27 de abril de 2017

O valor das palavras

Ludwig Deutsch
Há palavras que fazem bater mais depressa o coração – todas as palavras – umas mais do que outras, qualquer mais do que todas. Conforme os lugares e as posições das palavras. Segundo o lado de onde se ouvem do lado do Sol ou do lado onde não dá o Sol.
Cada palavra é um pedaço do universo. Um pedaço que faz falta ao universo. Todas as palavras juntas formam o Universo.
As palavras querem estar nos seus lugares!
José de Almada Negreiros (1893-1970)

26 de abril de 2017

O Mergulhador (estrofes)

Dante Gabriel Rossetti
“Quem ousa, seja cavalheiro ou pajem,
Por esta taça mergulhar no abismo?
Tragou-a já a tétrica voragem...
Ela será o prêmio do heroísmo
De quem neste momento a for buscar
À profundeza lôbrega do mar”.

O rei estas palavras pronuncia
E às ondas arremessa a taça de ouro,
Do cimo de escarpada penedia
Que sobranceia o atro sorvedouro:
“Segunda vez pergunto: onde o valente
Que de mergulho procurá-la tente?”

Dos pajens e varões no grupo, quedo
E mudo corre um gélido arrepio.
Sem aspirar ao prêmio, eles, a medo,
Põem os olhos no pélago* bravio
E o rei insiste pela terceira:
“Não há mesmo nenhum que a joia queira?

Nisto, enquanto o silêncio pesa e dura,
Audaz, singelo, dentre os escudeiros
Sai um donzel. A esplêndida estatura
Leva os olhos às damas e aos guerreiros.
E ele, no meio do geral espanto,
Com desempenho arroja o cinto e manto.
................................................
Sublime arroubo se transluz na face
Do moço. O ousado olhar dardeja um raio
Da bela nota ele o rubor fugace,
Vê-la pender em lânguido desmaio...
E á conquista da altíssima ventura
A todo risco arroja-se da altura.

Refluindo de novo, os bravos mares
Chofram tonitruando as brutas fragas...
Bem que pesquisam ávidos olhares
Fitos no eterno marulhar das vagas...
Ela vão, elas vêm, mas ah! nenhuma
Traz de volta o mancebo à flor da espuma.

Friedrich Schiller (1759-1805)
Tradução: Edmur de Souza Queiróz

25 de abril de 2017

Juquinha

Eugen Joseph Lejeune
Diz não com a cabeça
diz sim com o coração
diz sim ao que ama
diz não ao professor
está de pé
sendo arguido
e todas as perguntas lhe são feitas
de repente morre de rir
e apaga tudo
os números e as palavras
as datas e os nomes
as frases e as armadilhas
e apesar das ameaças do professor
debaixo da vaia dos meninos prodígios
no quadro- negro da desgraça
com giz de todas as cores
desenha o rosto da felicidade.

Jacques Prévert (1900-1977)
Tradução: Silviano Santiago

24 de abril de 2017

Falésias

Thomas Moran
Poder-me-ão encontrar, trago um rapaz na minha
memória, a casa a uma janela
da qual o faço vir como um sabor à boca,
falésias onde o aguardo à hora do crepúsculo.

Regresso assim ao mar de que não posso
falar sem recorrer ao fogo e as tempestades
ao longe multiplicam-nos os passos.
Onde eu não sonhe a solidão fá-lo por mim.

Luís Miguel Nava (1957-1995)

23 de abril de 2017

Mateus, 26, 26

Simeon Solomon
Tomai, este é o meu corpo:
formas e símbolos.

Fora de mim, o meu reino
Desmembra-se dentro de mim.

E o que fala falta-me
dentro do coração.

E estou sozinho fora de mim
como um coração ora de mim.

