31 de janeiro de 2017

Musas e Ser

Stephan Sedlacek
"Que significa gloriar o futuro e o passado?
Gloriar é expor um ser ou um fato à luz da manifestação, tal como a essência mesma deste ser ou fato o exige e impõe. Glória (kléos)
¹ é esta força de desvelação² própria do que é glorioso, isto é, do que por sua essência mesma reclama a desvelação; — e esta força é Kleió, Glória, uma das Musas. Por isso, o poeta, consagrado pelo poder das Musas ao exercício deste mesmo poder, tem por função gloriar, isto é, desvelar o que por essência reclama a desvelação. — Mas por que o futuro e o passado? — Porque esta proclamação desveladora que o poeta exerce como o seu poder próprio é por excelência a profecia."
Jaa Torrano
José Antonio Alves Torrano
¹Kléos = notoriedade.

² desvelar = Tornar visível o que tornou-se escondido. Tirar o véu. Tornar visível. Reconhecer. Tornar claro. Fazer-se conhecer.

Contrição

Vincent van Gogh
“Se as sementes
Incredulamente encovadas ao solo
Abstraem-se do germinar,
Perdoai-as, pois que em ares inférteis,
Já não sabem a que frutificar...
[a que orvalho chorar]

Se os ventos
Já não fazem mais brisas
Em sons de violinos a soprar,
Perdoai-os, pois que já não sabem,
Em tanto DÓ afinar...
[a que lábios habitarem]

Se os pássaros
Ao desalento de Sua palavra
Insustentáveis, pois, do ar caem.
Perdoai-os, pois que sem o ramo das árvores,
Já não têm onde pousar...
[já não sabem a que cantar]”

