28 de fevereiro de 2017

Rubaiyat

Fabrizio Cassetta
Neste vaso revive a minha juventude,
E agita-se o meu ser.
Eu sinto que esvoaça
Uma chama qualquer em torno à minha taça;
E o mais doce licor
Faz-me sentir da vida o insólito amargor...

- Omar Khayyám – (1048-1131)
Tradução: J.B.de Mello

O Escravo

Ludwig Deutsch
Libertaram o escravo quebrando-lhes as correntes
E ele ficou mais escravo do que nunca.

Trazia consigo os ferros do servilismo,
As algemas da indolência e da preguiça,
as cadeias do temor e da superstição,
da ignorância, da desconfiança, da barbárie...
Sua escravidão não estava nas correntes,
mas nele próprio.

Somente os homens livres se libertam...
E nem isso é necessário:
Os homens livres libertam-se sozinho

James Oppenheim (1882-1932)
Tradução: Sérgio Milliet

27 de fevereiro de 2017

É no meu corpo que morreste agora...

Andrey Shishkin
É no meu corpo que morreste agora
temos o tempo todo
ao nosso lado, como
um lodo onde dormitam as

conhecidas maneiras.
algumas nuvens se aproximam, e depois
se afastam, numa duvidosa
manifestação de imperícia;

os animais falantes
atravessam corredores iluminados,
embarcam na

sossegada lembrança dos sonetos,
o leve sono que pesou no dia
é no meu corpo que morreste, agora.

António Franco Alexandre

26 de fevereiro de 2017

Soneto

Koson Ohara
Todo animal da calma repousava,
Hilário o ardor dela não sentia,
que o repouso do fogo em que ele ardia
consistia na Ninfa que buscava.

Os montes parecia que abalava
o doce som das mágoas que dizia;
mas nada o duro peito comovia,
que na vontade de outrem posto estava.

Cansado já de andar pela espessura,
no tronco de uma faia, por lembrança,
escreve estas palavras de tristeza:

«Nunca ponha ninguém sua esperança
em peito feminil, que de Natura
somente em ser mudável tem firmeza».

Luís Vaz de Camões (1524-1589)

25 de fevereiro de 2017

Hoje é carnaval

Frederick Hendrik Kaemmerer
É
Dia
De samba,
De alegria.
Danço nos meus sonhos,
Visto a fantasia de arco-íris,
Deixo o tamborim me levar,
Do amor sigo o ritmo...
Colombina
Me chama
E eu
Vou.

Mardilê Friedrich Fabre

24 de fevereiro de 2017

Os homens são feitos de palavras

Marie Spartali Stillman
Que seríamos sem o mito sexual,
o devaneio humano ou poema de morte?

Eunucos de massa da lua... A vida consiste
em proposições sobre a vida. O devaneio

humano é solicitude em que
compomos tais proposições, rasgadas pelos sonhos,

pelas terríveis feitiçarias das derrotas
e pelo medo de que as derrotas e os sonhos sejam um.

A raça inteira é um poeta que escreve
as proposições excêntricas do seu destino.

Wallace Stevens (1879-1955)
Tradução: Abgar Renault

23 de fevereiro de 2017

Tarde na montanha

Gyokudo Kawai
Choveu há pouco
na montanha deserta.
De frescor a brisa da tarde
enche o outono...
Nos galhos dos pinheiros,
pinhas de raios de lua.
Uma fonte pura acaricia
os rochedos.
Quase a tocar nas flores de lótus,
as barcas dos pescadores.
Risos entre os bambus:
são as lavadeiras que voltam.
Por tudo quanto é lado,
ainda a beleza da primavera...
Por que também você
não fica mais um pouco?

Wang Wei (699–759)
Tradução: Sérgio Capparelli e Sun Yuqi
燕科燕科燕科燕科

Oração

Koson Ohara
Habita-me, penetra-me.
Seja teu sangue um só com meu sangue.
Tua boca entre em minha boca.
Teu coração aumente o meu até explodir.
Desgarra-me.
Caias inteira em minhas entranhas.
Andem tuas mãos em minhas mãos.
Teus pés caminhem em meus pés, teus pés.
Queima-me, arde-me.
Cubra-me com tua doçura.
Banha-me tua saliva o paladar.
Estejas em mim como está a madeira no palito.
Que já não posso mais assim, com esta sede
queimando-me.

