30 de setembro de 2018

Antes da abolição, intelectuais faziam "vaquinha" para libertar escravos

Há 149 anos, escritores libertaram 21 crianças escravizadas diante da elite do Rio Grande do Sul, Estado que foi também palco de campanhas 'de porta em porta' pedindo que os senhores libertassem seus escravos.
O primeiro teatro construído em Porto Alegre, o São Pedro, recebeu centenas de pessoas em 19 de setembro de 1869. Com sua fachada imponente no estilo neoclássico, o prédio ficou com o salão e os camarotes lotados naquela noite. O público saiu de casa para assistir a um espetáculo com desfecho impensável para a elite econômica da época.
Ex-escravos fotografados em estúdio, no final do século XIX, em Porto Alegre:
Luta pela liberdade começou muito antes da abolição
Foto: Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo / BBC News Brasil
Quando a cortina foi levantada, a plateia viu a personagem Liberdade visitando o Brasil. Na peça, ela encontra um escravo, "coberto de andrajos e cicatrizes recentes, entregue à lida diurna". A Liberdade, então, "invoca o auxílio do céu". Um anjo mensageiro responde o chamado e devolve o escravo à Liberdade. Além disso, ele também ordena a libertação das crianças escravizadas.
No palco, então, surgem 21 crianças. Nenhuma delas é aspirante a ator mirim. Todas são negras e filhas de escravas. Elas recebem cartas legítimas de alforria.
"A este espetáculo as lágrimas correram e o entusiasmo dos corações sensíveis tocou até o delírio", escreveu depois o médico José Antonio do Valle Caldre Fião, presidente da Sociedade Partenon Literário, grupo criado há 150 anos, que organizou o espetáculo abolicionista e que fazia "vaquinhas" para comprar a liberdade de escravos.
Vista do Teatro São Pedro, em Porto Alegre, em 1881;
no local, apresentação libertou 21 crianças escravas
Mas não só no Rio Grande do Sul atividades de libertação de escravos ocorreram no período. Por todo o Brasil, de 1868 a 1888, há registros de grupos mobilizados pela causa abolicionista. No Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará, Pernambuco e Espírito Santo, por exemplo, as cartas de alforrias também eram entregues em apresentações culturais com direito a registro na imprensa.
Em 10 de agosto de 1886, Nadina Bulicioff, uma cantora russa, apresentou a opera Ainda, de Verdi, no Teatro Lírico do Rio de Janeiro. Ao final, "arrebentou suas algemas cenográficas e, diante do público, que de pé afitava lenços, entregou-lhes (a seis escravas) cartas de liberdade", conta a pesquisadora Angela Alonso, no livro Flores, votos e balas: o movimento abolicionista brasileiro (Cia das Letras, 2015). A apresentação carioca foi organizada pelos abolicionistas André Rebouças, José do Patrocínio e Joaquim Nabuco.
Quanto ao grupo gaúcho Partenon Literário, sua bandeira ia além das letras.
"O Partenon não foi uma sociedade meramente literária, mas de ordem cultural e com viés político. A maioria dos partenonistas tinha dois ideais. Eles defendiam sobretudo a República, sendo contrários à Monarquia vigente, e eram abolicionistas", explicou Maria Eunice Moreira, professora da Faculdade de Letras da PUCRS à BBC News Brasil.
Juntamente com os pesquisadores Alice Campos Moreira e Mauro Nicola Póvoas, a professora escreveu um estudo que servirá de apresentação a todo o acervo digitalizado da "Revista Mensal da Sociedade Partenon Literário". A revista, publicada entre 1869 e 1879, poderá ser acessada pela internet a partir de outubro (o site ainda não divulgado). No periódico também eram publicados textos contra a escravidão, como o registro de Caldre Fião sobre o teatro apresentado no São Pedro.
Ex-escravos que trabalhavam como vendedores ambulantes
em Porto Alegre, no final do século 19
Atualmente, quem deseja pesquisar todas as 71 edições precisa alternar visitas a diferentes acervos, entre eles o da coleção especial da biblioteca da PUCRS, onde esteve a reportagem.
As revistas eram diminutas para o padrão atual, com menos de vinte centímetros de largura e altura, com somente a capa em papel colorido e raras ilustrações, como nos casos de textos sobre figuras históricas. 'Ultraje'
