24 de março de 2017

Da Terra ao Céu

Corrado Giaquinto
Ser raiz é ser bom. É viver sem vaidade,
É sofrer sem blasfêmia, é morrer sem terror.
É combater o mal, sabendo que há de
Sucumbir ao furor da tempestade,
Para ressuscitar, um dia, triunfador.

Todo aquele que luta, abraçando o partido
Da Virtude, e cultuando a Justiça e o Dever,
E, passada a peleja, combalido,
À terra volta, odiado e encarnecido –
É Raiz: algum tempo há de reverdecer.

Todo aquele que deixa os mundanos tumultos
Pela meditação – misterioso crisol –
E leis formula à ciência, e dos estultos
Tem, no transe final, mofas e insultos –
É Raiz: subirá para a glória do sol.

Todo aquele que, insone e em febre, as noites vela,
Na tortura inaudita e suprema do Ideal,
E, no verso, no mármore, na tela,
Na pauta vibra a perfeição revela –
É Raiz: há de ser, ao Sonho, pedestal.

Todo aquele que sente o indizível encanto
Dessa alucinação que é ser amado e amar,
E sofre, e quer o próprio mal, contanto
Que o olhar querido não se afogue em pranto –
É Raiz: errará, feito perfume, a ar.

Todo aquele que, em face à indigência, que implora,
Detém o passo, escuta o rogo, estende a mão,
E. consolando, comovido embora,
Num furtivo carinho se demora –
É Raiz: será sombra, almas o bendirão.

Todo aquele, afinal, que, injuriado, abençoa
A dor de cada insulto e de cada labéu,
E, a sofrer e a sangrar, cinge a coroa
De todos os martírios – mas perdoa –
É Raiz: será fronde, há de chegar ao céu.

Heitor Lima (1887-1945)

23 de março de 2017

Não acredites na guerra

Paul Cézanne
Não acredite na guerra, meu rapaz,
não acredites é muito triste,
é triste, meu rapaz,
como um par de botas que apertam.

O teu cavalo é rápido,
não serve para nada,
estás exposto como na palma da mão,
és o único alvo das balas.

Bulat Okudjava (1924-1997)
Tradução: Manuel de Seabra

22 de março de 2017

A viagem vermelha

Vincent van Gogh
Estende-te sobre o meu braço
oh meu ramo de lírios
só a mim, a mim só pertence
este mundo azul e liso
sobre o mar dos teus olhos
o amor é a barca de Ys

Guiam-me as estrelas
para a luz de ouro
de um esplêndido universo
engrandecido pela aurora
entre teus seios altas paragens
sigo a alegria do corpo

No rio das tempestades
estende-te, corre nelas
boca a boca
fogo sobre fogo
oh tu, meu vinho sem juízo
oh espírito amoroso

E depois, quando imersos
desta viagem embriagada,
Eis-nos imutáveis.
nossos fogos têm mais raiva
nosso espírito surpreso
de desejos e confidências.

Fawzi Kamal
Tradução: Adalberto Alves

21 de março de 2017

LXXIX

Eugen von Blaas
Se o fim é igual ao começo e no meio
deste décimo quarto ano inda suspiro,
daquela aura não fujo mais, receio,
pois só cresce o desejo em que me firo.

Em que pensares de Amor não mais me enleio,
sob o seu jogo já não mais respiro,
mas me governa e me parte ao meio:
culpa dos olhos que me põe em giro.

Um dia e outro assim eu vou seguindo
tão silencioso, que só eu percebo
e aquela que, olhando, me esboroa.

A custo até aqui a alma distingo,
e não sei do amanhã o que recebo
pois a morte se apressa e a vida voa.

Francesco Petrarca (1304-1374)
Tradução: José Clemente Pozenato

20 de março de 2017

O Tygre

Jean-Léon Gérôme
Tygre, Tygre, em fogo ardendo
Nas florestas, noite adentro;
Que olho ou mão imortal poderia
Forjar temível simetria?

Em que abismo ou céu distantes
Ardiam teus olhos flamantes?
Em que asas voar ele clama?
Que mão ousa tomar a chama?

E que ombro, que maestria
Teu coração amoldaria?
E ao pulsar teu coração,
Que horríveis pés? Que horrível mão?

Com que malho? Com que corrente?
Que fornalha fundiu tua mente?
Em que bigorna? Que mão mordaz
Agarra o terror com a tenaz?

Quando, no céu, estrelas baixaram
Suas lanças, e então choraram;
Ele sorriu ao que inventou?
Quem criou o Cordeiro te criou?