Paulo de Carvalho

30 de janeiro de 2017

Campinas

Como nasceram os Bancos

Na Fleet Street, uma das mais movimentadas do centro de Londres, a dez minutos à pé da Trafalgar Square, existe um arco de pedra pelo qual muita gente pode passar e viajar no tempo.
Temple Church, em um pátio meio escondido no coração de Londres,
foi o primeiro banco da cidade.
Um pátio tranquilo leva a uma capela estranha, circular, e a uma estátua de dois cavaleiros em cima de um único cavalo. A capela é a Temple Church, construída pela Ordem Dos Templários em 1185, quando ficou conhecida como a "casa londrina dos cavaleiros do Templário".
Mas a Temple Church não tem apenas uma importância arquitetônica, histórica e religiosa. Ela também foi o primeiro banco de Londres.
Os cavaleiros templários eram monges guerreiros. Era uma ordem religiosa, com uma hierarquia inspirada na teologia e uma missão declarada - além de um código de ética -, mas também um exército armado e dedicado à "guerra santa".
Mas então como eles chegaram ao negócio dos bancos?
Os templários dedicaram-se inteiramente à defesa de peregrinos cristãos a caminho de Jerusalém. A cidade havia sido capturada na primeira Cruzada em 1099, e ondas de peregrinos começaram a chegar, viajando milhares de quilômetros pela Europa.
Esses peregrinos precisavam, de alguma forma, bancar meses de comida, transporte e acomodação para todos eles, sem precisarem carregar grandes somas de dinheiro consigo - já que isso os tornaria alvo fácil para ladrões.
Afortunadamente, os Templários tinham uma solução. Um peregrino poderia deixar seu dinheiro na Temple Church em Londres, depois pegá-lo de volta em Jerusalém. Em vez de carregar o dinheiro até lá, ele só precisaria levar uma carta com o crédito. Os Cavaleiros do Templário eram a Western Union (conhecida empresa que faz transferência de dinheiro entre países) das Cruzadas.
Nós não sabemos direito como os Templários faziam esse sistema funcionar, nem como se protegiam contra fraudes. Havia um código secreto para verificar o documento e a identidade do viajante?
Banco Privado
Os Templários não foram a primeira organização no mundo a oferecer esse tipo de serviço. Diversos outros países haviam feito isso antes, como a dinastia Tang na China, que usava o "feiquan" - "dinheiro voador", um documento de duas vias que permitia a comerciantes depositarem seus lucros em um escritório regional e depois pegarem o dinheiro de novo na capital.
Mas esse sistema era operado pelo governo. O sistema bancário oferecido pelos Templários funcionava muito mais como um banco privado - embora pertencesse ao papa - aliado a reis e príncipes ao redor da Europa e gerenciado por uma parceria de monges que tinham feito voto de pobreza. E os Cavaleiros do Templário fizeram muito mais do que apenas transferir dinheiro por longas distâncias, conforme Em seu livro Money Changes Everything ("Dinheiro muda tudo", em tradução livre), William Goetzmann diz que eles ofereciam uma série de serviços financeiros reconhecidamente avançados para a época.
Se você quisesse comprar uma ilha na costa oeste da França - como o rei Henrique 3º da Inglaterra fez nos anos 1200 com a ilha de Oleron, a noroeste de Bordeaux -, os Templários poderiam ajudar a fechar o negócio. Henrique 3º pagou 200 libras por ano por cinco anos para os Templários em Londres, e quando seus homens tomaram posse da ilha, os Templários zelaram para que o vendedor tivesse recebido todo o dinheiro.
Ainda nos anos 1200, as Joias da Coroa foram mantidas no Templo como uma forma de segurança para um empréstimo - com os Templários atuando como uma espécie de casa de penhor.
Os Cavaleiros do Templário não foram o banco da Europa para sempre, claro. A Ordem perdeu sua razão de existir depois que os cristãos europeus perderam completamente o controle de Jerusalém em 1244, e os Templários foram dissolvidos por completo em 1312.
Então quem assumiu essa função bancária que eles deixaram?
Se você tivesse presenciado a grande feira de Lyon em 1555, poderia conhecer a resposta. Ela foi o maior mercado para comércio internacional de toda a Europa.
Troca sofisticada
Mas nessa edição da feira, começaram a circular rumores sobre a presença de um comerciante italiano que estava fazendo fortuna no local.
Ele não estava comprando, nem vendendo nada. Tudo o que ele tinha à frente era uma mesa e um tinteiro.
Dia após dia, ele recebia comerciantes e assinava pedaços de papel - e, de certa forma, ficava rico.
Os moradores locais olhavam para ele com suspeita.
Mas para uma nova elite internacional das grandes casas de mercadoria da Europa, suas atividades eram perfeitamente legítimas.
Ele estava comprando e vendendo dívidas - e, ao fazer isso, estava gerando um considerável valor econômico.
Um comerciante de Lyon que quisesse comprar, digamos, lã de Florença, poderia ir a esse banqueiro e pedir um tipo de empréstimo chamado de "conta de troca". Era um documento de crédito, que não especificava a moeda de transação.
Seu valor era expressado em "ecu de marc", uma moeda privada usada para essa rede internacional de banqueiros.
E se os comerciantes de Lyon ou seus agentes viajassem a Florença, a "conta de troca" do banqueiro de Lyon seria aceita pelos banqueiros de Florença, que trocariam sem problemas o documento pela moeda local. Por essa rede de banqueiros, um comerciante local podia não só trocar moedas, mas também "traduzir" seu valor de compra em Lyon para valor de compra em Florença, uma cidade onde ninguém havia ouvido falar sobre ele. Era um serviço valioso, que valia a pena.
De meses em meses, agentes dessa rede de banqueiros se encontravam em grandes feiras como a de Lyon, conferiam suas anotações e acertavam as contas entre si.
Nosso sistema financeiro de hoje tem muito a ver com esse modelo.
Um australiano com um cartão de crédito pode fazer compras em um supermercado de Lyon. O supermercado checa com um banco francês, que fala com um banco australiano, que aprova o pagamento ao comprovar que ele tem o dinheiro em conta.
Contrapontos
Mas essa rede de serviços bancários sempre teve também seu lado obscuro. Transformando obrigações pessoais em dívidas negociáveis internacionalmente, esses banqueiros medievais passaram a criar seu próprio dinheiro privado, fora do controle dos reis da Europa.
Ricos e poderosos, eles não precisavam mais se submeter às moedas soberanas de seus países.
O que de certa forma ainda é feito hoje em dia. Os bancos internacionais estão fechados em uma rede de obrigações mútuas difícil de entender ou controlar.
Eles podem usar seu alcance internacional para tentar contornar impostos e regulamentações.
E considerando que as dívidas entre eles são um tipo claro de dinheiro privado, quando bancos estão fragilizados ou com problemas, o sistema monetário do mundo todo também fica vulnerável.
Nós ainda estamos tentando entender o que fazer com esses bancos. Nós não podemos viver sem eles, ao que parece, mas também não temos certeza de que queremos viver com eles. Governantes há muito tempo procuram formas de controlá-los.
Às vezes, essa abordagem tem sido no esquema "laissez-faire" ("deixai fazer"), outras vezes não.
Poucos governantes tem sido mais duros com os bancos do que o rei Felipe 4º, da França. Ele devia dinheiro para os Templários, e eles se recusaram a perdoar seu débito.
Então, em 1307, no local onde hoje fica a estação Temple do metrô de Paris, Felipe lançou um ataque ao Templo de Paris - o primeiro de uma série de ataques ao redor da Europa.
Os templários foram torturados e forçados a confessar todos os pecados que a Inquisição pudesse imaginar. A ordem acabou sendo dissolvida pelo papa.
O Templo de Londres foi alugado para advogados.
E o último grande mestre dos Templários, Jacques de Molay, foi trazido ao centro de Paris e queimado publicamente até a morte.

