22 de maio de 2019

O Meu Guri

Retrato de Chico Buarque pintado por Di Cavalcanti em 1972
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim, levando, ele a me levar
E na sua meninice
Ele um dia me disse que chegava lá

Olha aí!
Olha aí!

Olha aí!
Ai, o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega

Chega suado e veloz do batente
Traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí!

Olha aí!
Ai, o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega

Chega no morro com carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assalto está um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente, acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí!

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri e ele chega (olha aí meu guri)

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá

Olha aí!
Olha aí!

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri (olha aí meu guri)

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri (olha aí meu guri)

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri (olha aí meu guri)

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guriQuando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim, levando, ele a me levar
E na sua meninice
Ele um dia me disse que chegava lá

Olha aí!
Olha aí!

Olha aí!
Ai, o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega

Chega suado e veloz do batente
Traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí!

Olha aí!
Ai, o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega

Chega no morro com carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assalto está um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente, acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí!

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri e ele chega (olha aí meu guri)

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá

Olha aí!
Olha aí!

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri (olha aí meu guri)

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri (olha aí meu guri)

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri (olha aí meu guri)

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri

Chico Buarque de Holanda

19 de maio de 2019

Canto da Morte de Abel

Keith Vaughan
Morto jaz na relva Abel:
fugiu seu irmão Caim.
Um pássaro aproxima-se, mergulha o bico
no sangue, leva um susto e sai voando.

Foge o pássaro pelo mundo inteiro,
molhado o voo, estridulante a voz,
carpindo o seu lamento interminável:
sobre o formoso Abel e a dor da sua morte,
sobre o feio Caim e seu mortal pecado,
sobre seus próprios dias juvenis.

Logo lhe atira Caim ao coração sua flecha:
e logo há de levar disputa e guerra e morte
a todas as cabanas e cidades,
fará inimigos para assassiná-los,
a eles e a si mesmo em desespero odiando,
a eles e a si mesmo por todos os becos
caçando torturado até à próxima Noite Universal,
até de si por fim vomitar-se Caim.

Foge o pássaro: do seu bico ensanguentado
um lamento de morte faz-se ouvir cobrindo o
mundo inteiro.
Caim o escuta, o morto Abel o escuta,
mil o escutam sob o toldo celeste,
dez mil e mais não o escutam, porém,
sobre a morte de Abel não querem saber nada,
nada sobre Caim e o peso em seu coração,
nada do sangue a jorrar de tantas feridas,
nada da guerra que estava aí ainda ontem
e da qual sabem agora lendo romances.
Para esses todos, alegres e satisfeitos,
fortes e brutos,
Caim e Abel, tristeza e morte, não existem:
louvam a guerra como um tempo formidável.

E quando passa voando o pássaro lamentoso
dizem que é agourento e pessimista,
sentem-se fortes e invictos,
e apedrejam o pássaro
até fazê-lo calar e sumir,
ou tocam música para não mais o ouvirem
porque a voz triste dele os incomoda.

O pássaro com suas pequeninas
gotas de sangue no bico, voa de um a outro lugar
e o seu pranto por Abel não para de ressoar.

Hermann Hesse (1877-1962)
Tradução: Geir Campos

17 de maio de 2019

Ilusões

Henri Gervex
Ela, que eu não julgo feia,
possui a pupila azul
e dá sempre certa ideia
das filhas de John Buli.
Os bons pintores de França
coloriram lhe o cabelo…
Que trança de ouro! Que trança
se os seios não fossem gelo!
Seduz quando se lhe vê
do colo a brancura, e enfim
tem de alvos lírios o pé
e a mão é como um jasmim.
Ninguém no mundo presuma
sonhar beldade maior;
nasceu num lençol d’espuma
depois de um sonho de amor.
É pena ter, como a face,
o seio desfeito em neve:
por mais que à porta se passe
a sorrir jamais se atreve!
Esbanjei tempos imensos
no fervor de remirá-la
e, apesar dos meus incensos,
nunca chegámos à fala.
Por fim mais me aproximei
um dia pelo sol posto
e então com pasmo notei
que era pintura o seu rosto.
Fez-lhe o vestido a Férin
de um estofo um pouco espesso,
mas logo vi muito bem
uma boneca de gesso.
Uma boneca de sala,
inerte, desanimada,
sem luz, sem vida, sem fala,
uma boneca e mais nada!