Manuel António Pina (1943-2012)

22 de abril de 2017

Sansão

Peter Paul Rubens
À frente, um pouco mais, dai vossa mão
entre a treva em meus passos, pouco mais;
a encosta adiante oferta sombra ou Sol,
que eu lá me assente, porque todo ensejo
a mim é alívio do labor servil,
dia após dia na prisão comum,
onde, preso em grilhões, mal posso o ar
livre aspirar, também preso, abafado,
vento malsão: mas cá sou compensado,
frescor que o Céu alenta, suave e puro,
da alva nascido; aqui irei recompor-me.
Hoje a nação celebra Dágon, ídolo
seu marinho, em festim solene, e proíbe
todo trabalho, involuntário eu cedo
ao repousar supersticioso; assim,
me afastando da grita vulgar, venho
a este lugar deserto, atrás de paz,
ao corpo alguma paz, nenhuma à mente,
dos pensares inquietos, como enxame
de mortíferas vespas, nunca sós,
mas que chegam em multidão e mostram
o passado, o que fui e o que ora sou.
Ó, por que duas vezes viera um Anjo
prever que eu nasceria, antes de ao Céu
subir, frente aos meus pais, em meio ao fogo
das aras, onde ardiam oferendas,
como um pilar em chamas, transportando
a presença Divina ou de um grande ato
à raça revelado, de Abraão?
Por que ordenada a minha concepção
como alguém separado para Deus,
fadado a grandes feitos; morrerei,
traído, capturado, sem meus olhos,
em vista e escárnio de inimigos meus;
em cadeias de bronze a labutar
com a força dada pelos Céus? Ó força
gloriosa, no labor de bestas, vil
mais que um escravo! Era-me a promessa
do jugo filisteu livrar Israel;
perguntai onde o Salvador, e ei-lo
cego em Gaza no engenho com os servos,
outro cativo, em jugo filisteu;
mas esperai, que eu não questione, brusco,
a Previsão Divina; e se o previsto
por meu descuido fora descumprido,
de quem reclamo que não de mim mesmo?
Em que parte abrigara quem tal força
me cedera, roubada facilmente
por não guardar eu do silêncio o Selo,
que fraco revelei a uma mulher,
pela insistência e lágrimas vencido.
Ó forte corpo, de impotente espírito!
Mas que é força incontida pelo duplo
jugo da sapiência, senão vasto
fardo, sujeito à queda, em seu orgulho,
com a menor sutileza, indigno ao trono:
deve aos mandos servir da sapiência.
Deus deu-me força e, para mostrar que frágil
era seu dom, pendeu-o em meus cabelos.
Paz, porém, não contestarei a altíssima
vontade, cujos fins tem, felizmente,
acima de onde alcança o meu saber:
basta que a minha perdição e fonte
das minhas dores seja a minha força;
tantas e tão imensas que cada uma
pede uma vida de lamentos, Ó
cegueira, és a terrível mais que todas!
Cego entre inimigos, Ó pior que grilhões,
decrepitude, ou cárcere, ou penúria!
Luz, de Deus a obra-prima, me é extinta,
e todo objeto vário seu de gozo
anulado, que o luto abrandaria,
eu, feito inferior mesmo ao mais vil
homem ou verme: o mais vil me supera,
que rasteja, mas vê, já eu, em trevas,
sofro à luz com desdém, abuso e fraude,
trás-as-portas ou não, qual tolo sempre,
nunca a meu próprio mando, só dos outros;
mal vivendo, já mais que meio morto.
Ó treva, treva, treva: arde o zênite
e eis: Eclipse total, trevas sem cura,
nem esperança de aurora!
Ó Facho primogênito, e tu, Grande
Verbo, faça-se a luz, e a luz se fez;
por que o primo decreto me abandona?
A mim é o Sol silente
e sombrio como a Lua,
quando deserta a noite,
na vaga furna interlunar oculta.
Sendo tão necessária a luz à vida,
e quase a vida em si, se for verdade
que a luz está na Alma,
que é tudo em toda parte; por que ao globo
tão frágil do olho confinou-se a vista?
Alvo fácil, tão óbvio de apagar-se,
não como o tato, em tudo difundido,
que pudesse enxergar por todo poro?
Não fora assim da luz eu exilado;
como em terra de trevas, em luz ainda,
a viver semimorto, a morte em vida,
e sepulto; mas, ah, ainda mais mísero!
Eu mesmo meu Sepulcro, Tumba em carne,
sepulto, e não isento,
por via da morte e do enterro,
de piores injúrias, dores, males,
mas aqui ainda mais obnóxio
às mazelas todas da vida,
vida no cativeiro
de inimigos inumanos.
Mas quem chega? Pois ouço o passo unido
de vários pés a vir em meu caminho;
talvez meus inimigos, que vêm ver
minha aflição e me insultar, talvez,
mais me afligindo, como todo dia.

