31 de janeiro de 2018

O Karma

Gisela Fabian
A Natureza não pode escravizar a Alma
que obtém o Poder por meio da Sabedoria,
e em ambos emprega a Lei do Karma, que
nos conduz à Verdade.

(Helena Blavatski)
O Deus da Teosofia
Não é esse das seitas religiosas,
Que dorme noite e dia
Nas áreas luminosas
Das antigas mesquitas maometanas,
Ou das modernas catedrais romanas.

Força motriz dos múltiplos sistemas
Que dirigem os vultos planetários,
É a vibração, que despedaça algemas
Na eterna irradiação dos Setenários.

Essência pura, primordial, divina,
Desce do Todo à simples unidade;
E, se a matéria anima,
Volta de novo à espiritualidade.

E tanto impele as simples criaturas
Como equilibra os astros no infinito,
Por leis evolutivas e seguras
Do seu poder universal prescrito.

Pois bem: nós somos parte desse Todo;
Não o verme do lodo,
Mas a faísca que partiu da chama
Que este Universo inflama,
Semeando na amplidão as nebulosas
Entre as constelações mais radiosas,
E os errantes cometas solitários
Que fogem sempre aos corpos planetários.

Mas no eterno vaivém das existências,
Restritas da matéria às contingências,
Desde que o livre arbítrio nos foi dado,
Temos em nossa mão o próprio fado.

A lei que determina a recompensa
Dos males e dos bens que praticamos,
A lei de causa e efeito, que aplicamos,
Por lógica permuta
De princípios inatos,
É também aplicada aos nossos atos,
Desde que o homem sente, e quer, e pensa,
E pode, e executa.

O homem é senhor do seu destino;
Mas já que tem tamanha liberdade,
Não deve se queixar do Ser Divino,
Nem recuar ante a Fatalidade.

Se o raciocínio é arma,
De que até nos servimos contra a crença,
Já foi lavrada Além nossa sentença,
Temos de obedecer à lei do Karma.

O que semeia o mal nesta existência,
Na seguinte existência há de expiá-lo;
Assim como o que nós hoje sofremos
É o castigo do mal que praticamos
Na vida já vivida
Neste mesmo planeta, onde ora estamos,
Ou em outra qualquer região perdida
Na multiplicidade das estrelas
Que povoam o azul do Firmamento,
Pois não foram criadas, todas elas,
Para estar em inútil movimento.

Os rápidos prazeres e alegrias
Que embalam nossos dias,
Já são as recompensas merecidas
Do bem que semeamos noutras vidas.

Quanto ao céu e o inferno, de que falam
As velhas escrituras,
São coisas que afinal já não abalam
As consciências seguras:
Por cinquenta ou noventa anos de vida
Na terra pervertida,
Lentas penas não há de
Penar a alma em toda a Eternidade.

A lei de causa e efeito
Sabiamente aplicada às nossas dores,
Como castigo ao mal que temos feito,
E às nossas alegrias
Premiando, com o bem, o bem perfeito,
É a corrente que enlaça os nossos dias
Desde a série das vidas anteriores
Até as mais remotas existências,
Nesses núcleos solares, onde as flores
Têm alma, e as almas – divinais essências.

Múcio Teixeira (1857-1926)

28 de janeiro de 2018

Sei, sei bem...

Franz Dvorak
Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos
Deixa-me crer
O que nunca poderei ser.

Ricardo Reis
Fernando Pessoa (1888-1935)

24 de janeiro de 2018

MERINA

Arthur Hughes
Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
Por vezes, a alemã que eu sigo e que me agrada,
Mais alva que o luar de inverno que me esfria,
Nas ruas a que o gás dá noites de balada;

Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,
Recorda-me a elegância, a graça, a galhardia
De uma ovelhinha branca, ingênua e delicada.

Cesário Verde (1855-1886)

20 de janeiro de 2018

Talvez não seja sempre assim

Cyril Rolando
Talvez não seja sempre assim; e assim te digo
Que se teus lábios, que eu amei, tocarem noutros,
E teus dedos, fortes e queridos, agarrarem
Um outro coração, como ao meu em tempo não remoto;
Se no rosto de outro tua doce cabeleira se esparzir
No silêncio que tão bem conheço, ou entre grandes
Palavras sofredoras, que exprimindo demais em seu murmúri
Impotentes se alinham ante o espírito acuado;

Se isto se der, se isto se der, repito
Tu que és tão minha, não o escondas de mim:
Para que eu possa ir a ele, e, tomando-lhe as mãos,
Dizer, Aceita de mim esta ventura toda.
Depois eu voltarei meu rosto, e ouvirei um pássaro
Cantar terrivelmente longe nas regiões perdidas.

E.E.Cummings(1894-1962)
Tradução: José Mindlin

18 de janeiro de 2018

Discurso na seção de achados e perdidos

Evelyn Pickering De Morgan – Aurora "Deusa do Amanhecer".
Perdi algumas deusas no caminho do sul ao norte,
e também muitos deuses no caminho do oriente ao ocidente.
Extinguiram-se para sempre umas estrelas, abra-se o céu.
Uma ilha, depois outra mergulhou no mar.
Nem sei direito onde deixei minhas garras,
quem veste meu traje de pelo, quem habita minha casca.
Morreram meus irmãos quando rastejei para a terra,
e somente certo ossinho celebra em mim este aniversário.
Eu saía da minha pele, desbaratava vértebras e pernas,
perdia a cabeça muitas e muitas vezes.
Faz muito que fechei meu terceiro olho para isso tudo.
Lavei as barbatanas, encolhi os galhos.

