27 de fevereiro de 2019

Balada da moça do Miramar

Vicente Romero Redondo
Silêncio da madrugada
No Edifício Miramar...
Sentada em frente à janela
Nua, morta, deslumbrada
Uma moça mira o mar.

Ninguém sabe quem é ela
Nem ninguém há de saber
Deixou a porta trancada
Faz bem uns dois cinco dias
Já começa a apodrecer
Seus ambos joelhos de âmbar
Furam-lhe o branco da pele
E a grande flor do seu corpo
Destila um fétido mel.

Mantém-se extática em face
Da aurora em elaboração
Embora formigas pretas
Que lhe entram pelos ouvidos
Se escapem por umas gretas
Do lado do coração.
Em volta é segredo: e móveis
Imóveis na solidão...
Mas apesar da necrose
Que lhe corrói o nariz
A moça está tão sem pose
Numa ilusão tão serena
Que, certo, morreu feliz.

A vida que está na morte
Os dedos já lhe comeu
Só lhe resta um aro de ouro
Que a morte em vida lhe deu
Mas seu cabelo de ouro
Rebrilha com tanta luz
Que a sua caveira é bela
E belo é seu ventre louro
E seus pelinhos azuis.

De noite é a lua quem ama
A moça do Miramar
Enquanto o mar tece a trama
Desse conúbio lunar
Depois é o sol violento
O sol batido de vento
Que vem com furor violeta
A moça violentar.

Muitos dias se passaram
Muitos dias passarão
À noite segue-se o dia
E assim os dias se vão
E enquanto os dias se passam
Trazendo a putrefação
À noite coisas se passam...
A moça e a lua se enlaçam
Ambas mortas de paixão.

Ah, morte do amor do mundo
Ah, vida feita de dar
Ah, sonhos sempre nascendo
Ah, sonhos sempre a acabar
Ah, flores que estão crescendo
Do fundo da podridão
Ah, vermes, morte vivendo
Nas flores ainda em botão
Ah, sonhos, ah, desesperos
Ah, desespero de amar
Ah, vida sempre morrendo
Ah, moça do Miramar!

Vinícius de Moraes (1913-1980)

25 de fevereiro de 2019

O Profeta

Michelangelo – Prophet Isaiah
Num ermo, eu de âmago sedento
já me arrastava e, frente a mim,
surgiu com seis asas ao vento,
na encruzilhada, um serafim;
ele me abriu, com dedos vagos
qual sono, os olhos que, pressagos,
tudo abarcaram com presteza
que nem olhar de águia surpresa;
ele tocou-me cada ouvido
e ambos se encheram de alarido:
ouvi mover-se o firmamento,
anjos cruzando o céu, rasteiras
criaturas sob o mar e o lento
crescer, no vale, das videiras.
Junto a meus lábios, rasgou minha
língua arrogante, que não tinha,
salvo enganar, qualquer intuito,
da boca fria onde, depois,
com mão sangrenta ele me pôs
um aguilhão de ofídio arguto.
Vibrando o gládio com porfia,
tirou-me o coração do peito
e colocou carvão que ardia
dentro do meu tórax desfeito.
Jazendo eu hirto no deserto,
o Senhor disse-me: “Olho aberto,
de pé, profeta e, com teu verbo,
cruzando as terras, os oceanos,
cheio do meu afã soberbo,
inflama os corações humanos!”

- Aleksander Púchkin (1799-1837)
Tradução: [Boris Schnaiderman e Nelson Ascher]

23 de fevereiro de 2019

Estudo de Duas Peras

Julian Merrow-Smith
I

Opusculum paedagogum.
As peras não são violas,
Nem nus, nem garrafas.
Não se assemelham a mais nada.
II

São formas amarelas
Compostas de curvas
Abauladas na base.
Têm um toque de vermelho.
III

Não são superfícies planas
De contornos curvos.
São redondas,
Afiladas no alto.
IV

São modeladas de modo
A terem traços de azul.
Uma folha dura e seca
Pende do pecíolo.
V

O amarelo brilha.
Um brilho de vários amarelos,
Alaranjados e verdes
A florescer na casca.
VI

As sombras das peras são manchas
Amorfas na toalha verde.
As peras não são vistas
À vontade de quem vê.

