31 de março de 2018

Canção do mar aberto

August Hagborg
Onde puseram teus olhos
A mágoa do teu olhar?
Na curva larga dos montes
Ou na planura do mar?
De dia vivi este anseio;
De noite vem o luar,
Deixa uma estrada de prata
Aberta para eu passar.
Caminho por sobre as ondas
Não paro de caminhar.
O longe é sempre mais longe…
Morre o meu sonho comigo,
Sem te poder encontrar.

Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971)

29 de março de 2018

Poema 92

Hieronymus Bosch
não há muito tempo
ou antes uma vida
andando no escuro
encontrei Cristo

Jesus) meu coração
saltou-me do peito
e ficou quieto
enquanto ele passou (tão

perto como estou de ti
sim mais perto
feito de nada
exceto solidão.

E.E.Cummings(1894-1962)
Tradução: Carlos Mendonça Lopes

27 de março de 2018

Os Meus Amigos

Francisco de Goya
Amigos cento e dez, e talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia!
Pensei que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.

Amigos cento e dez, tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia,
Que eu, já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.
— Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver…
Que cento e nove impávidos marotos!

Camilo Castelo Branco (1825-1890)

25 de março de 2018

Agora, as coisas simples

Gustave Caillebotte
Agora, as coisas simples
antes cegas em nossos olhos.
E nada tocamos
mãos sobre as cordas mudas.
Se o som desperta é dele
o ouvido em flor. Mas corre o sangue
porque tudo é vivo sob as folhas mortas.
Sozinho se arma o acorde no piano
há surpresas na colheita deste ano, novos grãos na seara.
Sobre o braço em ângulo a fronte repousa
e o olhar reflete
uma flor

Dora Ferreira da Silva (1918-2006)

23 de março de 2018

Partiu-se em tristeza um olhar

Oskar Schlemmer
Foi tão de ave o meu chegar aqui
que de ti a mim sem que soubesse
no que de ouvido espanto comovi
posei canto silêncio todo prece.

Pousei e levantei secreta chama
envolta no brasio de teu vinho
contra o crime do céu tu me derramas
silenciosa doçura no caminho.

Chamei por ti, tão solitária eu
sem que me dessem outros mais de mim
e dura espada na hora que bateu
em tua mão segura me acolhi.

Salette Tavares (1922-1994)

21 de março de 2018

Para Marielle

como aceitar
que vá pra debaixo da terra
quem tinha nome de mar?

como suportar
o criminoso calar
de quem era a voz daqueles
que ninguém escuta?

como desejar
que descanse em paz
quem sempre foi de luta?

(Germana Zanettini)

20 de março de 2018

Desenganos

Sir Edward Burne-Jones
Muitas vezes sonhei nos tempos idos
Acalentando sonhos de ventura,
Então a voz da lira suave e pura
Era-me um gozo d'alma e dos sentidos.

Hoje, vejo meus sonhos convertidos
Num acervo de dor e de amargura
E percorro da vida a estrada escura
Recalcando no peito os meus gemidos...

E se tento cantar, como remédio
Minhas mágoas ao sombrio tédio
Que lentamente as forças me quebranta

Os sons que arranco à pobre lira agora
Mais parecem soluços de quem chora
Do que a doce toada de quem canta.

Padre Antônio Thomaz (1868-1941)

18 de março de 2018

O Jardim

Edouard Manet
Há um jardim sem cerca bem crescido
Com sementes e flores e toda sorte de folhas;
E uma vez, entre rosas e roldanas,
O jardineiro e eu estávamos sozinhos.
Ele me levou até o enredo onde eu tinha lançado
A erva-doce dos meus dias na terra estéril,
E na desordem das ervas daninhas tristes encontrei
O fruto de uma vida que era minha própria existência.

Minha vida! Ah, sim, havia minha vida, sem dúvida!
E aí estavam todas as vidas da humanidade;
E era como um livro que eu podia ler,
Com cada folha, milagrosamente assinalada,
Inscrita em si mesma a semente eterna do Pensamento,
Arraigada por amor no jardim da mente de Deus.

