31 de maio de 2018

A caminho da igreja

Camille Pissarro
Montanhas soam
Teu andar vibra sóis
As mãos fulgem
Luzes
Estrelas
A torre da igreja dominga
Murmura
Onde está você

August Stramm (1874-1915)
Tradução: Augusto de Campos.

30 de maio de 2018

Penúltima Palavra

Jimmy Lawlor
O Espaço?
– A vida
Ida
Sem traço.

O Amor?
– Seu preço:
Desprezo
E dor.

O Sonho?
– Infindo,
É lindo
(Suponho).

Que vou
Fazer
Do ser
Que sou?

Isto;
Aquilo,
Aqui,
Ali.

Jules Laforgue (1860-1887)
Tradução: [Augusto de Campos]

28 de maio de 2018

Morte dos girassóis

Anoitecia, eu estava no jardim. Passou um vizinho e ficou me olhando, pálido demais até para o anoitecer. Tanto que cheguei a me virar para trás, quem sabe alguma coisa além de mim no jardim. Mas havia apenas os brincos-de-princesa, a enredadeira subindo tenta pelos cordões, rosas cor-de-rosa, gladíolos desgrenhados. Eu disse oi, ele ficou mais pálido. Perguntei que-que foi, e ele enfim suspirou: “Me disseram no Bonfim que você morreu na Quinta-feira.” Eu disse ou pensei em dizer ou de tal forma deveria ter dito que foi como se dissesse: “É verdade, morri sim. Isso que você está vendo é uma aparição, voltei porque não consigo me libertar do jardim, vou ficar aqui vagando feito Egum até desabrochar aquela rosa amarela plantada no dia de Oxum. Quando passar por lá no Bonfim diz que sim, que morri mesmo, e já faz tempo, lá por agosto do ano passado. Aproveita e avisa o pessoal que é ótimo aqui do outro lado: enfim um lugar sem baixo-astral.”
Acho que ele foi embora, ainda mais pálido. Ou eu fui, não importa.
Mudando de assunto sem mudar propriamente, tenho aprendido muito com o jardim. Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, fáceis, até um pouco brutas.
Pois não são. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos destruidores. Depois de meses, um dia pá! Lá está o botãozinho todo catita, parece que já vai abrir.
Mas leva tempo, ele também, se produzindo. Eu cuidava, cuidava, e nada. Viajei por quase um mês no verão, quando voltei, a casa tinha sido pintada, muro inclusive, e vários girassóis estavam quebrados. Fiquei uma fera. Gritei com o pintor: “Mas o senhor não sabe que as plantas sentem dor que nem a gente?” O homem ficou me olhando tão pálido quanto aquele vizinho. Não, ele não sabe, entendi. E fui cuidar do que restava, que é sempre o que se deve fazer.
Porque tem outra coisa: girassol quando abre flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor, compreende? Então, como se não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra, exausto da própria criação esplêndida. Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto.
Caio Fernando Abreu – [foto-Adriana Franciosi]
Alguns amarrei com cordões em estacas, mas havia um tão quebrado que nem dei muita atenção, parecia não valer a pena. Só apoiei-o numa espada-de-são-jorge com jeito, e entreguei a Deus. Pois no dia seguinte, lá estava ele todo meio empinado de novo, tortíssimo, mas dispensando o apoio da espada. Foi crescendo assim precário, feinho, fragilíssimo. Quando parecia quase bom, cráu! Veio uma chuva medonha e deitou-se por terra. Pela manhã estava todo enlameado, mas firme. Aí me veio a ideia: cortei-o com cuidado e coloquei-o aos pés do Buda chinês de mãos quebradas que herdei de Vicente Pereira. Estava tão mal que o talo pendia cheio dos ângulos das fraturas, a flor ficava assim meio de cabeça baixa e de costas para o Buda. Não havia como endireitá-lo.
Na manhã seguinte, juro, ele havia feito um giro completo sobre o próprio eixo e estava com a corola toda aberta, iluminada, voltada exatamente para o sorriso do Buda. Os dois pareciam sorrir um para o outro. Um com o talo torto, outro com as mãos quebradas. Durou pouco, girassol dura pouco, uns três dias. Então peguei e joguei-o pétala por pétala, depois o talo e a corola entre as alamandas da sacada, para que caíssem no canteiro lá embaixo e voltassem a ser pó, húmus misturado à terra, depois não sei ao certo, voltasse à tona fazendo parte de uma rosa, palma-de-santa-rita, lírio ou azaleia, vai saber que tramas armam as raízes lá embaixo no escuro, em segredo.
Ah, pede-se não enviar flores. Pois como eu ia dizendo, depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu? Algumas pessoas acho que nunca. Mas não é para essas que escrevo.
Publicado no livro “Pequenas epifanias”.
Caio Fernando Abreu (1948-1996)
Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2014.

