30 de agosto de 2017

Lugar algum

Claude Monet
Não há
lugar algum
aqui
nem alhures.

Aqui não existe.
Alhures não é.
Nós não temos nada a buscar.

Esperar é vão.
Preciso é habitar o tempo
multíplice,
ser o seu símil.

Com ele como ele
sem ter parada
eu passo
dizendo adeus
dia após dia
às figuras
que a noite
vertiginosa
carrega.

Jean Tardieu (1903-1995)
Tradução: Mário Laranjeira

28 de agosto de 2017

A fome é curável

Joel Rea
O homem entrou no hospital
e disse: “Não me sinto bem”.
Então, extraem-lhe o apêndice
e lavam-no com formol.

“Sente-se melhor?” Responde: “Não”.
Mas os médicos dão-lhe coragem
e cortam-lhe a perna esquerda,
garantindo: “Agora vai ficar bom”.

Continua a sofrer, no entanto,

e enche de gritos o hospital.
Para descobrir o que pode ser,
praticam-lhe uma cesariana.

Embora doutíssimos no ramo,
os cirurgiões fazem caretas.
Mudo, sem forças para gritar,
ele morrer, não morre não.

Esvai-se-lhe pouco a pouco o sangue,
o ar já lhe vai faltando?
Serram-lhe três costelas,
e finalmente expira.

O cirurgião-chefe contempla o cadáver.
Aí pergunta-lhe um estudante:
“Que coisa tinha esse pobre diabo?”.
O doutor, engasgado, murmura:
“Acho que era apenas fome”.

Erich Kästner (1899-1974)
Tradução: Carlos Drummond de Andrade.

27 de agosto de 2017

Memória

Oleg I. Shuplyak
Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exato,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tato,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.

José Saramago (1922-2010)

25 de agosto de 2017

O Farol

Claude Monet
Na amplidão do mar alto entre as vagas se apruma
O vulto do farol como uma sentinela;
Estardalhaça o vento, e a rugir se encapela
A água negra do mar em turbilhões de espuma.

Enche a trágica noite, atroa e se avoluma
Um insano clamor nas asas da procela:
É a morte! E ao temporal que as vagas atropela
Rodopiam as naus na escuridão da bruma.

Mas, súbito um clarão a espessa treva inflama,
Acende o mar bravio, ilumina os escolhos,
E guia o rumo às naus contra os parcéis da morte...

É a vida! É o farol que escancarando os olhos,
Vira e revira em torno as órbitas de chama,
Ora ao Norte, ora ao Sul, ora ao Sul, ora ao Norte...

Victor Silva (1865-1922)

23 de agosto de 2017

Um só amor

Elisbeth Sonrel
Amores? Não. Cantei um só amor.
Não me arrependo da monotonia
nem de cantar a posse e o possuidor.
Se abelhas mansas dentro em mim havia

por que negar o voo para a flor?
Até na momentânea nostalgia
nossa pátria era a mesma. A própria dor
uniu mais do que junta uma alegria.

Chegou a noite e seu silêncio mas
para aclarar o mundo a luz secreta
em teu cabelo pôs manchas de prata.

E teço versos como que refaz
a vida. Todo o meu mister de poeta
é de amor: madrigal e serenata.
Odylo Costa Filho (1914-1979)

21 de agosto de 2017

Tédio

Romero Torres
Também esta noite passará

Esta solidão em volta
a titubeante sombra dos fios do bonde
sobre o asfalto úmido

Olho as cabeças dos cocheiros
cochilando
balançar.

Giuseppe Ungaretti (1888-1970)
Tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti

19 de agosto de 2017

Meu Sonho

William-Adolphe Bouguereau
Eu
Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sanguenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?
Cavaleiro, quem és? — O remorso?
Do corcel te debruças no dorso…
E galopas do vale através…
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?
Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?…
Tu escutas… Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?
Cavaleiro, quem és? que mistério…
Quem te força da morte no império
Pela noite assombrada a vagar?
O Fantasma
Sou o sonho de tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!…

Alvares de Azevedo (1831-1852)

Subjetivismo: debate interior – ele próprio, dividindo-se em dois. – vocativo e interrogações; prossegue, contando o sonho no momento em que este está acontecendo. O sonho é um espaço de fuga. O sonho que eu sonho, sou eu.

Segundo Antonio Cândido: o medo de amar; relação sexual; transgressão de uma norma (culpa) (masturbação).

Espada: símbolo do pênis.

Vale: vagina.

18 de agosto de 2017

Conformidade

James Jacques Joseph Tissot
Não são as grandes alegrias as mais belas,
As que mais nos contentam o coração,
São, por vezes – divinas bagatelas!... –
Aquelas
Que a gente não espera e que as cousas nos dão.

Um galho que floriu numa varanda,
Um incêndio de sol num vidro multicor,
O aroma que o jardim, como um presente, manda,
Uma carta encontrada,
E essa palavra branda
Que talvez não quisesse dizer nada,
Onde julgaste ver uma sombra de amor...

