29 de novembro de 2018

Ecce Homo

Giovanni Battista Piazzetta
Sim, sei que origem me reclama.
Insaciável como a chama,
Ardo e me acabo com presteza;
Converto em luz tudo o que toco
E, tudo o que deixo, em carvão:
Sim, eu sou chama, com certeza!

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)
Tradução: Agmar Murgel Dutra

27 de novembro de 2018

Gente

Foto: Bryan Adam Castillo
Gente é mais ou menos como rio:
Tem os que gostam de perigo e se lançam de grandes alturas
Tem os de muitos braços que atiram pra todos os lados
Tem os de muitos redemoinhos que comem bois e gente
Tem os que gostam demais de si e viram lago
Tem os que só sabem correr parados
São os empoçados os pantaneiros os alagados
Tem os que transam com a terra formando ilhas
O fundo de alguns é de pedra. Tem os de peixes coloridos
Outros têm água clarinha. E tem gente córrego seco
E tem gente riacho escuro. Alguns a terra engole vivos
E tem até rio que corre pra trás
O rio que eu sou nasceu em janeiro

Tem gente que tem o costume de vazar pelos cantos.
No começo vaza calada. Aos poucos. Aos pingos.
Mas se pega gosto principia o derrame.
Escorre quando fala. Escorre quando anda.
Não tem mais braço nem cabelo que segure.
Parece que vicia em ficar transbordada.
Mas tem gente que quando transborda é pra dentro
E corre o risco de ficar represada. E represa, você sabe.
Se aumenta muito arrebenta.
Mas se a pessoa ensaia um jeito de derramar pra fora
Aí vai fazendo leito. Vai abrindo seu caminho na terra
E a terra parece que se abre para ela passar. Às vezes não.

Viviane Mosé

25 de novembro de 2018

A uma criança que dança no vento

Donald Zolan

Dança aí junto ao mar;
Que te importa
O rugido da água, o rugido do vento?
Sacode a tua cabeleira
molhada de gotas de sal;
Tu que és tão jovem ignoras
O triunfo do néscio, não sabes
Que o amor mal se ganha e logo se perde,
Nem viste morrer o melhor operário
E todos os feixes por atar.
Por que hás de temer
O terrível clamor dos ventos?

William Butler Yeats (1865 -1939)
Tradução: José Agostinho Baptista

23 de novembro de 2018

O Desejo

Ravi Varma
O desejo a impele ao encontro do amante
O receio a detém por um momento
Parece a seda de um estandarte
Que ora se abandona ora se furta ao vento.

Kalidasa, séc. V - Índia
Tradução: Jorge Sousa Braga
Kalidasa ↠ foi um renomado poeta e dramaturgo sânscrito clássico.

21 de novembro de 2018

Exercício

Pablo Picasso

Não retomo nos teus
braços
o calor da tua boca

nem retomo do silêncio
as palavras que se
escoam

Mas se na tua distância
existe um entendimento
na minha lenta cedência
existe um rasto de medo.

Maria Teresa Horta

19 de novembro de 2018

(Unicamp 2019 - 1ª fase)

Em 1961, o poeta António Gedeão publica o livro Máquina de Fogo. Um dos poemas é “Lágrima de Preta”. Musicado por José Niza, foi gravado por Adriano Correia de Oliveira, em 1970, e incluído no seu álbum “Cantaremos”. A canção foi censurada pelo governo português.
Lágrima de preta
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,.
as drogas usadas,.
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

(António Gedeão, Máquina de fogo. Coimbra:
Tipografia da Atlântida,1961, p. 187.)
Os versos anteriores articulam as linguagens literária e científica com questões de ordem ética e política. Considerando o contexto de produção e recepção de “Lágrima de Preta” (anos 1960 e 1970, em Portugal), o propósito artístico desse poema é:
  1. ( ) inadequado quanto à análise social, ao refutar que haja racismo e preconceito na sociedade, e incorreto no aspecto científico, ao descrever as propriedades químicas de uma lágrima.
  2. ( ) inadequado quanto à análise social, ao refutar a existência de racismo e preconceito na sociedade, mas correto no aspecto científico, ao descrever as propriedades químicas de uma lágrima.
  3. () pertinente quanto à análise social, ao registrar o racismo e o preconceito na sociedade, e correto no aspecto científico, ao descrever as propriedades químicas de uma lágrima.
  4. ( ) pertinente quanto à análise social, ao registrar o preconceito e o racismo na sociedade, mas incorreto no aspecto científico, ao descrever as propriedades químicas de uma lágrima.

(Unicamp 2019 - 1ª fase)

“Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.”
(Clarice Lispector, “Amor”, em Laços de família.
20ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990, p. 39.)

