20 de janeiro de 2019

Feridos, Silenciaram

Jerci Maccari
Era tempo de colheita.

Auroras inesperadas,
a Letra das Escrituras
ungindo as horas para
a Eternidade.

E
eu segredava:

podes levar o que quiseres,
deixando-me
as dimensões da Cruz,
para conferir o que restar.

Então vieste,
sem aviso.

Cega de espanto,
quis regatear.

Cega diante da Tua Vontade,
espada de gume ardente,
fogo a lavrar
nos ermos da minha fé,
nos ermos da minha dor.

Cega, feri os pulsos no Teu Sigilo.

Feridos, silenciaram.

Era tempo de dar.

Carminha Gouthier (1903-1983)

18 de janeiro de 2019

Fogo da paixão

Belles Heures of Jean de France - Duc de Berry
Deixai de reprovar-me a paixão e desculpai-me,
emprestai-me vossas lágrimas se choro,
não censureis sua paixão a alguém como eu,
louco de amor. Sentísseis vós o que eu sinto,
mandar-me-íeis ignorar o sono:
pois eu, pela paixão, estou privado dele.
Vós conheceis o sono, mas meus olhos,
na amargura do tempo,
não conhecem a união com o descanso.
Amigos, dizei-me a verdade,
que sabor tem o sono, que eu já o esqueci?

Ibn Sahl de Sevilha (1212-1251)
Tradução: Carlos Mendonça Lopes

16 de janeiro de 2019

O quarto poder

Cecília Meireles - batuques, sambas e macumba
O jornal reporta pessoas como sempre.
O duplo de papel da carnalidade,
Mantém a vida na moda
E incensa o incerto original.
Lemos com fé, esfregando a lâmpada fictícia,
E logo surgem gênios para se fofocar
Da ampla página, e pela matéria
Sabemos sobre nós, silenciados
Por nossas fotos impressas suspensas
Numa parede frágil.

E a folha circula talvez além
Dos limites privados do boato carnal.
E a propaganda é a de um retrato ativo
Que serve a um modelo calado,
Pleiteia um bom lugar na galeria remota,
Garante à criatura a imortalidade empoeirada
De um fantástico memorando
Num arquivo perdido.

Laura Riding (1901-1991)
Tradução: [Rodrigo Garcia Lopes]

14 de janeiro de 2019

Do verbo o verbo...

Hassina Bouglam
É o poema em mim que escreve o meu poema,
do verbo o verbo se origina.
Ele é meu ocupante; e nem sei se me ama.
Quer a poesia, essa inquilina,

meu espaço vital gerir e, furibunda,
ralha: quem sabe estou errado.
Há de absolver-me um dia; em sua porção mais funda,
eu lhe preparo um melhor fado.

Faremos par feliz; há de a minha alegria
vencer-lhe toda inquietação.
Os trêmulos detesta; a mim não cederia
emprego algum: a narração,

nem a trama, ou a letra, ou mesmo a melodia,
pois tudo quer decidir logo.
Meu cérebro retrai-se e a minha razão fria
Não vale um dado posto em jogo.

Sou para o meu poema esqueleto ilusório;
numa mortalha ia melhor.
Ele é adulto, pode ser o promontório,
a ave, o azul e a tília em flor. br>
Nada mais a dizer, poeta; quieto assim
sonhando com sonhar eu vou.
Em si mesmo se pensa o poema, sem mim;
luxúria de que me privou.

Alain Bosquet(1919-1998)
Tradução: Mário Laranjeira

12 de janeiro de 2019

Prognóstico

Loui Jover - Ilustração
Poeta,
Creia,
Nem tudo está perdido,
Porque,
Felizmente,
Sobretudo o mais,
O seu ideal,
A muitos outros ainda comove, Demove
e

Predomina.


- Ada Ciocci Curado (1916-1999)

10 de janeiro de 2019

Caos climático

Gustav Klimt
É temerário descartar
a memória das Águas
o grito da Terra
o chamado do Fogo
o clamor do Ar.

As folhas secas rangem sob os nossos pés.
Na ressonância o elo da nossa dor
em meio ao caos
a pavorosa imagem
de que somos capazes de expor
a nossa ganância
até não mais ouvir
nem mais chorar
nem meditar,
nem cantar...
só ganância, mais nada.

É temerário descartar
a memória das Águas
o grito da Terra
o chamado do Fogo
o clamor do Ar.