Maria Eugênia Celso (1886-1963)

16 de agosto de 2017

A Arte Moderna

Sir John Lavery
A arte moderna é – na medida em que vale qualquer coisa – um regresso à infância. O seu tema eterno é a descoberta das coisas, descoberta eu apenas pode acontecer, na sua forma mais pura, na recordação da infância. Isto é o efeito da all-pervading consciência do artista moderno (historicismo, noção da arte como atividade autossuficiente, individualismo), que o faz viver, a partir dos dezesseis anos, num estado de tensão – quer dizer, num estado que não é próprio à absorção, que não é ingénuo. Em arte, só se exprime bem aquilo que foi absorvido ingenuamente. Só resta aos artistas fazerem meia-volta e inspirarem-se na época em que ainda não eram artistas, ou seja, a infância.
Cesare Pavese (1908-1950)
Tradução: Alfredo Amorim

14 de agosto de 2017

Lira do Reacionário

John George Brown
Que quer afinal o vendedor de amendoim,
além de vender o seu amendoim?

Será que ele deseja ir à Disneylândia,
em viagem paga à vista,
com direito a carro no aeroporto,
hotel de cinco estrelas,
e uma loura divina
na recepção?

Que deseja o vendedor de balas,
além de melhorar a féria do dia?

Será que ele pretende
viajar num Concorde
acompanhado daquela assistente social
que frequentou seus sonhos,
no dormitório do internato?

Que diabo imagina o engraxate,
além de meter um brilho
no pisante do freguês?

Será que ele espera
passar fim de semana em Cabo Frio,
dar uma olhada nas coxas das gatinhas,
(de perto, é claro)
e transformar a caixa de engraxate
num conversível vermelho,
para encantar a fantasia das garotas?

Wagner Teixeira

12 de agosto de 2017

O Banho de Xampu

Cena do filme “Flores Raras”
Os liquens – silenciosas explosões
nas pedras – crescem e engordam,
concêntricas, cinzentas concussões.
Têm um encontro marcado
com os halos ao redor da lua, embora
até o momento nada tenha mudado.

E como o céu há de nos dar guarida
enquanto isso não se der,
você há de convir, amiga,
que se precipitou;
e eis no que dá. Porque o Tempo é,
mais que tudo, contemporizador.

No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
Para onde irão elas
tão cedo, resolutas?
– Vem, deixa eu lavá-lo, aqui nesta bacia
amassada e brilhante como a lua.

Elizabeth Bishop (1911-1979)
Tradução: Paulo Henriques Brito

11 de agosto de 2017

Canção da Laranjeira Seca

Gurgen Bakhshetsyan
A Carmen Morales
Lenhador.
Corta a minha sombra.
Livra-me do suplício
de ver-me sem toranjas.

Por que nasci entre espelhos?
O dia dá voltas em meu redor.
E a noite me copia
em todas as suas estrelas.

Quero viver sem ver-me.
E formigas e vilões,
sonharei que são minhas
folhas e meus pássaros.

Lenhador.
Corta a minha sombra.
Livra-me do suplício
de ver-me sem toranjas.

Federico Garcia Lorca (1898-1936)
Tradução: William Agel de Melo

10 de agosto de 2017

O Único Livro

Thomas Moran
Vi que os negros Vedas,
o Evangelho e o Alcorão,
mais os livros dos mongóis
em suas tábuas de seda
– como as mulheres calmucas todas as manhãs –
ergueram juntos uma pira
de poeira da estepe
e odoroso estrume seco
e sobre ela pousaram.
Viúvas brancas veladas numa nuvem de fumo,
apressavam o advento
do livro único,
cujas páginas maiores que o mar
tremem como asas de borboletas safira,
e há um marcador de seda
no ponto onde o leitor parou os olhos.
Os grandes rios com sua torrente azul:
– o Volga, onde à noite celebram Rázin;
– o Nilo amarelo, onde imprecam ao Sol;
– o Yang-tze-kiang, onde há um denso lodo humano;
– e tu, Mississípi, onde os ianques
trajam calças de céu estrelado,
enrolando as pernas nas estrelas;
– e o Ganges, onde a gente escura são árvores de ciência;
– e o Danúbio, onde em branco homens brancos
de camisa branca pairam sobre a água;
– e o Zambeze, onde a gente é mais negra que uma bota;
– e o fogoso Obi, onde espancam o deus
e o voltam de olhos para a parede
quando comem iguarias gordurosas;
– e o Tâmisa, no seu tédio cinza.
O gênero humano é o leitor do livro.
Na capa, o timbre do artífice –
meu nome, em caracteres azuis.
Porém tu lês levianamente;
presta mais atenção:
és por demais aéreo, nada levas a sério.
Logo estarás lendo com fluência
– lições de uma lei divina –
estas cadeias de montanhas, estes mares imensos,
este livro único,
em cujas folhas salta a baleia
quando a águia dobrando a página no canto
desce sobre as ondas, mamas do mar,
e repousa no leito do falcão marinho.

