30 de abril de 2018

Janelas

Jeremy Mayes
Nestes compartimentos escuros onde passo
dias opressivos, ando para cá e para lá
a fim de achar as janelas – Quando se abrir
uma janela, será um consolo. –
Mas não se acham as janelas, ou não posso
encontrá-las. E talvez seja melhor que não as encontre.
Talvez seja a luz um novo martírio.
Quem sabe que novas coisas ela mostrará.

Konstantinos Kaváfis (1863-1933)
Tradução: Ísis Borges da Fonseca

28 de abril de 2018

Filosofia

Pompeo Girolamo Batoni - Philosophy
A filosofia é em sua essência revolta, uma vez que ela é pensamento crítico e radical sobre a realidade. Quando pensamos a filosofia como um ato de revolta, lembramo-nos de imediato de um texto de Deleuze, em “Nietzsche e a Filosofia”. Segundo Deleuze, “quando alguém pergunta para que serve a filosofia, a resposta deve ser agressiva, visto que a pergunta pretende-se irônica e mordaz. A filosofia não serve nem ao Estado, nem à Igreja, que têm outras preocupações. Não serve a nenhum poder estabelecido. A filosofia serve para entristecer. Uma filosofia que não entristece a ninguém e não contraria ninguém, não é uma filosofia. A filosofia serve para prejudicar a tolice, faz da tolice algo de vergonhoso. Não tem outra serventia a não ser a seguinte: denunciar a baixeza do pensamento sob todas as suas formas. Existe alguma disciplina, além da filosofia, que se proponha a criticar todas as mistificações, quaisquer que sejam sua fonte e seu objetivo? Denunciar todas as ficções sem as quais as forças reativas não prevaleceriam. Denunciar, na mistificação, essa mistura de baixeza e tolice que forma tão bem a espantosa cumplicidade das vítimas e dos algozes. Fazer, enfim, do pensamento algo agressivo, ativo, afirmativo. Fazer homens livres, isto é, homens que não confundam os fins da cultura com o proveito do Estado, da moral, da religião. Vencer o negativo e seus altos prestígios. Quem tem interesse em tudo isso a não ser a filosofia? A filosofia como crítica mostra-nos o mais positivo de si mesma: obra de desmistificação. (…) A tolice e a bizarria, por maiores que sejam, seriam ainda maiores se não subsistisse um pouco de filosofia para impedi-las, em cada época, de ir tão longe quanto desejariam, para proibi-las, mesmo que seja por ouvir dizer, de serem tão tolas e tão baixas quanto cada uma delas desejaria. (Deleuze, 1976, p. 87). A filosofia como pensamento reflexivo é, portanto, libertadora. Ela não se submete a nenhuma forma de poder, seja religioso, político ou ideológico. A razão é a faculdade que julga, analisa, discerne e compara, nesse sentido, sua característica fundamental é o livre pensar. É somente através da reflexão que o homem pode sair de sua “menoridade”, alcançando autonomia e liberdade para guiar sua vida. É somente através da reflexão que a humanidade poderá um dia reivindicar um mundo mais justo e feliz.
Gilles Deleuze (1925-1995) em
Nietzsche e a filosofia, Ed. Rio, Rio de Janeiro, 1976.

26 de abril de 2018

Maluquices do H

O H é letra incrível,
muda tudo de repente.
Onde ele se intromete,
tudo fica diferente…
Se você vem para cá,
Vamos juntos tomar chá.
Se o sono aparece,
tem um sonho e adormece.
Se sai galo do poleiro,
pousa no galho ligeiro.
Se a velha quiser ler,
vai a vela acender.
Se na fila está a avó,
vira filha, veja só.
Se da bolha ele escapar,
Uma bola vai virar.
Se o bicho perde o H,
com um bico vai ficar.
Hoje com H se fala,
sem H é uma falha.
Hora escrita sem H,
ora bolas vai ficar.
H é letra incrível,
muda tudo de repente.
Onde ele se intromete,
tudo fica diferente…

Pedro Bandeira

24 de abril de 2018

Do ciclo Dança da morte

Connie Chadwell
Noite. Fanal. Rua. Farmácia.
Uma luz estúpida e baça.
Ainda que vivas outra vida,
Tudo é igual. Não há saída.

Morres – e tudo recomeça,
E se repete a mesma peça:
Noite – rugas de gelo no canal.
Farmácia. Rua. Fanal.

Aleksandr Blok (1880-1903)
Tradução: Augusto de Campos.

22 de abril de 2018

Minha vida, uma arma carregada

William Powell
Minha vida, uma arma carregada,
Ficou pelos cantos até o dia
Em que o dono passou, e, ao reconhecer-me,
Levou-me dali consigo.

