31 de dezembro de 2018

O limite Diáfano

Vincent van Gogh
Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.

Sebastião Alba (1940-2000)

28 de dezembro de 2018

Dia de Outono

Edward Cucuel
Senhor: é tempo. Foi muito grande o verão.
Nos relógios de sol estira as tuas sombras,
deixa que pelo prado os ventos vão.
Manda aos últimos frutos a espessura,
dá-lhes do sul ainda mais dois dias,
força a plenitude neles, vê se envias
ao vinho forte a última doçura.
Quem não tem casa agora, já não constrói nenhuma,
quem agora está só, vai ficar só, sombrio,
perder o sono, ler, escrever cartas a fio,
e a um ir e vir inquieto nas áleas se acostuma,
vagueando enquanto as folhas lá vão num rodopio.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Tradução: Vasco Graça Moura

26 de dezembro de 2018

Délfica

Michelangelo - Delphic Sibyl
Tu a conheces, Dafne, esta antiga romança,
Do sicômoro aos pés, sob os louros pendentes,
Sob a oliveira, o mirto e os salgueiros trementes,
Esta canção de amor que além sempre se lança?...

Reconheces o TEMPLO onde a cornija avança,
E os amargos limões onde entravam teus dentes,
E a caverna fatal a hóspedes imprudentes
Onde o dragão vencido esconde a íntima herança?...
Eles retornarão, os Deuses que tu choras!
O tempo recriará a ordem das velhas horas;
De um profético sopro o chão foi sacudido...

Enquanto isso a sibila de rosto latino
Ainda dorme por sob o arco de Constantino:
— E nada perturbou o Pórtico esquecido.

Friedrich Schiller (1759-1805)
Tradução: Alexei Bueno

24 de dezembro de 2018

Poema de Natal

Frederic Montenard
É dia de natal a festa da família um deus nasceu
não me sinto sozinho mas estou sozinho
toda a minha família sou só eu
Levo nas algibeiras alguns versos e caminho
quando sinto de súbito o desejo de reler o herculano
a única pessoa que nos livros e na vida hoje me faz falta
única companhia para o meu natal
Entro nas poucas livrarias de peniche
e gasto em livros de herculano o dinheiro que tenho
O herculano entre outras coisas bem sabia distinguir os tempos
sabia o que num tempo é distinto de outro tempo
tinha muitos amigos entre os seus e meus antepassados
e deu sempre à verdade o que os demais costumam dar à vida
Era casmurro abandonou um dia as casas de má nota
deixou o parlamento e a vida literária
e procurou no campo a companhia
de árvores bem mais que os homens verticais
Tinha muito mau génio fulminava com os olhos
franzia a testa e não havia nada que fazer
era teimoso o velho como antero lhe chamava
Penso nele e caminho pelas ruas de peniche
e só vão a meu lado uma má música daquelas
que ferem os ouvidos nestas quadras do natal
e a fotografia num jornal de um elevado dignitário da hierarquia
para quem o mistério do natal não sei bem que mistério ou que natal
encerra o verdadeiro humanismo novo
frase que me provoca comoções
porquanto as aliterações são dos meus pratos favoritos
Vou encerrar-me em casa a sós com herculano
que tanto quanto sei não era humanista
ou que se porventura o era o não sabia
ou não dizia ao menos ser tal coisa como
se duvidássemos que o fosse se é que o era
É dia de natal estou sozinho e penso ler o herculano
que há tanto ano já me não fazia
a falta que me faz precisamente neste dia
em que só me faz falta a sua companhia
Vamos pra minha casa ó herculano
vou fechar as janelas acender a luz
e aguardar contigo o fim do ano
Prefiro-te herculano a músicas e altos dignitários pois
nem talvez tenha já a convicção de quem anualmente
escreve pontual se não contente o seu poema de natal
(Transporte no Tempo)

Ruy Belo (1933-1978)

22 de dezembro de 2018

Os sonhos teus vão acabar contigo

Giovanni Battista Tiepolo
Os sonhos teus vão acabar contigo.
O interesse pela vida austera
Irá desaparecer feito fumaça. Então
Desejos e paixões irão murchar,
O mensageiro do céu não virá a correr
Nem a juventude do ardente pensar…
Para, meu amigo, de tanto sonhar,
Exime o entendimento de morrer.

