30 de junho de 2018

Quando me amei de verdade

Luigi Chialiva
Quando me amei de verdade
pude compreender
que em qualquer circunstância,
eu estava no lugar certo, na hora certa.
Então pude relaxar.

Quando me amei de verdade
pude perceber que o sofrimento
emocional é um sinal de que estou indo
contra a minha verdade.

Quando me amei de verdade
parei de desejar que a minha vida
fosse diferente e comecei a ver
que tudo o que acontece contribui
para o meu crescimento.

Quando me amei de verdade
comecei a perceber como
é ofensivo tentar forçar
alguma coisa ou alguém
que ainda não está preparado.
– inclusive eu mesma.

Quando me amei de verdade
comecei a me livrar de tudo
que não fosse saudável.
Isso quer dizer: pessoas, tarefas,
crenças e – qualquer coisa que
me pusesse pra baixo.
Minha razão chamou isso de egoísmo.
Mas hoje eu sei que é amor-próprio.

Quando me amei de verdade
deixei de temer meu tempo livre
e desisti de fazer planos.
Hoje faço o que acho certo
e no meu próprio ritmo.
Como isso é bom!

Quando me amei de verdade
desisti de querer ter sempre razão,
e com isso errei muito menos vezes.

Quando me amei de verdade
desisti de ficar revivendo o passado
e de me preocupar com o futuro.
Isso me mantém no presente,
que é onde a vida acontece.

Quando me amei de verdade
percebi que a minha mente
pode me atormentar e me decepcionar.
Mas quando eu a coloco
a serviço do meu coração,
ela se torna uma grande e valiosa aliada.

Kim McMillen (1963-1996)
Tradução: Iva Sofia Gonçalves

28 de junho de 2018

Prisão da Palavra

Rembrandt: São Paulo na prisão
Olho redondo entre as barras.
Pálpebra de animal cintilante
rema para cima,
libera um olhar.

Íris, nadadora, sem sonhos e triste:
o céu, cinza-coração, deve estar próximo.

Inclinada, no bico de ferro,
a limalha fumegante.
No sentido da luz
adivinhas a alma.

(Se eu fosse como tu. Se fosses como eu.
Não estaríamos
sob um mesmo alísio?
Somos estranhos.)

Os ladrilhos. Por cima,
uma junto à outra, as duas
poças cinza-coração:
dois bocados de silêncio.

Paul Celan (1920-1970)
Tradução: Marco Antonio Casanova

26 de junho de 2018

Pobres...

Robert Kemm
Pobres,
que vos hei de dizer?
Eu vos amava.
Meus livros e meu Deus falaram-me de vós.
Saí a vosso encontro para levar-vos meu amparo,
mas deparei com vossos torsos curvos,
vossos joelhos dobrados,
vossos olhares de cães batidos atentos às minhas mãos.
Que vos hei de dizer?
Há entre nós a vossa mão, pedindo...

Ricos,
que vos hei de dizer?
Eu vos amava.
Meus poetas e meus pintores falaram-me de vós.
Saí a vosso encontro para levar-vos os meus cantos,
mas vos achei de colarinho duro,
duros também e arrogantes,
desconfiados de minhas mãos pouco obedientes.
Que vos hei de dizer?
Há entre nós o vazio de vossos olhos...

Mulheres,
que vos hei de dizer? Eu vos amava.
Saí a vosso encontro carregado de amor,
mas vos achei com as vossas costureiras
e vos enchendo os lábios de batom.
Vossos olhos não viram minhas mãos,
minhas mãos trêmulas.
Mulheres,
Que vos hei de dizer?
Há rouge demais entre nós...

Crianças,
que vos hei de dizer?
Não corri ao vosso encontro,
nenhuma de vós cansou-me os braços e os joelhos,
nenhuma de vós desviou a mão que escrevia
nem jogou tinta no meu papel.
Crianças, criancinhas,
que vos hei de dizer?
Há entre nós todos os beijos que não dei...

André Spire (1868-1966)
Tradução: Sérgio Milliet.

24 de junho de 2018

Fogueiras de Outono

John Everett Millais
Veja nos outros jardins
e através do vale todo
a fumaça, que é uma trilha
dessas fogueiras de outono!

Se o ameno verão findou
e findaram as suas flores,
já ardem os rubros fogos,
e fumos cinzentos sobem.

Cantem então algo radioso,
a canção das estações:
flores em meio a verões,
fogueiras durante outonos!

Robert Louis Stevenson (1850-1894)

22 de junho de 2018

Acalanto

Daniel F. Gerhartz
Fecho meus olhos para o teu canto
e ouço a cantiga vibrando no ar:
asas de vento, sons de acalanto,
a luz do dia no próprio encanto
que o sol da vida te faz cantar.

Fecha teus olhos para o meu canto
e ouve o marulho longe de um mar,
lançando à praia do desencanto
todo o meu sonho desfeito em pranto
que o sal da vida me faz chorar.

