31 de julho de 2018

Julho

Lisa Ballard
Fulge o azul, fumega o chão,
Mexe a codorna no trigo,
Sob o “spleen” – bronco inimigo –
Devoro a minha aflição.

Geme inerte a natureza
No implacável Thermidor;
Mais se aguça o meu rancor
Na saudade e na tristeza.

Coração – antes morrer,
Já que não podes, ao menos,
Vomitar os teus venenos,
Nem teus sonhos esquecer.

Formoso dia insolente!
Coração, estoura, enfim!
E que eu inundado, assim,
No teu sangue rubro e quente,

Como o apóstata da Cruz,
Em torva blasfêmia exangue,
Lance, às mãos cheias, meu sangue
As ironias da luz!

François Coppée (‎1842-1908)‎
Tradução: Raimundo Correia e Valentim ‎‎Magalhães

30 de julho de 2018

Império Romano

Sobre Roma
Claude Lorrain - ‘Capriccio’ com as ruínas do fórum romano
Recém-chegado que, buscando Roma em Roma,
não encontras, em Roma, Roma alguma,
olha ao redor, muro e mais muro, pedras rotas,
ruínas, que assustam, de um teatro imenso:
é Roma isto que vês – cidade tão soberba,
que ainda exala ameaças seu cadáver.
Vencido o mundo, quis vencer-se e, se vencendo,
para que nada mais seguisse invicto,
jaz, na vencida Roma, Roma, a vencedora,
pois Roma é quem venceu e foi vencida.
Só resta, indício do que já foi Roma, o Tibre:
corrente rápida que corre ao mar.
Assim age a Fortuna: o que há de firme passa
e o que sempre se move permanece.

Janus Vitalis (1485-1560)
Tradução: Nelson Alscher

2017 - Biblioteca do Império Romano
é descoberta por arqueólogos em cidade alemã.
Arqueólogos da cidade alemã de Colônia foram responsáveis por um achado surpreendente. No ano passado, em meio à construção de um centro comunitário da Igreja Protestante, eles encontraram ruínas de um grande prédio romano. Mas somente nesta semana, após meses de pesquisas, escavações e consultas a outros colegas, eles conseguiram revelar ao público a sua função: trata-se da mais antiga biblioteca do país e do único prédio romano com essa finalidade já descoberto no norte europeu.
Linha do tempo de Roma
Roma
Monarquia
800 aC.
✓ Fundação mitológica de Roma em 753
✓ Realeza
600 aC.
✓ Domínio Etrusco
✓ Início tradicional da República, com a expulsão da realeza etrusca, em 509 ✓ Roma domina o Lácio
República
500 aC.
✓ Domínio dos Patrícios
✓ Lutas na Itália central
✓ Lei das Doze Tábuas (450)
400 aC.
✓ Roma saqueada pelos gauleses
✓ Direitos estendidos aos plebeus
✓ Expansão Romana na Itália
✓ Tratado de Roma com Cartago (348)
300 aC.
✓ Guerra com os cartagineses
✓ Primeiros autores latinos
200 aC.
✓ Expansão romana fora da Itália
✓ Tribunatos de Tibério e Caio Graco e crise agrária
✓ Mário rompe as tradições: cônsul sete vezes, passa a aceitar proletários no exército romano br> 100 aC.
✓ Guerra social (91-89) entre romanos e itálicos
✓ Guerra Civil e Sila Ditador (83-2)