- Graça Graúna

8 de janeiro de 2019

Vestibular 2ª Fase da Fuvest 2019

Leia os textos:
Texto I
Devo acrescentar que Marx nunca poderia ter suposto que o capitalismo preparava o caminho para a libertação humana se tivesse olhado sua história do ponto de vista das mulheres. Essa história ensina que, mesmo quando os homens alcançaram certo grau de liberdade formal, as mulheres sempre foram tratadas como seres socialmente inferiores, exploradas de modo similar às formas de escravidão. “Mulheres”, então, no contexto deste livro, significa não somente uma história oculta que necessita se fazer visível, mas também uma forma particular de exploração e, portanto, uma perspectiva especial a partir da qual se deve reconsiderar a história das relações capitalistas.
FEDERICI, Silvia, Calibã e a Bruxa: mulheres,
corpo e acumulação primitiva. S.l.: Elefante, 2017.
Texto II
Em todas as épocas sociais, o tempo necessário para produzir os meios de subsistência interessou necessariamente aos homens, embora de modo desigual, de acordo com o estádio de desenvolvimento da civilização.
MARX, Karl, O capital. São Paulo: Boitempo, 2017.
a) Existe diferença de sentido no emprego da palavra “homens” em cada um dos textos? Justifique.

b) Explique o uso das aspas em “’Mulheres’”, no texto I
Resolução:
a) No texto 1 “homens” foi empregado como pessoas do gênero masculino em oposição a “mulheres”. No texto II, “homens” foi empregado com sentido de humanidade.

b) As aspas foram usadas para destacar o significado atribuído à palavra “mulheres” que, segundo o autor, foi empregada no capitalismo como indicadora de seres “socialmente inferiores”.

7 de janeiro de 2019

Vestibular 2ª Fase da Fuvest 2019

Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever
Mas o correio andou arisco
Se me permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
A Marieta manda um beijo para os seus
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo pessoal
Adeus.
(Adeus Meu caro amigo). - Chico Buarque e Francis Hime, 1976.
a) Levando em conta o período histórico em que a letra da música foi composta, justifique o uso do plural no terceiro verso.

b) A letra da canção apresenta características de qual gênero discursivo? Aponte duas dessas características:
Resolução
a) O 3º verso apresenta o verbo permitir (“permitem”), com sujeito indeterminado, referindo-se aos censores, que, na época da ditadura militar eram encarregados de analisar as produções artísticas, antes de sua divulgação, a partir de critérios políticos e ideológicos do regime militar.

b) O texto apresenta características do gênero epistolar (carta), apesar de ser uma letra de música, que comenta a dificuldade de se comunicar com o amigo em razão da censura prévia (“o correio andou arisco”). Pode-se classificá-la como carta-canção, considerando que há um remetente (o próprio autor) e um destinatário (“meu caro amigo”). A comprovação do gênero epistolar encontra-se na estrutura da canção: o uso de vocativo (“meu caro amigo”) e a despedida (“Um beijo na família, na Cecília e nas crianças”, “Adeus”).

6 de janeiro de 2019

Reis Magos

Zanobi Strozzi
E para ouvir a sua história
vieram três reis encantados:

um vermelho, o que lhe trouxe
a manhã como presente;

outro branco, o que lhe havia
feito presente do dia;

outro preto, finalmente,
rosto cortado de açoite.
O que lhe trouxera a Noite…

Cassiano Ricardo (1895-1974)

4 de janeiro de 2019

Paraquedistas

Yavuz Sariyildiz - Paragliding
escrever é dedicar
os dedos à marcenaria
de qualquer jardim

desatamos as mãos
e a tontura que dá
vem do alto

o cair das nuvens folhas
passarinho avião papel
picado a lua no mar

silêncio de planta, euforia
de cama elástica, alegria
de piquenique no parque

e tanto carinho
guardo pra você
numa luva de boxe

- Bruna Beber

2 de janeiro de 2019

Esta é uma declaração de amor

Esta é uma declaração de amor:
amo a língua portuguesa.
Ela não é fácil. Não é maleável.
E, como não foi profundamente trabalhada
pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutileza
e de reagir às vezes com um pontapé contra
os que temerariamente ousam transformá-la numa
linguagem de sentimento de alerteza. E de amor.

A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve.
Sobretudo para quem escreve tirando das coisas
e das pessoas a primeira capa do superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado.
Às vezes assusta com o imprevisível de uma frase.
Eu gosto de manejá-la - como gostava de estar montando
num cavalo e guiá-lo pelas rédeas,
às vezes lentamente, às vezes a galope.
Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo
nas minhas mãos - e este desejo todos os que escrevem têm.
Um Camões e outros iguais não bastaram
para nos dar uma herança de língua já feita.
Todos nós que escrevemos estamos fazendo
do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos.
Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua
que não foi aprofundada.
O que recebi de herança não me chega.

Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever
e me perguntassem a que língua eu queria pertencer,
eu diria: inglês, que é preciso e belo.
Mas como nasci muda e pude escrever,
tornou-se absolutamente claro para mim
que eu queria mesmo era escrever em português.
Eu até queria não ter aprendido outras línguas:
só para que minha abordagem do português
fosse virgem e límpida.

Clarice Lispector (1920-1977)