26 de abril de 2017

O Mergulhador (estrofes)

Dante Gabriel Rossetti
“Quem ousa, seja cavalheiro ou pajem,
Por esta taça mergulhar no abismo?
Tragou-a já a tétrica voragem...
Ela será o prêmio do heroísmo
De quem neste momento a for buscar
À profundeza lôbrega do mar”.

O rei estas palavras pronuncia
E às ondas arremessa a taça de ouro,
Do cimo de escarpada penedia
Que sobranceia o atro sorvedouro:
“Segunda vez pergunto: onde o valente
Que de mergulho procurá-la tente?”

Dos pajens e varões no grupo, quedo
E mudo corre um gélido arrepio.
Sem aspirar ao prêmio, eles, a medo,
Põem os olhos no pélago* bravio
E o rei insiste pela terceira:
“Não há mesmo nenhum que a joia queira?

Nisto, enquanto o silêncio pesa e dura,
Audaz, singelo, dentre os escudeiros
Sai um donzel. A esplêndida estatura
Leva os olhos às damas e aos guerreiros.
E ele, no meio do geral espanto,
Com desempenho arroja o cinto e manto.
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Sublime arroubo se transluz na face
Do moço. O ousado olhar dardeja um raio
Da bela nota ele o rubor fugace,
Vê-la pender em lânguido desmaio...
E á conquista da altíssima ventura
A todo risco arroja-se da altura.

Refluindo de novo, os bravos mares
Chofram tonitruando as brutas fragas...
Bem que pesquisam ávidos olhares
Fitos no eterno marulhar das vagas...
Ela vão, elas vêm, mas ah! nenhuma
Traz de volta o mancebo à flor da espuma.

Friedrich Schiller (1759-1805)
Tradução: Edmur de Souza Queiróz

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