Diogo Macedo (1844-1938)

15 de maio de 2019

Ebulição da Escravatura

Tarsila do Amaral
A área de serviço é senzala moderna,
Tem preta eclética, que sabe ler “start”;
“Playground” era o terreiro a varrer.

Navio negreiro assemelha-se ao ônibus cheio,
Pelo cheiro vai assim até o fim-de-linha;
Não entra no novo quilombo da favela.

Capitão-do-mato virou cabo de polícia,
Seu cavalo tem giroflex (radiopatrulha).
“Os ferros”, inoxidáveis algemas.

Ração poder ser o salário-mímino,
Alforria só com a aposentadoria
(Lei dos sexagenários).

“Sinhô” hoje é empresário,
A casa-grande verticalizou-se.
O pilão está computadorizado.
Na última página são “flagrados”
Em cuecas, segurando a bolsa e a automática:
Matinal pelourinho.

A princesa Áurea canta,
Pastoreia suas flores.
O rei faz viaduto com seu codinome.

– Quantos negros? Quanto furor?
Tantos tambores... tantas cores...
O que comparar com cada batida no tambor?

¤¤¤¤ ¤¤¤¤ ¤¤¤¤ ¤¤¤¤

“A escravatura não foi abolida;
foi distribuída entre os pobres”.

Luís Carlos de Oliveira

13 de maio de 2019

As árvores

Vincent van Gogh
As folhas rebentam nas árvores
Como algo que quase se diz;
Os novos botões espreguiçam-se,
O verde é uma forma de mágoa.

Será que renascem, e nós
A envelhecer? Não, também morrem.
O truque que as faz parecer novas
Está escrito no grão dos anéis.

Porém os castelos inquietos
Adensam e crescem com o Maio.
Dizem: “passou, morreu o ano –
Recomecem, recomecem…”

Philip Larkin (1922–1985)
Tradução: Rui Carvalho Homem

11 de maio de 2019

Onde estará a Guilhermina?

Quando a minha irmã a convidou
e eu corri a abrir-lhe a porta,
entrou o sol, entraram estrelas,
entraram duas tranças de trigo
e dois olhos intermináveis.
Eu tinha catorze anos
e era orgulhosamente calado,
magro, severo, sisudo,
funéreo e cerimonioso:
vivia com as aranhas,
humedecido pela mata,
conheciam-me os coleópteros
e as abelhas tricolores,
adormecia com as perdizes
metido todo em hortelã.
Então entrou a Guilhermina
com dois relâmpagos azuis
que atravessaram o meu cabelo
e me cravaram como espadas
contra as paredes do Inverno.
Isto aconteceu em Temuco.
Lá para o Sul, na fronteira.
Passaram lentos os anos
pisando como paquidermes,
regougando como raposas loucas,
passaram impuros os anos
crescentes, poídos, mortuários,
e eu andei de nuvem pra nuvem,
de terra em terra, de olho em olho,
enquanto a chuva na fronteira
caía, com o mesmo fato.
Caminhou o meu coração
com intransmissíveis sapatos,
e digeri muitos espinhos:
não tive tréguas onde estive:
onde eu bati, bateram-me,
onde me mataram caí
e ressuscitei com frescura,
e depois, depois, depois, depois
é tão longo contar as coisas.
Não tenho nada para acrescentar.
Vim viver para este mundo.
Onde estará a Guilhermina?

Pablo Neruda (1904-1973)
Tradução: Fernando Assis Pacheco

9 de maio de 2019

Canção noturna do andarilho

Jean-Marc Janiaczyk
No alto das colinas
há paz;
não se ouve, ali nas
frondes, mais
que um sopro manso.
Nem há no bosque um trino. Aguarda:
tampouco tarda
o teu descanso.
o teu descanso.

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Tradução: Nelson Ascher

7 de maio de 2019

Canção da breve serenidade

Paul Gauguin
Ouço a chuva cair. Olho as ruas molhadas.
Penso nas violetas e nos jardins em flor.
Desce ao meu coração uma paz sem memória.
Desce ao meu coração uma doçura imensa…

Lembro o amor a dormir tranquilo e sossegado
A rua esquiva e sem pregões, a rua pobre,
A rua humilde e a casa pequenina, em que se abriga
Lembro a infância que foi e outras manhãs já longe.

