10 de janeiro de 2017

Pequena Ária

Jean Auguste Dominique Ingres
I
Alguém uma solitude
Sem o cisne e sem o cais
Mira sua dessuetude
No olhar que já não é mais

Aqui onde a glória finge
Alta que ninguém a tange
Da qual muito céu se tinge
Nos ouros que o sono abrange

Mas languidamente linda
Como livre de alva anágua
Exultadora deslinda

Na onda em que te Insinua
Tua jubilação nua.

II
Indomavelmente vai
Se a minha esperança a aspira
Soar lá no alto onde cai
Perdida em silêncio e ira,

Voz rara ao jardim que a via
Sem nenhum eco talvez,
A ave que uma vez havia
E não se ouve outra vez.

O músico sem receio
Na dúvida perde a vida
Se, não do seu, do meu seio
Sai o ai da despedida

Dilacerado e sem eco
Vai recolher-se a algum beco!


- Stéphane Mallarmé (1842-1898)
Tradução: Augusto de Campos

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