Fonte:
BBC.: ( A incrível história de como os cavaleiros templários 'inventaram' os bancos )

As melhores Utopias da Literatura

Abraham Ortelius
A utopia no século XXI está, infelizmente, muito próxima do significado dos radicais gregos "não" e "lugar" que originaram a expressão "não-lugar" ou, mais precisamente, "lugar que não existe". A utopia representa portanto uma civilização ideal que possa realizar o sonho de uma sociedade sem diferenças, uma meta difícil de ser atingida em um mundo cada vez mais dividido pelos conflitos religiosos, econômicos e políticos.
Autor:
Trecho
Platão - A República (380 a.c.)
A obra pode ser incluída como utopia por registrar os diálogos de Sócrates relativos à diversos temas filosóficos e sociais, assim como condutas políticas para administração de uma cidade, independente dos interesses particulares e visando o bem estar coletivo da sociedade (um tema ainda bem atual e que explica porque Sócrates acabou condenado à morte ao contrariar os governantes da época).
Thomas More - Utopia (1516)
Thomas More (1478-1535) imaginou uma ilha chamada Utopia, certamente influenciado por relatos sobre as descobertas da época no continente americano. Nesta ilha-reino habitaria uma sociedade sem propriedade privada, livre de imposições religiosas ou do Rei. Devido à sua defesa pelos ideais de liberdade, More foi condenado por traição e, mais tarde, à morte por se recusar a aceitar o novo matrimônio de Henrique VIII.
Tommaso Campanell
A Cidade do Sol (1602
Esta obra foi escrita durante o período de 27 anos em que o frei dominiciano Tommaso Campanella (1568-1639) esteve preso em Nápoles, sob a acusação de heresia. O autor foi certamente influenciado por obras como Utopia e A República ao descrever o que seria uma cidade ideal e o sonho utópico de uma sociedade justa.
Francis Bacon - Nova Atlântida (1624)
Francis Bacon (1561-1626) atuou como político e filósofo, sendo considerado como o fundador da ciência moderna ao se dedicar à metodologia científica, norteada pelo raciocínio indutivo e o empirismo. Em Nova Atlântida, uma obra que ficou incompleta, é apresentada uma sociedade com direitos e deveres iguais e discutida a importância da natureza, um tema também muito atual.
Voltaire - Cândido (1758)
Um dos trabalhos satíricos mais marcantes de todos os tempos onde Voltaire (1694-1778), um mestre do sarcasmo, critica com muito bom humor as regalias da nobreza francesa da época e a perseguição religiosa através da Santa Inquisição. Em Cândido, o pobre protagonista segue a filosofia do fictício filósofo Pangloss que afirma que "todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis" em uma utopia cega às avessas e um otimismo absurdo que logo pagaria o seu preço na iminente Revolução.
Jean Jacques Rousseau
- Do Contrato Social (1762)
Segundo a filosofia de Rousseau (1712-1778), o homem seria naturalmente bom, sendo a sociedade, comandada pela política (normalmente corrupta), a culpada pela "degeneração" dele. O contrato social deveria portanto nortear o acordo entre os indivíduos para se criar uma sociedade justa e equilibrada, e só então um Estado. O contrato deveria garantir um pacto e não um status de submissão do povo ao Governo.
Karl Marx - O Capital (1848)
Uma obra importante de Karl Marx (1818 - 1883) e também incompreendida que originalmente pretendia denunciar a desigualdade social entre a burguesia e o proletariado devido à injusta política de produção capitalista, mas que, até hoje, não conseguiu realizar o sonho do socialismo utópico e o equilíbrio entre capital e trabalho assalariado.
Samuel Buttler - Erewhon (1872)
O inglês Samuel Buttler (1835-1902) publicou de forma anônima este romance que tem o nome de um país fictício descoberto pelo protagonista e é uma sátira à sociedade vitoriana da época. O autor trabalhou na Nova Zelândia como um criador de ovelhas e utilizou suas memórias para criar Erewhon, assim como também foi influenciado pelo trabalho de Jonathan Swift em As Viagens de Gulliver de 1726 (outra importante sátira utópica).