John Milton (1608-1674)
Tradução: Adriano Scandolara

21 de abril de 2017

Nossos corpos

René Magritte
Nossos corpos, ainda novos sob
a ansiedade gravada de nossas
caras, e inocentemente

mais expressivos que caras:
mamilos, umbigo, e pentelho
fazem de qualquer forma um
tipo de cara: ou levando
as sombras redondas ao
seio, traseiro, saco,

a dobrinha da minha barriga, o
oco da sua
virilha, como uma constelação,

como se inclina da terra ao
amanhecer num gesto de
brincadeira e

sábia compaixão-
nada como isto
vem a passar

em olhos ou bocas
abatidas.
Eu tenho
uma linha ou ranhura que amo
percorre
meu corpo do esterno
à cintura. Fala de
ansiedade, de
distância.

As suas longas costas,
a cor da areia e
como os ossos se expõem, diz

que céu após o pôr-do-sol
quase branco
sobre a profunda floresta à qual

as gralhas se dirigem, diz.

Denise Levertov (1923-1997)
Tradução: Stefano Calgaro

20 de abril de 2017

O Palhaço

Emmett Kelly
A sua cara está manchada por lágrimas maquilhadas.
Eu e os outros aplaudimo-lo, sabendo
que é de bom tom aprovar quando um palhaço chora
e de mau tom quando o faz uma cara persistentemente
dorida sejam ou não pintadas as suas lágrimas.

Também é de bom tom, entre guerras,
dizer que o ódio é amor e o amor é ódio,
argumentar que tudo é mais complexo do que sonhamos
e depois dizer que não o sonhamos
sempre o soubemos e somos sensatos.

Caro palhaço choroso caro velho infantil
caro assassino gentil caro e inocente culpado
cara simplicidade odeio-vos por causarem que eu finja
que há vários mundos para uma verdade quando
eu sei, eu sei que não há. Pessoas como eu e vocês, meus caros,
que têm mau hálito, que adormecem e de intestinos
ruidosos que controlam a fé que chegam à casa vazia ou entre a família,
cara família, caro homem solitário no mundo despedaçado de nin-
guém,
será para essa desolação que acumulamos palavras durante tantos
milhões de anos, desde o primeiro, gememos
e olhamos para as estrelas. Oh! Oh! o céu é demasiado amplo para
dormir debaixo!

Janet Frame (1924-2004)
Tradução: José Alberto Oliveira

19 de abril de 2017

Sedução

William Hogarth
A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.


Adélia Prado

18 de abril de 2017

Os conquistadores britânicos ficaram zonzos de assombro.

karl Bodmer
Eles vinham de uma civilizada nação, onde as mulheres eram propriedade de seus maridos e a eles deviam obediência, como mandava a Bíblia, mas na América encontraram um mundo de cabeça para baixo.
As índias iroquesas e outras aborígenes eram suspeitas de libertinagem. Seus maridos não tinham nem mesmo o direito de castigar as mulheres que pertenciam a eles. Elas tinham opinião própria e bens próprios, o direito ao divórcio e o direito ao voto nas decisões da comunidade.
Os invasores brancos já não conseguiam dormir em paz: os costumes das pagãs selvagens podiam contagiar suas mulheres.