✓ César conquista a Gália, torna-se ditador e é assassinado (44)
✓ Augusto torna-se o 1º Imperador (31)
✓ Auge da literatura latina: Cícero, Catulo, Tito Lívio, Ovídio
Principado ou Alto Império
Era Cristã .
✓ Principado e as dinastias Júlio-Cláudia e Flávio-Trajana
✓ Erupção do Vesúvio e destruição de Pompéia (79)
✓ Construção do Coliseu (79)
✓ “Pax Romana”
100 dC.
✓ Auge das cidades e do comércio antigo
✓ Revoltas judaicas na Palestina
✓ Perseguições aos cristãos
200 dC.
✓ Extensão da cidadania romana a todos os habitantes livres do Império (212)
Dominado ou Baixo Império
Início de um regime mais abertamente monárquico, o Dominado
✓ “Crise do Século III”: guerras civis (235-284)
✓ Grandes juristas consolidam a legislação romana: Ulpiano, Papiniano
300 dC.
✓ Perseguição aos cristãos, seguida da liberdade de culto (313)
✓ Constantino, primeiro imperador cristão (324-337)
✓ Cristianismo religião oficial e perseguição aos outros cultos (382)
✓ Divisão do Império entre Ocidente e Oriente (395)
400 dC.
✓ Saque de Roma (410)
✓ Último imperador romano no Ocidente (476)
Depois de um século de lutas civis, o mundo romano estava desejoso de paz. O Senado não estava em condições de opor-se aos desejos do general Otavio, detentor do poder militar.
As lutas políticas internas levaram ao poder Otávio (27 a.C.-14 d.C.), primeiro imperador romano. Desgastados pelas disputas internas e externas, os aristocratas romanos e o povo apoiavam a instalação de um governo forte, que estabilizasse a política e a economia de Roma.
Jean-Léon Gérôme - Cleópatra e Júlio César
Otávio recebeu vários títulos concedidos pelo Senado, ampliando seus poderes, entre eles o de Augusto (sagrado).
Abaixo lista dos imperadores romanos desde a fundação do Império Romano, em 27 a.C., até à Queda do Império Romano do Ocidente, em 476 d.C.
Sir Lawrence Alma-Tadema - Roman Family
Sir Lawrence Alma-Tadema - A roman dance
Dinastia Júlio-Claudiana
  • Augusto (63 a.C.-14 d.C.) 2014 - 2000 anos de sua morte.
    Giovanni Battista Tiepolo - Emperor Augustus
    Jean Auguste Dominique Ingres - Emperor Augustus
  • Tibério (14-37)
  • Calígula (37-41)
    Jean Léon Gérôme - Gladiator
  • Tiberius Claudius Caesar (41-54)
    Sir Lawrence Alma-Tadema - A morte de Calígula
  • Nero (54-68)
John William Waterhouse - Os remorsos de Nero
Ano dos Quatro Imperadores
  • Galba (68-69)
  • Otão (69)
  • Vitélio (69)
  • Vespasiano (69)
Dinastia Flávia
  • Vespasiano (69-79)
  • Tito (79-81)
    Sir Lawrence Alma-Tadema - O triunfo de Tito
  • Domiciano (81-96)
Dinastia dos Antoninos
  • Nerva (96-98)
  • Trajano (98-117)
  • Adriano (117-138) O Imperador Adriano compôs pouco antes de sua morte o seguinte poema:
    “Animula, vagula, blandula
    Hospes comesque corporis,
    Quae nunc abibis in loca?
    Pallidula, rigida, nudula,