A peça teatral de 1869 foi considerada um ultraje por quem defendia a escravidão. Vale lembrar que, no Brasil, a abolição ocorreu 19 anos depois do espetáculo, em 13 de maio de 1888. A Lei do Ventre Livre, que daria liberdade às crianças, também foi posterior à montagem teatral, assinada em 1871. A Lei dos Sexagenários, que libertou os escravos idosos, foi firmada em 1885.
No Rio Grande do Sul, a escravidão foi abolida em 1884, resultado da pressão de diversos grupos, como o Centro Abolicionista e o Partenon Literário.
O livro que contém a ata original da sessão na Câmara de Vereadores da capital gaúcha que acabou com a escravidão no Estado está preservado no Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Vellinho, da prefeitura.
Ex-escravos fotografados em estúdio, no final do século 19, em Porto Alegre
Os integrantes do Partenon Literário não organizaram o espetáculo sem encontrar barreiras. Pelo contrário. Se conseguiram libertar as 21 crianças em 19 de setembro foi por que foram impedidos na data originalmente planejada - 7 de setembro, Dia da Independência do Brasil, declarada em 1822.
"Alguns senhores mal-intencionados especularam. Riu-se com estúpido desdém, e a situação pressentiu um golpe certeiro que lhe dirigíamos. Daí os óbices, as dificuldades com que o Partenon teve que lutar e que retardaram a festa da santa liberdade até o dia 19", relembrou Caldre Fião. A passagem também está registrada no livro História da Academia Rio-Grandense de Letras (1901-2016) e Parthenon Litterario (1868-1885)(Metamorfose, 2016), de José Carlos Laitano.
Segundo a historiadora Marília Conforto, autora de Escravo de Papel (Educs, 2012) e Faces da Personagem Escrava (Educs, 2001), muitos dos escravos que chegavam ao Rio Grande do Sul vinham pela rota do comércio interno, já que o tráfico internacional era proibido desde 1850. O tráfico passou a ser ilegal por pressão da Inglaterra, que chegou a apreender navios negreiros. Com o desenvolvimento do capitalismo inglês e da consequente industrialização, novos mercados consumidores eram necessários para o comércio dos produtos da Inglaterra.
"Escravo não tinha salário e não consumia", resumiu criticamente a pesquisadora durante a entrevista.
Mulher identificada como escrava de Martin Gestum, em 1880, em Porto Alegre
Conforme Conforto, ser vendido com destino ao Rio Grande do Sul era um novo castigo aos escravizados. "Se criou a ideia de que o Estado era o 'purgatório dos negros'. O negro que se rebelava era o primeiro a ser vendido e mandado para o Rio Grande do Sul. No inverno, as temperaturas eram gélidas, muitas vezes abaixo de zero. Se não ficavam no espaço urbano, como em Porto Alegre, eram mandados para o campo. Lá, trabalhavam nas charqueadas, que exigia manejo de facas afiadas. Eles tinham que matar os bois a pauladas, tirar o couro, cortar, colocar o sal nas chamadas 'mantas' de carne, algo muito bruto", explica a pesquisadora. Além de Caldre Fião, outro líder do Partenon que teve forte atuação abolicionista foi o professor Apolinário Porto Alegre. O primeiro estudou Medicina no Rio de Janeiro, o segundo, estudou direito em São Paulo. Segundo Conforto, "estudar fora" influenciava os intelectuais que depois retornavam ao Estado trazendo novas ideias influenciados pelos ideais do positivismo europeu, entre eles a liberdade, por exemplo.
Apolinário publicou na revista do Partenon diversas peças de teatro e textos abolicionistas. Uma peça, em especial, foi a mais polêmica e chegou a ser proibida pela polícia. Os Filhos da Desgraça contava a história de amor entre uma senhora e um escravo (o contrário era mais aceito no Brasil colonial). "Com tal temática, Apolinário não poderia colocar a ação em Porto Alegre, porque provocaria a revolta de muitos chefes de família", explicou o historiador Moacyr Flores, em artigo de 1978, sobre a obra do autor.
Como a ideia de "proximidade" chocava demais os "chefes de família", o escritor optou por situar a trama em Salvador. "O drama está inserido na filosofia dos abolicionistas que por princípios éticos, além dos econômicos, não admitem a escravidão", acrescentou Flores sobre a peça.