27 de maio de 2018

Sucesso do Fusca afastou passado nazista

Origem do carro popular remonta ao nazismo: há 80 anos, Hitler lançava a pedra fundamental da fábrica de seu "Volkswagen" em Wolfsburg.
Dois homens e um megaprojeto: Adolf Hitler e Ferdinand Porsche foram os criadores do Fusca. Porsche como engenheiro projetista, Hitler como mentor político. "Foi o encontro de duas partes que se encaixavam", resumiu o historiador Wolfram Pyta, professor de História Contemporânea na Universidade de Stuttgart.
Ferdinand Porsche (esq.) explica a Hitler seu projeto de carro popular "Volkswagen"
Foto: Hoffmann / Getty Images
Com os colegas Nils Havemann e Jutta Braun, Pyta traçou a história da empresa fundada em 25 de abril de 1931, em Stuttgart, no livro Porsche. Vom Kunstruktionsbüro zur Weltmarke (Porsche. De escritório de design a marca mundial, em tradução livre). Sem o apoio do ditador, Porsche não teria podido finalizar o projeto do Volkswagen (carro popular, em alemão), aponta o historiador.
"Hitler precisava de uma mente criativa para construir um veículo compacto apropriado para a produção em série", explica Pyta. "E Porsche precisava de uma encomenda política que lhe permitisse projetar sem a pressão de custos."
Sucesso do Fusca afastou passado nazista
Origem do carro popular remonta ao nazismo: há 80 anos, Hitler lançava a pedra fundamental da fábrica de seu "Volkswagen" em Wolfsburg.
Dois homens e um megaprojeto: Adolf Hitler e Ferdinand Porsche foram os criadores do Fusca. Porsche como engenheiro projetista, Hitler como mentor político. "Foi o encontro de duas partes que se encaixavam", resumiu o historiador Wolfram Pyta, professor de História Contemporânea na Universidade de Stuttgart.
Com os colegas Nils Havemann e Jutta Braun, Pyta traçou a história da empresa fundada em 25 de abril de 1931, em Stuttgart, no livro Porsche. Vom Kunstruktionsbüro zur Weltmarke (Porsche. De escritório de design a marca mundial, em tradução livre). Sem o apoio do ditador, Porsche não teria podido finalizar o projeto do Volkswagen (carro popular, em alemão), aponta o historiador.
"Hitler precisava de uma mente criativa para construir um veículo compacto apropriado para a produção em série", explica Pyta. "E Porsche precisava de uma encomenda política que lhe permitisse projetar sem a pressão de custos."
Motorização e mobilização
Já no Salão Internacional do Automóvel de fevereiro de 1933, ou seja, poucas semanas após a sua nomeação como chanceler do Reich, Hitler anunciava a "motorização popular". Em meados de 1934, a "Associação da Indústria Automotiva Alemã do Reich" encomendava à Porsche o projeto de um carro "Kraft durch Freude" (força através da alegria), em homenagem à organização nazista homônima, de atividades recreativas.
Em 29 de dezembro de 1935, Hitler - que não possuía nenhuma carteira de motorista - recebeu pessoalmente o protótipo de seu "carro popular". Dois anos e meio depois, a pedra fundamental da fábrica da Volks em Wolfsburg era lançada em 26 de maio de 1938, com a presença do "Führer".
No início, o automóvel da "força através da alegria" não serviu à "motorização popular", mas sim à Wehrmacht, as Forças Armadas nazistas. Ele foi utilizado como carro utilitário e de comandante ("Küberlwagen") e veículo anfíbio na campanha de guerra.