    Nec, ut soles, dabis jocos?”.

    P. Aelius Hadrianus Imp.
    “Alminha suave e errante
    hóspede e companheira do corpo
    prestes a sumir em lugares
    desbotados, inóspitos, despojados

    Nunca mais terás teus passatempos de antes?”.

    Públio Élio Adriano
    Tradução: Mario S. Mieli


    Antínoo suicidou-se em 130 a.C
    Adriano dá um grito de dor e ajoelha-se junto ao cadáver, beijando-o entre lágrimas e lamentos.
    Esta trágica cena do suicídio de Antínoo, o jovem amante do maduro imperador, foi descrita pela escritora francesa Marguerite Yourcenar em seu livro "Memórias de Adriano" (1951). O livro foi um verdadeiro êxito de vendas e, nas suas múltiplas edições e traduções, o público tomou conhecimento da existência de um imperador romano cujo jovem amante se suicidou por amor.

    Sir Lawrence Alma-Tadema-Adriano leva Antínoo (seu amante) numa oficina de cerâmica
  • Antonino Pio (138-161)
  • Lúcio Vero (161-169)
  • Marco Aurélio (161-180)
    Eugène Delacroix-As últimas palavras do Imperador Marco Aurélio
  • Cómodo (177-192) )
Governo Pretoriano
  • Pertinax (193)
  • Dídio Juliano (193)
Dinastia dos Severos
  • Septímio Severo (193-211)
  • Geta (209-211)
  • Caracala (188-217)
Sir Lawrence Alma-Tadema - Caracala
Dinastia Macrina
  • Macrino (217-218)
  • Diadumeniano (217-218)
Dinastia dos Severos (restaurada)
  • Heliogábalo (203-222)
    Sir Lawrence Alma-Tadema - As rosas de Heliogábalo
  • Alexandre Severo (222-235) )
Crise do Terceiro Século
  • Maximino Trácio (235-238)
  • Gordiano I (238)
  • Gordiano II (238)
  • Pupieno (238)
  • Balbino (238)
  • Gordiano III (238-244)
  • Filipe, o Árabe (244-249)
  • Décio (249-251)
  • Herénio Etrusco (251)
  • Hostiliano (251)
  • Treboniano Galo (251-253)
  • Volusiano (251-253)
  • Emiliano (253)
  • Valeriano I (253-260)
  • Galiano (253-268)
  • Salonino (260) )
Imperadores Ilírios
  • Cláudio II (268-270)
  • Quintilo (270)
  • Aureliano (270-275)
  • Tácito (275-276)
  • Floriano (276)
  • Próbo (276-282)
  • Caro (282-283)
  • Carino (283-285)
  • Numeriano (283-284) )
Tetrarquia e Dinastia Constantiniana
  • Diocleciano (284-305)
    Jean Léon Gérôme - Mercado de escravos em Roma
  • Maximiano (286-305)
  • Constâncio Cloro (305-306)
  • Galério (305-311)
  • Severo II (306-307)
  • Maxêncio (306-312)
  • Licínio (308-324)
  • Maximino Daia (310-313)
  • Valério Valente (316-317)
  • Martiniano (324)
  • Constantino I, o Grande (306-337) 1° imperador romano a professar o Cristianismo.
    Antes de exalar o último suspiro, Constantino teve tempo de receber o batismo das mãos do bispo Eusébio de Nicomédia.
    Este batismo tardio e sua ação em favor da Igreja lhe valeram ser venerado como um santo pelos cristãos ortodoxos, ainda que não tivesse tido na vida um comportamento dos mais virtuosos.
  • Constâncio II (337-361)
  • Constante (337-350)
  • Juliano (361-363)
  • Joviano (363-364) )
Dinastia Valentiniana
  • Valentiniano I (364-375)
  • Valente (364-378)
  • Graciano (367-383)
  • Valentiniano II (375-392)
  • Magno Máximo (383-388)
Casa de Teodósio
  • Teodósio I (379-395) → Instituiu o Cristianismo como religião.
  • Arcádio (383-395)
  • Honório (393-395)
John William Waterhouse - The Favourites Of Emperor Honorius
Império do Ocidente
  • Honório (395-423)
  • Prisco Átalo (409-410)
  • Constâncio III (421)
  • Valentiniano III (425-455)
  • Petrónio Máximo (455)
  • Avito (455-456)
  • Majoriano (457-461)
  • Líbio Severo (461-465)
  • Antêmio (467-472)
  • Olíbrio (472)
  • Glicério (473-474)
  • Júlio Nepos (474-480)
  • Rômulo Augusto (475-476)
O período dos cinco bons imperadores da História de Roma é compreendido entre os anos 96 e 180.
Durante as administrações imperiais de Nerva (96 a 98), Trajano (98 a 117), Adriano (117 a 138), Antonino Pio (138 a 161) e Marco Aurélio (161 a 180), Roma desfrutou de relativa paz e prosperidade política, militar e econômica, tendo, então, atingido o seu auge.
Vejamos:
Imperador Nerva (96-98)
Marco Coceio Nerva. Embora se desconheça grande parte da vida de Nerva, é considerado pelos historiadores antigos como um imperador sábio e moderado, interessado no bem-estar econômico, procurando reduzir as despesas do governo. Esta opinião foi confirmada pelos historiadores modernos, um dos quais, Edward Gibbon, chama Nerva e os seus quatro sucessores, os "cinco bons imperadores". A adoção de Trajano como herdeiro finalizou com a tradição dos anteriores imperadores, que nomeavam algum dos seus parentes como filho adotivo, caso não os sucedessem os seus próprios filhos.
Imperador Trajano (98-117)