Eduardo Galeano (1940-20015)

17 de abril de 2017

Há na intimidade um limiar sagrado

Tulio Dias
Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor —
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.

Onde a amizade nada pode nem os anos
da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.

Quem corre para o limiar é louco, e quem
o alcançar é ferido de aflição...
Agora compreendes por que já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração.

Anna Akhmátova (1889-1966)
Tradução: Nina Guerra e Filipe Guerra

16 de abril de 2017

Clamar e Gritar

Alexandre Reider
É, de fato, precisa uma grande ingenuidade para acreditar que, no mundo, servirá de alguma coisa clamar e gritar – como se, com isso, o destino de uma pessoa mudasse. Aceite-se o destino tal como é oferecido e evitem-se todas as prolixidades. Quando eu, na minha juventude, ia a um restaurante, também dizia ao empregado: um bom naco, um muito bom naco, do lombo, não demasiado gordo. Se calhar o empregado mal ouvia o meu apelo, menos ainda lhe prestava atenção, menos ainda a minha voz conseguia chegar até à cozinha, mover quem trinchava – e, mesmo que tudo isto acontecesse, talvez não houvesse nenhum bom naco em todo o assado. Agora já não clamo mais.
Soren Kierkegaard (1813-1855),
Tradução: Bárbara Silva, M. Jorge de Carvalho

15 de abril de 2017

Cajuína

Henri Fantin-Latour
Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina.

Caetano Veloso
A música faz referência a Torquato Neto, que se suicidou em 1972.
Caetano a fez após conhecer a família do poeta em Teresina.
No encontro, quando se despediram o pai de Torquato deu-lhe uma rosa.

14 de abril de 2017

No silêncio terrível

Claude Monet
No silêncio terrível do Cosmos
Há de ficar uma última lâmpada acesa.
Mas tão baça
Tão pobre
Que eu procurarei, às cegas, por entre os papéis revoltos,
Pelo fundo dos armários,
Pelo assoalho, onde estarão fugindo imundas ratazanas,
O pequeno crucifixo de prata
– O pequenino, o milagroso crucifixo de prata que
tu me deste um dia
Preso a uma fita preta.
E por ele os meus lábios convulsos chorarão
Viciosos do divino contato da prata fria...
Da prata clara, silenciosa, divinamente fria – morta!
E então a derradeira luz se apagará de todo...

Mario Quintana (1906-1994)

13 de abril de 2017

Palavras do imperador Adriano na morte de antínoos

Bust of Hadrian at Capitoline Museums.
Há muito vinho nos barris;
um barco desce o rio;
a velhice sobe
no princípio das grandes rugas solitárias.
semana a semana
chega a seiva do deserto:
fome farta de fartas sombras.
foi pela 12.ª hora que Chabrias
¹ entrou
e me disse na tenda
por onde ido te não sabia.
indícios pelos caminhos,
até às palavras finais de Hermógenes,
atravessámos.
chamei então todas as doenças
invocando o igual misté-
rio das saúdes:
dor que se corta pelo sol
como a fresca brisa pelo deserto
e o sêmen
conhecia nos teus olhos a sagrada viagem
desse fogo: atento dorso que era meu.
sozinho no prazer me ergo agora
dentro desse corpo
por mil canais atravessado.
quem por mim
– hora em que regresso partindo tu –
devastará os profundos sulcos desses lábios
– quanto de tanta juventude me tiraste –
tão macios e tão gretados?