Ao caracterizar a personagem Ana, a expressão “piedade de leão” reúne valores opostos, remetendo simultaneamente à compaixão e à ferocidade. É correto afirmar que, no conto “Amor”, essa formulação:
  1. revela um embate de natureza social, já que a pobreza do cego causa náuseas na personagem.
  2. expressa o dilema cristão da alma pecadora diante de sua incapacidade de fazer o bem.
  3. indica um conflito psicológico, uma vez que a personagem não se sente capaz de amar.
  4. alude a um contraste moral e existencial que provoca na personagem um sentimento de angústia.
Resolução:
Letra D

Vermeer

Johannes Vermeer
Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum
atenta no silêncio pintado
dia após dia derrama
o leite da jarra na tigela,
o Mundo não merece
o fim do mundo.

Wislawa Szymborska (1923-2012)
Tradução: Regina Przybycien

17 de novembro de 2018

Livro

“Dei-lhe a minha música e a minha respiração, os meus pensamentos e o bater do meu coração, tal como um caminhante pela manhã se entrega ao leve azul e ao claro brilho do prado, sem perguntas e sem se perder a si próprio. Ao mesmo tempo, o bem-estar e a crescente torrente de sons enchiam-me de uma felicidade espantosa, e subitamente soube o que era o amor”.
Herman Hesse (1877-1962)

15 de novembro de 2018

Lágrima

Roy Lichtenstein
Bendita seja a lágrima que rola
Pela face de alguém, que triste está,
Pois é ela, na vida que consola,
Que na aflição, maior alívio dá.

Sendo este mundo a verdadeira escola,
Onde aprendemos as lições da vida,
Devemos bendizer tão santa esmola,
Aos tristes e infelizes, concedida.

Vós, que seguis na vida, caminhando,
Ao fitardes a estrada percorrida
E fordes as tristezas recordando,

Não lastimeis a lágrima perdida,
Pois, feliz é aquele que, chorando,
Consegue aliviar uma ferida!

Vera Siqueira de Mello

13 de novembro de 2018

INGRATOS

Jean-Antoine Watteau
Não maldigo o rigor da iníqua sorte,
Por mais atroz que fosse e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade,
Quando a dois passos só estou da morte.

Do jogo das paixões minha alma forte
Conhece bem a estulta variedade,
Que hoje nos dá contínua felicidade
E amanhã nem — um bem que nos conforte.

Mas a dor que excrucia e que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora,
Que fere o coração e pronto mata,

É ver na mão cuspir a extrema hora
A mesma boca aduladora e ingrata,
Que tantos beijos nela pôs — outrora.

Pedro II do Brasil (1825-1891)

11 de novembro de 2018

Gargalhada

Edvard Munch
Quando me disseste que não mais me amavas,
e que ias partir,
dura, precisa, bela e inabalável,
com a impassibilidade de um executor,
dilato-se em mim o pavor das cavernas vazias...
Mas olhei-te bem nos olhos.
belos como o veludo das lagartas verdes,
e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos,
tive pena de ti, de mim , de todos,
e me ri
da inutilidade das torturas predestinadas,
guardadas para nós, desde a treva das épocas,
quando a inexperiência dos Deuses
ainda não criara o mundo...
Quando me disseste que não mais me amavas,
e que ias partir,
dura, precisa, bela e inabalável,
com a impassibilidade de um executor,
dilato-se em mim o pavor das cavernas vazias...
Mas olhei-te bem nos olhos.
belos como o veludo das lagartas verdes,
e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos,
tive pena de ti, de mim , de todos,
e me ri
da inutilidade das torturas predestinadas,
guardadas para nós, desde a treva das épocas,
quando a inexperiência dos Deuses
ainda não criara o mundo...
João Guimarães Rosa (1908-1967)

9 de novembro de 2018

Tempo das chuvas

Emma Jeffryes

Antes que venham as primeiras chuvas
acender
Amarelas flores entre os rochedos
E o céu se torne móvel de compridos pássaros
E todo o chão se cubra do verde novo
Do capim

Saberás pelo vento que chegaste ao fim.