Tygre, Tygre, em fogo ardendo
Nas florestas, noite adentro;
Que olho ou mão imortal ousaria
Forjar temível simetria?

William Blake (1757-1827)
Tradução: Gilberto Sorbini e Weimar de Carvalho

19 de março de 2017

Pão Seco

Edgar Degas
Igual a viver numa terra de tragédia é
Viver num tempo de tragédia.
Olhai agora os rochedos montanhosos e inclinados
E o rio que força o seu caminho sobre pedras,
Olhai os casebres daqueles que vivem nesta terra.

Aquilo foi o que eu pintei por trás do pão seco,
Os rochedos nem sequer tocados de neve,
Os pinheiros ao longo do rio e homens tisnados pelo vento,
Escuros como o pão, pensando em pássaros
Vindos de países escaldantes e litorais de areia escura,

Pássaros que vieram como água suja em ondas,
Voando por cima dos rochedos, voando por cima do céu,
Como se o céu fosse uma corrente que os trouxesse,
Espalhando-os como se espalham as ondas pela praia,
Uma após outra, tornando nuas as montanhas.

Era um bater de tambores o que eu ouvi
Era a fome, eram os famintos que gritavam
E as ondas, as ondas eram soldados movendo-se,
Marchando, marchando num tempo de tragédia,
Abaixo de mim, no asfalto, sob as árvores.

Eram soldados que seguiam marchando nos rochedos
E os pássaros chegavam ainda, chegavam em bandos marítimos,
Porque era primavera e os pássaros tinham que chegar.
Sem dúvida que os soldados tinham que marchar
E que os tambores tinham que rufar, rufar, rufar.

Wallace Stevens (1879-1955)
Tradução: Maria Andersen de Sousa

18 de março de 2017

Panteísmo

Akseli Gallen-Kallela
Eu não o disse nem a vós, estrelas
Que velais, nem a vós, onividente
Sol! O seu nome, flor das coisas belas,
No meu tácito peito ecoou somente.

Mas uma das estrelas à outra conta
O meu segredo, ó noite, à sombra tua,
Ao que sorri o sol quando tramonta
Nos seus colóquios com a branca lua!

No outeiro umbroso, na planície quieta,
Sussurra-o cada arbusto a cada flor;
Cantam, no voo, as aves: “Triste poeta,
Os doces sonhos revelou-te Amor”.

Jamais o disse e, em alta consonância,
A terra, o céu, o amado nome chama;
E das acácias à sutil fragrância
Murmura-me o Grão Todo: “Ela, ela te ama!”
(Rimas Novas)

Giosuè Carducci (1835-1907)
Tradução: C. Tavares Bastos

17 de março de 2017

Antonieta

Francine Van Hove
Esta criança formosa
Tem um sorriso argentino,
Como o gorjeio divino
Que solta uma ave saudosa.

Muito inocente e mimosa,
Semelha um lírio franzino,
No rostinho pequenino
Guarda uma boca de rosa.

Se fala, a voz adorada
É como uma harpa encantada
Que os hinos de Além encerra,

Esta criança, Senhor!
É um mimo de teu amor,
Um anjo descido à terra.

Auta de Souza (1876-1901)

16 de março de 2017

Picture

Ferdinand Hodler
A vida desfeita
como a cama do hotel que abandonas de manhã
À espera de alguém que, distraído, mascando chiclete,
lhe ponha lençóis lavados,
esconda o pó debaixo do tapete
e procure roubar-te algo de valor.

Uma emoção infiltra-se nesta casa
como um ladrão que procura forçar todas as portas
e só encontrou por fechar,
mesmo completamente aberta,
a minha,
que não escondia nada de nada.

Jesús Llorente
Tradução: Joaquim Manuel Magalhães

15 de março de 2017

Câmara de ecos

Ferdinand Hodler
Cresci sob um teto sossegado,
meu sonho era um pequenino sonho meu.
Na ciência dos cuidados fui treinado.

Agora, entre meu ser e o ser alheio
a linha de fronteira se rompeu.

Waly Salomão (1943-2003)

Velhice

Pablo Picasso
«Quem é?» -
«A velhice. Vim ter contigo.»
«Volta mais tarde. Estou ocupado.
Tenho coisas que fazer!»
Escrevi.
Telefonei.
Estraguei uma omeleta.
Depois abri a porta,
mas não estava lá ninguém.
Talvez uma partida dos amigos.
Ou talvez não ouvisse bem o nome.
Não foi a velhice -
mas a maturidade que aqui esteve,
não pôde esperar,
suspirou
e partiu!

