2 de janeiro de 2019

Esta é uma declaração de amor

Esta é uma declaração de amor:
amo a língua portuguesa.
Ela não é fácil. Não é maleável.
E, como não foi profundamente trabalhada
pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutileza
e de reagir às vezes com um pontapé contra
os que temerariamente ousam transformá-la numa
linguagem de sentimento de alerteza. E de amor.

A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve.
Sobretudo para quem escreve tirando das coisas
e das pessoas a primeira capa do superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado.
Às vezes assusta com o imprevisível de uma frase.
Eu gosto de manejá-la - como gostava de estar montando
num cavalo e guiá-lo pelas rédeas,
às vezes lentamente, às vezes a galope.
Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo
nas minhas mãos - e este desejo todos os que escrevem têm.
Um Camões e outros iguais não bastaram
para nos dar uma herança de língua já feita.
Todos nós que escrevemos estamos fazendo
do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos.
Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua
que não foi aprofundada.
O que recebi de herança não me chega.

Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever
e me perguntassem a que língua eu queria pertencer,
eu diria: inglês, que é preciso e belo.
Mas como nasci muda e pude escrever,
tornou-se absolutamente claro para mim
que eu queria mesmo era escrever em português.
Eu até queria não ter aprendido outras línguas:
só para que minha abordagem do português
fosse virgem e límpida.

Clarice Lispector (1920-1977)

Nenhum comentário: