14 de janeiro de 2019

Do verbo o verbo...

Hassina Bouglam
É o poema em mim que escreve o meu poema,
do verbo o verbo se origina.
Ele é meu ocupante; e nem sei se me ama.
Quer a poesia, essa inquilina,

meu espaço vital gerir e, furibunda,
ralha: quem sabe estou errado.
Há de absolver-me um dia; em sua porção mais funda,
eu lhe preparo um melhor fado.

Faremos par feliz; há de a minha alegria
vencer-lhe toda inquietação.
Os trêmulos detesta; a mim não cederia
emprego algum: a narração,

nem a trama, ou a letra, ou mesmo a melodia,
pois tudo quer decidir logo.
Meu cérebro retrai-se e a minha razão fria
Não vale um dado posto em jogo.

Sou para o meu poema esqueleto ilusório;
numa mortalha ia melhor.
Ele é adulto, pode ser o promontório,
a ave, o azul e a tília em flor. br>
Nada mais a dizer, poeta; quieto assim
sonhando com sonhar eu vou.
Em si mesmo se pensa o poema, sem mim;
luxúria de que me privou.

Alain Bosquet(1919-1998)
Tradução: Mário Laranjeira

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