Wallace Stevens (1879-1955)
Tradução: Paulo Henriques Britto

21 de fevereiro de 2019

Paz

Isaac Levitan - Above the Eternal Peace
As árvores espreitam o arco-íris,
A fonte de orvalho verdeja em calma fresca,
Três cordeiros pastam sua brancura,
Riacho doce saboreia moças em seu banho.

Sol vermelho rola noite abaixo,
Nuvens-penugens morrem seu fogo-sonho.
Escuro sobre maré e seara.

Sapo-andarilho salta com grande olho,
A relva cinza também pula discreta.
Na profunda fonte soam minhas estrelas.
O vento-saudade ventila boa noite.

Albert Ehrenstein (1886-1950)
Tradução: Claudia Cavalcanti

19 de fevereiro de 2019

Verde

John White Alexander
Na lâmina azinhavrada
desta água estagnada,
entre painéis de musgo
e cortinas de avenca,
bolhas espumejam
como opalas ocas
num veio de turmalina:
é uma rã bailarina,
que ao se ver feia, toda rusguenta,
pulou, raivosa, quebrando o espelho,
e foi direta ao fundo,
reenfeitar, com mimo,
suas roupas de limo...

Guimarães Rosa (1908-1967)

17 de fevereiro de 2019

Um aviador irlandês prevê a morte

Photograph - Airplane by Christian Lindsten
Encontrarei meu fim no meio
das nuvens de algum céu sobejo;
os que combato, eu não odeio,
também não amo os que protejo;
Kiltartan Cross é meu país,
seus pobres são a minha gente,
nada a fará mais infeliz
do que já era, ou mais contente.

Não é por lei ou por dever,
turba ou políticos, que luto,
mas pelo afã de me entreter,
a sós, nas nuvens em tumulto.

Tudo na mente foi pesado:
nada que espere ou que recorde
vale-me a pena comparado
com esta vida ou esta morte.

William Butler Yeats (1865 -1939)
Tradução: Nelson Ascher

15 de fevereiro de 2019

Garranchos III

Vincent van Gogh
Era de doidos a festa, amigo? Era de bêbedos? Fizeste muito bem em enlouquecer e embebedar-te também. Ficaste otimamente pondo a máscara de papel pintado sobre a máscara moral com que cobres eternamente o rosto, meu pérfido! Ser bobo é chic, está na moda!
E, como gostas dela, foste bobo também! Que pândego que te achei, envolvido em panos encarnados, arrotando vinho! Que bem que fizeste abandonando a gravidade da vida! Quem é que quer ser sério no Carnaval? Há lá seriedade nisso! E ainda que quisesses exibir alguma, pensas que Baco consentiria? Passarias por idiota se procedesses assim…
Bateu-te à porta a orgia e, com a sedução das bacantes, caíste-lhes bêbedo aos braços, tratante! Melhor não poderias ter feito. Se o vinho é deus, se o vinho impera, era mister que te entregasses de corpo e alma ao seu domínio! Beber! Transportar-se de um trago às paragens encantadas do prazer… Que delícia!
E, depois de todas essas loucuras, depois de tantas noites a braços com o vício, ir, genuflexo e piedoso, receber na testa a cruz de cinza!
Que contraste! E que é a vida, afinal, senão uma intérmina sucessão de contrastes?
Graciliano Ramos (1892-1953)

13 de fevereiro de 2019

O Caderno

Franz Xaver Simm
Sou eu que vou seguir você
Do primeiro rabisco até o be-a-bá.
Em todos os desenhos coloridos vou estar:
A casa, a montanha, duas nuvens no céu
E um sol a sorrir no papel.

Sou eu que vou ser seu colega,
Seus problemas ajudar a resolver.
Te acompanhar nas provas bimestrais, você vai ver.
Serei de você confidente fiel,
Se seu pranto molhar meu papel.

Sou eu que vou ser seu amigo,
Vou lhe dar abrigo, se você quiser.
Quando surgirem seus primeiros raios de mulher
A vida se abrirá num feroz carrossel
E você vai rasgar meu papel.

O que está escrito em mim
Comigo ficará guardado, se lhe dá prazer.
A vida segue sempre em frente, o que se há de fazer.
Só peço a você um favor, se puder:
Não me esqueça num canto qualquer.