Ninguém ficou surpreso, no entanto, com esse uso militar adicional. Pois, desde o início, tal conversão estava planejada. Num documento de 1934, Porsche afirmava que "um carro popular deve servir não somente como veículo de passageiros, mas também para entregas e propósitos militares específicos."
Um Fusca francês?
A história de sucesso do carro compacto para o povo começou, na verdade, após Segunda Guerra Mundial. Para se distanciar do passado nazista, ele foi apelidado de "Käfer" (besouro) na Alemanha. Já em dezembro de 1945, meio ano após o fim da guerra, o primeiro "Käfer" deixava a linha de montagem.
Dez anos mais tarde, a fábrica da Volks em Wolfsburg comemorava a produção da milionésima unidade. O carro com a carroceria arredondada e motor boxer avançava como símbolo do milagre econômico alemão. Com o nome de Beetle, Fusca ou Vocho, ele conseguiu recordes de vendas em todo o mundo. No total, foram produzidas e vendidas 22 milhões de unidades do carro popular da Volks.
O distanciamento do passado nazista já aconteceu no período pós-guerra. Em outubro de 1945, o Ministério da Produção Industrial da França, que na época era liderado pelos comunistas, entrou em contato com Porsche.
"Em nenhum outro campo pode-se ver tão claramente o distanciamento bem-sucedido do nazismo como no esforço do governo francês para abocanhar para si os serviços do engenheiro projetista da Volks", afirma Pyta.
"Oportunismo sem limites"
A concorrência francesa sabia que era preciso evitar que o carro popular francês fosse associado ao passado nazista. "Houve uma intriga entra as concorrentes Renault e Peugeot. Porsche e seu genro Anton Piëch foram acusados de envolvimento em crimes de guerra", aponta Pyta. Surpreendentemente, em dezembro de 1945, Porsche foi então colocado sob a custódia das autoridades militares francesas, onde permaneceu até agosto de 1947. O sucesso mundial do Fusca não foi capaz de impedir a detenção.
Para Pyta, uma cooperação entre Hitler e Porsche não é algo tão excepcional, pois supostos homens de ação apolíticos deixam-se muitas vezes impressionar quando governantes autoritários os atraem com megaprojetos fascinantes.
"Porsche não foi o único a cooperar com ditadores, sem nenhuma preocupação moral e num oportunismo sem limites", afirma o historiador. "Às vezes, empresários interessados somente no sucesso de sua firma ou na implementação de ambiciosos projetos tecnológicos não têm nenhum escrúpulo ao fazer acordos com governantes autoritários."

25 de maio de 2018

Porque sou forte

Stephanie Pui-Mun Law
Dirás que é falso. Não. É certo. Desço
Ao fundo d’alma toda vez que hesito...
Cada vez que uma lágrima ou que um grito
Trai-me a angústia - ao sentir que desfaleço...

E toda assombro, toda amor, confesso,
O limiar desse país bendito
Cruzo: - aguardam-me as festas do infinito!
O horror da vida, deslumbrada, esqueço!

É que há dentro vales, céus, alturas,
Que o olhar do mundo não macula, a terna
Lua, flores, queridas criaturas,

E soa em cada moita, em cada gruta,
A sinfonia da paixão eterna!...
- E eis-me de novo forte para a luta.

