27 de fevereiro de 2018

Pomo

Crista Forest
Da vida só têm substância
a casca e o caroço.
No meio só tem amido,
embromações do carbono.
Porém todo o gosto reside
nessa carne intermediária,
sem valor alimentício,
sem realidade, sem nada.

É nela que os dentes encontram
o que os mantém afiados;
com ela é que a língua elabora
a doce palavra.

Paulo Henriques Britto

25 de fevereiro de 2018

Poesia

Albert Bierstadt
Homem,
Larga a ruina fumegante do teu mundo
E vem comigo para o meu País do Sul
Onde a terra é virgem e o céu é sempre azul.
Esquece tudo que foi um engano profundo,
Um errado caminho.
Traz contigo somente os sonhos de criança
E vamos todos, numa turba imensa,
Com os olhos no Céu,
E na alma a esperança,
Levando Deus em nós e na sua presença,
E só em seu louvor,
Edificar a Cidade do Amor,
No meu País do Sul,
Lá, onde a terra é virgem e o Céu é sempre azul!

Manuel Paço D’Arcos

23 de fevereiro de 2018

GOSTO DE SENTIR SAUDADE

Jennifer Yoswa
Gosto de sentir saudade
escalar o corrimão do som e da cor
captar com lábios abertos
cheiros congelados

gosto da minha solidão
suspensa mais alto
do que uma ponte
que abraça o céu com as mãos

e do meu amor
que pisa descalço
na neve.

Halina Poswiatowska (1935-1967)
Tradução: Magdalena Nowinska

20 de fevereiro de 2018

Jogos de sombras

Giorgio de Chirico
Sempre que me procuro e não me encontro em mim,
pois há pedaços do meu ser que andam dispersos
nas sombras do jardim,
nos silêncios da noite,
nas músicas do mar,
e sinto os olhos, sob as pálpebras, imersos
nesta serena unção crepuscular
que lhes prolonga o trágico tresnoite
da vigília sem fim,
abro meu coração, como um jardim,
e desfolho a corola dos meus versos,
faz-me lembrar a alma que esteve em mim,
e que, um dia, perdi e vivo a procurar
nos silêncios da noite,
nas sombras do jardim,
na música do mar…

Hermes Fontes (1888-1930)

19 de fevereiro de 2018

A mulher e a casa

Geza Voros
Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.
Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,
uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.
Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra:
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;
pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;
pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,
os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,
exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
e vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

17 de fevereiro de 2018

Nestes três dias esplêndidos

Sir Francis Dicksee
Nestes três dias esplêndidos
Em que o Prazer tudo arrasa
Desde o cristão ao ateu,
Quem se sente neurastênico
Faz como eu,
Fica em casa.

Euclides da Cunha (1866-1909)

16 de fevereiro de 2018

Infância

Henry Scott Tuke
Sobre o lado ímpar da memória
o anjo da guarda esqueceu
perguntas que não se respondem.

Seriam hélices
aviões locomotivas
timidamente precocidade
balões-cativos si-bemol?

Mas meus dez anos indiferentes
rodaram mais uma vez
nos mesmos intermináveis carrosséis.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

7 de fevereiro de 2018

Povoado

Albert Bierstadt
Sobre o monte pelado
um calvário.
Água clara
e oliveiras centenária.
Pelas ruelas
homens embuçados,
e nas torres
veletas girando.
Eternamente
girando.
Oh! povoado perdido,
na Andaluzia do pranto!

Federico Garcia Lorca (1898-1936)
Tradução: William Agel de Melo

4 de fevereiro de 2018

Fevereiro

Olga Vorobyova
Ai! dizes, cobrem os gelos
Árvores, águas, caminhos,
Se o bom Deus não protegê-los
Morrerão os passarinhos.

Tranquiliza-te; as queridas
Aves não correm perigo,
Nas raízes carcomidas
Têm seguro e quente abrigo.

E aconchegadas, medrosas,
No seu fundo asilo obscuro,
Como nós, esperançosas,
Aguardam o abril futuro.

E em vão os ventos praguejam
Frios, nos troncos sem flores,
Em voz baixa, murmurejam
Elas seus cantos de amores.

Assim, criança, meu seio
Antes de ver-te, tranquilo,
Era triste como um feio, é
Como um sepulcral asilo.

Mas se aquecem-no, raiando
Teus olhos, duas auroras,
Rompem do túmulo em bando
Canções límpidas, sonoras.

François Coppée (1842-1908)
Tradução: Raimundo Correia e Valentim Magalhães

2 de fevereiro de 2018

Vaidade, meu amor, tudo vaidade!

John William Waterhouse
Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguém,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe...

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguém me valeu na tempestade!
br> Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas eu, vê lá! eu volto-lhes o rosto...
E isto em mim não será uma vaidade?

António Nobre (1867-1900)