11 de maio de 2017

Fausto (sozinho), versos 602 a 639

Félix Edouard Vallotton
Que espera ainda a cabeça que se crava
Só na matéria estéril, rasa e fria,
Que por tesouros com as mão cobiçosa cava
E ao encontrar minhocas se extasia?

Pode soar de tal voz humana o desconcerto
Onde reinaste vós, gênios incorporais?
Mas, devo hoje ainda agradecer-te,
Mais reles, tu, de todos os mortais!

Vieste arrancar-me a tão negra aflição,
Que em breve destruiria o juízo meu.
Ah! foi tão gigantesca a aparição,
Que mais devo sentir-me anão, mero pigmeu.

Retrato, eu, da Deidade, eu, que me julguei ver
Perto do espelho já, da perene verdade,
Gozando o Eu próprio em luz celeste e claridade,
Já despejado o térreo ser;
Eu, mais que Querubim, cuja força arrogante
Da natureza ousou, já, penetrar a fio
As veias, e auferir, criando, com alto brio!
Vida de deuses, como agora o expio!
Aniquilou-me o teu ditado troante.

A ser-te igual não me devo atrever!
Se fui, para atrair-te, assaz possante,
De segurar-te eu não tive o poder.
Naquele instante, ah! que abençoado!
Tão grande me senti. E tão pequeno!
Teu golpe repeliu-me, em pleno,
Ao indeciso, humano fado.
Que evito? hei de acatar que ensinamentos?
Aquela aspiração, dar-lhe-ei seguida?
Nossas ações, bem como os nossos sofrimentos
O curso nos obstruem da vida.

Matéria estranha, sempre, ao máximo se aferra
Ao que já alcançou o pensamento humano;
Quando o que é bom se atinge sobre a terra,
O que é melhor se chama de erro, engano.
Os que nos deram vida, altíssimos sentidos,
Na térrea agitação quedam-se entorpecidos.

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Tradução: Jenny Klabin Segall.

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