Narcisa Amália (1856-1924)

23 de maio de 2018

Entre os pássaros...

Elvira Amrhein
Entre os pássaros se esgueiram
como se deixassem na sombra

Os perfis de seda
não de aves, mas de anjos:
não anjos expulsos por perfídia
mas desejosos de caminhar pelos caminhos
a modo de homens isentos de cansaço.
Anjos que crianças veriam
sem medo, a elas semelhantes.
Mulheres sonhadoras os julgariam
amados ausentes enfim reencontrados

Não se despedem, sussurram melodiosamente:
- Junto à fonte estarei e tu, comigo.
Há que esperar. Tal beleza os reveste nesse instante
que desviamos o olhar.

Dora Ferreira da Silva (1918-2006)

21 de maio de 2018

Compromisso

Vasili Alexandrovich Kotarbinsky
Transportam meus ombros secular compromisso.
Vigílias do olhar não me pertencem;
trabalho dos meus braços
é sobrenatural obrigação.

Perguntam pelo mundo
olhos de antepassados;
querem, em mim, suas mãos
o inconseguido.
Ritmos de construção
enrijeceram minha juventude,
e atrasam-me na morte.
Vive! — clamam os que se foram,
ou cedo ou irrealizados.
Vive por nós! — murmuram suplicantes.

Vivo por homens e mulheres
de outras idades, de outros lugares, com outras falas.
Por infantes e velhinhos trêmulos.
Gente do mar e da terra,
suada, salgada, hirsuta.
Gente de névoa, apenas murmurada.

É como se ali na parede
estivessem a rede e os remos,
o mapa,
e lá fora crescessem uva e trigo,
e à porta se chegasse uma ovelha,
que me estivesse mirando em luar,
e perguntando-se, também.

Esperai! Sossegai!

Esta sou eu –— a inúmera.
Que tem de ser pagã como as árvores
e, como um druida, mística.
Com a vocação do mar, e com seus símbolos.
Com o entendimento tácito,
instintivo,
das raízes, das nuvens,
dos bichos e dos arroios caminheiros.

Andam arados, longe, em Minh’ alma.

Andam os grandes navios obstinados.

Sou minha assembleia,
noite e dia, lucidamente.

Conduzo meu povo
e a ele me entrego.
E assim nos correspondemos.

Faro do planeta e do firmamento,
bússola enamorada da eternidade,
um sentimento lancinante de horizontes,
um poder de abraçar de envolver
as coisas sofredoras,
e levá-las nos ombros como os anhos e as cruzes.

E somos um bando sonâmbulo
passeando com felicidade
por lugares sem sol nem lua.

Cecília Meireles (1901-1964)
in Mar absoluto e outros poemas-1945-

19 de maio de 2018

A Paisagem Ática

Arthur B. Davies: Cavalos da Ática
Turista, esquece teu ávido olhar
Que sôfrego perscruta este lugar:
Pouco aqui encontrarás de “Antigo Romance”,
Ou Pitoresco do Tivoli.

Nenhum matiz intenso agitará teus sentidos –
Puros e pálidos contornos, um encanto linear.
Os montes recortados esculpiram o rosto dos templos,
Sustentam e partilham sua graça escultural.

É a arte e a Natureza habitando lado a lado,
Irmã junto à irmã, a face tocando a face;
Uma arte assim, uma Natureza assim, e um tempo assim,
O Todo-no-Todo aqui parece um Grego.

Herman Melville (1819-1891)
Tradução:Mário Avelar

17 de maio de 2018

Felicidade

Frank Cadogan Cowper
Um território em que não deve se atrever a entrar
com esperança de ficar,
areia movediça nos pântanos, e todas
as estradas que levam a um castelo
aquela estrada não existe.
Mas aqui está, como prometido,
com sua ponte perfeita sobre
os crocodilos,
e suas portas para sempre abertas.