R. Lino
Chabrias = Comandante militar.

12 de abril de 2017

Da Mitologia

Josephine Wall
Primeiro era um deus da noite e da tempestade, ídolo negro e sem olhos, diante do qual saltavam nus e lambuzados de sangue. Mais tarde, nos tempos da república, eram imensos os deuses, com mulheres, filhos, camas desconjuntadas e raios que explodiam inofensivos. Por fim só os neuróticos supersticiosos carregavam no bolso pequenas estátuas de sal, representando o deus da ironia. À época não havia maior deus.
Vieram então os bárbaros. Também eles tinham em alta estima o pequeno deus da ironia. Esmagavam-no sob os calcanhares, adicionando-o depois aos seus manjares.
Zbigniew Herbert (1924-1998)
Tradução: Rui Knopfli

11 de abril de 2017

Primeiro poema no vazio

Emile Auguste Hublin
Buscava tudo o que havia
de nunca mais encontrar
em sua face macia
em seu leve caminhar,
nas rotas claras do dia
nos verdes sulcos do mar,
e de tudo quanto havia
de nunca mais encontrar
restou a forma vazia
suspensa no seu olhar
e a tênue melancolia
de quem não se soube achar
nas rotas claras do dia,
nos verdes sulcos do mar.

Carlos Pena Filho (1929-1960)

10 de abril de 2017

Amor depois de amor

Edward Robert Hughes
Vai vir o tempo
em que você, orgulhoso,
vai saudar a si mesmo chegando
à sua própria porta, em seu próprio espelho,
e vão trocar sorrisos de boas-vindas,

você vai dizer, sente-se. Coma.
Vai amar o estranho que um dia você foi.
Dê vinho. Dê pão. Devolva seu coração
pra ele mesmo, o estranho que o amou

por toda a sua vida, e a quem você ignorou
por outro alguém, que o conhece de cor.
Pegue da estante as cartas de amor,

as fotografias, as anotações desesperadas,
descasque seu reflexo do espelho.
Sente-se. Sirva-se da vida.

Derek Walcott (1930-2017)
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

9 de abril de 2017

Madrigal do emigrado

Edward Robert Hughes
Terra mínima e fiel, mulher de sempre,
és a minha pátria arada e fértil, levas
minha linguagem, minha gente, meu diálogo;
em ti acampo no novo, lar errante
com o mesmo ruído de filhos e de pratos;
colonizas o aberto, sem temores,
torna-lo amigo e nosso, oh peregrina
suavemente cambiante pelos anos,
pela luz diferente dos países;
tu, minha vida na mão até ao fim.

José María Valverde (1926-1996)
Tradução: José Bento

8 de abril de 2017

Crítico

Hieronymus Bosch
Eis que me veio uma visita
do tipo (achei) que não me irrita.
O meu jantar não era chique,
mas ele comeu tanto ali que
não sobrou nada em casa e, quando
parou, já quase arrebentando,
o demo o fez sair só para
cuspir no prato em que jantara:
“A sopa estava um arremedo;
a carne, crua; o vinho, azedo.”
Que morra paralítico!
Com mil demônios! Era um crítico.

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Tradução: Nelson Ascher

7 de abril de 2017

Poema Dialético

Birge Harrison
1
Todas as coisas ainda se encontram em esboço,
Tudo vive em transformação:
Mas o universo marcha
Para a arquitetura perfeita.

Retiremos das árvores profanas
A vasta lira antiga:
Sua secreta música
Pertence ao ouvido e ao coração de todos.
Cada novo poeta que nasce
Acrescenta-lhe uma corda.
2
Uma vida iniciada há mil anos atrás
Pode ter seu complemento e plenitude
Numa outra vida que floresce agora.

Nada poderá se interromper
Sem quebrar a unidade do mundo.

Um germe foi criado no princípio
Para que se desdobre em planos múltiplos.
Nossos suspiros, nossos anseios, nossas dores
São gravados no campo do infinito
Pelo espírito sereníssimo que preside às gerações.
3
A muitos só lhes resta o inferno.
Que lhes coube na monstruosa partilha da vida
Senão um desespero sem nobreza, e a peste da alma.
Nunca ouviram a música nascer do farfalhar das árvores,
Nem assistiram à contínua anunciação
E ao contínuo parto das belas formas.
Nunca puderam ver a noite chegar sem elementos de terror.
Caminham conduzindo o castigo e a sombra de seus atos,
Comeram o pó e beberam o próprio suor.
Não se banharam no regato livre.

Entretanto, a transfiguração precede a morte.
Cada um deve assumi-la em carne e espírito
Para que a alegria seja completa e definitiva.
4
É necessário conhecer seu próprio abismo
E polir sempre o candelabro que o esclarece.

Tudo no universo marcha, e marcha para esperar:
Nossa existência é uma vasta expectação
Onde se tocam o princípio e o fim.
A terra terá que ser retalhada entre todos
E restituída em tempo à sua antiga harmonia.
Tudo marcha para a arquitetura perfeita:

A aurora é coletiva.

Murilo Mendes (1901-1975)

6 de abril de 2017

O Céu Concebido Como um Túmulo

Piet Mondrian
Que me dizeis, intérpretes, dos que
No túmulo do céu andam à noite,
Fantasmas negros da comédia finda?
Creem, talvez, que vagarão pra sempre
No frio, no escuro, com lanternas altas,
Libertos da morte, a buscar sem trégua
O que quer que busquem? Ou a lembrança
Do enterro, portão da espiritual
Chegada ao nada, é antevisão diária
Daquela noite única e abissal
Em que as hostes não mais caminharão,
Nem mais lanternas riscarão a treva?
Gritai essa pergunta aos céus, que a ouçam
Os sombrios comediantes, e a respondam
Do seu longínquo e gélido Élysée.

Wallace Stevens (1879-1955)
Tradução: Paulo Henriques Britto

5 de abril de 2017

Poemas Mundanos

Ettore Forti
Trabalho o dia todo como um monge
e à noite vagueio, como um gato
à cata de amor… Vou sugerir
à Cúria que me santifique.
Com efeito, respondo à mistificação
com a mansidão. Olho com olhos
de imagem os que vão linchar-me.
Observo o meu massacre com a coragem
serena de um sábio. Pareço
sentir ódio, mas escrevo
versos cheios de amor atento.
Estudo a perfídia como um fenômeno
fatal, como se dela não fosse objeto.
Tenho pena dos jovens fascistas,
e aos velhos, que são para mim formas
do mais horrível mal, oponho
apenas a violência da razão.
Passivo como um pássaro que, voando,
tudo vê, e, no seu voo para o céu,
leva no coração a consciência
que não perdoa.

Pier Paolo Pasolini (1922-1975)
Tradução: Maria Jorge Vilar de Figueiredo

4 de abril de 2017

Amazonas

Charles Emile August Carolus-Duran
Em Manaus, por esta altura nadavas
Respirando longe do jacaré,
Na posse dos segredos da beleza
O fumo dos caminhões era uma seca
Homenagem, quase intacta, à floresta.
E o sabiá, forasteiro,
Sabia tanto, que era
O princípio, o meu
Olhar seguia-te, voava alto,
Eras nova, esguia, carne do rio:
Piranhas sangravam o boi
Mas quem é que via?
Em Manaus nadavas por essa altura
E eu também, nas águas sem fumo
De uma calçada fria. Carreto
Do exílio que desfaz o teu cabelo
Vermelho – sem medo da agonia.

Gil de Carvalho

3 de abril de 2017

Quem poluiu...

François Boucher
Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer - meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou no caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear - tábua tosca de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
- Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...

Ó minha pobre mãe!... Nem te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,
Alma da minha mãe... Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.

Camilo Pessanha (1867-1926)

2 de abril de 2017

País Longínquo

Oleg Tchoubakov
O meu sofrimento
É simples
Tal como para cuidar de um animal de um país longínquo
Não é necessário um tratador

A minha poesia
É simples
Tal como para ler uma carta de um país longínquo
Não são necessárias lágrimas

As minhas alegrias e penas
Ainda são mais simples
Tal como para matar um homem de um país longínquo
Não são necessárias palavras.

Ryūichi Tamura (1923-1998)
Tradução: José Alberto Oliveira