Sinto a vida como a chuva descendo
Sobre os quietos beirais, sobre as ruas, descendo
Sinto que o tempo é bom porque não para nunca

Um ritmo de abrigo envolve as coisas, tudo,
Vontade de dormir o grande sono calmo
Ouvindo a chuva triste e mansa a descer sobre mim.

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965)

5 de maio de 2019

Do Supérfluo

Henri Matisse
Também as cousas participam
de nossa vida. Um livro. Uma rosa.
Um trecho musical que nos devolve
a horas inaugurais. O crepúsculo
acaso visto num país
que não sendo da terra
evoca apenas a lembrança
de outra lembrança mais longínqua.
O esboço tão somente de um gesto
de ferina intenção. A graça
de um retalho de lua
a pervagar num reposteiro.
A mesa sobre a qual me debruço
cada dia mais temerosa
de meus próprios dizeres.
Tais cousas de íntimo domínio
talvez sejam supérfluas.
No entanto
que tenho a ver contigo
se não leste o livro que li
não viste a rosa que plantei
nem contemplaste o pôr do sol
à hora em que o amor se foi?
Que tens a ver comigo
se dentro em ti não prevalecem
as cousas – todavia supérfluas –
do meu intransferível patrimônio?

Henriqueta Lisboa (1901-1985)

3 de maio de 2019

Pequena Elegia de Setembro

Giovanni di Paolo

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Eugénio de Andrade (1923-2005)

1 de maio de 2019

Estela e Nize

Renoir
Eu vi a linda Estela, e namorado
Fiz logo eterno voto de querê-la;
Mas vi depois a Nize, e é tão bela,
Que merece igualmente o meu cuidado.

A qual escolherei, se neste estado
Não posso distinguir Nize d’Estela?
Se Nize vir aqui, morro por ela;
Se Estela agora vir, fico abrasado.

Mas, ah! que aquela me despreza amante,
Pois sabe que estou preso em outros braços,
E esta não me quer por inconstante.

Vem, Cupido, soltar-me destes laços,
Ou faz de dois semblantes um semblante,
Ou divide o meu peito em dois pedaços!

Alvarenga Peixoto (1742-1793)

29 de abril de 2019

Dialética

Ruth Palmer
As ideias cresceram demais
e as palavras começaram a crescer
pra alcançar as ideias

A vida cresceu demais
e as ideias começaram a crescer
pra alcançar a vida

Isso foi no começo
do meio pro fim
e do fim pro começo

Antes de o homem compreender
que ele também precisava crescer
mais do que as palavras
bem mais do que as ideias.