Stephen Dunn
Tradução: Wagner Miranda

15 de maio de 2018

A tarde precipita sua cor

Elihu Vedder
A tarde precipita sua cor
cai, no começo
no princípio da noite
e o que ainda aqui resiste
meio fera, ao precipício
ficou na beira da taça
que não suporta mais
sequer um riso
pois todo cristal está sempre
na iminência, um minuto antes
de partir.

Armando Freitas Filho

13 de maio de 2018

Homem que olha o céu

Eliza Kleczewska
Enquanto passa a estrela fugaz
junto neste desejo instantâneo
montes de desejos profundos e prioritários
por exemplo que a dor não me apague a raiva
que a alegria não desarme meu amor
que os assassinos do povo engulam
seus molares caninos e incisivos
e se mordam sensatamente o fígado
que as grades das celas
se tornem de açúcar ou se curvem de piedade
e meus irmãos possam fazer de novo
o amor e a revolução
que quando enfrentarmos o implacável espelho
não maldigamos nem nos maldigamos
que os justos avancem
mesmo que estejam imperfeitos e feridos
que avancem porfiados como castores
solidários como abelhas
aguerridos como jaguares
e empunhem todos seus nãos
para instalar a grande afirmação
que a morte perca sua asquerosa pontualidade
que quando o coração saia do peito
possa encontrar o caminho de regresso
que a morte perca a sua asquerosa
e brutal pontualidade
mas se chega pontual não nos encontre
mortos de vergonha
que o ar volte a ser respirável e de todos
e que você mocinha continue alegre e dolorida
pondo nos seus olhos a alma
e sua mão em minha mão
e nada mais
porque o céu já está de novo turvo
e sem estrelas
com helicópteros e sem deus.

Mario Benedetti (1920-2009)
Tradução: Julio Luís Gehlen

11 de maio de 2018

Dádiva

Ford Madox Brown
Um dia tão feliz.
A névoa baixou cedo, eu trabalhava no jardim.
Os colibris se demoravam sobre a flor de
[ madressilva.
Não havia coisa na terra que eu quisesse
[ possuir.
Não conhecia ninguém que valesse a pena
[ invejar.
O que aconteceu de mau, esqueci.
Não tinha vergonha ao pensar que fui quem sou.
Não sentia no corpo nenhuma dor.
Me endireitando, vi o mar azul e velas.

Czeslaw Milosz (1991=2004)
Tradução: Carlos Machado

9 de maio de 2018

Medusa

Jean-Marc Nattier
“Caia comigo
Nas estrelas frígidas
Caia comigo
Na luz do delírio
Mergulhe
Onde não há canção
Salvo as cãs dos ventos velhos.

Siga-me
Até o fim,
Até o caos estonteante
O eterno caos fervente
Dos meus cabelos!
Contemple a sua amante, –
Pedra!”

Hart Crane (1899-1932)
Tradução: Augusto de Campos

7 de maio de 2018

Versos para uma Bela Dama

Edouard Manet
No templo de naves escuras,
Celebro um rito singelo.
Aguardo a Dama Formosura
À luz dos velários vermelhos.

À sombra das colunas altas,
Vacilo aos portais que se abrem.
E me contempla iluminada
Ela, seu sonho, sua imagem.

Acostumei-me a esta casula
Da majestosa Esposa Eterna.
Pelas cornijas vão em fuga
Delírios, sorrisos e lendas.

São meigos os círios, Sagrada!
Doce o teu rosto resplendente!
Não ouço nem som, nem palavra,
Mas sei, Dileta – estás presente.

Aleksandr Blok (1880-1903)
Tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman

5 de maio de 2018

Maio

Vicente Romero Redondo
Há um mês foste-te embora;
E eu sofro de ti distante,
Embalde viceja agora
O lilás fresco e odorante.