Edwin Arlington Robinson (1869-1935)
Tradução: Dalcin Lima

16 de março de 2018

A Liberdade é a Possibilidade do Isolamento

John Roddam Spencer Stanhope
A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre.
E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti, se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.
Fernando Pessoa (1888-1935)

14 de março de 2018

Com pesos e medidas

Ivan Aivazovsky
Com pesos e medidas
ou com axiomas,
filhos da lógica,
é impossível fixar
o princípio da rotação
desta cuia dourada
que nos cobre
– a máquina cósmica.

Ou prever a deterioração, a ruína
e o fim dos sólidos alicerces
sobre os quais
nos vemos assentados.

Como poderão interpretar –
pesos e medidas,
axiomas e raciocínios,
o tema imenso da criação.
este nosso Universo incomensurável?

Criando lendas?
Bosquejando fantasmas?

Omar Khayyám (1048-1131)
Tradução: Christovam de Camargo

12 de março de 2018

O Quarto Branco

Armando Barrios
O óbvio é difícil de
provar. Muitos preferem
o oculto. Eu também preferia.
Eu escutava as árvores.

Elas guardavam um segredo
que estavam prestes
a me revelar —
e não o fizeram.

Veio o verão. Cada árvore
de minha rua tinha sua própria
Xerazade. Minhas noites
faziam parte de suas histórias

selvagens. Entrávamos
em casas escuras,
casas sempre mais escuras,
silenciosas e abandonadas.

Havia alguém de olhos fechados
nos pisos superiores.
O medo e o fascínio me
mantinham bem desperto.

A verdade é nua e crua,
disse a mulher
que sempre se vestiu de branco.
Ela não saiu muito de seu quarto.

O sol apontava uma ou duas
coisas que tinham sobrevivido
intactas na longa noite.
As coisas mais simples,

difíceis em sua obviedade.
Essas não faziam barulho.
Era um dia do tipo
que as pessoas chamam “perfeito”.

Deuses disfarçados de
grampos de cabelo, espelho de mão,
um pente com um dente faltando?
Não! Não era isso.

Apenas as coisas como são
mudas, imóveis, sem piscar,
naquela luz brilhante —
e as árvores esperando a noite.

Charles Simic
Tradução: Carlos Machado

10 de março de 2018

Marieta

Ford Madox Brown
Como o gênio da noite, que desata
o véu de rendas sobre a espada nua,
ela solta os cabelos... Bate a lua
nas alvas dobras de um lençol de prata.

O seio virginal que a mão recata,
embalde o prende a mão... cresce, flutua...
Sonha a moça ao relento... Além na rua
preludia um violão na serenata.

Furtivos passos morrem no lajedo...
Resvala a escada do balcão discreta...
Matam lábios os beijos em segredo...

Afoga-me os suspiros, Marieta!
Ó surpresa! ó palor! ó pranto! ó medo!
Ai! noites de Romeu e Julieta!...

Castro Alves (1847-1871)

8 de março de 2018

Ginástica Aplicada

David Martiashvili
Meu verso cínico é minha terapêutica
e minha ginástica. Nele me penduro
e ergo, em sua precisão de barra fixa.
Nele me exercito em pino flexível,
sílaba a sílaba, movimento controlado
de pulso, e me volteio aparatoso
na pirueta lograda, no lance bem ritmado.

Há um sorriso discreto em minha segurança.

Porém, se às vezes me estatelo, folha seca
(o verso é difícil e escorregadio), meu verso,
como de vós, ri-se de mim em ar de troça.

Rui Knopfli (1932-1997)

6 de março de 2018

Conversa de café

Pierre Auguste Renoir
Claro, morremos para sempre.
A vida, então, é em grande parte uma coisa
De acontecer gostar-se, não de ter de.
E isso, também, claro, porque é que
Acontece eu gostar de arbustos vermelhos,
Relva cinzenta, e céu cinzento-esverdeado?
Que mais resta? Mas vermelho,
Cinzento, verde, porquê essas de entre todas?
Isso não é o que eu disse:
Não essas de entre todas. Mas essas.
Gosta-se do que acontece gostar-se
Gosta-se do modo como o vermelho cresce.
Não tem nenhuma importância.
Acontecer gostar-se é um
Dos modos como as coisas acontecem calhar.