(Chico Buarque e Toquinho)

11 de fevereiro de 2019

A Alma do Vinho

Iluminura Medieval
Nas garrafas cantou, uma noite, a alma do vinho:
“Homem, pra ti exalo, ó caro deserdado,
Nesta prisão de lacre vermelho e de vidro,
Um canto cheio de luz e de fraternidade!
“Sobre a colina em fogo, sei quanto é preciso
De esforço, de suor e de sol bem ardente
Pra me engendrar a vida e me criar o espírito;
Porém, não quero ser ingrato ou malevolente,
“Porque imensa alegria sinto ao ir caindo
Na goela de um homem gasto pelo trabalho
E o seu peito quente é um sepulcro suave
Que me agrada bem mais do que as adegas frias.
“Não ouves ressoar os refrãos domingueiros
E no meu peito ansioso a esperança a gorjear?
Cotovelos na mesa e manga arregaçada,
Irás glorificar-me e estarás satisfeito;
“Da tua esposa encantada acenderei os olhos;
Devolverei a força e as cores ao teu filho
E serei pra tão frágil atleta da vida
O óleo que enrijece aos lutadores os músculos.
“Em ti hei de cair, vegetal ambrosia,
Precioso grão que sempre o eterno Semeador
Lança, pra que do nosso amor nasça a poesia
Que brotará pra Deus como uma rara flor!”

