12 de março de 2017

Criação

Alexandre Reider
Escrevo em terramotos,
E se algumas palavras
Deslizam para longe
A culpa é só da crosta da terra
Pela sua falta de estabilidade.

Nem sabes
Quando se abre um vulcão sob a tua mesa,
E depois de um dia de trabalho
Podes assinar diretamente na cinza.

Todas as coisas mudam
De lugar,
A lâmpada do teto chega-me abaixo do queixo.
A montanha no horizonte entrou-me na boca,
Mordaça de que os restos
Vão ainda ser cuspidos
Pelos meus descendentes até à sétima geração.

A folhagem do cimo das árvores
Mudou-se para dentro do solo
Com medo dos terremotos,

Muitos dos meus antepassados
Mudaram-se para dentro do solo
Com medo dos terremotos.

Só eu continuo a tentar ligar,
Como carris após o descarrilamento
Estas duas palavras,

Que fogem, uma para um lado
Outra para o outro,
Enlouquecidas de terror.

Marin Sorescu (1936-1996)
Tradução: Egito Gonçalves

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