5 de maio de 2017

A Exaltação dos Sentidos

Vincent van Gogh
O outono despe os plátanos, tecendo,
ao longo da alameda,
uma complicação de talagarça...
Maquinalmente estendo
o olhar vadio: um turbilhão de seda
foge, num passo elástico de garça.

Sigo a silhueta: a curva ágil do salto
toca, leve, o betume.
Sigo-a... e, seguindo a sedução fugace
daquela flor do asfalto,
embriaga-me um anônimo perfume
que é como um beijo que se evaporasse...

Alcanço-a, falo. E ela responde, a esmo,
qualquer coisa que tange
no bojo azul da tarde de opala...
E eu não distingo mesmo
se é sua voz de tafetá que range,
seco ranger do vestido que me fala,

Toco-a de levo e com unção tamanha
– a unção que o outono evoca –
que sinto apenas que por mim perpassa
a sensação estranha
que acaricia os dedos de quem toca
um pensamento, um sonho, uma fumaça...

Beijo-a: sinto um sabor inédito e acre.
E beijando-a, parece
que a não beijei, mas que a provei... É como
se uma flor cor de lacre
houvesse haurido o pólen ou tivesse
mordido a polpa histérica de um pomo.

Deixo-a... Eu nunca supus que, eternamente,
meus olhos, meu olfato,
meu paladar, meu tato e meus ouvidos
sentiriam somente
essa que hoje e o meu êxtase insensato
e a eterna exaltação dos meus sentidos!

Guilherme de Almeida (1860-1969)

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