Marcus Ulpius Nerva Trajanus, mais conhecido apenas como Trajano.
Adotado como herdeiro e sucessor por Nerva, é dos imperadores o mais conceituado como excelente administrador civil. Mas apesar das marcas que deixou em Roma, é como general que Trajano celebrou seus maiores triunfos.
A reputação de Trajano sobreviveu até hoje: é dos poucos governantes que resistem ao escrutínio de quase dezenove séculos de História.
Foi extremamente compreensivo com os cristãos, o que lhe valeu ser o único imperador romano incluído no Paraíso (in Comédia, Dante Alighieri). Homem inteligente e cultivado, manteve contato com a intelectualidade de Roma, como testemunha sua correspondência com Plínio, o Jovem.
Apesar das marcas que deixou em Roma, é como general que Trajano celebrou seus maiores triunfos. Levou as fronteiras do império ao ponto máximo de sua extensão geográfica e realizou um vasto programa de obras públicas, construindo estradas, pontes, aquedutos, portos, banhos públicos e infraestrutura sanitária.
De tal modo reorganizou o Império que recebeu do Senado Romano o título honroso de optimus princeps.
Durante uma campanha militar de expansão do Império foi acometido por uma enfermidade que o debilitou. Decidiu regressar. Sua sáude foi declinando, o que se tornou de domínio público, como pode ser comprovado pelo busto em bronze que ficava em exposição nas Termas Romanas de Ancara, que o imperador usou durante o tempo em que ficou nessa cidade esperando melhorar para retomar viagem.
Novamente a caminho de Roma, morreu de um derrame, aos 64 anos, em Cilícia, ainda na Anatólia (hoje Turquia).
Imperador Adriano (117 a 138)
A carreira política de Adriano foi rápida: aos 30 anos já era Cônsul Romano e aos 38, Governador da Síria.
Foi o sucessor de Trajano. Imediatamente após sua ascensão a Imperador, Adriano ignorou e dispensou a consulta ao Senado, pois não esquecera uma conspiração dos senadores contra sua vida. Além dos problemas com o Senado, ele enfrentava o desafeto da sociedade romana.
O feito mais notável de seu reinado foram as viagens que empreendeu por todo o Império. Adriano acreditava que o Império não devia ser ampliado além das fronteiras que já conquistara e que o importante era guardar e cuidar dos territórios que formavam o Império Romano.
Para isso construiu estradas, fortes e muralhas, sendo que parte de uma delas pode ser vista ainda hoje: as célebres Muralhas de Adriano que ele fez erguer no norte da região que hoje corresponde à Grã-Bretanha.
Viajou por toda a extensão do Império, das Muralhas de Adriano até o Egito e a Grécia; criou o hábito de marchar com seu exército ao longo das fronteiras, quando ia de um lugar para outro, a fim de fiscalizar e treinar o exército que ocupava os fortes.
Em Roma, ele restaurou o Panteão e construiu o Templo de Vênus e Roma. Era um humanista e apaixonado pela herança cultural grega.
Sua relação homossexual com Antínoo foi fato marcante em sua vida e na vida do Império. Antínoo morreu durante uma viagem pelo Nilo e Adriano, enlouquecido pela dor, o divinizou e deu início a uma série de cultos para que o povo o adorasse.
Imperador Antonino Pio (138 a 161)
Titus Aurelius Fulvius Boionius Antoninus. Em 138, ele foi adotado por Adriano como filho e sucessor, recebeu poderes de tribuno e pro cônsul; quando Adriano morreu, em 10 de junho do mesmo ano, Antonino tornou-se imperador.
Um dos seus primeiros atos foi conseguir do Senado - Adriano nunca se entendeu com o Senado - a divinização de seu predecessor e a ratificação de seus atos. Conseguiu isso prometendo abolir os juízes itinerantes italianos instituídos por Adriano.
O Senado conferiu a Antonino o título de "Pio" como reconhecimento de seu senso de dever em relação a Adriano, a quem protegeu e impediu de suicidar. No ano seguinte recebeu também o título de "Pai da Pátria".
Conseguiu manter boas relações com o Senado durante todo seu reinado, apesar de nunca ampliar os poderes dos senadores. Na realidade, a burocracia tornou-se mais dinâmica e Antonino reservou para seu conselho privado todas as decisões sobre os assuntos de importância.
Seu governo foi, em sua maior parte, um período de paz e prosperidade. Ele não era extravagante (ao morrer, havia seiscentos e setenta e cinco milhões de denárius no Tesouro), mas apoiou a construção de edifícios, principalmente na Itália.
Ele enfrentou umas poucas desordens e revoltas em algumas províncias, mas nada que não fosse bem resolvido por ele. Antonino morreu em 161, em Lório (Etrúria), e foi enterrado no Mausoléu de Adriano, em Roma.
Sua fortuna pessoal deixou em testamento para a única de suas filhas que sobreviveu à infância, mas os rendimentos seriam sempre do Estado.