Wallace Stevens (1879-1955)
Tradução: Luísa Maria Queiroz de Campos

4 de março de 2018

Março

Antonio DeVity
Às vezes, cruel amante,
Zangada encostar-te vais
À janela, não obstante
As chuvas torrenciais;

Varre de março os granizos
O sol, que irrompe depois...
Depois do arrufo, os sorrisos
Nos ligam, de novo, os dois.

Asilo as aves na telha
Acham, da chuva a fugir;
Tal, nessa boca vermelha,
Os risos que tens de rir.

Ao calor dos meus carinhos
Volves-me os olhos azuis,
E alegres os passarinhos
Batem as asas na luz.

François Coppée (1842-1908)
Tradução: Raimundo Correia e Valentim Magalhães.

2 de março de 2018

Soneto

Françoise Collandre
Fiz o que não devia,
o que devia, não;
compus uma canção
sem letra ou melodia.

À meia-noite ardia
meu sol que, sem razão,
legara de antemão
trevas ao meio-dia.

E enquanto lia tudo
que não dizia nada,
ouvindo na calada

da noite um eco mudo,
pensava, sobretudo,
que pouco sobrenada.

Nelson Ascher

1 de março de 2018

O Poeta

Madame Lebrun - Alegoria da Poesia
O poeta não tem nada com o homem: é semideus,
homem divino;
habita entre o céu e a terra,
vagueia entre as asas e as nuvens,
à procura do pensamento que, entre os relâmpagos,
tem a inspiração dos astros!

O seu peito é arca de sentimentos,
– e pelo sentimento se adivinha, como os vates! –
a sua cabeça, tesouro de pensamentos,
– e pelo pensamento se prediz, como os arúspices! – (1)

Suas palavras são imagens,
suas frases, sentenças;
por isto o que diz se escreve,
porque não fala por meros vocábulos,
pois só se exprime em termos.

Pelo sentimento tão bom, o poeta é belo;
pelo pensamento tão grande, o poeta é forte!

Nesse dia a poesia nasceu na terra,
quando o primeiro homem insultado perdoou.

Que o poeta tem muito de Deus
e quase nada do homem:
tem ambição de glória
e não tem sonhos de riqueza!

Incende-lhe o cérebro o clarão vivido dos raios,
abebera-se-lhe o coração no maná vital das lágrimas!

Não tem corpo senão para refém da alma:
é bom de corpo e alma!

O poeta é o espírito, o espírito que criou o pranto!

Ninguém encontrou a poesia adulando os imperadores
pelas ruas da Grécia:
deixava-se ficar camarariamente no tonel de Diógenes! (2)
ninguém a viu à mesa dos cresos: (3)
jejuava pacientemente à direita da pobreza de Jó!

Para ser poeta, um príncipe fugiu de seu palácio e foi
ser Buda!

O poeta! as suas mãos são a vista dos cegos,
os seus olhos o bordão das almas!

Nenhum moço foi mais belo do que o velho Anacreonte,
nenhuma mulher mais linda do que o jovem Virgílio,
– porque Anacreonte era poeta e o poeta sempre
rejuvenesce!
porque Virgílio era poeta e o poeta nunca envelhece! –

Ser poeta!

Ah! Eu só queria que o homem se aproximasse do poeta
como o poeta se aproxima de Deus!

Atílio Milano (1897-1955)

(1) Arúspices – nome dos antigos sacerdotes romanos que lançavam presságios, prognósticos ou adivinhações a partir de consultas a vísceras de animais;
(2) Camarariamente – de modo camarário, ou seja, relativo à câmara;
(3) Cresos – pessoas detentoras de grandes riquezas.