Apolinário também liderou o projeto de aulas gratuitas noturnas para os pobres e libertos, explica a professora Maria Eunice Moreira, da PUCRS. Ainda de acordo com ela, enquanto ficcionistas, o tema da liberdade interessava os partenonistas de maneira abrangente, incluindo figura do gaúcho cavalgando livre pelos campos, o mítico "centauro dos pampas", que surge na literatura regionalista do período influenciada pelo Partenon.
Rua dos Andradas, em Porto Alegre, na década de 1860; nesta rua, em 1884, os abolicionistas fizeram uma campanha, batendo de porta em porta, para que os senhores libertassem seus escravos
No mesmo ano em que a escravidão foi abolida no Rio Grande do Sul, em 1884, 15 anos depois da alforria das crianças no teatro, o Partenon Literário fez uma nova campanha de libertação. Os integrantes batiam de porta em porta das casas da região central, especialmente na Rua das Andradas, pedindo a liberdade dos escravos. Com dinheiro arrecadado em ações, compravam alforrias. Os libertos foram reunidos no local que hoje é conhecido como Parque da Redenção, oficialmente chamado de Parque Farroupilha. Próximo dali, montavam barracos na chamada "Colônia Africana".
Com tamanha movimentação abolicionista, no início do ano seguinte, em janeiro de 1885, a Princesa Isabel, que assinou a Lei Áurea em 1888, visitou Porto Alegre. A princesa chegou a lançar a pedra fundamental da construção da sede do Partenon, com projeto inspirado no templo de Atenas, o que não se concretizou.
Se não há registro fotográfico da visita de Isabel ou do espetáculo de 19 de setembro de 1869, o Museu Municipal de Porto Alegre Joaquim José Felizardo guarda um verdadeiro tesouro em forma de retratos. São diversos registros fotográficos, alguns de 1868, de escravos e ex-escravos, em Porto Alegre. Quase nenhum dos retratados, porém, está identificado.
Uma das fotografias encontrada pela reportagem, do final do século 19, mostra dois ex-escravos: são duas crianças, uma aparentemente com três anos e outra por volta de dez anos. Elas estão de pés descalços, vestidas, seguram ramalhetes de flores e olham para a câmera de Virgílio Calegari, um fotógrafo italiano que instalou um estúdio na capital gaúcha. Calegari fotografou outros escravos e ex-escravos no seu estúdio, mas era conhecido por fotografar também a alta sociedade porto-alegrense. Além de Calegari, os Irmãos Ferrari também fotografaram escravos libertos no seu estúdio montado na rua Voluntários da Pátria.
Crianças alforriadas no final do século XIX, em foto de estúdio, em Porto Alegre
Porém, as imagens encontradas de ex-escravos fora de estúdio foram feitas por um fotógrafo amador, que assinava sob o psudônimo de Lunara (das iniciais de Luiz do Nascimento Ramos). Lunara era um comerciante que revelava as fotos em casa. Mesmo amador, chegou a vencer diversos concursos.
Ele registrou cenas bucólicas da capital gaúcha na virada do século. Em 1900, Lunara fotografou um casal de negros libertos, em frente ao seu barraco. A foto está catalogada como "Deixa disso, nhô João".
"Os abolicionistas não-negros, os abolicionistas brancos, tinham uma visão ligada ao Iluminismo, de humanização. O que dava a possibilidade de uma pessoa negra ser escravizada era sua não-humanização. Até 1850, o código comercial colocava os negros como 'ser movente', categoria de coisas que se movem. Estão nessa categoria ate hoje, por óbvio, cavalos, cachorros da polícia militar. Então, a discussão dos abolicionistas era de que negros não eram coisas, mas pessoas", afirma o especialista em direito público Gleidison Renato Martins, da coordenação nacional do Movimento Negro Unificado.
Martins aponta o paradoxo de a própria "era da razão" ter dado origem a artigos e experiências que tentavam provar a inferioridade dos negros e apontavam os brancos como "raça superior" o que, se sabe, é falso. "Não basta apenas colocar as pessoas nessa outra estrutura sem mudar o pensamento racista e processos de discriminação", conclui.
Casal de ex-escravos de mãos dadas em frente ao seu barraco, em Porto Alegre, em 1900