A sós, fujo ao claro brilho
Deste céu, que me exaspera,
Pois aumenta o horror do exílio
O esplendor da primavera.

Contra os vidros transparentes
Da alcova de onde não saio,
Batendo as asas trementes,
Ouço os insetos de maio.

Do sol ao rútilo beijo
Cerro o lábio, desgostoso,
E só, do lilás desejo
O úmido ramo cheiroso;

Pois, em meio às suas dores,
Do lilás, minh’alma, em ânsia,
Vê teus olhares – nas flores,
Teu hálito – na fragrância.

François Coppée (1842-1908)
Tradução: Raimundo Correia e Valentim Magalhães

4 de maio de 2018

O Ilimitável Oceano

Ptolomeu observando o firmamento
No túmulo de um Astrônomo
Amei demasiado as estrelas
do céu nu que percorri a dedo,
para que a noite, onde brilham, belas,
em mim seja surto de algum medo
.

Ptolomeu
Como todos, sou mortal:
minha vida é um dia.
Mas quando sigo, fatal,
no céu que nos alumia,
a multidão das estrelas,
sinto, deslumbrado nelas,
meus pés, do chão, levantar.

Copérnico
O céu que viste era o céu
de Ptolomeu. Mas diferente
foi a forma de o olhar.
No modo de julgar, teu,
a Terra, astro movente,
demitiu-se de pensar
que era o centro do mundo:
assim ver, que abalo fundo!

Kepler
O mundo próximo, à volta, apodrece.
Fome, mortal conflito e pestilência
turvam o dia que mal amanhece.
Segura-se à pureza da ciência:
o curso aparente das estrelas,
seguindo matemática divina,
deriva, das rigorosas tabelas
do vasto cosmo, a curva sibilina.

