7 de março de 2017

O impossível momento

Asta Nørregaard
Ah, ser contraditório,
dividido,
disperso.
Os pedaços de ti deixados, à distância,
se os buscamos no tempo, já são outros,
pois o que somos turvo se debruça
naquilo a que aspiramos,
e refaz o que fomos.
Como tê-los, intactos,
se, em nós, a todo instante,
se colorem de novo?

Que tecido se forma,
que alma vária,
desse amanhã, desse ontem, deste agora?
Libertarmo-nos, um dia, do que fomos e do que seremos!
Cada coisa em seu lugar;
no horizonte, o horizonte,
no passado, o passado,
nós, em nós.

Emílio Moura (1902-1971)

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