William Morris
- Notícias de Lugar Nenhum (1890)
William Morris (1834-1896) era pintor e escritor e foi um dos fundadores do movimento socialista na Inglaterra. Ele planejava desenvolver belos objetos a preços acessíveis, ou mesmo gratuitamente. Em Notícias de Lugar Nenhum ele descreve uma sociedade utópica em 2012 onde a natureza é preservada e todos trabalham para o bem comum.
H. G. Wells
- A Utopia Moderna (1905)
H. G. Wells (1866-1946) é conhecido como o pai da ficção científica e escreveu livros que foram exaustivamente adaptados para o cinema devido à sua originalidade, A Máquina do Tempo, O Homem Invisível e A Guerra dos Mundos são exemplos de romances que já fazem parte da nossa herança cultural popular. Neste livro, um distante planeta serve como propósito para uma utopia pós-moderna.
James Matthew Barrie
- Peter e Wendy (1911)
Não consigo imaginar utopia melhor do que a Terra do Nunca imaginada neste clássico da literatura infantil por James Matthew Barrie (1860-1937), um lugar onde Peter Pan e seus amigos podiam viver para sempre como crianças sem envelhecer jamais.
Charlotte Perkins Gilman
- Herland (1915)
Uma utopia essencialmente feminina onde a autora, Charlotte Perkins Gilman (1860-1935) imaginou uma sociedade isolada, composta somente por mulheres que se reproduziam através de um processo de partenogênese (reprodução assexuada). Como resultado uma sociedade ideal, livre de guerras, conflitos e dominação (difícil de acreditar, não é mesmo?). O livro só foi publicado em 1979.
James Hilton
- Horizonte Perdido (1933)
Uma das melhores representações de paraíso na terra criadas pela literatura por James Hilton (1900-1954). Um grupo de pessoas, fugindo da guerra, é sequestrado e mantido em uma distante montanha do Tibete, chamada de Shangri-lá. Mais um grande sucesso de adaptação, por duas vezes (1937 e 1973), para o cinema.
Austin Tappan Wright
- Islandia (1946)
Um país imaginário no qual Austin Tappan Wright (1883-1931) trabalhou durante toda a vida como passatempo. Após sua morte foi descoberta a detalhada história de Islandia com geografia, genealogia, língua e cultura próprias. O livro foi publicado por sua esposa e filha postumamente em 1946.
Arthur C. Clark
- O Fim da Infância (1953)
Um clássico da ficção científica escrito por Arthur C. Clark (1917-2008), autor também de 2001: uma Odisseia no Espaço. Em O Fim da Infância, ocorre uma invasão alienígena pacífica da Terra que passa a ser governada pelos misteriosos invasores. O planeta passa por um período de paz e prosperidade, será que a utopia vem do espaço?
Aldous Huxley - A Ilha (1962)
Último livro de Aldous Huxley (1894-1963) tem como enredo a ilha fictícia de Pala onde vive uma sociedade isolada do mundo e controlada por uma seita formada por religiões orientais e ciência. Os habitantes desta sociedade tem uma existência feliz e integrada com a natureza, uma verdadeira utopia.
Ernest Callenbach - Ecotopia (1975)
Ernest Callenbach (1929-2012) imaginou um romance descrito como uma das primeiras utopias ecológicas que influenciou os movimentos de contracultura e movimentos verdes em todo o mundo. O enredo é ambientado em 1999 (25 anos no futuro de 1974). O novo país Ecotopia é formado pela Carolina do Norte, Oregon e Washington.

Fonte:
Mundo de K: ( As melhores Utopias da Literatura )

29 de janeiro de 2017

O sol entrou feliz

Raoul Dufy
O sol entrou feliz pela janela
e tudo iluminou alegremente.
Há um cão que ladra, e um pássaro desgrana
ligeiras harmonias em torrentes.

De costas em meu leito, sinto um vago
desejo de adorar essa distâncias,
de me perder na cerração dos lagos,
de me cegar na luz dessa alegria;

de ir cantando por um caminho agreste
e de sentir todo o dulçor das tardes,
o coração repleto da celeste
chama de amor que nos caminhos arde.

Pablo Neruda (1904-1973)

A história da História Antiga:

Robert S. Duncasnon - Pompeia
O que hoje denominamos de História Antiga foi, no princípio, um movimento cultural e literário de produção de memória a partir de textos e objetos. Após a dissolução do Império Romano ocidental, a lembrança de um passado pré-cristão foi aos poucos se dissolvendo. Os vestígios materiais do Império eram como ruínas nas paisagens, espaços da vida cotidiana, mas não lugares da memória. Na própria Roma, que fora capital do Império, o fórum era um lugar para o pastoreio de animais e as antigas construções e estátuas eram dissolvidas em grandes fornos para produzir cal. O passado, mesmo o bíblico, parecia comprimido num eterno presente, sem profundidade ou mudança.
Testemunhos dessa visão do passado como imutável são as ilustrações de manuscritos medievais que mostram antigos personagens e feitos com a roupagem e os costumes de sua própria época. Mas o passado não fora simplesmente anulado. Por um lado, ele sobrevivia como trabalho morto, ou seja, como uma série de conhecimentos acumulados que nunca se dissolveram: na arte de forjar o ferro, na agricultura, na arquitetura, nos objetos artesanais da vida cotidiana, nos costumes. E isso, não apenas no que viria a ser a Europa Ocidental, mas por todo o espaço que fora ocupado pelo antigo Império Romano: tanto nas terras do Islã, quanto naquelas do Império de Bizâncio. Por outro lado, esse trabalho morto sobrevivia também como textos escritos, reproduzidos nos códices medievais e mantidos em diversas bibliotecas de particulares, de monastérios, ou mantidos na corte de Constantinopla, em grego, ou ainda preservados em árabe, circulando, sobretudo, no Mediterrâneo.
GUARINELLO, Norberto Luiz. História Antiga. São Paulo: Contexto, 2013. p. 7-8.

28 de janeiro de 2017

Voz Lunar

William Ireland
Que voz lunar insinua
o que não pode ter voz?

Que rosto entorna na noite
todo o azul da manhã?

Que beijo de oiro procura
uns lábios de brisa e água?

Que branca mão devagar
quebra os ramos do silêncio?

Eugénio de Andrade (1923-2005)

Epílogo

William Blake
Arrependo-me de tanta queixa inútil,
de tanta
lamentação impertinente.
São as regras do jogo inapeláveis
e justificam toda, qualquer perda.
Agora
só o inesperado ou o impossível
poderia fazer com que eu chorasse

uma ressurreição, nenhuma morte.

Ángel González (1925-2008)
Tradução: José Bento

27 de janeiro de 2017

O poeta e o poema

Julia Swartz
Dói meu poema em mim nos seus dois nascimentos:
sobre o papel, dentre em meu peito.
Ele me investe, a enfrentamento,
demônio feito.

essa criança a quem se atira fora, ao lixo,
com tanta raiva e rejeição!
Rapta meus versos, só capricho:
São meus ou não?

Dói meu poema em mim no curso da escritura
pois que não quer minha lição.
Para ele eu sou escória pura:
lesma do chão.

Eu me pergunto quando irei compreendê-lo,
trazendo o ritmo seu comigo.
Tenho rigores ou desvelo
de um cão amigo.

Trata-me qual vilão: para que serve o poeta
se é bom sem ele o verso e a rima?
Eu sou a presença indiscreta:
Risque-se em cima!

Dói-me menos o poema uma vez instalado,
definitivo, bem nutrido,
e o meu humor fica acalmado
ao tê-lo lido.

Aceito-o, ele me aceita: uma doce harmonia
deverá, creio, vir à cena.
Tudo de ambíguo se esvazia:
Que paz serena!

Temos de juntos ir à conquista da meta,
deste vasto universo, ousados
pois o poema e o poeta
estão vedados.

Alain Bosquet (1919-1998)
Tradução: Mário Laranjeira

Poeta

Duy Huynh
Quando a primeira lágrima aflorou
Nos meus olhos, divina claridade
A minha pátria aldeia alumiou
Duma luz triste, que era já saudade.

Humildes, pobres cousas, como eu sou
Dor acesa na vossa escuridade...
Sou, em futuro, o tempo que passou;
Em num, o antigo tempo é nova idade.

Sou fraga da montanha, névoa astral,
Quimérica figura matinal,
Imagem de alma em terra modelada.

Sou o homem de si mesmo fugitivo;
Fantasma a delirar, mistério vivo,
A loucura de Deus, o sonho e o nada.