Guilherme de Campos

27 de abril de 2019

Balada das duas mocinhas de Botafogo

Théodore Chassériau
Eram duas menininhas
Filhas de boa família:
Uma chamada Marina
A outra chamada Marília.
Os dezoito da primeira
Eram brejeiros e finos
Os vinte da irmã cabiam
Numa mulher pequenina.
Sem terem nada de feias
Não chegavam a ser bonitas
Mas eram meninas-moças
De pele fresca e macia.
O nome ilustre que tinham
De um pai desaparecido
Nelas deixara a evidência
De tempos mais bem vividos.
A mãe pertencia à classe
Das largadas de marido:
Seus oito lustros de vida
Davam impressão de mais cinco.
Sofria muito de asma
E da desgraça das filhas
Que, posto boas meninas
Eram tão desprotegidas
E por total abandono
Davam mais do que galinhas.
Casa de porta e janela
Era a sua moradia
E dentro da casa, aquela
Mãe pobre, e melancolia…
Quando à noite as menininhas
Se aprontavam pra sair
A loba materna uivava
Suas torpes profecias.
De fato, deve ser triste
Ter duas filhas assim
Que nada tendo a ofertar
Em troca de uma saída
Dão tudo o que têm aos homens:
A mão, o sexo, o ouvido
E até mesmo, quando instadas
Outras flores do organismo.
Foi assim que se espalhou
A fama das menininhas
Através do que esse disse
E do que aquele diria.
Quando a um grupo de rapazes
A noite não era madrinha
E a caça de mulher grátis
Resultava-lhes maninha
Um deles qualquer lembrava
De Marília e de Marina
E um telefone soava
De um constante toque cínico
No útero de uma mãe
E suas duas filhinhas.
Oh, vida torva e mesquinha
A de Marília e Marina
Vida de porta e janela
Sem amor e sem comida
Vida de arroz requentado
E média com pão dormido
Vida de sola furada
E cotovelo puído
Com seios moços no corpo
E na mente sonhos idos!
Marília perdera o seu
Nos dedos de um caixeirinho
Que o que dava em Coca-Cola
Cobrava em rude carinho.
Com quatorze apenas feitos
Marina não era mais virgem
Abrira os prados do ventre
A um treinador pervertido.
Embora as lutas do sexo
Não deixem marcas visíveis
Tirante as flores lilases
Do sadismo e da sevícia
Às vezes deixam no amplexo
Uma grande náusea íntima
E transformam o que é de gosto
Num desgosto incoercível.
E era esse bem o caso
De Marina e de Marília
Quando sozinhas em casa
Não tinham com quem sair.
Ficavam olhando paradas
As paredes carcomidas
Mascando bolas de chicles
Bebendo água de moringa.
Que abismos de desconsolo
Ante seus olhos se abriam
Ao ouvirem a asma materna
Silvar no quarto vizinho!
Os monstros da solidão
Uivavam no seu vazio
E elas então se abraçavam
Se beijavam e se mordiam
Imitando coisas vistas
Coisas vistas e vividas
E enchendo as frondes da noite
De pipilares tardios.
Ah, se o sêmen de um minuto
Fecundasse as menininhas
E nelas crescessem ventres
Mais do que a tristeza íntima!
Talvez de novo o mistério
Morasse em seus olhos findos
E nos seus lábios inconhos
Enflorescessem sorrisos.
Talvez a face dos homens
Se fizesse, de maligna
Na doce máscara pensa
Do seu sonho de meninas!
Mas tal não fosse o destino
De Marília e de Marina.
Um dia, que a noite trouxe
Coberto de cinzas frias
Como sempre acontecia
Quando se achavam sozinhas
No velho sofá da sala
Brincaram-se as menininhas.
Depois se olharam nos olhos
Nos seus pobres olhos findos
Marina apagou a luz
Deram-se as mãos, foram indo
Pela rua transversal
Cheia de negros baldios.
Às vezes pela calçada
Brincavam de amarelinha
Como faziam no tempo
Da casa dos tempos idos.
Diante do cemitério
Já nada mais se diziam.
Vinha um bonde a nove-pontos.
Marina puxou Marília
E diante do semovente
Crescendo em luzes aflitas
Num desesperado abraço
Postaram-se as menininhas.
Foi um só grito e o ruído
Da freada sobre os trilhos
E por toda a parte o sangue
De Marília e de Marina.

Vinícius de Moraes (1913-1980)

25 de abril de 2019

Que somos nós

Galya Bukova
Que somos nós senão o que fazemos?
Que somos nós senão o breve traço
da vida que deixamos passo a passo
e é já sombra de sombra onde morremos?

Que somos nós se não permanecemos
no por nós transformado neste espaço?
Que serei eu senão só o que faço
e é tão pouco no tempo em que não temos

para viver senão o tempo de
transformar neste tempo e neste espaço
a vida em que não somos mais do que

o sol do que fazemos. Porque o mais
é sombra de sombra e o breve traço
de quem passamos para nunca mais.

Manuel Alegre

23 de abril de 2019

A Mente Indecisa

Hans Dahl
Às vezes o rio
torna-se um rio na mente
ou da mente
ou na e da mente.

Suas margens nevam
a maré, caindo uma escura
borda estendida entre
a água e a praia.

E a mente indecisa
mirando o curso
sente
uma semelhança que

há de colher – uma complexa
imagem: qualquer coisa
de sobrancelhas brancas
atadas por uma fita

de um pensamento imerso
além, sim, bem além
dos traços móveis
de ligeiras

águas fluentes, antes
que a maré
mude
e erga-se novamente, talvez.

William Carlos Williams (1883-1963)
Tradução: José Lino Grunewald

21 de abril de 2019

Salmo 139

Giovanni di Paolo: Five dancing angels
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe tu escrutas as menores intenções,
reconheces a minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.

Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estas em frente do meu rosto, estas atrás das minhas costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
— Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.
Como fugir à tua Face, como evitar teu Espirito?
Acho-te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das aguas,
agarra-me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.
Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho-me ao pensar no enigma criado.
De há muito já́ decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer-se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.

Herberto Helder (1930-2015)

19 de abril de 2019

Incêndio

Giovanni Battista Piazzetta
Convoco o cheiro, a polpa sensitiva
Dos dedos curiosos e da boca,
Convoco a cor dos olhos, e os cabelos,
E o lume que neles há, e a voz rouca.
Convoco o grito, o espanto e o temor,
O corpo recurvado, a violência,
O suor que arrefece — e o sorriso
Que te cobre de paz e inocência.
Reúno estas memórias. No meu sangue
As infundo e converto como brasas,
E ardo, violento: assim, ao vento,
Ardem de lés a lés searas rasas.

José Saramago (1922-2010)

17 de abril de 2019

Fragmento do grego, de Simônides

Jean Auguste Dominique Ingres
Todo o mundano evento
De Jove está nas mãos, de Jove, ó filho,
Que, por seu próprio intento,
Tudo traz já contado.
Mas de um lugar passado
Nosso cego pensar se alegra e apura,
Se bem que o humano rito,
Como prepara o céu nossa ventura,
De dia em dia dura.
Nutre a nós todos a bela esperança
De semblante bendito
Onde cada um se cansa:
Um busca a aurora mansa,
Um outro a idosa meta;
E nada em terra segue
Que nos anos a vir extraordinários
Com Pluto e os deuses vários
A mente não prometa.
Eis que antes que a esperança ao porto chegue
Um traz de velho a face
Outro por doença o turvo Letes traga;
Este o ríspido Marte, aquele a vaga
Do pélago arrebata,- outro desfaz-se
De árduos cuidados, o outro, um nó atando
Ao pescoço, dentro do chão se encerra.
Assim de muitos ais
Aos míseros mortais
Bando vário e feroz dissolve e aterra.
Antes certo eu diria
Que um sábio, livre do vulgar error,
Sofrer não quereria
Nem poria na dor
E no seu próprio mal tamanho amor.

Giacomo Leopardi (1798-1837)
Tradução: Alexei Bueno

15 de abril de 2019

Metafísica

Tom Wesselmann
A sós contigo, em qualquer parte
nem meu nem teu só nosso o mundo,
aceso coração da vida!
Fiando um tempo indiferente
ao que fomos e seremos
fogo de desejo a tua face
trémula de querer-te a minha voz…

Ou febre ou calma dum presente
em que os beijos não acabam
e as carícias reverdecem
em sucessivas primaveras!
Espuma de taça sempre cheia
num extinguir-se inextinguível,
sede infinita, lava ao rubro,
em que morremos renascendo!

Adolfo Casais Monteiro (1908-1972)

13 de abril de 2019

As Metamorfoses do Macaco

Otto Dix
Jacó, flor das raças monas
E aluno de um piemontês,
Fazia entre mil gaifonas
Coisas que o demo não fez.

Quanto via, arremedava
Por modo tão natural,
Que o piemontês lhe chamava
Daguerreótipo animal.

Se falasse assombraria;
Porém, mesmo sem falar,
Em toda a macacaria
Era um bichinho sem par.

Um dia em certa barraca
De uma feira, onde brilhou,
Com arte mais que velhaca,
Lustroso espelho empalmou.

Viu-se; pasmou. «Que diabo!
Pois eu tenho a cara assim?!
Ó bruxas, de mim dai cabo,
Ou condoei-vos de mim!

Machuchas mestras de tretas,
Se cabe em vós pio dó,
Deixai-me o dom das caretas,
No mais transformai Jacó.»

Bruxinha de génio gaio
Despachou-lhe a petição.
Eis, o mono, papagaio!
Eis nova consumição!

«O meu falar é mui rico!
Quanto às penas, guapo estou!
Mas este bico!… este bico!
Quem tal ratice inventou?!

Bruxa honrada! eu to aconselho,
Vá nova transformação.»
Diz: torna a encarar o espelho…
Vê-se estrelado pavão!

Espaneja-se garboso!
Ama-se; está como um dez.
Senão quando… ai, desditoso!
Repara… que horrendos pés!

Novo rogo impertinente:
«Por esta vez, e não mais»,
Diz a velha impaciente,
«Quero ceder aos teus ais.

