9 de maio de 2017

O perguntador

Jan Brueghel, o Velho
Longe, bem dentro lá da minha casa quente,
na negra confusão das veias e do sangue,
roda o perguntador, roda e ronda em sua mente:
busca saber por que tanta gente passando?

O morto que eu serei pasma de estar em vida,
do gato no seu colo a ronronar por nada,
do céu tão grande em vão, da estulta ventania
que sacode o olmeiro e acalma-se por nada.

Por que um cavalo baio? E por que verde o abeto?
Por que aquele senhor a fazer adições,
a fazer conta: um sol, dois cães, três pássaros pretos,
conta nos dedos cheios de suposições?

Conta nos dedos, mas nos seus cálculos perde
a razão de contar, razão de ter sonhado,
razão de estar ali, de escrúpulos inerte,
e de ser homem, vivo sem ser convidado.

Claude Roy (1915-1997)
Tradução: Mário Laranjeira.

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