Daniil Kharms (1905-1942)
Tradução: Aurora Bernardini

21 de dezembro de 2018

Vestibular Unesp 2019 segunda fase

Creation of Adam (detail - hands)
Texto 1
Qual seria a [religião] menos má? Não seria a mais simples? Não seria a que ensinasse muita moral e poucos dogmas? A que se empenhasse em tornar os homens justos sem os tornar absurdos? A que não ordenasse a crença em coisas impossíveis, contraditórias, injuriosas para a Divindade e perniciosas para o gênero humano e não se atrevesse a ameaçar com penas eternas quem quer que tivesse um juízo normal? Não seria a que não sustentasse a sua crença com carrascos e não inundasse a terra com sangue por causa de sofismas ininteligíveis? […] A que unicamente ensinasse a adoração de um só Deus, a justiça, a tolerância e a humanidade?
(François M. A. de Voltaire. Dicionário filosófico, 1984.)
Texto 2
[A religião cristã] ensina […] aos homens estas duas verdades: tanto que há um Deus de que os homens são capazes, quanto que há uma corrupção na natureza que os torna indignos dele. Importa igualmente aos homens conhecer um e outro desses pontos; e é igualmente perigoso para o homem conhecer a Deus sem conhecer a própria miséria, e conhecer a própria miséria sem conhecer o Redentor que pode curá-lo dela. Um só desses conhecimentos faz ou a soberba dos filósofos que conheceram a Deus, e não a sua miséria, ou o desespero dos ateus, que conhecem a sua miséria sem o Redentor.
(Blaise Pascal. Pensamentos, 2015.)
a) Com base no texto 1, justifique por que Voltaire foi um pensador que defendeu a emancipação do gênero humano. Explique por que o caráter dogmático da religião é irracionalista.
b) Justifique por que o texto 2 apresenta um olhar positivo sobre a religião, quando comparado ao texto 1. Explique por que Pascal pode ser considerado um teólogo.

Resposta
a) No texto 1, Voltaire defende a emancipação humana em relação ao papel controlador assumido pelas autoridades eclesiásticas ao estabelecerem os parâmetros do comportamento humano. Para o filósofo, os dogmas religiosos não são demonstráveis, são matéria de crenças que não podem ser racionalmente ou empiricamente contestadas.
b) O texto 2 apresenta a religião como fonte de equilíbrio e autoconhecimento para o ser humano, o que acarretaria uma melhora de vida para os crentes. Se forem considerados teologia os estudos e as reflexões sobre a relação entre divindade e humanidade, pode-se considerar Pascal um teólogo.

20 de dezembro de 2018

O Amanhã

Loretta Lux
Aos vinte anos disseram-me: “Há
Que sacrificar-se pelo amanhã”.
E oferecemos a vida no altar
Do deus que nunca chega.
Gostaria de me encontrar já no final
Com os velhos mestres desse tempo.
Teriam que dizer-me se de verdade
Todo o horror de hoje era o amanhã.

José Emilio Pacheco (1939-2014)

18 de dezembro de 2018

O Destino a ti pertence

Franz von Stuck
Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade. “Acho que tudo está bem”, diz Édipo e essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem. Ensina que nem tudo está perdido, que nem tudo foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto das dores Inúteis. Faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe.
Albert Camus (1913-1960)

16 de dezembro de 2018

O cão que traz um pau na boca

«Um grande inventor respondia um dia a quem lhe perguntava como fazia para ter tantas ideias novas: 'pensando ininterruptamente nelas'. E, de fato, bem pode dizer-se que as ideias inesperadas nos vêm porque estávamos à espera delas. São em grande parte o resultado conseguido de um carácter, de certas inclinações constantes, de uma ambição tenaz, de uma incessante ocupação com elas. Que tédio uma perseverança assim! Mas vista de outro ângulo, a solução de um problema intelectual não acontece de modo muito diferente, como um cão que traz um pau na boca e quer passar por uma porta estreita; vira a cabeça para a esquerda e para a direita tantas vezes até que consegue passar com o pau; o mesmo acontece conosco [...] de repente estamos do outro lado, e sentimos claramente um ligeiro desconcerto em nós pelo fato das ideias terem vindo por sua iniciativa, em vez de esperarem pelo autor.»
Robert Musil (1880-1942)
- “O Homem sem Qualidades”.

