31 de agosto de 2018

Ulisses e o Inseto

Charles Edward Perugini
Quando li o Ulisses de Joyce
o verão era pungente
e as questões.

Nem a rede embalava
nem o mar aplacava
nossos dédalos.
O vento soprou as areias e então

um inseto pousou no livro
aberto ao meio:
olhitos facetados fitaram-me e foi quando
a leitura findou
na página duzentos e tanto...

Dora Ferreira da Silva (1918-2006)

29 de agosto de 2018

Foge-me pouco a pouco a curta vida

Agnolo Bronzino
Foge-me, pouco a pouco, a curta vida,
Se por acaso é verdade que inda vivo;
Vai-se-me o breve tempo de entre os olhos;
Choro pelo passado; e, enquanto falo,
Se me passam os dias passo a passo.
Vai-se-me, enfim, a idade e fica a pena.

Que maneira tão áspera de pena!
Pois nunca uma hora viu tão longa vida
Em que posso do mal mover-se um passo.
Que mais me monta ser morto que vivo?
Pera que choro, enfim? Pera que falo,
Se lograr-me não pude de meus olhos?

Ó fermosos gentis e claros olhos,
Cuja ausência me move a tanta pena
Quanta se não compreende enquanto falo!
Se, no fim de tão longa e curta vida,
De vós me inda inflamasse o raio vivo,
Por bem teria tudo quanto passo.

Mas bem sei que primeiro o extremo passo
Me há-de vir a cerrar os tristes olhos,
Que amor me mostre aqueles por que vivo.
Testemunhas serão a tinta e pena
Que escreverão de tão molesta vida
O menos que passei, e o mais que falo.

Oh! que não sei que escrevo, nem que falo!
Que se de um pensamento noutro passo,
Vejo tão triste género de vida
Que, se lhe não valerem tanto os olhos,
Não posso imaginar qual seja a pena
Que traslade esta pena com que vivo.

Na alma tenho contino um fogo vivo,
Que, se não respirasse no que falo,
Estaria já feita cinza a pena;
Mas, sobre a maior dor que sofro e passo
Me temperam as lágrimas dos olhos;
Com que, fugindo, não se acaba a vida.

Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
Vejo sem olhos, e sem língua falo;
E juntamente passo glória e pena.

Luís Vaz de Camões (1524-1589)

27 de agosto de 2018

Ode ao Outono

Jasper Francis Cropsey
Estação de neblinas, doce e fecunda!
Companheira íntima do sol, com ele vais,
Quando ele abençoa e inunda
De frutos as videiras junto dos beirais;
Pra vergar de maçãs a musgosa macieira
E a fruta por inteiro tornar madura
Pra inchar as cabaças, prá avelã ficar gorda
Com uma doce amêndoa; há flores com fartura
Pra que a abelha as tenha sempre que queira
E pense haver dias quentes a vida inteira,
Pois o verão seus favos pegajosos transborda.
Quem não te viu já de fartura rodeada?
Às vezes, quem te procura sob outros céus,
No chão dum celeiro encontra-te descuidada,
O vento da limpeza ergue-te os cabelos.
Ou num rego meio-ceifado, em fundo torpor,
Tonta do perfume das papoulas, parada
A foice, junto da ceara a ceifar te demoras;
Às vezes, tens direita, qual rebuscador,
A pesada cabeça, ao passar a ribeira;
Ou, junto de a prensa, observas tranquila
A cidra a gotejar no fluir das horas.

Que é das canções da Primavera? Onde hão-de estar?
Esquece-as, tua música também tem valor –
Nuvens orlam o dia morrendo devagar
Tingem os restolhos de sua rósea cor;
De os mosquitos a dorida serrazina,
Crescente, entre os salgueiros do rio se ouvia,
Diminuindo, se o vento fica mais brando;
Os cordeiros balem na próxima colina;
Cantam grilos, alto, mas cheios de harmonia,
Num quintal, pisco vermelho assobia,
E as andorinhas chilreiam nos céus em bando.

John Keats (1795-1821)
Tradução: António Simões

25 de agosto de 2018

Não tenho paz nem posso fazer guerra

John Melhuish Strudwick - In the Golden Days
Não tenho paz nem posso fazer guerra;
temo e espero, e do ardor ao gelo passo,
e voo para o céu, e desço à terra,
e nada aperto, e todo o mundo abraço.

Prisão que nem se fecha ou se descerra,
nem me retém nem solta o duro laço;
entre livre e submissa esta alma erra,
nem é morto nem vivo o corpo lasso.

Vejo sem olhos, grito sem ter voz;
e sonho perecer e ajuda imploro;
a mim odeio e a outrem amo após.

Sustento-me de dor e rindo choro;
a morte como a vida enfim deploro:
e neste estado sou, Dama, por vós.
Francesco Petrarca (1304-1374)
Tradução: Jamil Almansur Haddad

23 de agosto de 2018

Musa

Jakob Emanuel Handmann – (Musa da poesia lírica)
Minha musa é a lembrança
Dos sonhos em que eu vivi,
É de uns lábios a esperança
E a saudade que eu nutri!
É a crença que alentei,
As luas belas que amei
E os olhos por quem morri!

Os meus cantos de saudade
São amores que eu chorei,
São lírios da mocidade
Que murcham porque te amei!
As minhas notas ardentes
São as lágrimas dementes
Que em teu seio derramei!

Do meu outono os desfolhos,
Os astros do teu verão,
A languidez de teus olhos
Inspiram minha canção…
Sou poeta porque és bela,
Tenho em teus olhos, donzela,
A musa do coração!

Se na lira voluptuosa
Entre as fibras que estalei
Um dia atei uma rosa
Cujo aroma respirei…
Foi nas noites de ventura,
Quando em tua formosura
Meus lábios embriaguei!
E se tu queres, donzela,
Sentir minh’alma vibrar,
Solta essa trança tão bela,
Quero nela suspirar!
E dá repousar-me teu seio…
Ouvirás no devaneio
A minha lira cantar!

Álvares de Azevedo (1831-1952)

21 de agosto de 2018

Solitário, na montanha

Alexander Milioukov
Solitário, na montanha,
Um pinheiro no hemisfério
Norte dorme sob a manta
Branca de gelo e de neve.

Ele sonha com a palmeira
Do Oriente, tão distante,
Que calada se lamenta
Sobre o penhasco escaldante.

Heinrich Heine (1797-1856)
Tradução: André Vallias

19 de agosto de 2018

Os amorosos

Giuseppe Pellizza da Volpedo - Loving Walk
Os amorosos calam.
O amor é o silêncio mais fino,
o mais temeroso, o mais insuportável.
Os amorosos buscam,
os amorosos são os que abandonam,
são os que mudam, os que esquecem.
O coração lhes diz que nunca hão de encontrar,
não encontram, procuram.

Os amorosos andam como loucos
porque estão sós, sós, sós,
entregando-se, dando-se a cada instante,
chorando porque não salvam o amor.
Preocupa-os o amor. Os amorosos
vivem dia a dia, não podem fazer mais, não sabem.
Sempre estão a ir-se,
sempre, para algum lado.
Esperam,
não esperam nada, mas esperam.
Sabem que nunca hão de encontrar.
O amor é a prorrogação perpétua,
sempre o passo seguinte, mais um, mais um.
Os amorosos são os insaciáveis,
os que sempre – que bom! – hão de estar sós.

Os amorosos são a hidra do conto.
Têm serpentes no lugar de braços.
As veias do pescoço incham-lhes
também como serpentes para asfixiá-los.
Os amorosos não podem dormir
porque se dormem os vermes vão comê-los.

Na escuridão abrem os olhos
e neles cai o espanto.

Encontram lacraus debaixo do lençol
e a cama flutua-lhes como por sobre um lago.

Os amorosos são loucos, só loucos,
sem Deus e sem diabo.

Os amorosos saem das suas covas
trémulos, famintos,
à caça dos fantasmas.

Riem-se da gente que sabe tudo,
a que ama a perpetuidade, veridicamente,
da que acredita no amor como em lâmpada de azeite
inesgotável.

Os amorosos brincam a apanhar água,
a tatuar o fumo, a não partirem.
Jogam o longo, o triste jogo do amor.
Ninguém há de resignar-se.
Dizem que ninguém há de resignar-se.
Os amorosos envergonham-se de toda a conformação.

Vazios, mas vazios de uma costela a outra,
a morte fermenta-lhes por detrás dos olhos,
e eles caminham, choram até à madrugada
em que comboios e galos se despedem dolorosamente.

Chega-lhes por vezes um cheiro a terra recém-nascida,
as mulheres que dormem com a mão no sexo, satisfeitas,
os riachos de água carinhosa e a cozinhas.
Os amorosos põe-se a cantar entre lábios
uma canção não aprendida.
E vão-se chorando, chorando,
a formosa vida.

Jaime Sabines (1926-1999)
Tradução: Vasco Graça Moura

18 de agosto de 2018

Terra Revolta

Anna Silivonchik
Terra revolta: algumas plantas logo brotam ali.
Os cardos me vêm à mente.
Depois que você os arranca,
eles se esgueiram de novo sob o chão
e metem seus focinhos carnudos e espinhentos
onde você pretendia ver lírios.

A orelha-de-lebre faz isso. A beldroega. A ervilhaca roxa.
Marginais, cavando fossos,
flagrantes com sementes, disseminando
seus buquês de indigentes.

Por que você os rejeita,
a eles e às suas emaranhadas harmonias
e madrigais vulgares?
Porque frustram a sua vontade.

Sinto o mesmo com relação a eles:
cavo e desenterro,
piso em suas vagens e em seus caules,
decepo-os e os esmago. Ainda assim,

imagine que eu consiga retornar —
que opere uma transmutação, digamos —
uma vez tendo sido calcada com a pá?
Alguma estranha vegetação ou emboscada?

Não busque na orla de plantas perenes:
procure por mim na terra revolta.

Margaret Atwood
Tradução: Adriana Lisboa

16 de agosto de 2018

O Rochedo

Maxfield Parrish - Contentment
A nuvem de ouro dorme a noite inteira
no seio do gigântico rochedo.
Pela manhã, levanta-se bem cedo,
e descuidada vai-se pelos céus, ligeira.

Mas lá restou de orvalho um breve traço
nas rugas do penedo solitário.
E é como se ele ficara multivário
chorando suavemente ante o vazio espaço.

Mikhail Lermontov (1814-1841)
Tradução: Jorge de Sena

15 de agosto de 2018

Maritimo

Barco é a noite
onde a alma navega.
O sonho é marinheiro.

No oceano do momento
o amor é timoneiro.
O mais é entrega.

Yeda Prates Bernis

Coração descuidado

Henri Martin
Lugar sem comportamento é o coração.
Ando em vias de ser compartilhado.
Ajeito as nuvens no olho.
A luz daz horas me desproporciona.
Sou qualquer coisa judiada de ventos.
Meu fanal é um poente com andorinhas.
Desenvolvo meu ser até encostar na pedra.
Repousa uma garoa sobre a noite.
Aceito no meu fado o escurecer.
No fim da treva uma coruja entrava.
Manoel de Barros (1916-2014)

13 de agosto de 2018

Ode ao Vinho

Diego Velasquez - Triunfo de Baco
Vinho da cor do dia,
vinho da cor da noite,
vinho com pés de púrpura
ou sangue de topázio,
vinho,
rutilante filho
da terra,
vinho, liso
como uma espada de ouro,
suave
como um antigo veludo,
vinho encaracolado
e suspenso,
amoroso,
marinho,
jamais coubeste numa taça,
numa canção, num homem,
num coro, tens o sentido gregário,
ou pelo menos, comum.
Às vezes
alimentas-te de recordações
mortais,
na tua onda
vamos de tumba em tumba,
canteiro de gelado sepulcro,
e choramos
transitórias lágrimas,
mas
o teu formoso
traje de Primavera
é diferente,
o coração sobe aos ramos,
o vento move o dia,
nada fica
dentro da tua imóvel alma.
O vinho
move a Primavera,
cresce como uma planta de alegria,
os muros desmoronam-se,
os penhascos,
fecham-se os abismos,
nasce o canto.
Ó tu, jarro de vinho no deserto
com a doce amada minha,
disse o velho poeta.
Que o cântaro de vinho
ao peso do amor afogue o seu beijo.

Meu amor, subitamente
a tua nádega
é curva plena
da taça,
o teu peito o cacho,
a luz do álcool a tua cabeleira,
as uvas os teus mamilos,
o teu umbigo o selo puro
estampado no teu ventre de ânfora,
e o teu amor a cascata
de vinho perene,
a claridade que inunda os meus sentidos,
o esplendor terrestre da vida.

Mas tu, vinho da vida, não és
somente amor,
escaldante beijo
ou coração queimado,
és também
amizade dos seres, transparência,
coro de disciplina,
abundância de flores.
Amo, quando se fala
à mesa, da luz de uma garrafa
de inteligente vinho.
Que o bebam,
que recordem em cada
gota de ouro
ou taça de topázio
ou colher de púrpura
que o Outono trabalhou
até encher de vinho as vasilhas
e que o músculo homem aprenda,
no cerimonial do seu negócio,
a recordar a terra e os seus deveres,
a propagar o cântico do fruto.

Pablo Neruda (1904-1973)
Tradução: Luis Pignatelli

11 de agosto de 2018

A Si Mesmo

Francis Bacon
Repousarás agora para sempre,
Ó meu cansado coração. Está morta a suprema
Ilusão, que julguei eterna. Morta. Bem sinto
Que das minhas caras ilusões
Não a esperança, mas o desejo é extinto.
Repousa para sempre. Demasiado
Palpitaste. De nada valem
Teus movimentos, nem de suspiros é digna
A terra. Amargor e tédio
A vida, nada mais; o mundo é lama.
Sossega, enfim. Desespera
Pela última vez. À nossa espécie o destino
Mais não deu que o morrer. Despreza-te, a partir de agora,
A ti, à natureza, ao mau
Poder, que, oculto, para nosso comum dano governa,
E à infinita vaidade de tudo.

Giacomo Leopardi (1798-1837)
Tradução: Albano Martins

9 de agosto de 2018

Soneto 43

Herbert Gustave Carmichael Schmalz - Robert Browning Visits Elizabeth Barrett
Amo-te quando em largo, alto e profundo
Minh’alma alcança quando, transportada,
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do Ser, a Graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.

Amo-te com o doer das velhas penas;
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingênua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,
Ainda mais te amarei depois da morte.

Elizabeth Barrett Browning (1806-1861)
Tradução: Manuel Bandeira

7 de agosto de 2018

Agosto

Rosemary Millette
Do tanque um ângulo ensombram
As ramarias viçosas,
E as gramíneas caprichosas
Florindo, as pedras alfombram.

Ao arder do meio-dia,
Vou as aves espreitar,
Que, numa doída alegria,
Vão n’água as penas banhar.

Saltitam vivas, brilhantes,
Como fagulhas de brasas,
E o voo erguendo das asas
Tombam pérolas, diamantes.

Eu quisera, alma abatida,
Dessas aves o viver...
Que apenas sabem na vida
Cantar, amar e morrer!

François Coppée (‎1842-1908)
Tradução: Valentim Magalhães

6 de agosto de 2018

Por que nos identificamos?

Desde o mito da androginia, de Aristófanes,
o estigma do amor romântico.
Os amantes - René Magritte
Aristófanes estava bêbado quando discursava no Banquete sobre a história do amor e da androginia originária. Talvez por isso aquele relato revele algo que de alguma maneira é possível advertir em várias situações: o amor é uma forma de procurar por nós mesmos. Segundo Aristófanes, fomos seres redondos com quatro pernas, quatro braços, quatro orelhas, dois rostos e duas genitálias. Tão autossuficientes e cheios de si nessa completude, fomos divididos ao meio pelos deuses. Desde então, cada metade ficou condenada à falta, à incompletude e à tarefa do reencontro da parte perdida, da parte que completasse nosso ser originário. O que se propõe neste relato não é tanto o ideal de amor perfeito, mas a possibilidade de pensar que o ser existe em relação ao outro com o qual estabelecemos um laço, um vínculo, uma cumplicidade. A outra metade, na sua presença e na sua ausência, declara aquilo que sou enquanto miticamente dividido e errante. Aquele com o qual faço laço me nomeia em minha própria fala. O discurso indireto no qual digo algo do outro ou digo o que o outro diz de mim é uma boa pista para achar as formas do reconhecimento de si. Da mesma maneira, a posição do outro como amado, como objeto de amor e de satisfação, determina minha posição como amante e vice-versa. Essa relação não só se dá no amor, mas também aparece no ódio. O amor e o ódio respondem à mesma lógica de identificação.
Daniel Omar Perez

4 de agosto de 2018

Soneto 130

Eugène Delacroix
Minha amante nos olhos sol não tem,
mais rubro é o coral que sua boca,
se a neve é branca, o peito é escuro e bem,
se há toucas de oiro, negro fio a touca.
Vi rosas brancas, rubras, damascadas,
não tem rosas na face, ao contemplá-la,
e há essências que são mais delicadas
do que o bafo que a minha amante exala.
Gosto de ouvir-lhe a voz, contudo sei
da música mais doce a afinação,
e uma deusa a passar jamais olhei,
a minha amante a andar põe pés no chão.
Creio no entanto o meu amor tão raro
quão falsas ilusões a que o comparo.

William Shakespeare (1564-1616)
Tradução: Vasco Graça Moura

2 de agosto de 2018

No Convento

Emídio Magalhães
Alta noite o mar batendo frio
Nas paredes do longo Monastério,
Junta ao perfil tão pálido e sombrio
A sombra ideal e vaga do Mistério.

Passa horas mortas — devagar — esguio,
Rondando a calma desse cemitério,
O olhar da Monja, desolado e frio
Como aquelas paredes do Ascetério.
Naquele paredão encanecido,
Soluça em vão o tétrico gemido
Das almas que padecem satisfeitas.

Nada penetra na Solidão, e quando
Vem o Sol o horizonte arroxeando,
Choram em coro, as ilusões desfeitas.

Lucilo Antônio da Cunha Bueno (1886-1938)

Ascetério — lugar próprio para a meditação e para a vida ascética; convento, mosteiro.