29 de setembro de 2018

Pássaro Solitário

Lynda Durrant
Em certa árvore há um pássaro, que canta a alegria da vida.
Nos galhos mais escondidos, lá ele desce e descansa.
Chega ao cair o crepúsculo e parte ao erguer a aurora.

Que pássaro é esse que canta dentro de mim?
Não tem forma nem cor, não tem contorno nem estofo.
Ele pousa na sombra do amor e repousa no inatingível.

Kabir diz: Ó sadhu, meu irmão, guarda para ti este mistério.
E deixa que os sábios encontrem onde tal pássaro se oculta

Dança, meu coração! Dança hoje com alegria!
A canção imortal do amor preenche as horas,
E sua cadência faz dançar a noite e o dia.

Dança! O que são vida e morte senão dança?
O que são terra e mar, planície e colina?
Ao som do riso ou do choro, o mundo dança.

Por que vestir então o traje austero da renúncia,
E viver longe do mundo em solitário orgulho?
Dança com prazer e o Senhor dançará contigo.

Kabir (1440-1518)
Tradução: José Tadeu Arantes

Este poema, recriado em português a partir da tradução inglesa de Rabindranath Tagore.

27 de setembro de 2018

Soneto 97

Quiringh van Brekelenkam

Foi como inverno a ausência que passei
de ti, que ao ir do ano és a alegria!
Que frio e dias negros suportei!
Que nudez de Dezembro em tudo havia.
O tempo assim negado era de verão,
fecundo das colheitas que no outono
seus fardos de volúpia vernal dão,
como ventres viúvos, morto o dono.

Contudo essa abundância me surgia
como órfã prenhez só, frutos sem pais
que o verão seu prazer em ti se alia
e as aves quedam mudas se te vais.
Ou em seu canto triste as folhas tremem
pálidas, porque perto o inverno temem.

William Shakespeare (1564-1616)
Tradução: Vasco Graça Moura

25 de setembro de 2018

Vestibular

Cornelius Krieghoff
A dúvida é uma atitude que contribui para o surgimento do pensamento filosófico moderno. Neste comportamento, a verdade é atingida através da supressão provisória de todo conhecimento, que passa a ser considerado como mera opinião. A dúvida metódica aguça o espírito crítico próprio da Filosofia.
(Adaptado de Gerd A. Bornheim, Introdução ao filosofar.
Porto Alegre: Editora Globo, 1970)

A partir do texto, é correto afirmar que:
  1. ( ) A Filosofia estabelece que opinião, conhecimento e verdade são conceitos equivalentes.
  2. ( ) A dúvida é necessária para o pensamento filosófico, por ser espontânea e dispensar o rigor metodológico.
  3. ( ) O espírito crítico é uma característica da Filosofia e surge quando opiniões e verdades são coincidentes.
  4. () A dúvida, o questionamento rigoroso e o espírito crítico são fundamentos do pensamento filosófico moderno.


23 de setembro de 2018

Poeminha

Vênus de Milo - Museu do Louvre

O binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo.
O que ha é pouca gente para dar por isso.

óóóó—óóóóóó óóó—óóóóóóó óóóóóóóó

(O vento lá fora)

Álvaro de Campos
pseudônimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

22 de setembro de 2018

Teoria

Josephine Wall
Sou o meu redor.

As mulheres sabem.
Não se é duquesa a
Cem metros da carruagem.

Estes, então, são retratos:
Vestíbulo preto;
Cama alta abrigada por cortinas.

Estes são apenas exemplos.

Wallace Stevens (1879-1955)
Tradução: Paulo Henriques Britto

20 de setembro de 2018

Coração

Jaime Best

Lembrança, quanta lembrança
Dos tempos que já lá vão!
Minha vida de criança,
Minha bolha de sabão!

Infância, que sorte cega,
Que ventania cruel,
Que enxurrada te carrega,
Meu barquinho de papel?

Como vais, como te apartas,
E que sozinho que estou!
Ó meu castelo de cartas,
Quem foi que te derrubou?

Tudo muda, tudo passa
Neste mundo de ilusão;
Vai para o céu a fumaça,
Fica na terra o carvão.

Mas sempre, sem que te iludas,
Cantando num mesmo tom,
Só tu, coração, não mudas,
Porque és puro e porque és bom!

Guilherme de Almeida (1860-1969)

18 de setembro de 2018

O Cio da Terra

Vincent van Gogh

Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão

Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel

Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, propícia estação
E fecundar o chão.

Chico Buarque e Milton Nascimento

16 de setembro de 2018

O silêncio, o desejo, e o prazer

Lucas Cranach, o Velho

O abraço silencioso
Tiremos, ó graciosa, as nossas vestes e,
aproximando-nos, nus,
que os nossos corpos se enlacem.
Que nada exista entre nós, pois as tuas finas roupas
me parecem as muralhas de Semíramis.
Unamos os nossos peitos e os nossos lábios. Que tudo o mais
seja coberto pelo silêncio. Odeio a tagarelice.

O segredo
Ocultemos, Ródope, os nossos beijos
e os agradáveis e difíceis trabalhos de Cípris*.
É bom estar oculto e evitar o olhar
dos observadores que tudo perscrutam.
Os amores furtivos são mais saborosos
que os do conhecimento público.

Paulo Silenciário ↠ poeta do século VI
da corte do imperador Justiniano (527–565)
Traduções: Albano Martins

* trabalhos de Cípris: trabalhos do amor

15 de setembro de 2018

Poema

Solomon Joseph Solomon
Anos, homens e povos
fogem para sempre,
como água corrente.
No espelho dúctil da natureza
somos os peixes – rede, as estrelas,
os deuses: fantasmas e trevas.

Velimir Khlébnikov (1885-1922)
Tradução: Marco Lucchesi

14 de setembro de 2018

Ah Girassol

Gustav Klimt
Ah Girassol! do tempo o cansaço,
A contar do Sol cada passo,
Buscando a doce região dourada
Onde o viajante encerra a jornada;

Onde um Jovem o desejo definhara,
E a neve pálida Virgem amortalhara,
Erguidos de suas tumbas no ambicionar
O lugar em que o meu Girassol deseja estar!

William Blake (1757-1827)
Tradução: Afonso Henriques Neto

13 de setembro de 2018

Viajar! Perder países!

William Powell
Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!

Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.


Fernando Pessoa (1888-1935)

12 de setembro de 2018

A Danação

Ismael Nery
Há fortes iluminações sem permanência.
A parte da Graça é tão pequena
Que me vejo esmagado pelo monumento do mundo.

Quem me ouvirá? Quem me verá? Quem me há de tocar?
Chorai sobre mim, sobre vós e sobre vossos filhos.

A fulguração que me cerca vem do demônio.
Maldito das leis inocentes do mundo
Não reconheço a paternidade divina.
Eu profanei a hóstia e manchei o corpo da Igreja:
Os anjos me transportam do outro mundo para este.

Murilo Mendes (1901-1975)

11 de setembro de 2018

Setembro

Hillside Pastures
Cinco meses passei do meu amor distante;
Sondo o meu coração e acho-o sempre constante.

Na mocidade, em maio, eu, no vernal frescor.
Muito sofri pensando em seus anos em flor.