Agora, vagueamos por régios bosques
E damos caça ao cervo;
E sempre que por meu amo falo,
Os montes respondem céleres.

Se eu sorrio, uma luz tão calorosa
Rebrilha por sobre o vale
Como se a face de um Vesúvio
Seu prazer deixasse vazar.

E, cumprido mais um dia, estar à noite
Em guarda à cabeceira de meu mestre
É melhor que partilhar
Um farto travesseiro de penas.

De seu inimigo, mortal inimiga sou
E, ao que insiste em afrontá-lo,
Oponho um olho amarelo
Ou um polegar enfático.

Embora mais que ele, talvez eu viva,
Mais que eu deveria ele viver;
Pois tenho tão só o poder de matar,
Não me é dado o poder de morrer.

Emily Dickinson (1830-1886)
Tradução: Ivo Bender

20 de abril de 2018

Tapeçaria

Monet
É difícil separar a tapeçaria
Do lugar ou tear que a antecede.
Pois deve ficar sempre de frente ainda que pendendo para um lado.
Ela insiste nesse retrato da “história”
Por fazer, porque não há como escapar do castigo
Que ela propõe: a visão cega pelo sol.
A vista é engolida com o que é visto
Numa explosão da consciência súbita de seu esplendor formal.
A visão, vista como interior,
Registra sobre o impacto de si mesma
Recebendo fenômenos e, nisso,
Traça um esboço ou uma planta
Do que estava lá agora há pouc
o: certo na risca.
Se tem a forma de um cobertor, isso é porque
Ansiamos, ainda assim, por nos enrolarmos nela:
Esse deve ser o lado bom de não experienciá-la.
Mas, em alguma outra vida, que o cobertor retrata, de qualquer modo,
Os cidadãos mantém um com o outro um comércio agradável
E beliscam as frutas sem empecilhos, como querem,
E as palavras choram por si próprias, deixando o sonho
Revirado numa poça em algum lugar
Como se “morto” não passasse de mais um adjetivo.

John Ashbery (1927-2017)
Tradução: Adriano Scandolara

18 de abril de 2018

Oceano

Albert Bierstadt
Olho a praia. A treva é densa.
Ulula o mar, que não vejo,
Naquela voz sem consolo,
Naquela tristeza imensa
Que há na voz do meu desejo.

E nesse tom sem consolo
Ouço a voz do meu destino:
Má sina que desconheço,
Vem vindo desde eu menino,
Cresce quanto em anos cresço.

– Voz de oceano que não vejo
Da praia do meu desejo…

Manuel Bandeira (1886-1968)

16 de abril de 2018

Um jardim por entre as chamas

Jean Honoré Fragonard
Ó Maravilha,
um jardim por entre as chamas!

Meu coração pode agora
adotar todas as formas:
é pastagem das gazelas,
um claustro para monges,

Para os ídolos, chão sagrado,
a Ka’aba para o peregrino buscador,
as tábuas da Torah,
os pergaminhos do Santo Corão.

Eu sigo a Religião do Amor;
seja qual for a rota
que tome sua caravana:
esse é meu credo
e minha fé.

Ibn Arabi (1165–1240)
Tradução: Fábio Malavoglia, sobre a tradução inglesa de Michael Sells

14 de abril de 2018

Oráculo de Eros

William-Adolphe Bouguereau
Para que não seja o teu corpo
a parte proibida do horto.

Mas a volúpia que marcasse,
entre volutas, tua face.

Somente a tua: mais nenhuma
com tamanho langor de espuma.

Com tamanha extensão de chama,
que até a memória se inflama

a cada letra do teu nome
(pois todas as outras consome).

Que seja o teu corpo o instrumento
tocado em pelo contra o vento

e por ele, vento, encarnado,

por fim tão senhor quanto escravo:
corpo de onde eu mesmo me escavo.

Iacyr Anderson Freitas

11 de abril de 2018

Epigrama

Bernard van Orley
Que caminho seguir para o amor? Nas ruas,
lamentarás a luxúria ávida da mulher lasciva.
Se te aproximares do leito de uma virgem, espera-te
um casamento legal ou o castigo reservado aos sedutores.
Sustentar o amor insípido duma mulher legítima
quem o suportaria, se ela o exigisse como coisa devida?
O leito do adultério é detestável e estranho ao amor,
e dormir com os rapazes é igual perversidade.
A viúva corrupta toma por amante o primeiro que aparece
e enche a cabeça de pensamentos lúbricos.
A pudica, ainda mal se entregou ao amor,
é picada pelo ferrão de um cruel arrependimento
e sente horror do seu ato; e, movida por um resto de pudor,
bate em retirada, com o anúncio do fim da ligação amorosa.
Se tiveres uma relação com a tua escrava,
resigna-te a tornares-te a ti próprio um escravo.
Se for a escrava de outro, a lei aplicar-te-á uma marca infamante,
por atentares contra um ser que pertence a outro.
Diógenes evitou tudo isto, ele que cantava
o hino nupcial com a mão, sem necessitar de Laís.