Charles Baudelaire (1821-1867)
Tradução: Fernando Pinto do Amaral

9 de fevereiro de 2019

Livro

Mark Lilla explica a razão de Platão não ter se submetido à tirania
e Sartre tê-la justificado
.
Assim como Isaiah Berlin e John Gray, filósofos britânicos, o historiador e cientista político americano Mark Lilla é um mestre da difícil e deliciosa arte do ensaio. O ensaio é o conto do pensamento. O professor de Columbia é autor de livrinhos, no tamanho, que são livrões, em termos de qualidade. “A Mente Imprudente — Os Intelectuais na Atividade Política” (Record, 195 páginas, tradução de Clóvis Marques) contém textos sobre Heidegger, Hannah Arendt, Karl Jaspers, Carl Schmitt, Walter Benjamin, Alexandre Kojève, Michel Foucault, Jacques Derrida e, no epílogo, Platão. Recomendo a leitura de todos, mas, neste comentário, circunscrevo-me ao ensaio “A sedução de Siracusa”, de dezoito páginas.
“A Sedução de Siracusa” é sobre Platão e intelectuais modernos. Tendo recebido um convite de Díon, seu discípulo na Sicília, aproximadamente em 368 a. C., o filósofo, mesmo relutante, decidiu dialogar com o rei Dionísio, o Jovem. Díon esclareceu que o governante “era um homem aberto à filosofia e desejava ser justo”. O que lhe faltava era uma instrução “construtiva”.
Platão, registra Mark Lilla, postulava que “o máximo que se pode esperar na política é o estabelecimento de um governo moderado sob o estável império da lei”. Dionísio não era lá grande coisa, como estadista, mas Díon convenceu o filósofo de que poderia ser mudado por uma educação adequada.
Ao ouvir Dionísio, Platão decepcionou-se. Mark Lilla sublinha que o político “queria dotar-se de uma capa de cultura, mas carecia de disciplina e do compromisso necessários para se submeter à argumentação dialética e alinhar sua vida com as conclusões desse processo. Revelou-se impossível trazer o teimoso Dionísio à filosofia e à justiça”.
No lugar de ouvir as ideias e sugestões do filósofo, por exemplo de “dotar as cidades conquistadas de boas leis”, o tirano começou a desconfiar de Díon e acabou por expulsá-lo de Siracusa. “Como não conseguisse promover a reconciliação entre os dois, Platão decidiu partir.”
Mesmo exilado, Díon, por ter ouvido “dizer que Dionísio retomara o estudo da filosofia”, convenceu Platão a voltar a Siracusa. “O que encontrou ao chegar foi um homem ainda mais arrogante que já se considerava filósofo e supostamente teria escrito um livro. A causa estava perdida, mas Platão não culpou ninguém, senão a si mesmo: ‘Eu não tinha mais motivos de ficar indignado com Dionísio do que comigo mesmo e com aqueles que me obrigaram a vir’”.
Ao perceber que era impossível “reeducar” Dionísio, Díon deu um golpe de Estado e o expulsou de Siracusa. Mas acabou assassinado, três anos depois. Dionísio reassumiu o trono e, depois, foi “deposto pelo exército de Corinto, a cidade-mãe de Siracusa”.
O intelectual filotirânico
“O tirano sobreviveu” com os nomes de Lênin, Stálin, Hitler, Mussolini, Mao Tsé-tung,Ho Chi Minh, Fidel Castro, Rafael Trujillo, Idi Amin Dada, Bokassa, Saddam Hussein, Khomeini, Ceausescu e Milosevic. “O problema de Dionísio é velho como a criação. Já o dos seus partidários intelectuais é novo”, frisa Mark Lilla. Surgiram, com o fascismo e o comunismo, os intelectuais filotirânicos. Tais homens serviram “ao moderno Dionísio abertamente em palavras e atos, e seus casos são deploráveis: Martin Heidegger e Carl Schmitt na Alemanha nazista, Georg Lukács na Hungria. Os peregrinos às novas Siracusas que estavam sendo construídas em Moscou, Berlim, Hanói e Havana foram em número surpreendente. Eles eram os voyeurs políticos que faziam turnês cuidadosamente coreografadas pelos domínios do tirano. Mas dando um jeito de nunca visitar as prisões”. Que, claro, estavam lotadas.
Mestres eminentes, como Jean-Paul Sartre, poetas, como Pablo Neruda, e jornalistas “mobilizaram seus talentos para convencer quem quisesse ouvir de que os tiranos modernos eram libertadores e seus absurdos crimes eram nobres, se vistos da devida perspectiva”. O historiador britânico Tony Judt escreveu um livro devastador sobre franceses que apoiaram e justificaram, entre outras coisas, a brutalidade política de Stálin. Mark Lilla, pelo fato de seu ensaio ser de 2001, não pôde citar “Passado Imperfeito — Um Olhar Crítico Sobre a Intelectualidade Francesa no Pós-Guerra” (Nova Fronteira, 475 páginas, tradução de Luciana Persice Nogueira). Sartre e Merleau-Ponty saem muito mal da corrosiva dissecação do pesquisador inglês.
Se é execrável, “que pode haver na mente humana que tornou possível a defesa intelectual da tirania no século 20?”, indaga Mark Lilla. Trata-se de um “fenômeno geral”. “O caso de Heidegger é apenas o exemplo mais dramático no século 20 de como a filosofia, o amor à sabedoria, decaiu para a filotirania.”
Para tentar explicar o que aconteceu, Mark Lilla recorre a alguns autores. O filósofo britânico Isaiah Berlin sugere, enfatiza o historiador, que “foi o Iluminismo que forneceu o ideal ‘pelo qual mais seres humanos se sacrificaram, em nossa época, e sacrificaram a outros do que, talvez, por qualquer outra causa na história da humanidade”. De algum modo, o Iluminismo “teria” levado ao totalitarismo.
“As ideologias do século 20 apelavam para a vaidade e a pura e simples ambição de certos intelectuais, mas também apelavam, de maneira maliciosa e desonesta, para o senso de justiça e ódio ao despotismo que o próprio ato de pensar parece inculcar em nós, e que, não sendo devidamente controlado, pode literalmente nos possuir. Para os possuídos, as exortações à moderação e ao ceticismo parecerão covardes e pusilânimes, e por isto os raros intelectuais europeus que convocavam essas qualidades — Aron era um deles — tornavam-se alvo de abomináveis ataques, como traidores da missão”, relata Mark Lilla (que não cita o escritor Albert Camus, um dos mais atacados por Sartre, e exatamente por não se submeter ao discurso dos que defendiam a tirania comunista). Aron e outros — poucos — resistiram e, ao contrário de Sartre, não se tornaram intelectuais irresponsáveis, do tipo que, quando a circunstância muda, sente-se compelido a fazer autocrítica, não por sinceridade, e sim por necessidade de “sobrevivência”.
Mark Lilla alerta que “a tirania não morreu, nem na política nem certamente em nossa alma. Enquanto homens e mulheres pensarem sobre política estará presente a tentação de sucumbir à sedução de uma ideia, permitir que a paixão por ela nos cegue para seu potencial tirânico e abdicar da nossa primeira responsabilidade, que é dominar o tirano interno”. O historiador destaca que é preciso olhar “para dentro de si” para entender do que os políticos e todos nós somos capazes.
“As ideologias do século 20 apelavam para a vaidade e a pura e simples ambição de certos intelectuais, mas também apelavam, de maneira maliciosa e desonesta, para o senso de justiça e ódio ao despotismo que o próprio ato de pensar parece inculcar em nós, e que, não sendo devidamente controlado, pode literalmente nos possuir. Para os possuídos, as exortações à moderação e ao ceticismo parecerão covardes e pusilânimes, e por isto os raros intelectuais europeus que convocavam essas qualidades — Aron era um deles — tornavam-se alvo de abomináveis ataques, como traidores da missão”, relata Mark Lilla (que não cita o escritor Albert Camus, um dos mais atacados por Sartre, e exatamente por não se submeter ao discurso dos que defendiam a tirania comunista). Aron e outros — poucos — resistiram e, ao contrário de Sartre, não se tornaram intelectuais irresponsáveis, do tipo que, quando a circunstância muda, sente-se compelido a fazer autocrítica, não por sinceridade, e sim por necessidade de “sobrevivência”.
Mark Lilla alerta que “a tirania não morreu, nem na política nem certamente em nossa alma. Enquanto homens e mulheres pensarem sobre política estará presente a tentação de sucumbir à sedução de uma ideia, permitir que a paixão por ela nos cegue para seu potencial tirânico e abdicar da nossa primeira responsabilidade, que é dominar o tirano interno”. O historiador destaca que é preciso olhar “para dentro de si” para entender do que os políticos e todos nós somos capazes.