Gilberto Mendonça Teles

20 de junho de 2018

Ars Poetica

Benedetto Gennari I
Roubado à natureza o dossiê secreto
Patente a analogia entre o fundo do poço
o rosto de Narciso o sangue do incesto
há de tudo prender-se aereamente solto
Que o verbo seja um espelho Ao mesmo tempo um véu
Que não baste no lago a pureza do rosto
A lira é com certeza a mão esquerda de Orfeu
Mas é a mão direita a que revolve o lodo.

- David Mourão Ferreira – (1927-1996)

18 de junho de 2018

Poema

Claude Monet
“Hoje de novo sigo a senda
Para a vida, o varejo, a venda,
E guio as hostes da poesia
Contra a maré da mercancia.”

Vielimir Khlébnikov (1885-1922)
Tradução: [Augusto de Campos].

16 de junho de 2018

Os Deuses

Freydoon Rassouli
Éter calmo! sempre bela me conservas
A alma no meio da dor; e ante os teus raios,
Hélios! se enobrece em valentia
Muitas vezes o peito revoltado.

Ó bons Deuses! pobre é quem vos não conhece;
No peito rude nunca o dissídio se lhe acalma,
E o mundo pra ele é noite, e nenhuma
Alegria lhe medra nem canção nenhuma.

Vós só, com vossa juventude eterna, mantendes
Nos corações que vos amam a candura infantil,
E não deixais que em cuidados e erros
Jamais lhe morra no luto o Génio.

Friedrich Hölderlin (1770-1843)
Tradução: Paulo Quintela

14 de junho de 2018

Poesia contra a Guerra

Pierre-Auguste Renoir
1
A cebola esta geada
cerrada e pobre:
geada dos teus dias
e das minhas noites.
Fome e cebola,
gelo preto e geada
grande e redonda.
2
No berço da fome
meu filho estava.
Com sangue de cebola
se amamentava.
Embora teu sangue,
encharcado de açúcar,
cebola e fome.
3
Uma mulher morena
que se fez lua
se derrama fio a fio
sobre o berço.
Ri-te, filho,
que tu engulas a lua
quando for preciso.
4
Cotovia da minha casa,
ri-te muito.
É teu riso nos olhos
a luz do mundo.
Ri-te tanto
que a alma, ao te ouvir,
vença o espaço.
5
Teu riso me liberta,
me dá asas.
Das solidões me tira,
da prisão me arranca.
Boca que voa,
coração que em teus lábios
ralampaguea.
6
É o teu riso a espada
mais vitoriosa,
vencedor das flores
e das cotovias.
Rival do sol.
Porvir dos meus ossos
e do meu amor.
7
Carne esvoaçante,
súbito a pálpebra,
e o filho como nunca
colorido.
Quanto pintassilgo
se remonta, esvoaça,
do teu corpo!
8
Despertei da infância:
nunca despertes.
Triste é minha boca.
Ri-te sempre.
Sempre no berço,
defendendo o riso
pluma por pluma.
9
Ser de voo tão alto,
tão extendido,
que tua carne parece
um céu cernido.
Se eu pudesse
regressar à origem
de tua carreira!
10
No oitavo mês ris
com cinco flores,
com cinco diminutas
ferocidades.
Com cinco dentes
como cinco jasmins
adolescentes.
11
Fronteira dos beijos
será amanhã,
quando na dentadura
sintas uma arma.
Sintas um fogo
correr dentes abaixo
cravando o centro.
12
Voa filho na dobrada
lua do peito;
ele, triste de cebola,
tu, satisfeito.
Não te abatas.
Não sabes o que se passa
nem o que ocorre.

Miguel Hernández (1910-1942)
Tradução: José Bento

12 de junho de 2018

Eros

Kinuko Y. Craft
Cego?
Não: livre.
Tão livre que não te importa
a direção da seta.

Alado? Irradiante.
Feridas multiplicadas
nascidas de um só
abismo.

Disseminas pólens e aromas.
És talvez a
primavera?
Supremamente livre
— violento —
não és estátua: és pureza
oferta.
Que forma te conteria?
Tuas setas armam
o mundo
enquanto — aberto — és abismo
inflamadamente vivo.

Orides Fontela (1940-1998)

10 de junho de 2018

Maria

Michelle Murray
Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca o Sol, e o Dia:

Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata a toda ligeireza
E imprime em toda flor sua pisada.

Ó não aguardes que a madura idade
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

Gregório de Matos (1636-1695)

8 de junho de 2018

Quando perderes o gosto humilde da tristeza...

