16 de dezembro de 2018

O cão que traz um pau na boca

«Um grande inventor respondia um dia a quem lhe perguntava como fazia para ter tantas ideias novas: 'pensando ininterruptamente nelas'. E, de fato, bem pode dizer-se que as ideias inesperadas nos vêm porque estávamos à espera delas. São em grande parte o resultado conseguido de um carácter, de certas inclinações constantes, de uma ambição tenaz, de uma incessante ocupação com elas. Que tédio uma perseverança assim! Mas vista de outro ângulo, a solução de um problema intelectual não acontece de modo muito diferente, como um cão que traz um pau na boca e quer passar por uma porta estreita; vira a cabeça para a esquerda e para a direita tantas vezes até que consegue passar com o pau; o mesmo acontece conosco [...] de repente estamos do outro lado, e sentimos claramente um ligeiro desconcerto em nós pelo fato das ideias terem vindo por sua iniciativa, em vez de esperarem pelo autor.»
Robert Musil (1880-1942)
- “O Homem sem Qualidades”.

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