Com esta sede queimando-me.

A solidão, seus corvos, seus cães, seus pedaços.

Juan Gelman (1930-2014)
Tradução: Eric Nepomuceno

22 de fevereiro de 2017

E se eu disser que não vou esperar

Martin Weblus
E se eu disser que não vou esperar!
Se eu rebentar Portões carnais —
E conseguir chegar — a ti!

Se eu me livrar de ser Mortal —
Onde doer — Dizer não mais —
E em Liberdade mergulhar!

Já não me podem mais — prender!
Masmorras — Armas implorar
Nada me dizem — já — a mim —

Tal como o riso — há — uma hora —
Os Laços — Festas — o que fora —
Ou mesmo quem ontem — morreu!

Emily Dickinson (1830-1886)
Tradução: Ana Luísa Amaral

Se entrando no retrato a sobrancelha...

Jean-Léon Gérôme
Se entrando no retrato a sobrancelha
destoa da harmonia de um passado
e o brinco pendente de uma orelha
dorme tranquilo em estojo acolchoado,

se a cadeira ali nova agora é velha
e a névoa do peitilho foi bordado
nesse tempo que em pouco se assemelha
ao tempo que hoje em dia nos é dado,

não quer dizer que a vida tenha sido
inútil e perversa ou desfocada
do retrato só visto e nunca lido

por quem da vida saiba a senha errada.
Terei apenas eu sobrevivido
para ler tal silêncio em voz calada.

Maria Alberta Menéres

21 de fevereiro de 2017

As Janelas

Charles Camoin
As janelas dão sempre para estarmos
a ver por elas o que não se vê
– o ponto onde o fenómeno é epifania de ato,
a palpitar por trás no tempo só de ser.

E deitam a crescer de forma tal que quando
veem melhor, crescer
é, sobretudo, emudecer seu quadro
no pulso imperceptível que toda a ausência tem.

Fernando Echevarría

20 de fevereiro de 2017

Contra ela mesma

Cesare Dandini
Pois assim Jaime ao céu tentaste dar, ó Besta
Que te escondes naqueles sete montes?
Se melhores dons não pode o nume* teu dar-nos,
Guarda, peço-te, teus presentes pérfidos.
Decerto ele foi, já velho, sem teu apoio,
Aos astros, e sem tua infernal pólvora.
E manda ao céu, pois é melhor, teus sujos monges
Mais de Roma profana os brutos deuses.
Se não os ajudares com esta arte ou com outra, é
Difícil, crê-me, ao céu terem boa viagem.

John Milton 1608-1674
Tradução: Erick Ramalho

Nume*: ser ou potência divina; divindade.

19 de fevereiro de 2017

Pretexto

Rob Gonsalves
Por que não cai a noite, de uma vez?
— Custa viver assim aos encontrões!
Já sei de cor os passos que me cercam,
o silêncio que pede pelas ruas,
e o desenho de todos os portões.

Por que não cai a noite, de uma vez?
— Irritam-me estas horas penduradas
como frutos maduros que não tombam.

(E dentro em mim, ninguém vem desfazer
o novelo das tardes enroladas.)

Maria Alberta Menéres

18 de fevereiro de 2017

Tristeza

Lord Frederick Leighton
O sol do outono, as folhas a cair,
A minha voz baixinho soluçando,
Os meus olhos, em lagrimas, beijando
A terra, e o meu espirito a sorrir...

Eis como a minha vida vai passando
Em frente ao seu Fantasma... E fico a ouvir
Silêncios da minha alma e o ressurgir
De mortos que me foram sepultando...

E fico mudo, extático, parado
E quase sem sentidos, mergulhando
Na minha viva e funda intimidade...

Só a longínqua estrela em mim atua...
Sou rocha harmoniosa á luz da lua,
Petrificada esfinge de saudade...