Seu caráter e sua personalidade receberam aprovação geral. Suas qualidades estão descritas nas “Meditações” de seu herdeiro Marco Aurélio: "gentileza e resolução inabaláveis nos julgamentos obtidos após exame minucioso; renúncia às honras exteriores; amor ao trabalho e à perseverança; presteza para ouvir aqueles que têm algo a contribuir para o bem-estar público; o desejo de recompensar cada homem de acordo com seu mérito, com imparcialidade".
Marco Aurélio menciona ainda “sua energia na defesa de tudo que fosse de acordo com a razão, sua equanimidade constante, sua expressão serena, sua doçura, seu desdém pela glória, sua ambição em dominar todos os problemas”.
A imagem de hoje é a de um busto de Antonino Pio em mármore, com 90 cm de altura, datado de 140 d.C. Foi encontrado em Cirene, antiga colônia romana na atual Líbia.
Imperador Marco Aurélio (161-180)
Marco Aurélio nasceu em 26 de Abril de 121. Seu reinado foi longo e ocupado por muitas guerras. Mas sua reputação pessoal, na verdade sua “santidade”, fizeram com que fosse sempre muito admirado.
Para sua fama contribuiu o livro de filosofia estoica, uma espécie de diário que redigiu em suas campanhas militares, intitulado “Meditações”, um livro que pode ser chamado de “aureus libellus”, pequeno livro dourado, lido até hoje.
No frontispício traz a inscrição “pensamentos para mim mesmo”. O manuscrito encontra-se no Museu do Vaticano.
Apesar de viver quase que o tempo todo envolvido em guerras e batalhas, Marco Aurélio não descurou da administração de tão grande Império, nem do estudo da Filosofia.
As guerras contra as tribos germânicas e contra os partos ocuparam quase todo seu reinado. Sabe-se que foram longas e desgastantes, mas Marco Aurélio saiu vencedor.
Marco Aurélio é tido como um dos maiores Imperadores Romanos. No entanto, seu reinado pode ser considerado o princípio do fim da Pax Romana e o início do longo declínio do Império Romano.
Uma análise talvez cínica mas muito possivelmente correta é a de que pela primeira vez desde o século 1, o Império não foi entregue a um herdeiro escolhido, mas a herdeiro de sangue: Marco Aurélio deixou Roma para seu filho Cómodo ...
Joaquin Phoenix como Cómodo em "O Gladiador".
Lúcio Aurélio Cómodo, imperador romano aos 19 anos de idade, no ano de 180, apesar da esmerada educação que seu pai, o rei-filósofo Marco Aurélio lhe proporcionou, tornou-se uma figura das mais representativas da perversão que o poder absoluto provoca nos homens. Enquanto o pai foi homem de letras, Cômodo deliciava-se com as lutas de gladiadores, sendo ele mesmo um praticante nesta arte de matar. Morreu em 192, fruto de um conspiração palaciana, depois de um reinado de treze anos de terror e vergonha.
O Imperador Marco Aurélio faleceu em 17 de março de 180: foi Cesar durante 19 anos.
Imperador Constantino I, o Grande (306-337)
Constantino foi um imperador romano, proclamado Augusto pelas suas tropas em 25 de julho de 306 e governou uma porção crescente do Império Romano até a sua morte.
Constantino derrotou os imperadores Magêncio e Licínio durante as guerras civis. Ele também lutou com sucesso contra os francos e alamanos, os visigodos e os sármatas durante boa parte de seu reinado, mesmo depois do reassentamento de Dácia que havia sido abandonada durante o século anterior. Constantino construiu uma nova residência imperial em lugar de Bizâncio, chamando-o de Nova Roma. No entanto, em honra de Constantino, as pessoas chamavam-na de Constantinopla, que viria a ser a capital do Império Romano do Oriente por mais de mil anos. Devido a isso, ele é considerado como um dos fundadores do Império Romano do Oriente.
Constantino acabou, no entanto, por entrar na História como primeiro imperador romano a professar o cristianismo, na sequência da sua vitória sobre Magêncio na Batalha da Ponte Mílvio, em 28 de outubro de 312, perto de Roma, que ele mais tarde atribuiu ao Deus cristão. Segundo a tradição, na noite anterior à batalha sonhou com uma cruz, e nela estava escrito em latim: “In hoc signo vinces” – “Sob este signo vencerás”.
Películas Históricas
Ano
Título
Diretor
Intérprete
1937 Eu, Cláudio Josef von Sternberg Charles Laughton
1959 Ben-Hur William Wyler Charlton Heston
1960 Spartacus Stanley Kubrick Kirk Douglas
1963 Cleópatra Joseph L. Mankiewicz Elizabeth Taylor
1968 Os Césares Derek Bennett Freddie Jones
1976 Eu, Cláudio Herbert Wise Derek Jacobi
1979 Calígula Tinto Brass Giancarlo Badessi
2000 Gladiador Ridley Scott Russell Crowe, Joaquin Phoenix
2009 Ágora Alejandro Amenábar Rachel Weisz
2016 Ben-Hur Timur Bekmambetov Jack Huston