14 de dezembro de 2018

O mistério da brutal morte de Hipatia, a primeira matemática da História

Quadro rafaelita representando a escola de Alexandria. No centro, vestindo uma túnica branca e manto carmesim, encontra-se a filósofa Hipátia.
Esta é a história de um assassinato envolvo em mistério. E o enigma não é quem cometeu o crime, nem como, mas sim por quê. Em meados do primeiro milênio, uma mulher erudita foi despedaçada por uma multidão que usou telhas dos telhados e conchas de ostras para cortar a carne viva do seu corpo.

A vítima havia sido professora, conferencista, filósofa e matemática. E despertou a fúria de fundamentalistas cristãos. Era Hipatia, a primeira mulher matemática de que se tem conhecimento seguro e detalhado.
O lugar do crime foi Alexandria, cidade fundada por Alexandre o Grande, em 331 antes de Cristo, e que se converteu rapidamente em um centro de cultura e aprendizado no mundo antigo.
Uma mulher excepcional
Como é comum ocorrer no caso de personagens da antiguidade, o tempo dissipou muitas informações sobre Hipatia. Mas, diversas fontes históricas garantem que ela existiu.
Como poucas mulheres de sua época, Hipatia pode estudar porque era filha de um homem com formação educacional: Teón de Alexandria, astrônomo e prolífico autor, que editou e comentou obras de pensadores como Euclides.
Segundo o filósofo Damacius, Hipatia excedia muito o conhecimento do seu pai: "Ela não se contentou com a educação matemática que poderia receber de seu pai. Seu nobre entusiasmo a conduziu a outras fronteiras da filosofia".
Hipatia professava a filosofia do neoplatonismo e ensinava essas ideias com mais ênfase que os seguidores anteriores dessa corrente. O historiador grego da antiguidade Sócrates Escolástico concordava que a sabedoria de Hipatia era excepcional, assim como sua habilidade para falar em público: "Obteve tais conhecimentos em literatura e ciência, que sobrepassou muito todos os filósofos de sua época. Explicava os princípios da filosofia aos ouvintes, muitos dos quais vinham de longe para receber sua instrução".
"Frequentemente, aparecia em público na presença dos magistrados. E não se sentia envergonhada de ir a uma assembleia de homens. Pois, devido sua extraordinária dignidade e virtude, todos os homens a admiravam".

Inventou um novo e mais eficiente método para fazer grandes divisões

O trabalho de Hipatia era tão importante que ela se converteu na matemática mais importante de Alexandria - e, por extenção, provavelmente na principal matemática do mundo.
Há evidências históricas de que Hipatia fez suas próprias descobertas e inovações. Inventou, por exemplo, um novo e mais eficiente método para fazer grandes divisões. Não haviam calculadoras na época, então, qualquer melhora na eficiência era muito bem vinda.
Além disso, Hipatia esteve envolvida na criação do atrolábio, uma espécie de calculadora astromônica que foi usada até o século 19, e o hidroscópio, um aparato para medir líquido. Nesses casos, Hipatia não foi responsável pela invenção desses artigos, mas foi consultada para desenhá-los.

Entre pagãos e cristãos

No século 4, ocorreu uma importante transição no Império Romano: de um Estado totalmente pagão a um Estado misto pagão e cristão.
Isso gerou conflitos. E Alexandria, no Egito, estava no centro dessa disputa. Era um lugar onde pagãos, judeus e cristãos compartilhavam o mesmo espaço.
Foi esse conflito religioso que decidiu o destino de Hipatia. Para entender o final da história, é preciso conhecer outros dois personagens históricos: Orestes e Cirilo.
No século 5, o prefeito imperial de Alexandria era Orestes, um cristão tolerante com outros grupos religiosos. Já o bispo da igreja de Alexandria era o patriarca Cirilo, um homem nada tolerante - uma das primeiras medidas que tomou após assumir o cargo foi fechar à força um grupo cristão que considerava herege.
Os dois acabaram travando uma batalha por Alexandria. E é este o contexto do assassinato de Hipatia.