Dividiu-se, desapareceu, aos quatro ventos se espalhou.
Surpreende-me quão pouco de mim ficou:
uma pessoa singular, na espécie humana de passagem.
Wisława Szymborska (1923-2012)
Tradução: Regina Przybycien

16 de janeiro de 2018

Canção

Edvard Munch
Em minha sepultura,
Ó meu amor, não plantes
Nem cipreste nem rosas;
Nem tristemente cantes.
Sê como a erva dos túmulos
Que o orvalho umedece.
E se quiseres, lembra-te;
Se quiseres, esquece.

Eu não verei as sombras
Quando a tarde baixar;
Não ouvirei de noite
O rouxinol cantar.
Sonhando em meu crepúsculo,
Sem sentir, sem sofrer,
Talvez possa lembrar-me,
Talvez possa esquecer.

Christina Rossetti (1830-1894)
Tradução: Manuel Bandeira

13 de janeiro de 2018

Vademecum

Ferdinand Georg Waldmüller
Atraem-te o meu modo e a minha língua?
Segues-me? Vens atrás de mim?
Segue fiel atrás de ti mesmo: –
Assim me seguirás – devagar! devagar!

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)
Tradução: Paulo Quintela

10 de janeiro de 2018

Quando os dias se movem

John William Waterhouse
Usamos nalgumas coisas uma violência simples
isso é romper os símbolos que envidraçam o resto
mas parte quem amamos quando os dias se movem
se escolheu os limites para a pele aderir

No fundo de nós mesmos omitem-se tais coisas
e criam-se ficções, defesas, crueldades
dos jogos da aparência (à vista nos perdemos)
e movem-se nos dias seus múltiplos contrários

E contudo se movem se quem amamos fere
e o faz de razão fria ou esquecidamente
e a alegria se torna um torpe imaginários
quem muito amamos mata: vai-nos desinventando.

Vasco Graça Moura (1942-2014)

8 de janeiro de 2018

Janeiro

Gogi Chagelishvili
Acaso, pensas, amada,
– Unida ao claro fogão,
Por sob a porta fechada
Geme o hibernal furacão; –

Que após o outono piedoso,
Os pássaros, povo exul, (*)
Por um dia tormentoso
Voaram todos ao Sul?

Que suas asas nevadas
Fatigou tanto viajar,
E sobre as longas estradas
’Steve a nevar, a nevar?...

E, mudos, tristes, transidos,
Perderam-se nas solidões?
Que passeávamos unidos
À voz das suas canções?

Ei! Sob os gelos perecem!
Trêmulo bando infeliz!
Pensas neles? Emudecem
Seus cantos primaveris!

Falas-me em horas suaves,
Das aves de abril em flor.
Mas outras serão as aves,
E esperará teu amor?...

François Coppée (1842-1908)
Tradução: Raimundo Correia e Valentim Magalhães


(*) Exul – Exilado, desterrado.

6 de janeiro de 2018

A Adoração dos Magos

Pieter Bruegel - A Adoração dos Reis
Vendo surgir a súbitas, no oriente,
Luz de formosa estrela nunca vista,
Os três Magos convieram: “Para a frente!
A voz enfim cumpriu-se do Salmista!”

Partiram. Dá-lhes rumo o astro, e com a vista
Ao céu voltada, no deserto ardente
Caminham, sem saber onde imprevista
A casa surgirá, do Deus vivente.

Jerusalém! Aos místicos clarões.
Eis Belém de Judá, a humilde gruta,
A Mãe, que o Filho ao colo traz suspenso...

E ali onde o adoraram os pastores.
Agora os Reis: já derredor se escuta
O hino da oferta de ouro e mirra e incenso...

Aloísio de Castro (1881-1959)
Tradução: Jamil Almansur

3 de janeiro de 2018

Chove

Chove uma grossa chuva inesperada
que a tarde não pediu, mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
duma vida que é chuva e não parece.
Chove grossa e constante,
uma paz que há de ser.
Uma gota invisível e distante
na janela, a escorrer.

Miguel Torga (1907-1995)

1 de janeiro de 2018

Dia a dia mudamos

Pablo Picasso
Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.

É uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me,
Sem que eu perceba de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.

Fernando Pessoa (1888-1935)

2018

Centenário em 2018
✔ 06 de fevereiro - 100 anos da morte do pintor Gustav Klimt.
✔ 14 de julho -100 anos do nascimento do cineasta Ingmar Bergmann.
✔ 17 de julho - A família do último Czar da Rússia, Nicolau Romanov, é assassinada pelos sovietes.
✔ 18 de julho - 100 anos do nascimento de Nelson Mandela.
✔ 11 de novembro - 100 anos do fim da Primeira Guerra Mundial.
✔ 18 de dezembro - 100 anos da morte de Olavo Bilac.