[Ievgueni Ievtuchenko]

14 de março de 2017

Aos nossos grandes poetas

William-Adolphe Bouguereau - Flora and Zephyr
As margens do Ganges ouviram do deus da alegria
O triunfo, quando do Indo conquistando tudo
Vinha o jovem Baco, com vinho
Sagrado acordando os povos do sono.

Oh acordai-os, Poetas! Acordai-os do sono também,
Os que inda dormem, dai-nos as leis, dai-nos
A vida, triunfai, Heróis! Só vós
Tendes direito de conquista, como Baco.

Friedrich Hölderlin (1770-1843)
Tradução: Paulo Quintela

Momentos puros

Wendy Ng
Momentos puros – quando vens sobre mim – ó estás aqui agora,
Dá-me agora prazeres libidinosos tão-somente,
Dá-me a poção de minhas paixões, dá-me a vida áspera e viçosa,
Hoje eu me consorcio aos amores da Natureza, esta noite também,
Estou com aqueles que acreditam em delícias licenciosas,
compartilho das orgias dos jovens à meia-noite,
Danço com os dançarinos e bebo com os beberrões,
Os ecos fazemos soar com nossos gritos indecentes, escolho uma
pessoa rasteira para ser o meu amigo mais querido,
Ele há de ser sem lei, rude, analfabeto, há de ser alguém condenado
pelos outros por seus feitos,
Não mais estarei apartado, por que deveria eu me exilar de meus
companheiros?
Ó tu, que evitas as pessoas, pelo menos eu não te evito,
Avanço para o centro de onde estás, serei teu poeta,
Serei mais para ti do que para qualquer outro.

Walt Whitman (1819-1892)
Tradução: Luciano Alves

13 de março de 2017

Fuga do mundo

Leonid Afremov
Vou-me embora pra lá de além,
De volta a mim,
Jacinto em flor terçã
No temporão de minha alma,
Quiçá já tarde — tarde demais!
Ah, vou morrendo entre vocês,
Que me sufocam com vocês!
Lios queria que me atassem —
Num vira e mexe que findasse!
Desconcertante,
Equívoco por um instante,
Para que enfim eu escapasse
No rumo de mim.

Else Lasker-Schüler (1869-1945)
Tradução: Mauricio Mendonça Cardozo

12 de março de 2017

Criação

Alexandre Reider
Escrevo em terramotos,
E se algumas palavras
Deslizam para longe
A culpa é só da crosta da terra
Pela sua falta de estabilidade.

Nem sabes
Quando se abre um vulcão sob a tua mesa,
E depois de um dia de trabalho
Podes assinar diretamente na cinza.

Todas as coisas mudam
De lugar,
A lâmpada do teto chega-me abaixo do queixo.
A montanha no horizonte entrou-me na boca,
Mordaça de que os restos
Vão ainda ser cuspidos
Pelos meus descendentes até à sétima geração.

A folhagem do cimo das árvores
Mudou-se para dentro do solo
Com medo dos terremotos,

Muitos dos meus antepassados
Mudaram-se para dentro do solo
Com medo dos terremotos.

Só eu continuo a tentar ligar,
Como carris após o descarrilamento
Estas duas palavras,

Que fogem, uma para um lado
Outra para o outro,
Enlouquecidas de terror.

Marin Sorescu (1936-1996)
Tradução: Egito Gonçalves

11 de março de 2017

Adeus!

Sir Edward Burne-Jones
“Espera, eu voltarei.” Ele dizia
(Quanto era triste o seu olhar tão doce!)
Chorosa e terna a fala lhe tremia
Como se a corda de alguma harpa fosse.

E ela, a pálida noiva estremecida,
Fitou no amado os grandes olhos seus,
E murmurou, baixinho e comovida,
Quase a chorar e muito a medo: Adeus!

Auta de Souza (1876-1901)

Três Cantos

Alberto da Veiga Guignard
Quando se brinca contente
Ao despontar da existência
Nos folguedos de inocência,
Nos delírios de criança;
A alma, que desabrocha
Alegre, cândida e pura -
Nessa contínua ventura
É toda um hino: - esperança!

Depois... na quadra ditosa,
Nos dias da juventude,
Quando o peito é um alaúde,
E que a fronte tem calor;
A alma que então se expande
Ardente, fogosa e bela -
Idolatrando a donzela
Soletra em trovas: - amor!

Mas quando a crença se esgota
Na taça dos desenganos,
E o lento correr dos anos
Envenena a mocidade;
Então a alma cansada
Dos belos sonhos despida,
Chorando a passada vida -
Só tem um canto: - saudade!