Teixeira de Pascoais (1877-1952)

26 de janeiro de 2017

Digam-me como é uma árvore

Catrin Welz-Stein

Digam-me como é uma árvore
contem-me o canto de um rio
quando se cobre de pássaros,
falem-me do mar,
falem-me do cheiro aberto do campo
das estrelas, do ar.

Recitem-me um horizonte sem fechadura
e sem chave como o choço
¹ de um pobre,
digam-me como é o beijo de uma mulher,
deem-me o nome do amor
não o recordo.

As noites ainda se perfumam de apaixonados
nervosismos de paixão à lua
ou só resta esta fossa,
a luz de uma fechadura
e a canção da minha rosa?

22 anos, já esqueci
a dimensão das coisas,
o seu cheiro, o seu aroma,
escrevo às escuras o mar,
o campo, o bosque, digo bosque
e perdi a geometria da árvore.

Falo por falar assuntos
que os anos me esqueceram.

Não posso continuar:
ouço os passos do funcionário.

Fernando Macarro Castillo (1920-2016)
Pseudônimo de Marcos Ana
Tradução: Luis Leal
¹ = onde se abrigam os porcos.

Canção para uma noite de luar

Hasui Kawase
Tu deslocas as ruas.
A cidade é um labirinto.
Sempre acabo em tua rua.

Tu mudas de nome.
Os dias são meus degraus.
Tua janela é tão alta.

Perco-te de vista.
À tua porta, um ladrão
ataca a fechadura.

Circundas meus sonhos.
Escapas à terra,
Ao inverno, às lágrimas.

Edmondo Jabès (1012-1991)
Tradução: Mário Laranjeira

25 de janeiro de 2017

Os Pobres

Adolphe-William Bouguereau
É a anarquia da pobreza
que me encanta, a velha
casa amarela de madeira recortada
em meio às novas casas de tijolo

Ou uma sacada de ferro fundido
com gradis representando ramos
folhudos de carvalho. Isso tudo combina
com as roupas das crianças

que refletem cada período e
estilo da necessidade -
Chaminés, telhados, cercas de
madeira e metal numa época

sem cercas delimitando quase
coisa alguma: o velho
de suéter e chapéu preto
a varrer a calçada –

os seus três metros de calçada
na ventania que inconstante
virou-lhe a esquina para vir
tomar conta da cidade inteira.

William Carlos Williams (1883-1963)
Tradução: José Paulo Paes

24 de janeiro de 2017

O mundo inteiro depende dos teus olhos…

Pablo Picasso
A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço noturno e aureola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

Paul Éluard (1895-1952)
Tradução: Luiza Neto Jorge

Citação

Dennis Perrin
Assim falou o poeta Kin:
Como escrever obras imortais, se não sou célebre?
Como responder, se ninguém me interroga?
Por que perder tempo com versos que o tempo perde?
Escrevo as minhas propostas em forma duradoura
Com medo que muito tempo corra em que elas se cumpram.
Para atingir o que é grande há que passar por grandes
transformações.
E as pequenas transformações são inimigas das grandes
transformações.
Tenho inimigos. Logo devo ser célebre.

Bertolt Brecht (1898-1956)
Tradução: Arnaldo Saraiva

23 de janeiro de 2017

Conselho de uma Árvore

Josephine Wall
Ergam-se altivos e orgulhosos
Afundem suas raízes profundamente na Terra
Reflitam a luz de uma fonte maior
Pensem a longo prazo
Surjam em um galho
Lembrem-se de seu lugar dentre todos os seres humanos
Abracem com alegria as mudanças de estação
Pois cada uma oferece sua própria abundância
A energia e o nascimento da primavera
O crescimento e o contentamento do verão
A sabedoria de se libertar das folhas no outono
O descanso e a renovação silenciosa do inverno.

Ilan Shamri

Soneto

Tiziano Vecellio Titian
Que suspensão, que enleio, que cuidado
É este, meu tirano deus Cupido?
Pois tirando-me enfim todo o sentido,
me deixa o sentido duplicado.
Absorta no rigor de um duro fado
Tanto de meus sentidos me divido,
Que tenho só de vida o bem sentido,
E tenho já de morte o mal logrado.
Enlevo-me no dano, que me ofende,
Suspendo-me na causa de meu pranto,
Oh cesse, cesse amor, tão raro encanto,
Que para quem de ti não se defende,
Basta menor rigor, não rigor tanto.

Violante da Silveira (1601-1693)

22 de janeiro de 2017

Andrômeda

Gustave Doré
No meu peito a ferida abre de novo
quando as estrelas baixam e ficam parentes do meu
corpo
quando cai o silêncio debaixo dos pés dos homens.