Eugénio Lisboa

2 de maio de 2018

Pablo Neruda: a história cruel da filha doente que o poeta abandonou

O poeta chileno cantou o amor de maneira dilacerada,
mas decidiu não dar nenhum apoio à filha doente
.
Os poetas cantam o amor, o real e o imaginário, de maneira extraordinária. Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, conhecido como Pablo Neruda (1904-1973), Prêmio Nobel de Literatura de 1971, celebrou-o como poucos. Seus poemas líricos o imortalizaram mais do que os engajados. Mas, como ninguém é perfeito e às vezes se tem um lado “m” — de, vá lá, “malvado” —, o bardo chileno “escondeu” uma história (e um comportamento), por assim dizer, nada lírica e constrangedora. Dirão, por certo: sua poesia ficará menor. Não. A poesia continua poderosa, ainda que às vezes “aguada” e palavrosa (nada comparável à magnífica poesia do maior poeta chileno, Vicente Huidobro), mas o cidadão se torna problemático — menos Deus e mais humano — e nada admirável. Há mesmo uma dissintonia entre o que se diz — o que se escreve — e o que se faz? No caso, sim.
A escritora holandesa Hagar Peeters descobriu a história de Malva Marina Trinidad Reyes Basoalto, uma menina que morreu aos 8 anos, e decidiu escrever um romance para revelar sua existência. “Malva” (Rey Naranjo, 240 páginas, tradução de Isabel Clara Lorda Vidal) saiu na Espanha, em fevereiro deste ano, e atraiu a atenção da imprensa. Porque é o registro da história da filha que Pablo Neruda abandonou e com a qual não quis nenhum contato. Não há previsão de lançamento do livro no Brasil.
Livro resgata história da filha que Pablo Neruda abandonou porque tinha hidrocefalia.
A escritora assinala que Pablo Neruda, além de ocultar a história, rejeitou Malva Marina, porque ela tinha hidrocefalia.
A bela Maria Hagenaar Vogelzang — Maruca (a Javanesa) — e Pablo Neruda se casaram em Java (o poeta era cônsul do Chile na ilha), em 1930. Foi sua primeira mulher. Aproveitavam a juventude e estavam apaixonados. Quando Pablo Neruda teve de voltar para seu país, participando ativamente de farras com os amigos, Maruca rebela-se e, para não perdê-la, o poeta convence amigos influentes do governo a enviá-lo para Madri. Aí, dadas sua poética e sua capacidade de reunir novos amigos, se torna uma estrela do mundo cultural. Convive com prosadores, poetas, filósofos, artistas plásticos, cientistas, arquitetos. A vanguarda artística e científica europeia passa pela Espanha.
Promovido a cônsul geral, Pablo Neruda e Maruca vivem uma vida glamorosa, cercados da nata cultural da sociedade espanhola e europeia. O poeta organizava tertúlias constantes em sua casa. Entre os frequentadores estavam Federico García Lorca, Rafael Alberti e Vicente Aleixandre.
Homem do mundo, charmoso, poeta admirado, Pablo Neruda era mulherengo (Fernando Lizama Murphy sugere que o vate “padecia de satiríase” — desejo sexual exarcebado). Mas esperava-se que o nascimento de Malva Marina unisse mais o casal, que se amava. Porém a menina “nasceu com uma cabeça desproporcional, fruto de uma hidrocefalia que anunciava uma morte prematura, irremediável”. Depois de visitá-la, o poeta Vicente Aleixandre, amigo de Pablo Neruda, escreveu: “Uma criatura à qual não se podia olhar sem dor”. Maruca e Pablo Neruda moravam na Casa das Flores, residência arranjada por Rafael Alberti.
Neruda e Maruca, mãe da Malva a Javanesa foi abandonada à míngua pelo poeta.
Inicialmente, Pablo Neruda parecia não ter consciência da “gravidade da enfermidade de sua filha”. Quando nasceu, firmou que a menina era “uma maravilha”. Vicente Aleixandre ouviu o poeta dizer: “Malva Marina, me vê? Vem, Vicente, vem! Olha que maravilha. Minha menina. A mais bonita do mundo”. Depois, o autor de “Confesso Que Vivi” procurou ocultar Malva Marina. “É um ser perfeitamente ridículo”, disse, contrafeito, a amigos. Em seguida, tachou-a de “vampiresa de três quilos” e a abandonou. “Custa aceitar que do autor de ‘Cem Sonetos de Amor’ nasceram tais palavras”, afirma Paco Rego. Sobre Maruca, Pablo Neruda escreveu: “Era uma mulher alta [superava 1,80m] e suave, avessa totalmente ao mundo das artes e letras”. Ao contrário do marido, não apreciava festas e boemia.
Ao se afastar de Malva Marina, que avaliava como um ser estúpido, Pablo Neruda acabou se desligando de Maruca. Ele dizia que a menina não dormia e era incômoda. Logo iniciou um relacionamento com a argentina Delia del Carril, La Hormiguita. Em 1936, deixa a mulher e a filha definitivamente e vai morar com Delia del Carril.
Pablo Neruda deixa Maruca e Malva quase sem dinheiro em Montecarlo, para onde havia fugido da Guerra Civil Espanhola. “Maruca cruza toda a França com sua filha enferma, até chegar a Holanda, onde se instala na cidade de Gouda. Mãe e filha passam fome. Maruca vive em pensões e trabalha no que encontra. Sua menina fica aos cuidados de uma família cristã. Suplica a Neruda que lhe mande dinheiro para poder dar comida à filha”, relata o jornalista de “El Mundo”. “Gastei meu último centavo enviando a carta”, lamenta Maruca.
A filha esquecida de Pablo Neruda morreu em 2 de março de 1943, em Gouda, onde está enterrada. Maruca avisou o poeta, por intermédio do consulado do Chile em Haya, sobre a morte da criança, mas o homem que cantou o amor de maneira tão linda e delicada “respondeu-lhe” com o silêncio. Na prática, tudo indica, a teoria é outra.