Teixeira de Pascoais (1877-1952)

O Melhor Verso

Vincent van Gogh
Sempre o verso melhor é o que não foi escrito...
Flor do sonho que envia à nossa alma os perfumes,
Sorriso de um fantasma e luar de um infinito,
Voz de planície ouvida em nebulosos cumes...

O intraduzível céu é todo astral poesia...
Exílio misterioso, Éden, jardim sagrado,
Onde o pecado da arte há jamais penetrado,
Mas que poderás ver, amando-me algum dia!

Quando o amor nos prender com seus grilhões benditos,
Numa noite, em silencio e abismadora calma,
Vem divina! inclinar tua alma sobre minha alma
Para leres aí meus versos não escritos.

Edmond Haraucourt (1856-1941)
Tradução: Álvaro Reis

17 de fevereiro de 2017

Músicas que são diamantes para os ouvidos

Lord Frederick Leighton - Music Lesson
O Mundo é um Moinho
Composição: Cartola

Brasil Pandeiro
Composição: Assis Valente

Luar do Sertão
Composição: Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco

Tristeza do Jeca
Composição: Angelino Oliveira

Clube da Esquina nº 2
Composição: Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges

Construção
Composição: Chico Buarque

Aquarela
Composição:Vinicius de Moraes, G. Morra e M. Fabrizio

Sangrando
Composição: Gonzaguinha

Roda viva
Composição: Chico Buarque

Asa Branca
Composição: Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga

Eu Sei Que Vou te Amar
Composição: Tom Jobim e Vinicius de Moraes

Águas de Março
Composição: Tom Jobim

Metamorfose Ambulante
Composição: Raul Seixas

Chega de Saudade
Composição: João Gilberto

Garota de Ipanema
Composição: Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes

Carinhoso
Composição: João de Barro e Pixinguinha

Ideologia
Composição: Cazuza e Roberto Frejat

Rosa de Hiroshima
Composição: Gerson Conrad e Vinicius de Moraes

16 de fevereiro de 2017

Poesia Japonesa

Katsushika Hokusa
Ávida a lua vendo
somos nós deus
mundo vida adeus

prima neve leve
uma palavra ela derrete
a mesma palavra se repete

sonhos-tempestade
crisântempo tatame
desabrochar que morde.

Chiyo-Ni (1703-1775)
Tradução: Walter Vetor

A si mesmo

Maximilian Liebenwein
Enfim repousas sempre
Meu lasso coração. Findo é o engano
Que perpétuo julguei. Findou. Bem sinto
Que em nós dos caros erros
Mais que a esperança, o próprio anelo é extinto.
Repousa sempre. Muito
Palpitaste. Nenhuma coisa vale
Teus impulsos, nem digna é de suspiros
A terra. Nojo e tédio
É a vida, nada mais, e lama é o mundo.
Repousa. E desespera
A última vez. À nossa espécie o fado
Não deu mais que o morrer. Enfim despreza
A natureza, o rudo
Poder que, oculto, o comum dano gera
E a vacuidade sem final de tudo.

Giacomo Leopardi (1798-1837)
Tradução: Alexei Bueno

15 de fevereiro de 2017

O Sol Acabava de Descer

Frederic Edwin Church
O sol acabava de descer para a noite,
Sobre as mansas colinas
Onde a erva se mistura ao pesado maciço das árvores.
E a terra era bela,
Mais bela e solitária
Como jamais a brisa a tinha visto,
A brisa terna,
Que torna a erva mais fresca ao cair do dia,
Que dá às vagas azuis mais vida e brilho,
E entreabre de repente as frágeis nuvens brancas,
Que parecem ser ao longe
Os fantasmas dos orvalhos celestes
Fugindo.
E tinham volteando durante a manhã inteira
Sobre as flores do azul, celeste alimento.
Agora se vão para os céus dos regressos,
Que primeiro conheceram seu glorioso esplendor.

Emily Brontë (1818-1848)
Tradução: Lúcio Cardoso

Ó mar, ó mar

Anton Melbye
O mar dissolve tanta coisa
e a lua leva embora tão mais
do que sabemos -
Assim que a lua baixa
e o mar se apossa de nós
as cidades se dissolvem como sal-gema
o açúcar funde fora da vida
o ferro some como velha mancha de sangue
o ouro se transmuda em sombra verde
o dinheiro sequer deixa um sedimento:
só o coração
cintila em seu triunfo salino
sobre tudo o que soube e agora foi-se
na salinidade do nada.