Foram, em junho, o prado as rosas perfumando,
E eu em seu respirar muito sofri pensando.

Quando as noites em julho eram lagos de luz,
Muito sofri pensando em seus olhos azuis.

Foi-se agosto; e setembro os pomares loireja
Sem que o meu coração calmo e tranquilo seja.

Sua lembrança tem sempre o mesmo poder
Basta os olhos fechar para a tornar a ver.

François Coppée (1842-1908)
Tradução: Raimundo Correia e Valentim Magalhães

9 de setembro de 2018

Pastor

Julien Dupre
Aquela extensão que dilata as narinas,
aquela altura que se inclina para o teu lado.
A claridade espalhada pela brancura do leite.
E o cheiro da lã.
E o cheiro do pão.

E aos pés do rebanho e do homem atento
ao canto das línguas na água do bebedouro,
descalço,
na nudez dos seus cinco sentidos,
a manhã avança ao encontro do meio-dia.

Manhã de gênese! Evapora nos campos
os orvalhos da erva. E o incenso da estrumeira.
De horizonte a horizonte: um homem – e um campo.
De horizonte a horizonte: o rebanho – e Abel.

Avraham Schlonski (1900-1973)
Tradução: Cecília Meireles

7 de setembro de 2018

Ao dia sete de setembro

Pedro Américo - O Grito do Ipiranga
Mancebos, que sois a esperança
Do majestoso Brasil;
Mancebos, que inda tão tenros
Sabeis de louro gentil
Adornar o pátrio dia,
Nosso dia senhoril!

Eis que assomou sobre os montes
Além, sobre a antiga serra,
Entre mil nuvens de rosa,
O dia de nossa terra;
Aquele que para a Pátria
Milhões de glórias encerra.

Foi hoje que o Lusitano,
Que o filho de além do mar,
Despertou com forte brado
A Pátria que era a sonhar,
Que nem sequer escutava
A liberdade a expirar.

E o brado: — "Livres ou mortos"
Lá nos bosques retumbou;
E mais contente o Ipiranga
As suas águas rolou;
E o eco d'alta montanha
Todo o Brasil ecoou.

E as montanhas lá do Sul,
E as montanhas lá do Norte,
Repetiram em seus cumes:
Sempre ser livres ou morte...
E lá na luta renhida
Cada qual luta mais forte.

Sim, nos combates que, ousados,
Travaram cem contra mil,
O mancebo que nascera
Sob este azul céu de anil,
Forte como um Bonaparte,
Batia o forte fuzil.

E cada qual no combate
Ao ribombar do canhão
Queria à custa da vida
Dar à Pátria salvação,
Vingar a terra natal
D'aviltante servidão.

Eia, pois, flores da Pátria,
Esp'rançosa mocidade!
Que os Andradas e os Machados
Do alto da Eternidade
Contentes vos abençoam
No dia da Liberdade.

Castro Alves (1847-1871)

5 de setembro de 2018

Canção de Baco

Nicolas Poussin
Quanto é bela a mocidade
que se escapa tão andeja!
Aí seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Este é Baco mais Adriana,
belos ambos, mui ardentes:
porque o tempo foge e engana,
sempre um do outro vão contentes.
Estas ninfas e outras gentes,
não há del’s triste quem esteja.
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Estes sátiros joviais,
destas ninfas namorados,
por cavernas e pinhais,
mil ardis lhes têm lançados,
ou por Baco já esquentados
saltam de amor que lampeja.
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Estas ninfas têm temor
de sofrer um desacato:
mas só se queixa do amor
quem seja rude e ingrato.
Ora em tumulto gaiato
dançam de fazer inveja.
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Este monstro que vem pronto
sobre um burro, esse é Sileno,
assim velho e alegre e tonto,
de carne e anos bem pleno:
se não monta sem empeno,
ao menos ri-se e festeja.
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Este a seguir é o rei Midas
que o que toca ouro se faz.
Mas que importam tais validas,
se tesouros não dão paz?
Tem prazer quem sempre jaz
na sede de que vasqueja?
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Abram todos as orelhas:
do amanhã não haja empachos,
hoje sejam novas, velhas,
Tristezas vão prós diachos,
ledos todos, fêmeas, machos!
e contente tudo esteja.
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Damas e jovens amantes,
viva Baco e viva Amor!
Haja bailes e descantes!
Arda o peito em doce ardor!
Fora coitas, fora a dor!
O que tem de ser que seja.
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Lorenzo de Medici (1449-1492)