José Eduardo Agualusa

7 de novembro de 2018

Cantiga de enganar

Edmund Blair Leighton
O mundo não vale o mundo,
meu bem,
Eu plantei um pé-de-sono,
brotaram vinte roseiras.
Se me cortei nelas todas
e se todas se tingiram
de um vago sangue jorrado
ao capricho dos espinhos,
não foi culpa de ninguém.
O mundo,
meu bem,
não vale
a pena, e a face serena
vale a face torturada.
Há muito aprendi a rir,
de quê, de mim? Ou de nada?
O mundo, valer não vale.
Tal como sombra no vale,
a vida baixa... E se sobe
algum som desse declive,
não é grito de pastor
convocando seu rebanho.
Não é flauta, não é canto
de amoroso desencanto.
Não é suspiro de grilo,
voz noturna de nascentes,
não é mãe chamando filho,
não é silvo de serpentes
esquecidas de morder
como abstratas ao luar.
Não é choro de criança
para um homem se formar.
Tampouco a respiração
de soldados e de enfermos,
de meninos internados
ou de freiras em clausura.
Não são grupos submergidos
nas geleiras do entressono
e que deixem desprender-se,
menos que simples palavra,
menos que folha no outono,
a partícula sonora
que a vida contém, e a morte
contêm, o mero registro
de energia concentrada.
Não é nem isto nem nada.
É som que precede a música,
sobrante dos desencontros
e dos encontros fortuitos,
dos malencontros e das
miragens que se condensam
ou que se dissolvem noutras
absurdas figurações.
O mundo não tem sentido.
O mundo e suas canções
de timbre mais comovido
estão calados, e a fala
que de uma para outra sala
ouvimos em certo instante
é silêncio que faz eco
e que volta a ser silêncio
no negrume circundante.
Silêncio: que quer dizer?
Que diz a boca do mundo?
Meu bem, o mundo é fechado,
se não for antes vazio.
O mundo é talvez: e é só.
Talvez nem seja talvez.
O mundo não vale a pena,
mas a pena não existe.
Meu bem, façamos de conta
de sofrer e de olvidar,
de lembrar e de fruir,
do escolher nossas lembranças
e revertê-las, acaso
se lembrem demais em nós.
Façamos, meu bem, de conta
- mas a conta não existe -
que é tudo como se fosse,
ou que, se fora, não era.
Meu bem, usemos palavras.
Façamos mundos: ideias.
Deixemos o mundo aos outros,
já que os pura mentira
do mundo que se desmente,
recortemos nossa imagem,
mais ilusória que tudo,
pois haverá maior falso
que imaginar-se alguém vivo,
como se um sonho pudesse
dar-nos o gosto do sonho?
Mas o sonho não existe.
Meu bem, assim acordados,
assim lúcidos, severos,
ou assim abandonados,
deixando-nos à deriva
levar na palma do tempo
- mas o tempo não existe -,
sejamos como se fôramos
num mundo que fosse: o Mundo.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

5 de novembro de 2018

ENEM - Exame Nacional do Ensino Médio 04/11/2018

Não é verdade que estão ainda cheios de velhice espiritual aqueles que nos dizem: “Que fazia Deus antes de criar o céu e a terra? Se estava ocioso e nada realizava”, dizem eles, “por que não ficou sempre assim no decurso dos séculos, abstendo-se, como antes, de toda ação? Se existiu em Deus um novo movimento, uma vontade nova para dar o ser a criaturas que nunca antes criara, como pode haver verdadeira eternidade, se n’Ele aparece uma vontade que antes não existia?”.
AGOSTINHO. Confissões. São Paulo; Abril cultural, 1984.

A questão da eternidade, tal como abordada pelo autor, é um exemplo de reflexão filosófica sobre a(s) alternativas:
  1. Essência da ética cristã.
  2. Natureza universal da tradição.
  3. Certezas inabaláveis da experiência.
  4. Abrangência da compreensão humana.
Resolução:
Para Agostinho, há uma oposição entre a eternidade e temporalidade. A eternidade é divina e não tem limites, enquanto a temporalidade é dimensional, situada entre o nascimento e a morte do indivíduo.
No texto, Agostinho trata da inabilidade humana de compreender a eternidade.

Letra D

ENEM - Exame Nacional do Ensino Médio 04/11/2018

“A quem não basta pouco, nada basta”.
EPICURO. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1985.

Remanescente do período helenístico a máxima apresentada valoriza a seguinte virtude:
  1. Esperança, tida como confiança no porvir.
  2. Justiça, interpretada como retidão do caráter.
  3. Temperança, marcada pelo domínio da vontade.
  4. Coragem, definida como fortitude na dificuldade.
Resolução:
O epicurismo prega a busca de prazeres moderados para se atingir a serenidade desejada pelos seres humanos. Epicuro que o controle dos desejos (temperança) e o conhecimento sobre o mundo produziriam a felicidade.
Letra C

4 de novembro de 2018

Novembro

Rob Li
Vejo, presa do inverno, em minha câmara,
Para terras distantes,
Pelos céus de novembro irem os pássaros,
– Últimos imigrantes.

Vão, das chuvas cortando as grossas bátegas
Vão..., noutros céus azuis,
Há de enxugar-lhes a plumagem úmida
Outro sol, outra luz.

Sou como a toutinegra fria e trêmula
Sob um clima pluvioso,
E um sol apenas rutilando alegra-me:
– Seu olhar amoroso!

Pior que as aves, sou no exílio vítima
De mais duro penar,
Pois não tenho direito como os pássaros
De voar... de voar...

François Coppée (1842-1908)
Tradução: Raimundo Correia e Valentim Magalhães

2 de novembro de 2018

Livro de Horas

Vicente Romero Redondo
Deus fala a cada um só antes de o fazer.
Então sai calado, com ele para fora da noite.
As palavras, porém, antes que cada um comece,
essas palavras nubladas, são:

Enviado pelos teus sentidos,
vai até ao limite da tua saudade;
dá-me roupagens.

Atrás das coisas cresce como incêndio,
que as suas sombras dilatadas
me cubram sempre todo.

Deixa que tudo te aconteça: beleza e pavor.
Só é preciso andar: nenhum sentimento é mais longínquo.
Não te deixes apartar de mim.
É perto a terra
a que chamam vida.

Hás de reconhecê-la
pela sua gravidade.

Dá-me a tua mão.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Tradução: Paulo Quintela