Visão dos Profetas de Congonhas

Emeric Racz Marcier: Congonhas do Campo
Nestas solenes solidões pousados,
que querem os profetas de Congonhas?
Por que verbos sublimes arrebatados

erguem os vagos olhos penitentes,
enquanto hesitam tristes e tardonhas
luzes, nas ruas ermas, quase ausentes?

Que querem os profetas? Silenciam
um segredo maior? Em vão lamentam,
serenamente, a dor de os terem posto

aí, nesse deserto onde o seu rosto
de dura pedra é carne a que atormentam
ventos cruéis, estrelas que os espiam

indiferentes, como a seres mortos?
Que querem os profetas? Que esperança
inculcam? Que sugerem, se de estranhas

solidões de montanhas e montanhas,
de arenosos suspiros, desses tortos
becos e estradas sem destino, avança

o seu perfil sereno? Que desejam
além do que nos narram sem dizer
nada de nada, na postura grave

dos que conhecem? Que repouso almejam,
que além da pedra deve renascer
ao mesmo tempo áspero e suave?

Que querem os profetas, nesta hora
em que Minas Gerais, triste e profunda,
nas encostas se deita contemplando

o que foi ontem mas se faz agora,
o que de ouro repontou – fecunda
noite de que não surge nunca a aurora?

Que querem os profetas? Revolvendo
as túnicas imóveis, passa um vento
que ninguém sabe ao menos porque passa,

e um frio de outros dias, aquecendo
os corações, é como algum lamento
de ave invisível que no céu esvoaça...

Mas que querem? Que sonham? Silenciam.
E, no grande sossego da colina,
na paz das Minas ermas e severas,

a sua sombra se projeta – e as eras
que evocam, ressonância da divina
Presença, aos poucos voltam, se anunciam,

e eles que no desterro se ocultavam,
eles que transplantados se deixavam
perder-se em névoa e ausência, agora são

mais humanos, talvez acolhedores,
– enquanto a noite envolve em novas dores
o seu peito de pedra e solidão.

Alphonsus de Guimaraens Filho (1918-2008)

28 de julho de 2018

Poema

Miniatura persa
Solta a alegria! Que fique desatada!
esquece a ânsia que rói o coração.
tanta doença foi assim curada!
e a vida é uma presa, vai-te a ela!
pois é bem curta a sua duração.
e mesmo que a tua vida acaso fosse
de mil anos plenos já composta
mal se poderia dizer que fora longa.
seres triste sempre não seja a tua aposta
pois que o alaúde e fresco vinho
te aguardam na beira do caminho.
os cuidados não serão de ti os donos
se a taça for espada brilhante em tua mão.
da sabedoria só colherás a turbação
cravado no mais fundo do teu ser:
é que, dentre todos, o mais sábio
é aquele que não cuida de saber.

Al-Mu’tamid (1040-1095)
Tradução: Adalberto Alves

26 de julho de 2018

Aniversário

Marc Chagall
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma
De ser inteligente para entre a família
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor da casa
Pondo grelado nas paredes.
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos
E estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio.
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega
A mesa posta com mais lugares, com mais copos
O aparador com muitas coisas – doces, frutas,
As tias velhas, os primos diferentes, tudo por minha causa
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos.
Para, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos. Duro.
Somam sê-me os dias.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos
Fernando Pessoa (1888-1935)

24 de julho de 2018

Internadas

Gustave Courbet
Quinze anos uma, a outra uns dezesseis,
Num só quarto dormiam lado a lado.
Era em Setembro, à noite, um ar pesado.
Cor de morango, olhos azuis, tão frágeis.
Despem, como quem livre se deseja,
A veste fina, d’âmbar perfumada.
Ergue a mais nova os braços, arqueada,
Enquanto, mãos nos seios, a irmã a beija.
De joelhos já cai, e assim treslouca,
Cola o rosto ao ventre, e sequiosa a boca
Afunda no que é sombra e incandescência;
E a menina recenseia o que sente
Pelos débeis dedos, um valsar fremente,
E rosada sorri com inocência. ?

Paul Verlaine (1844-1896)
Tradução: Luiza Neto Jorge

22 de julho de 2018

Nesta Hora Tardia

Jean-Léon Gérôme
Nesta hora tardia
de uma noite de outono
estou repleto de suas palavras;
palavras que são eternas como o tempo e a matéria,
nuas como o olho,
pesadas como a mão,
e brilhantes como as estrelas.

Suas palavras chegaram a mim,
de seu coração, de sua cabeça e de sua carne.
As suas palavras a trouxeram,
eram: mãe,
eram: mulher
e companheira...
Eram melancólicas, amargas, alegres, esperançosas, heroicas,
suas palavras eram humanas...

Nazım Hikmet (1901-1963)
Traduzidos: Marco Syrayama de Pinto e John Milton.