Do que tu mesmo aprovaste
Nas três formas que te dei,
Para teu consolo baste,
Que esta final te armarei;

Terás as visagens ricas,
O papagaial palrar;
Do pavão as galas ricas…
Pegar no espelho! mirar!»

Mira-se, exulta. Só nota
Perfeições no todo seu.
Hoje chamam-lhe «janota»,
Bicho incógnito a Lineu.

António Feliciano de Castilho (1800 -1875)

11 de abril de 2019

A Canção do Tédio

Marc Chagall
Anda uma estrela pelo céu,
sozinha, arrastando um véu
de viúva.
- É a chuva.

Rola um soluço leve no ar,
bem longo no seu rolar,
bem lento.
- É o vento.

Perpassa o passo oco de algum
fantasma, quieto como um
segredo.
- É o medo.

Batem à porta. Abro. Quem é?
Uma alta sombra, de pé,
se eleva.
- É a treva.

Mas, desde então, alguém está
comigo. É inútil. Não há
remédio.
- É o tédio.

Guilherme de Almeida (1860-1969)

9 de abril de 2019

Oração à Alma

Max Ernst
É tempo, ó minha alma, é mais que tempo, se quiseres conhecer-te
a ti própria, o teu ser e o teu destino.
Donde vens, e onde precisas repousar.
Se a vida é o que nós vivemos, ou se esperamos melhor.
Põe-te ao trabalho, ó minha alma, é preciso purificar a tua vida.
Busca a Deus e os seus mistérios:
O que houve antes do mundo, o que representa para ti o mundo
Donde vem e qual é o seu destino.
Põe-te ao trabalho, ó minha alma, é preciso purificar a tua vida.
Porque aqui é o movimento e no além o repouso.
Porque nós somos levados pela corrente da vida.
Põe-te ao trabalho, ó minha alma, olha apenas a Deus.
O que foi o meu orgulho, hoje é a minha vergonha.
Qual a minha ligação à vida, e qual é o seu final?
Ilumina o meu espírito, dissipa todos os erros,
Põe-te ao trabalho, ó minha alma, e não sucumbas à dor.

Gregório de Naziano (329-389)
Tradução: Armando Silva Carvalho

7 de abril de 2019

Soneto de Arvers

Frank Bramley - Delicious Solitude
Tenho na alma um segredo e um mistério na vida:
um amor que nasceu, eterno, num momento.
É sem remédio a dor; trago-a pois escondida,
e aquela que a causou nem sabe o meu tormento.

Por ela hei de passar, sombra inapercebida,
sempre a seu lado, mas num triste isolamento,
e chegarei ao fim da existência esquecida
sem nada ousar pedir e sem um só lamento.

E ela, que entanto Deus fez terna e complacente,
há de, por seu caminho, ir surda e indiferente
ao murmúrio de amor que sempre a seguirá.

A um austero dever piedosamente presa,
ela dirá lendo estes versos, com certeza:
“Que mulher será esta? ” e não compreenderá.

Alexis-Félix Arvers (1806-1850)
Tradução: Guilherme de Almeida

5 de abril de 2019

Na roça

Eliseu Visconti
Cercada de mestiças, no terreiro,
Cisma a Senhora Moça; vem descendo
A noite, e pouca a pouco escurecendo
O vale umbroso e o monte sobranceiro.

Brilham insetos no capim rasteiro,
Vêm das matas os negros recolhendo;
Na longa estrada ecoa esmorecendo
O monótono canto do tropeiro.

Atrás das grandes, pardas borboletas,
Crianças nuas lá se vão inquietas
Na varanda correndo ladrilhada.

Desponta a lua; o sabiá gorjeia;
Enquanto às portas do curral ondeia
A mugidora fila da boiada.

Gonçalves Crespo (1846-1883)

3 de abril de 2019

O Fuzilado

Kuzma Petrov-Vodkin
As flores, os jardins, os repuxos, os risos,
e a doçura da vida.
Jaz um homem no chão e banha com seu sangue
as lembranças, as flores, repuxos e jardins
e sonhos infantis.
Jaz um homem no chão, qual embrulho sangrento,
e flores e jardins, repuxos e lembranças
e doçura da vida.
Jaz um homem no chão, criança adormecida.

Jacques Prévert (1900-1977)
Tradução: Carlos Drummond de Andrade