8 de fevereiro de 2019

Kabir

Elihu Vedder - The Pleiades
Eu disse, à criatura sedenta dentro de mim,
que rio é esse que desejas atravessar?
Não há viajantes na estrada que leva ao rio, e não há estrada.
Vês alguém caminhando junto à margem, ou se abrigando ali?

Não há rio algum, nem barco, nem barqueiro.
Não há corda atada ao barco, nem alguém para puxá-la.
Não há chão, céu, tempo, banco de areia ou vau!

E não há corpo, nem mente!
Acreditas que existe algum lugar capaz de aplacar
a sede da alma?
Nessa grande ausência, nada encontrarás.

Sê forte, então, e penetra teu próprio corpo;
ali tens um lugar sólido para os teus pés.
Pensa nisso com cuidado!
Não te desvies noutra direção!

Kabir diz isto: apenas te desfaz de todo pensamento sobre
coisas imaginárias,
e te mantém firme sobre aquilo que és.

Kabir (1440-1518)
Tradução: Adriana Lisboa

6 de fevereiro de 2019

Poesia

Pierre-Auguste Renoir - Femme nue dans un paysage
Maria, menina, mulher …
Vai a vida e ama
Em sua plenitude
Derrama o cálice doce de saliva
Que guardaste até hoje
Ao ouvir teu coração
E junto dele fez rima
Sentiu desejo
Andou nas nuvens
Teve saudade…
Sente tezão!

– Maria Fernanda Arruda

4 de fevereiro de 2019

Trabalhar cansa

Munir Alawi: O Homem Solitário
Atravessar uma rua para escapar de casa
só o faz o menino, mas este homem que gira
o dia todo pelas ruas não é mais um menino
e não escapa de casa.

O verão tem tardes
que até as praças são vazias, vastas
sob o sol que vai se pondo, e este homem, que chega
por uma avenida de inúteis plantas, para.
Vale a pena ser só para ser sempre mais só?
Somente contorná-las, as praças e as ruas
estão vazias. É preciso abordar uma mulher
e falar-lhe e decidi-la a viver juntos.
De outro modo, se fala sozinho. É por isso que às vezes
se encontra o bêbado noturno que faz discursos
e conta os projetos da vida toda.

Não é certamente esperando na praça deserta
que se encontra alguém, mas quem gira pelas ruas
para de vez em quando. Se fossem em dois,
mesmo que andando pela rua, a casa seria
onde está aquela mulher e valeria a pena.
De noite, a praça volta a ser deserta
e este homem que passa não vê as casas
entre inúteis luzes, não ergue mais os olhos:
sente só o calçamento que fizeram outros homens
de mãos endurecidas como as suas.
Não é justo restar na praça deserta.
Existirá certamente aquela mulher pela rua
que se suplicada ajudaria em casa.

Cesare Pavese (1908-1950)
Tradução: Maria Betânia Amoroso

2 de fevereiro de 2019

A Separação

Francesco Hayez
Ao separar-se, as mãos
costumam dar-se os amantes
e desfazerem-se em prantos
e suspiros incessantes.

Mas entre nós não chorámos
nem ais nem queixas lançámos
só bem mais tarde chegaram
as lágrimas e o desgosto.

Heinrich Heine (1797–1856)
Tradução: Carlos Mendonça Lopes.