20 de julho de 2018

Economia Divina

Cindy Grundsten
Não achei que viveria momento tão singular.
Quando o Deus dos trovões e cumes rochosos,
O Senhor dos Exércitos, Kyrios Sabaoth,
Humilhasse mais duramente os homens,
Permitindo que agissem como bem quisessem,
Deixando-lhes as conclusões e não dizendo nada.
O espetáculo não lembrava, com efeito,
O ciclo de séculos das tragédias da realeza.
Estradas sobre vigas de concreto, cidades de vidro e ferro fundido,
Aeroportos inda maiores que territórios tribais
De súbito careceram de fundamento e ruíram.
Não em sonho, mas à luz do dia, porque amputados de si
Duravam como só dura o que não deveria durar.
Das árvores, pedras do campo, até dos limões na mesa
Fugiu toda a matéria e seu espectro
Não era mais que o vazio, fumaça numa película.
Deserdado dos objetos pululava o espaço.
Toda parte era parte alguma e parte alguma, toda parte.
As letras dos livros se apagavam, vacilavam e sumiam.
A mão não lograva traçar o signo da palmeira, o signo do rio, nem o signo do íbis.
Num alarido de muitas línguas era anunciada a morte da palavra.
O lamento era proibido, porque só lamentava a si mesmo.
Acometidas de inexplicável tormento as pessoas
Despiam-se nas praças, para que sua nudez intimasse o juízo.
Mas em vão ansiavam por horror, piedade e fúria.
Pouco fundamentados
Eram o trabalho e o descanso
E o rosto e os cabelos e os quadris
E toda e qualquer existência.

Czesław Miłosz (1911-2004)
[Tradução de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza]

18 de julho de 2018

Soneto no cap. XXVI de Vita Nuova

Fresco do Castelo Del Buonconsiglio Trento
Parece tão gentil, tão recatada,
minha senhora quando alguém saúda,
que toda a língua treme e fica muda
e olhá-la até seria ideia ousada.
Quando ela passa, ouvindo-se louvada,
benignamente a humildade a escuda,
tal uma cousa que do céu acuda
à terra, por milagre revelada.
Tal graça ao coração de quem na mira
está pelos olhos uma doçura a pôr
que não pode entender quem a não prove;
e dos lábios parece que se move
um espírito suave e só de amor
que vai dizendo à alma assim: Suspira.

Dante Alighieri (1265-1321),
Tradução: Jorge Vaz de Carvalho

16 de julho de 2018

Porque o vinho é o espelho dos homens

Giovanni Maria Bottalla
Humedece de vinho a garganta, que o astro
já voltou. É penosa
a estação e tudo
esmorece com o calor. Entre
a folhagem, docemente
a cigarra canta… Floresce
o cardo. É a hora
em que as mulheres se tornam
mais fogosas e mais fracos
os homens, pois que Sírio
as cabeças abrasa e os joelhos.

Alceu de Mitilene (621 a. C. – 560 a.C.)
Tradução: Albano Martins

14 de julho de 2018

O Reino do céu

Antonio Verrio
Depois da morte
eu quero tudo o que seu vácuo abrupto
fixou na minha alma.
Quero os contornos
desta matéria imóvel de lembrança,
desencantados deste espaço rígido.
Como antes, o jeito próprio
de puxar a camisa pela manga
e limpar o nariz.
A camisa engrossada de limalha de ferro mais
o suor, os dois cheiros impregnados,
a camisa personalíssima atrás da porta.
Eu quero depois, quando viver de novo,
a ressurreição e a vida escamoteando
o tempo dividido, eu quero o tempo inteiro.
Sem acabar nunca mais, a mão socando o joelho,
a unha a canivete – a coisa mais viril que eu conheci.
Eu vou querer o prato e a fome,
um dia sem tomar banho,
a gravata pro domingo de manhã,
a homilia repetida antes do almoço:
‘conforme diz o Evangelho, meus filhos, se
tivermos fé, a montanha mudará de lugar’.
Quando eu ressuscitar, o que quero é
a vida repetida sem o perigo da morte,
os riscos todos, a garantia:
a noite estaremos juntos, a camisa no portal.
Descansaremos porque a sirene apita
e temos que trabalhar, comer, casar,
passar dificuldades, com o temor de Deus,
para ganhar o céu.

Adélia Prado

12 de julho de 2018

A Beleza

Charles James Lewis
E um poeta disse: Fala-nos da Beleza.
E ele respondeu:
Onde buscareis a beleza, e como a
encontrareis, a não ser que ela seja vosso
caminho e vosso guia?
E como falareis dela, a não ser que
ela teça vosso falar?

Os aflitos e os feridos dizem: “A
beleza é bondosa e gentil.
Como uma mãe, meio envergonhada
de sua própria glória, ela caminha entre
nós”.

E os apaixonados dizem: “Não, a
beleza é uma coisa de poder e horror.
Como a tempestade, ela sacode a
terra abaixo de nós e o céu acima”.

Os cansados e extenuados dizem:
“A beleza murmura docemente. Ela fala
ao nosso espírito.
Sua voz ilumina nossos silêncios
como a fraca luz que tremula no medo
da escuridão”.

Mas os incansáveis dizem: “Nós a
ouvimos gritar entre as montanhas.
E com seus gritos, vieram os sons
dos cascos, e o bater das asas e o rugir
dos leões”.

À noite, os sentinelas da cidade
dizem: “A beleza surgirá com a aurora
do leste”.