Casimiro de Abreu (1839-1860)

10 de março de 2017

Palavra

Paul Gauguin
Espada entre flores,
rochedo nas águas,
assim firmes, duras,
entre as coisas fluidas,
fiquem as palavras,
as vossas palavras.

Pois se por acaso
dentro dos sepulcros
acordassem as almas
e em sonhos confusos
suspirassem rumos
de histórias passadas
e houvesse um tumulto
de ânsias e de lágrimas,

– lembrassem as lágrimas
caídas no mundo
nas noites amargas
cercadas dos muros
das vossas palavras.
Todas as palavras.

Nos espelhos puros
que a memória guarda,
fique o rosto surdo,
a música brava
do humano discurso.
De qualquer discurso.

Só de morte exata
sonharão os justos,
saudosos de nada,
isentos de tudo,
pascendo auras claras,
livres e absolutos,
nos campos de prata
dos túmulos fundos.

No meio das águas,
das pedras, das nuvens,
verão as palavras:
estrelas de chumbo,
rochedos de chumbo.
A cegueira da alma.
O peso do mundo.

Adeus, velhas falas
e antigos assuntos.

Cecília Meireles (1901-1964)

9 de março de 2017

Três Rosas

Henri Fantin-Latour
Sempre, mas sobretudo nas brumosas
Horas da tarde, quando acaba o dia,
Quando se estrela o céu, tenho a mania
De descobrir, de ver almas nas coisas.

Pendem deste gomil
¹ três lindas rosas;
Uma é rosada, a outra branca e fria,
Rubra a terceira; e a minha fantasia
Torna-as humanas, vivas, amorosas.

Sei que são rosas, rosas só! mas nada
Impede, enquanto cai lá fora a chuva,
Que a minha mente a fantasiar se ponha:

Por ser noiva a primeira, é que é rosada;
Branca a segunda está, por ser viúva;
A vermelha pecou ... e tem vergonha!

Eugénio de Castro (1869-1944)
¹ uma jarra e bacia para higiene.

Afastamento

Wassily Kandinsky
O afastamento,
sempre o mesmo milagre, um movimento
de arranque para cima, e em seguida
enganosamente natural.
Foi esse milagre que nos enlouqueceu?
Primeiro uma ilusão,
e finalmente o real.

Pentti Saaritsa
Tradução: Egito Gonçalves

8 de março de 2017

Só tu conheces meu coração

Raffaello Sanzio
Só tu no mundo conheces o meu coração
o que sempre fui, antes de qualquer amor.

Cabe-me por isso dizer-te o que é horrível reconhecer:
no seio da tua graça germina a minha angústia.

És insubstituível. Está condenada
à solidão a vida que me deste.

E se não quero estar só! Tenho uma fome infinita
de amor, do amor dos corpos sem alma.
Porque a alma está em ti, és tu...

Pier Paolo Pasolini (1922-1975)

7 de março de 2017

Ninho

René Magritte
O que é que guardo nestes momentos de tristeza?
Ai!, quem tala meus bosques dourados e floridos!
Que leio no espelho de prata comovida
que a aurora me oferece sobre a água do rio?
Que grande olmo de ideia se cortou em meu bosque?
Que chuva de silêncio me deixa estremecido?
Se meu amor deixei morto numa ribeira triste,
que sarçais me ocultam algo recém-nascido?
Federico Garcia Lorca (1898-1936)
Tradução: William Agel de Mello

O impossível momento

Asta Nørregaard
Ah, ser contraditório,
dividido,
disperso.
Os pedaços de ti deixados, à distância,
se os buscamos no tempo, já são outros,
pois o que somos turvo se debruça
naquilo a que aspiramos,
e refaz o que fomos.
Como tê-los, intactos,
se, em nós, a todo instante,
se colorem de novo?

Que tecido se forma,
que alma vária,
desse amanhã, desse ontem, deste agora?
Libertarmo-nos, um dia, do que fomos e do que seremos!
Cada coisa em seu lugar;
no horizonte, o horizonte,
no passado, o passado,
nós, em nós.

Emílio Moura (1902-1971)

6 de março de 2017

Família

George Catlin - Dança da águia
Como se sabe na África negra e na América indígena, a sua família é a sua aldeia completa, com todos os seus vivos e os seus mortos.
E a sua parentela não termina nos humanos.
Sua família também fala com você na crepitação do fogo,
‣ nos rumos da água que corre,
‣ na respiração do bosque,
‣ nas vozes do vento,
‣ na fúria do trovão,
‣ na chuva que beija
‣ e na cantoria dos pássaros que saúdam os seus passos.

Eduardo Galeano (1940-20015)