Annabel Burton
Quando perderes o gosto humilde da tristeza,
Quando, nas horas melancólicas do dia,
Não ouvires mais os lábios da sombra
Murmurarem ao teu ouvido
As palavras de voluptuosa beleza
Ou de casta sabedoria;

Quando a tua tristeza não for mais que amargura,
Quando perderes todo estímulo e toda crença,
- A fé no bem e na virtude,
A confiança nos teus amigos e na tua amante,
Quando o próprio dia se te mudar em noite escura
De desconsolação e malquerença;

Quando, na agonia de tudo o que passa
Ante os olhos imóveis do infinito,
Na dor de ver murcharem as rosas,
E como as rosas tudo o que é belo e frágil,
Não sentires em teu ânimo aflito
Crescer a ânsia de vida como uma divina graça:

Quando tiveres inveja, quando o ciúme
Crestar os últimos lírios de tua alma desvirginada;
Quando em teus olhos áridos
Estancarem-se as fontes das suaves lágrimas
Em que se amorteceu o pecaminoso lume
De tua inquieta mocidade:

Então sorri pela última vez, tristemente,
A tudo que outrora
Amaste. Sorri tristemente...
Sorri mansamente... em um sorriso pálido... pálido
Como o beijo religioso que puseste
Na fronte morta de tua mãe... Sobre a sua fronte morte...

Manuel Bandeira (1886-1968)

7 de junho de 2018

Carpe Diem

Charles Francois Jalabert
Colha o dia, confie o mínimo no amanhã.
Não pergunte, saber é proibido, o fim que os deuses
darão a mim ou a ti, Leuconoe,
com os adivinhos da Babilônia não brinque.
É melhor apenas lidar com o que cruza o seu caminho.
Se muitos Invernos Júpiter te dará ou se este é o último
que agora bate nas rochas da praia com as ondas do mar.
Tirreno: seja sábio, beba o seu vinho e para o curto prazo
reveja as suas esperanças.
Mesmo enquanto falamos,
o tempo ciumento está a fugir de nós.
Colha o dia, confie o mínimo no amanhã.

Quintus Horatius Flaccus (65 - 8 a.C.)
Tradução: Orlando Pinheiro

5 de junho de 2018

Brancura

Aldemir Martins
A gata chamada
tamborim (tam-
bi)
olhos amareloesverdeados
cara chim
gosta de telhados livres
e do calor do colo
com miados de cortesia
mandarim
nos cumprimenta toda manhã
solicitando modestíssima
que a recebamos
no interior azulejado
da cozinha
na primeira noite de cio
miou por um gato galante
e com seu galã cinzamalhado
enluarou o telhado
branquíssima de paixão.

Haroldo de Campos (1929-2003)

4 de junho de 2018

Enigma

Nefertiti Egyptian Queen On Papyrus
A rainha Nefertiti
lábios de desenho perfeito
perfeita a linha do nariz
cútis bronzeada pelos raios
ultravioleta de aton-ra o sol
jubilante do Egito
uma elegante tiara trapezoide
azul-grafite
encimando-lhe a testa
sobre uma faixa de ouro
(e deixando se ainda listar
por uma outra banda áurea
com engastes de vermelho safira
e o símbolo — dourado sempre —
do poder real: o cetro
verticalmente inscrito
de alça dupla)
seu
pescoço delgado de modelo de Dior
orna-o tripla fileira de colares de cor
as sobrancelhas e pálpebras
delineadas com meticuloso
traço rímel-negro
por hábil mão maquiladora
e nos olha
a rainha nos olha
(que a olhamos)
impassível:
quase sorriso na carnação
túmida dos lábios
fixa-nos pupila
castanho-verde
do olho esquerdo
o direito
o tempo milenar cegou-o:
esbranca-se no gesso
fitando em alvo o nada
de dentro da moldura
oval-amêndoa
do rímel
seu enigma está aí —
nesse branco esgazeado
que turba há (quantos?)
séculos o semblante
irretocável de rainha.

Haroldo de Campos (1929-2003)

2 de junho de 2018

Junho

Gill Bustamante
No curso ligeiro e breve
Desta vida, o passarinho
E o homem sempre o instinto teve
De fabricar o seu ninho.

Um pouco de argila ou palha
Buscam e fazem o teto,
Que, humilde e quente agasalha
Sua prole e seu afeto.

Por um olhar feminino
Tocada, sonhou minh’alma
No amor, embalar-se no hino
Da ventura ignota e calma.

De fabricar, jubiloso,
Meu ninho tive o desejo,
Mas um tufão impetuoso
Varreu-me o tênue bosquejo.

Sobre meu triste caminho
Meus sonhos vejo tombados,
Como os ovos que de um ninho
Caem por terra quebrados.

François Coppée (1842-1908)
Tradução: Raimundo Correia e Valentim Magalhães

1 de junho de 2018

Se

James Jacques Tissot
Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar –sem que a isso só te atires,
De sonhar –sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: “Persiste!”;
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais –tu serás um homem, ó meu filho!

Rudyard Kipling (1865-1936)
Tradução: [Guilherme de Almeida]