23 de maio de 2017

Cantilena

Vladimir Volegov
Num ocaso de granada
lhe entreguei o coração,
e ao despontar da alvorada
nos deram a bendição.
E do sino a repicada:
Dlim-dlão. Dlim-dão.

Depois rebentou a guerra,
se alistou num batalhão;
quando se perdeu na serra,
levava meu coração.
O sino da minha terra
vibrou: Dlim-dlão.

As cartas que me escrevia
inspiravam compaixão;
em todas elas dizia:
“Te trago no coração.”
A voz do sino se ouvia:
Dlim-dlão. Dlim-dlão.

Os vencedores o acharam
tendido ao pé do canhão;
no lugar aonde o enterraram
puseram meu coração.
De novo os sinos dobraram:
Dlim-dlão. Dlim-dlão.

Chorei, num pranto desfeito;
depois perdi a razão,
sinto rasgar-se-me o peito,
onde tive o coração,
quando o sino deste jeito
toca: Dlim-dlão.

Nicolle Garay (1873-1928)
Tradução: Aurélio Buarque de Holanda

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