Redação BBC News Mundo

13 de dezembro de 2018

[Só mãos verdadeiras]

Pablo Picasso
A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio ato de dar-se
O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta.

Ana Hatherly (1929-2015)

11 de dezembro de 2018

Orla marítima

Claude Monet
O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali para como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios da vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão* solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida.

Ruy Belo (1933-1978)

9 de dezembro de 2018

Canção tola

arquivos Mirrorpix
- Mamãe.
Eu quero ser de prata.
- Filho, terás muito frio.
- Mamãe.
Eu quero ser de água.
- Filho, terás muito frio
- Mamãe.
Borda-me em tua almofada.
- Isso sim! Agora mesmo!

Federico Garcia Lorca (1898-1936)
Tradução: William Agel de Melo

7 de dezembro de 2018

Tema para Contemplação

Pablo Picasso

Se todos na Terra reconhecerem a beleza como bela,
desta forma já se pressupõe a feiura.
Se todos na Terra reconhecerem o bem como o bem,
deste modo já se pressupõe o mal.
Porque Ser e Não-ser geram-se mutuamente.
O fácil e o difícil se complementam.
O longo e o curto se definem um ao outro.
O alto e o baixo convivem um com o outro.
A voz e o som casam-se um com o outro.
O antes e o depois se seguem mutuamente.

Assim também é o Sábio:
permanece na ação sem agir,
ensina sem nada dizer.
A todos os seres que o procuram
ele não se nega.
Ele cria, e ainda assim nada tem.
Age e não guarda coisa alguma.
Realizada a obra,
não se apega a ela.
E, justamente por não se apegar,
não é abandonado.


Lao Tzu (604 a.C. - 531 a.C.)
Tradução: Margit Martincic

5 de dezembro de 2018

Serradura

Vincent Van Gogh
A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.
E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,

No infindável sofá

Da minha Alma estofada.
Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.
Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o “Matin” de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo:
Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.
Folhetim da “Capital”
Pelo nosso Júlio Dantas —
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual…
O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!…
Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra uma porta aberta…
Isto assim não pode ser…
Mas como achar um remédio?
— Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:
O que era fácil — partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel
A gritar ”Viva a Alemanha”…
Mas a minha Alma, em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade…
Vou deixá-la — decidido —
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.

Mário de Sá Carneiro (1890-1916)

3 de dezembro de 2018

Dezembro

Alphonse Mucha – Décembre
Dezembro entre gelos finda...
Pia o mocho! que saudade!
Que fundo sentir! que infinda
Tristeza teu seio invade?!

Não queiras reter o escuro
Curso veloz desses dias;
Quantos serão, no futuro,
De dor! quantos de alegrias!

Deixa que escoem-se os anos!
Num beijo – que desenganos!
Que espinhos numa só flor!

Morra-se embora, querida;
Que importa a morte, se a vida
Se a vida não tem valor?!


François Coppée (1842-1908)
Tradução: Raimundo Correia e Valentim Magalhães

1 de dezembro de 2018

Ladainha

Robot art by Matt Dixon
Por que o raciocínio,
os músculos, os ossos?
A automação, ócio dourado.
O cérebro eletrônico, o músculo
mecânico
mais fáceis que um sorriso.
Por que o coração?
O de metal não tornará o homem
mais cordial,
dando-lhe um ritmo extra corporal?

Por que levantar o braço
para colher o fruto?
A máquina o fará por nós.
Por que labutar no campo, na cidade?
A máquina o fará por nós.
Por que pensar, imaginar?
A máquina o fará por nós.
Por que fazer um poema?
A máquina o fará por nós.
Por que subir a escada de Jacó?
A máquina o fará por nós.

Ó máquina, orai por nós.

Cassiano Ricardo (1885-1974)