Estas pedras que soçobram dentro do tempo até
onde vão arrastar-me?
O mar o mar quem poderá esgotá-lo?
Vejo as mãos acenarem todas as madrugadas ao abutre e
ao falcão
atada ao rochedo que pela dor se tornou meu,
vejo as árvores que respiram a serenidade negra
dos mortos
e de seguida os sorrisos, que não avançam, das estátuas.

Giórgos Seféris (1900-1971)
Tradução: Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratisinis

O poeta humaniza as coisas

George Wambach - Paisagem da Ilha de Paquetá
“Aprendi que o artista não vê apenas. Ele tem visões. A visão vem acompanhada de loucuras, de coisinhas à toa, de fantasias, de peraltagens. Eu vejo pouco. Uso mais ter visões. Nas visões vêm as imagens, todas as transfigurações. O poeta humaniza as coisas, o tempo, o vento. As coisas, como estão no mundo, de tanto vê-las nos dão tédio. Temos que arrumar novos comportamentos para as coisas. E a visão nos socorre desse mesmal.”
Manoel de Barros (1916-2014)

21 de janeiro de 2017

Árvore Cintilante

Egon Schiele
Uma palavra
pela qual te perdi com prazer:
a palavra
Jamais.

Era,
e por vezes também tu o sabias,
era
uma liberdade.
Nadávamos.

Ainda te lembras que eu cantava?
Com a árvore cintilante cantava, com o leme.
Nadávamos.

Ainda te lembras que nadavas?
Aberta estavas ante mim,
estavas ante mim, estavas
ante mim ante
minha ante-
cipada alma.
Eu nadava por nós dois. Não nadava.
Nadava a árvore cintilante.

Ela nadava? Havia
um charco em volta. Era o lago infinito.
Negro e infinito, assim suspenso,
assim suspenso, mundo abaixo.

Ainda te lembras que eu cantava?

Esta —
oh, esta deriva.

Jamais. Mundo abaixo. Eu não cantava. Aberta
estavas ante mim ante
a alma errante.

Paul Celan (1920-1970)
Tradução: Gilda Lopes Encarnação

Unicamp – 2ª fase 2017

Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.
A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância. Pelas bermas apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. Na savana em volta, apenas os embondeiros contemplam o mundo a desflorir.
Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. Andam bambolentos como se caminhar fosse seu único serviço desde que nasceram. Vão para lá de nenhuma parte, dando o vindo por não ido, à espera do adiante. Fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda a sua terra. Vão na ilusão de, mais além, haver um refúgio tranquilo. Avançam descalços, suas vestes têm a mesma cor do caminho. O velho se chama Tuahir. É magro, parece ter perdido toda a substância. O jovem se chama Muidinga. Caminha à frente desde que saíra do campo de refugiados.
(Mia Couto, Terra Sonâmbula.)
O trecho acima, escrito por Mia Couto, traz uma narrativa sobre o cenário de guerra de Moçambique pós-independência (1977-1992). A partir do texto, responda às questões abaixo.
a) O que são refugiados? Explique, relacionando-os ao processo moçambicano.

b) Apresente dois elementos históricos comuns a Angola e Moçambique, após a independência do domínio português.
Resposta:
a.) Refugiados são os indivíduos que se deslocam dentro do próprio país ou deste para outros, forçados por motivos diversos (guerras, miséria, catástrofes naturais ou perseguições de caráter político, religiosos, étnicos ou social). Os descendentes desses migrantes podem também ser considerados refugiados. No processo moçambicano, a existência de refugiados deveu-se à situação de guerra vivida pelo pais após sua independência.

a.) Tanto Angola como Moçambique sofreram longas guerras civis após a independência e se alinharam a URSS no contexto da Guerra Fria.

20 de janeiro de 2017

Unicamp – 2ª fase 2017

Victor Meirelles - A Primeira Missa no Brasil
Ao analisar A primeira missa no Brasil, obra de. 1860, feita por Victor Meirelles e exposta atualmente no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, o historiador Rafael Cardoso inseriu o quadro no gênero da pintura histórica. Para o autor, tal gênero “deveria partir de um grande e elevado tema e mostrar o domínio do pintor de um amplo leque de informações não pictóricas. Ou seja, em meados do século XIX, tanto a correção da indumentária representada quanto o espírito cívico da obra eram sujeitos a exame detalhado. O quadro teria grandes formatos, composições complexas e perfeito acabamento. A realização de uma pintura assim poderia levar anos e geralmente correspondia a um atestado de amadurecimento do pintor.”
(Adaptado de Rafael Cardoso, A arte brasileira em 25 quadros(1790-1930).
Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2008 p. 54-55.)
a) Explique as razões pelas quais podemos considerar que a obra em questão é baseada em uma noção de história oficial e heroica.