E ao meio-dia, os trabalhadores e
os caminhantes dizem: “Nós a vimos
inclinando-se sobre a terra pelas janelas
do crepúsculo”.

No inverno, dizem os que estão cobertos
de neve: “Ela virá com a primavera,
saltitando sobre as colinas”.

E no calor do verão, os camponeses
na colheita dizem: “Nós a vimos dançando
com as folhas do outono, e vimos neve
em seu cabelo”.

Todas estas coisas dissestes da beleza.
Mas, na verdade, só falastes dela as
necessidades não satisfeitas, e a beleza não
é uma necessidade, mas sim um êxtase.

Não é uma boca que tem sede, nem uma
mão vazia estendida para frente, mas um
coração inflamado e uma alma encantada.

Não é a imagem que veríeis, nem a canção
que ouviríeis, mas uma imagem que vedes,
apesar de vossos olhos estarem fechados,
e uma canção que ouvíeis, apesar de vossos
ouvidos estarem surdos.

Não é a seiva dentro da casca sulcada,
nem uma asa ligada a uma garra, mas um
jardim sempre em flor e um bando de anjos
sempre em voo.

Povo de Orfalese, a beleza é vida quando
a vida revela sua face sagrada.
Mas vós sois a vida e vós sois o véu.
A beleza é a eternidade mirando-se
num espelho.
Mas vós sois eternidade e vós sois o espelho.

Kahlil Gibran (1883-1931)
Tradução: Bettina Gertrum Becke

10 de julho de 2018

Espelho de Orfeu

Edward John Poynter - Orfeu e Eurídice
Sua triste lira, Orfeu
não altera o fermento
nem faz para a amada presa na
jaula dos mortos uma cama de amor, um par de braços,
uma trança
quem morre morre, Orfeu.

O tempo tropeça em seus olhos
a lira quebra em suas mãos.

Vejo você despontar nas margens
cada flor é uma canção
a água é como a voz
escuto
vejo você como sombra
que escapa de seu centro
e se põe a girar... 

Adonis (pseudônimo de Ali Ahamed Said Esber)
Poeta e ensaísta sírio
Tradução: Michel Sleiman

8 de julho de 2018

Inverno

Clarence Gagnon
Um horizonte de chuvas demorado
de seus verões levanta os campos
e o inverno se faz de tantas noites
onde se perde o curso dos riachos.

A pastagem rasteira retocada
pelas ovelhas da manhã não cresce
nesses perdidos campos da memória
onde um menino vive a infância.

Cresce na solidão de outros meninos
se preparando agora para o exílio
de estrangeira cidade onde mais tarde

confinados ao sonho pensarão
no abôio das chuvas na doçura
dos campos trnsformados pelo inverno.

H. Dobal (1927-2008)

6 de julho de 2018

O Silencio preenche: Razão e Revelação

Edward John Poynter
Vem, recitemos poemas um ao outro,
através da Alma,
dizendo coisas secretas para os olhos e ouvidos.

Sorriamos como um jardim de rosas,
sem lábios nem dentes.
Conversemos com pensamentos,
sem línguas nem lábios.

Nomeemos todos os segredos
do mundo, até ao fim,
sem abrir a boca, como intelecto divino.

Alguns só podem compreender
olhando e ouvindo as bocas.
Mantenhamo-nos fora da tenda deles.
Ninguém fala em voz alta para si mesmo.
Como nós somos um, falemos assim.

Como podes dizer à tua mão “toca“?
Como todas as mãos são uma
Falemos assim

As mãos e os pés sabem o que a Alma quer
Fechemos a boca e falamos com a Alma
A Alma conhece o destino
A Alma conhece o destino passa a passo
Se quiseres dar-te-ei exemplos.

Jalaludin Rumi (1207-1273)

4 de julho de 2018

Canção do amor sereno

Dima Dmitriev
Vem sem receio: eu te recebo
Como um dom dos deuses do deserto
Que decretaram minha trégua, e permitiram
Que o mel de teus olhos me invadisse.

Quero que o meu amor te faça livre,
Que meus dedos não te prendam
Mas contornem teu raro perfil
Como lábios tocam um anel sagrado.

Quero que o meu amor te seja enfeite
E conforto, porto de partida para a fundação
Do teu reino, em que a sombra
Seja abrigo e ilha.

Quero que o meu amor te seja leve
Como se dançasse numa praia uma menina.

↠ Lya Luft

2 de julho de 2018

Somos a sombra de uma vara

Jaime Best
De pé, demoradamente invocando
o grito do destino, somos a sombra
de uma vara, presa à inclinação do sol,
que define a vertigem que nos derruba
e que nos ergue.

Graça Pires