Vielimir Khlébnikov (1885-1922)
Tradução: Haroldo de Campos

9 de agosto de 2017

Soneto

Nina Reznichenko
"Ontem, quanto, soberba, escarnecias
Dessa minha paixão, louca, suprema,
E no teu lábio, essa rosa da algema,
A minha vida, gélida prendias...

Eu meditava em loucas utopias,
Tentava resolver grave problema...
_ Como engastar tua alma num poema?
E eu não chorava quando tu te rias...

Hoje, que vives desse amor ansioso
E és minha, só minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste, sendo tão ditoso!

E tremo e choro, pressentindo, forte
Vibrar, dentro em meu peito, fervoroso,
Esse excesso de vida, que é a morte..."

Euclides da Cunha (1866-1909)

8 de agosto de 2017

Soneto 64

Paul Delvaux
Ao ver a cruel mão do tempo apagar
Dos ricos o orgulho graças à decadência da idade;
Quando, por vezes, as altas torres são destruídas,
E o eterno escravo do metal entregue à mortal ira;
Ao ver o oceano faminto ganhar
Vantagem sobre os domínios das encostas;
E a terra firme avançar sobre o braço de água,
Equilibrando-se entre perdas e ganhos;
Ao ver tal mudança de condição,
Ou a própria condição confundida, a decair,
Assim ensinou-me a pensar a ruína:
Que o tempo virá e levará o meu amor.
Esse pensamento é mortal, sem outra escolha
Senão a lamentar ter o que se teme perder.

William Shakespeare (1564-1616)
Tradução: Thereza Christina Motta

7 de agosto de 2017

De uma expedição não realizada ao Himalaia

Karma Loday
Ah, então este é o Himalaia.
Montanhas correndo para a lua.
O instante da largada fixado
no rasgar súbito do céu.
Deserto de nuvens perfurado.
Um golpe no nada.
Eco – uma branca mudez.
Silêncio.
Yeti, lá embaixo é quarta-feira
tem abecedário, pão
e dois e dois são quatro
e a neve derrete.
Tem rosa amarela,
tão formosa, tão bela.

Yeti, nem só crimes
acontecem entre nós.
Yeti, nem todas as palavras
condenam à morte.

Herdamos a esperança –
o dom de esquecer.
Você vai ver como damos
à luz em meio a ruínas.

Yeti, temos Shakespeare lá,
Yeti, e violinos para tocar.
Yeti, ao cair a noite
acendemos a luz.

Aqui – nem lua nem terra
e a lágrima congela.
Ó Yeti meio lunar
pense, volte!

Entre as quatro paredes da avalanche
assim eu chamava pelo Yeti
batendo os pés para me aquecer
na neve.
Wisława Szymborska (1923-2012)
Tradução: Regina Przybycien

5 de agosto de 2017

Quando era menino...

Henry Scott Tuke
Quando era menino,
Salvou-me um deus muita vez
Da gritaria e dos açoites dos homens,
E então brincava seguro e bem
Com as flores do bosque,
E as brisas do céu
Brincavam comigo.

E assim como alegras
O coração das plantas,
Quando elas te estendem
Os braços tenros,

Assim me alegraste o coração,
Pai Hélios! e, como Endymion,
Era eu o teu amado,
Lua sagrada!

Ó vós todos, fiéis,
Amigos deuses!
Se vós soubésseis
Como a minha alma vos amou!

É verdade que então vos não chamava
Ainda pelos nomes, e vós também
Nunca me nomeáveis, como os homens se nomeiam,
Como se se conhecessem.

Mas conhecia-vos melhor
Do que jamais conheci os homens;
Entendia o silêncio do Éter;
Palavras dos homens nunca as entendi.

A mim criou-me a harmonia
Do bosque sussurrante
E aprendi a amar
Entre as flores.
Foi nos braços dos deuses que eu cresci.

Friedrich Hölderlin (1770-1843)
Tradução: Paulo Quintela

4 de agosto de 2017

Os Degraus

Rafael de Sanzio
Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...

Mario Quintana (1906-1994)

3 de agosto de 2017

Corpo

Christian Krohg
Nem velhice, nem mocidade.
Perdi a fé, o ouro, o gosto da alegria.
E uma tristeza talvez somente minha
Tem trânsito na solidão do meu corpo.

Corpo por onde a amargura caminha,
Frágil, sem mistério e sem mulheres.
A ele tanto se lhe dá este como aquele fato.
Uma gravata, contudo não lhe fica mal.

Põe-lhe um sorriso. Beija-lhe a boca.
A boca afinal tem suas utilidades.
Depois, olhe-o trotando solene pelas avenidas.

O corpo então dança: se tem farda é general,
Trapo é mendigo, oração é fechado.
E é num corpo desses que eu caminho emprestado.

Dantas Motta (1913-1974)

2 de agosto de 2017

Soneto à Lua

Alphonse Mucha
Por que tens, por que tens olhos escuros
E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, que és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?

Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?

Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:

E és tampouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequenina lua!

Vinicius de Moraes (1913-1980)