21 de maio de 2017

Balada das contraverdades

Paul Klee
Não há desvelos senão com a fome,
Nem favores que os de inimigos,
Nem mais gosto a quem o feno come,
Nem vigília que o sono amigo,
Nem clemência que a felonia,
Nem firmeza que a dos medrosos,
Nem mais fé que na apostasia,
Nem mais juízo que em amorosos.

Não se gera mais do que nos banhos,
Nem há mais renome que em bandidos,
Nem ri-se mais do que quem apanha
Nem mais honra que negar o devido,
Nem amor que na lisonjeria,
Nem encontro que o de inditosos,
Nem bons laços que na hipocrisia,
Nem mais juízo que em amorosos.

Não há mais paz que a do fadário,
Nem mais louvor que dizer: “Fora!”
Nem vanglória que a do falsário,
Nem saúde que na descora,
Nem audácia que em covardia,
Nem bom senso que em furiosos,
Nem dulçor que em mulher bravia,
Nem mais juízo que em amorosos.

Verdade quereis que vos diga?
Isto: o prazer só na anemia,
Lição veraz só a lenda abriga,
Langor não há mais que em valorosos,
O horrível som que em melodia,
Nem mais juízo que em amorosos.

François Villon (1431-1463)
Tradução: Sebastião Uchoa Leite‎

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