3 de setembro de 2018

O Rebanho

Camille Pissarro
— A comunidade — continuou dizendo — é uma coisa muito bela. Mas o que vemos florescer agora não é a verdadeira comunidade. Essa surgirá, nova, do conhecimento mútuo dos indivíduos e transformará por algum tempo o mundo. O que hoje existe não é comunidade: é simplesmente o rebanho. Os homens se unem porque têm medo uns dos outros e cada um se refugia entre seus iguais: rebanho de patrões, rebanho de operários, rebanho de intelectuais... E por que têm medo? Só se tem medo quando não se está de acordo consigo mesmo. Têm medo porque jamais se atreveram a perseguir seus próprios impulsos interiores. Uma comunidade formada por indivíduos atemorizados com o desconhecido que levam dentro de si. Sentem que já periclitaram todas as leis em que baseiam suas vidas, que vivem conforme mandamentos antiquados e que nem sua religião nem sua moral são aquelas de que ora necessitamos. Durante cem anos a Europa não fez mais do que estudar e construir fábricas! Sabem perfeitamente quantos gramas de pólvora são necessários para se matar um homem; mas não sabem como se ora a Deus, não sabem sequer como se pode passar uma hora divertida. Observa qualquer uma dessas cervejarias estudantis. Ou qualquer dos lugares de diversão que a gente rica frequenta! Que espetáculo mais desolador... De tudo isso não pode redundar nada de bom, meu caro Sinclair. Esses homens que tão temerosamente se congregam estão cheios de medo e de maldade, nenhum se fia no outro. Mantêm-se fiéis a ideais que já não existem, e atacam, furiosos, os que tentam erigir outros novos. Sinto o início de graves conflitos que não podem tardar a surgir. Já não podem tardar, crê-me. Naturalmente, não irão “melhorar” o mundo. Quer os operários assassinem seus patrões ou quer a Rússia e a Alemanha disparem uma contra a outra, isso redundará apenas numa mudança de proprietários. Mas tampouco serão completamente inúteis. Revelarão a falência dos ideais de hoje e forçarão a derrocada de toda uma série de deuses da idade da pedra. Este mundo, tal como é hoje, quer morrer, quer aniquilar-se e aniquilar-se-á.
HESSE, Hermann. (1877-1962) Demian.
Tradução Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Record, 2000. p.157-158

1 de setembro de 2018

Noite de amor

Winslow Homer
PASSAVA a lua pelo azul do espaço
De teu regaço
A namorar o alvor!
Como era tema no seu brando lume…
Tive ciúme
De ver tanto amor.

Como de um cisne alvinitentes plumas
Iam as brumas
A vagar nos céus,
Gemia a brisa — perfumando a rosa —
Terna, queixosa
Nos cabelos teus.


Que noite santa! Sempre o lábio mudo
A dizer tudo
A suspirar paixão
De espaço a espaço — um fervoroso beijo
E após o beijo
E tu dizias — “Não!… ”

Eu fui a brisa, tu me foste a rosa,
Fui mariposa
— Tu me foste a luz!
Brisa — beijei-te; mariposa — ardi-me,
E hoje me oprime
Do martírio a cruz

E agora quando na montanha o vento
Geme lamento
De infinito amor,
Buscando debalde te escutar as juras
Não mais venturas…
Só me resta a dor.

Seria um sonho aquela noite errante?…
Diz’, minha amante!…
Foi real… bem sei…
Ai! não me negues… Diz-me a lua, o vento
Diz-me o tormento…
Que por ti penei!

Castro Alves (1847-1871)