Agátias, o Escolástico (536-582 d. C.)
Tradução: Albano Martins

9 de abril de 2018

A florista

Frederick Childe Hassam
Suspensa ao braço a grávida corbelha,
Segue a passo, tranquila... O sol faísca...
Os seus carmíneos lábios de mourisca
Se abrem, sorrindo, numa flor vermelha.

Deita à sombra de uma árvore. Uma abelha
Zumbe em torno ao cabaz... Uma ave, arisca,
O pó do chão, pertinho dela, cisca,
Olhando-a, às vezes, trêmula, de esguelha...

Aos ouvidos lhe soa um rumor brando
De folhas... Pouco a pouco, um leve sono
Lhe vai as grandes pálpebras cerrando...

Cai-lhe de um pé o rústico tamanco...
E assim descalça, mostra, em abandono,
O vultinho de um pé macio e branco.

Francisca Júlia da Silva (1871-1920)

7 de abril de 2018

Não há cisne tão Belo

Jan Brueghel the Elder
"Não há água tão quieta como as
fontes mortas de Versalhes”. Nem cisne tão
belo, esguio olhar cego de esguelha
e pernas gondoleantes, como
esse de porcelana com olhos foscos
de fauno e um colar auridenteado
para testificar de quem foi esta ave.

Encastoado numa árvore-candelabro
Luís XV com botões em flor
cor de cristal-de-galo, dálias,
ouriços do mar e sempre-vivas,
pousa em galhos de espuma, horto
de esculturadas e polidas
flores — altivo e plácido. O rei está morto.

Marianne Moore (1887-1972)
Tradução: Augusto de Campos.

5 de abril de 2018

Castro Alves do Brasil

Castro Alves (1847-1871)
Castro Alves do Brasil, para quem cantaste?
Para a flor cantaste? Para a água
cuja formosura diz palavras às pedras?
Cantaste para os olhos para o perfil recortado
da que então amaste? Para a primavera?

Sim, mas aquelas pétalas não tinham orvalho,
aquelas águas negras não tinham palavras,
aqueles olhos eram os que viram a morte,
ardiam ainda os martírios por detrás do amor,
a primavera estava salpicada de sangue.

- Cantei para os escravos, eles sobre os navios
como um cacho escuro da árvore da ira,
viajaram, e no porto se dessangrou o navio
deixando-nos o peso de um sangue roubado.

- Cantei naqueles dias contra o inferno,
contra as afiadas línguas da cobiça,
contra o ouro empapado de tormento,
contra a mão que empunhava o chicote,
contra os dirigentes de trevas.
- Cada rosa tinha um morto nas raízes.
A luz, a noite, o céu, cobriam-se de pranto,
os olhos apartavam-se das mãos feridas
e era a minha voz a única que enchia o silêncio.

- Eu quis que do homem nos salvássemos,
eu cria que a rota passasse pelo homem,
e que daí tinha de sair o destino.
Cantei para aqueles que não tinham voz.
Minha voz bateu em portas até então fechadas
para que, combatendo, a liberdade entrasse.

Castro Alves do Brasil, hoje que o teu livro puro
torna a nascer para a terra livre,
deixam-me a mim, poeta da nossa América,
coroar a tua cabeça com os louros do povo.
Tua voz uniu-se à eterna e alta voz dos homens.
Cantaste bem. Cantaste como se deve cantar.

Pablo Neruda (1904-1973)
Tradução: Paulo Mendes Campos

2 de abril de 2018

Abril

Henri-Edmond Cross
Só quem não ama, não sente
Da primavera a emoção,
Assistindo indiferente
Das aves à imigração;

E vendo o bando ligeiro,
Que no céu da tarde avança.
Não vê nele o mensageiro
Da mais ligeira esperança.

Assim meus dias corriam;
De outros céus a regressar,
As andorinhas me viam
Na primavera a chorar.

Mas desde que a minha vida
Teu domínio foi sentindo
De Abril, aos beijos, querida,
Abandonei-me sorrindo.

Desde que ao teu olhar, estrela,
Todo o meu ser floresceu
Eu vos espero à janela
Ó peregrinas do céu!

Povoai de novo a face
Do azul, fulgurosa e calma...
Se o meu desejo voasse!
Se eu asas tivesse n’alma!

François Coppée (1842-1908)
Tradução: Raimundo Correia e Valentim Magalhães