b) Qual era a visão predominante dos integrantes da Semana de Arte Moderna de 1922 em relação à arte acadêmica? Justifique sua resposta.
Resposta:
a) A ideia de uma obra de arte baseada na “noção de história oficial e heroica” pode ser corroborada pelos seguintes aspectos: escolha de um evento de grande importância para a formação da nacionalidade brasileira (sob o ponto de vista da elite dominante), romantizando a relação entre dois grupos étnicos formadores do povo brasileiro, dentro de um padrão estético apoiado na grandiosidade da composição e na precisão do desenho. Deve-se acrescentar o aspecto religioso do tema, enfatizando a importância da Igreja Católica tanto na época do Desenvolvimento como no Segundo Reinado, quando Victor Meirelles pintou a tela em questão.

b) Os integrantes da Semana de Arte Moderna de 1922, na condição de representantes da vanguarda intelectual e artística da época, criticavam o academicismo dominante na arte brasileira de então, por ser fortemente influenciada pelos padrões europeus, dentro de uma estética superada pela modernidade.

Unicamp – 2ª fase 2017

Ticiano Vecellio - Allegory of Prudence
“Onde está aquela tua prudência? Onde está a sagacidade nas coisas que se devem discernir? Onde está a grandeza de alma? Já as pequenas coisas te afligem? (...) Nenhuma destas coisas é insólita, nenhuma inesperada. Ofender-te com estas coisas é tão ridículo quanto te queixares porque caíste em público ou porque te sujaste na lama. (...) O inverno faz vir o frio: é necessário gelar. O tempo traz de novo o calor: é necessário arder. A intempérie do céu provoca a saúde: é necessário adoecer. Uma fera em algum lugar se aproximará de nós, e um homem mais pernicioso que todas as feras. Algo a água, algo o fogo nos retirará. Esta condição das coisas não podemos mudar. Mas isto podemos: adotar um espírito elevado e digno do homem nobre para que corajosamente suportemos as coisas fortuitas e nos harmonizemos com a Natureza.”
(Sêneca, Carta de Sêneca a Lucílio, CVII. Prometeus.)
A partir da leitura do texto escrito pelo filósofo Sêneca.
a) identifique e explique um princípio do estoicismo latino;

b) cite dois legados culturais do mundo romano, além da filosofia, para a tradição ocidental.
Resposta:
a) O texto de Sêneca chama a atenção para as várias manifestações da natureza que são inexoráveis: o inverno que traz o frio, o verão que traz o calor, as intempéries que provocam doenças. Segundo o autor, essas são coisas que “não podemos mudar”. Entretanto, enquanto não podemos alterar as condições da natureza, podemos mudar o nosso comportamento enquanto seres humanos em relação a ela. Nestes termos, o estoicismo latino propõe que tenhamos força suficiente para suportaras adversidades e para harmonizar nosso comportamento com as forças da natureza.

b) Destacam-se entre os legados do mundo romano o Direito e as línguas neolatinas, a religião cristã, a organização administrativas e as técnicas de construção civil.

19 de janeiro de 2017

Fosses tu deus

Andrey Shishkin
Fosses tu deus, seria eu santo
alimentado a areia e gafanhotos,
sem cessar meditando o único nome
que o horizonte deserto não contém.
Sonho que acordo dentro do meu sonho
para o saber mais certo e mais real;
como o místico leio nas entranhas
da ausência a tua sombra desenhada.
E no entanto és gente, sangue e terra,
corpo vulgar crescendo para a morte;
incerto no que fazes, no que sentes,
e cioso do tempo que me dás.
Porque sei que me esqueces é que lembro
Cada instante o que perco e não vem mais.

António Franco Alexandre

Tão Pouco Sentimento é a Emoção

Andrey Shishkin
Tão pouco sentimento é a emoção, que quando
do chão a levantamos se fez leve
maneira de outras águas

Os camiões caminham para o norte
com serenos destroços
as maquinetas baças da invenção

Será verão, os panos levantados;
terás no espelho a idade, o jeito quase
infeliz de ser homem;

O pouco amor te imita; e nunca
chegarás a saber que não existes.

António Franco Alexandre