que, claro, estavam lotadas.
Mestres eminentes, como Jean-Paul Sartre, poetas, como Pablo Neruda, e jornalistas “mobilizaram seus talentos para convencer quem quisesse ouvir de que os tiranos modernos eram libertadores e seus absurdos crimes eram nobres, se vistos da devida perspectiva”. O historiador britânico Tony Judt escreveu um livro devastador sobre franceses que apoiaram e justificaram, entre outras coisas, a brutalidade política de Stálin. Mark Lilla, pelo fato de seu ensaio ser de 2001, não pôde citar “Passado Imperfeito — Um Olhar Crítico Sobre a Intelectualidade Francesa no Pós-Guerra” (Nova Fronteira, 475 páginas, tradução de Luciana Persice Nogueira). Sartre e Merleau-Ponty saem muito mal da corrosiva dissecação do pesquisador inglês.
Se é execrável, “que pode haver na mente humana que tornou possível a defesa intelectual da tirania no século 20?”, indaga Mark Lilla. Trata-se de um “fenômeno geral”. “O caso de Heidegger é apenas o exemplo mais dramático no século 20 de como a filosofia, o amor à sabedoria, decaiu para a filotirania.”
Para tentar explicar o que aconteceu, Mark Lilla recorre a alguns autores. O filósofo britânico Isaiah Berlin sugere, enfatiza o historiador, que “foi o Iluminismo que forneceu o ideal ‘pelo qual mais seres humanos se sacrificaram, em nossa época, e sacrificaram a outros do que, talvez, por qualquer outra causa na história da humanidade”. De algum modo, o Iluminismo “teria” levado ao totalitarismo.
“As ideologias do século 20 apelavam para a vaidade e a pura e simples ambição de certos intelectuais, mas também apelavam, de maneira maliciosa e desonesta, para o senso de justiça e ódio ao despotismo que o próprio ato de pensar parece inculcar em nós, e que, não sendo devidamente controlado, pode literalmente nos possuir. Para os possuídos, as exortações à moderação e ao ceticismo parecerão covardes e pusilânimes, e por isto os raros intelectuais europeus que convocavam essas qualidades — Aron era um deles — tornavam-se alvo de abomináveis ataques, como traidores da missão”, relata Mark Lilla (que não cita o escritor Albert Camus, um dos mais atacados por Sartre, e exatamente por não se submeter ao discurso dos que defendiam a tirania comunista). Aron e outros — poucos — resistiram e, ao contrário de Sartre, não se tornaram intelectuais irresponsáveis, do tipo que, quando a circunstância muda, sente-se compelido a fazer autocrítica, não por sinceridade, e sim por necessidade de “sobrevivência”.
Mark Lilla alerta que “a tirania não morreu, nem na política nem certamente em nossa alma. Enquanto homens e mulheres pensarem sobre política estará presente a tentação de sucumbir à sedução de uma ideia, permitir que a paixão por ela nos cegue para seu potencial tirânico e abdicar da nossa primeira responsabilidade, que é dominar o tirano interno”. O historiador destaca que é preciso olhar “para dentro de si” para entender do que os políticos e todos nós somos capazes.
“As ideologias do século 20 apelavam para a vaidade e a pura e simples ambição de certos intelectuais, mas também apelavam, de maneira maliciosa e desonesta, para o senso de justiça e ódio ao despotismo que o próprio ato de pensar parece inculcar em nós, e que, não sendo devidamente controlado, pode literalmente nos possuir. Para os possuídos, as exortações à moderação e ao ceticismo parecerão covardes e pusilânimes, e por isto os raros intelectuais europeus que convocavam essas qualidades — Aron era um deles — tornavam-se alvo de abomináveis ataques, como traidores da missão”, relata Mark Lilla (que não cita o escritor Albert Camus, um dos mais atacados por Sartre, e exatamente por não se submeter ao discurso dos que defendiam a tirania comunista). Aron e outros — poucos — resistiram e, ao contrário de Sartre, não se tornaram intelectuais irresponsáveis, do tipo que, quando a circunstância muda, sente-se compelido a fazer autocrítica, não por sinceridade, e sim por necessidade de “sobrevivência”.
Mark Lilla alerta que “a tirania não morreu, nem na política nem certamente em nossa alma. Enquanto homens e mulheres pensarem sobre política estará presente a tentação de sucumbir à sedução de uma ideia, permitir que a paixão por ela nos cegue para seu potencial tirânico e abdicar da nossa primeira responsabilidade, que é dominar o tirano interno”. O historiador destaca que é preciso olhar “para dentro de si” para entender do que os políticos e todos nós somos capazes.

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