D. H. Lawrence (1885-1930)
Tradução: Leonardo Fróes

14 de fevereiro de 2017

Descobrimento da poesia

George Dunlop Leslie - Roses
Quero escrever sem pensar.
Que um verso consolador
Venha vindo impressentido
Como o princípio do amor.

Quero escrever sem saber,
sem saber o que dizer,
Quero escrever uma coisa
Que não se possa entender,

Mas que tenha um ar de graça,
De pureza, de inocência,
De doçura na desgraça,
De descanso na inconsciência.

Sinto que a arte já me cansa
E só me resta a esperança
De me esquecer do que sou
E tornar a ser criança.

Dante Milano (1899-1991)

As Ruas

Jean Béraud
No tempo ...
em que havia ruas,
ao fim da tarde
minha mãe nos convocava:
era a hora do regresso.
E a rua entrava
conosco em casa.
Tanto o Tempo
morava em nós
que dispensávamos futuro.
Recolhida em meu quarto,
a cidade adormecia
no mesmo embalo da nossa mãe.
À entrada da cama,
eu sacudia a areia dos sonhos
e despertava vidas além.
Entre casa e mundo
nenhuma porta cabia:
que fechadura encerra
os dois lados do infinito?

Mia Couto

13 de fevereiro de 2017

As três palavras mais estranhas

Sir Francis Dicksee
Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra
Silêncio, suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra
Nada,
Crio algo que não cabe em nenhum não ser.
Wislawa Szymborska (1923-2012)
Tradução: Regina Przybycien

Ao princípe

Bartolomeo Cavarozzi
Se torna o sol, se o crepúsculo baixa,
se a noite tem gosto de noites futuras,
se uma tarde de chuva parece voltar
de tempos muito amados e jamais possuídos de todo,
eu não sou mais feliz, nem disso extraio prazer ou pena:
não sinto mais, diante de mim, toda a vida...
Para ser poeta é preciso ter tempo de sobra:
horas e horas de solidão são o único meio
de se formar algo, que é força, abandono,
vício, liberdade, de dar estilo ao caos.
Tempo hoje tenho pouco: por culpa da morte
que vem e avança, no ocaso da juventude.
Mas também por culpa de nosso mundo humano
que aos pobre tira o pão, aos poetas, a paz.

Pier Paolo Pasolini (1922-1975)
Tradução: Maurício Santana Dias

12 de fevereiro de 2017

A esfera do amor

Jean-Auguste Dominique Ingres
De novo com a sua esfera purpúrea
o Amor de dourados cabelos me atinge,
e com a rapariga de coloridas sandálias
me convida a brincar.
Mas ela (pois vem lá da bem fundada
Lesbos) os meus cabelos
já brancos censura com desdém,
e olha embasbacada para -- outra rapariga.

Anacreonte (563-478 a.C.)
Tradução: Frederico Lourenço

Traçado Urbanístico

William Turner
Tal como qualquer cidade
também nós escondemos
turvos itinerários, edifícios arruinados,
escuras vielas de rancor ou desejo,
arrabaldes de medo ou parques para o amor,
cantos em penumbra onde ocultar segredos,
praças que nunca visitamos
e aborrecidos museus onde expor lembranças
que não interessam a ninguém.
A nós
também nos habitam cidadãos terríveis:
funcionários do tédio,
mensageiros de moto levando para muito longe
o pequeno embrulho – primoroso e com laço –
dos remorsos.
Viajantes que passam por nós
com as suas malas a caminho de outros corpos
e sobretudo
transeuntes alheios a nossa própria vontade,
incivis e teimosos;
têm nomes ridículos
tal como os sentimentos amor, rancor ou medo
e especulam – como vulgares comerciantes –
com o preço
por metro quadrado do nosso coração.

Silvia Ugidos
Tradução: Joaquim Manuel Magalhães