22 de novembro de 2017

Cantam ao longe

Miho Hirano
Cantam ao longe. Anoitece.
Faz frio pensar na vida;
E a natureza parece
Dizer em voz comovida,
Que o homem não a merece.

Carlos Queiroz (1909-1949)

20 de novembro de 2017

Morte

Sir Frank Bernard Dicksee
Um bicho à morte ignora
ânsia e temor; contudo
um homem, quando é hora,
anseia e teme tudo;
morreu vezes sem conta
e ergueu-se redivivo.
Um grande homem confronta
gente homicida, altivo,
escarnecendo o corte
do alento. Convivera
com a morte a vida inteira:
o homem criou a morte.

William Butler Yeats (1865 -1939)
Tradução: Nelson Ascher

18 de novembro de 2017

Para a puta que levou meus poemas

Rembrandt
Alguns dizem que deveríamos evitar remorsos
particulares no
poema,
manter-nos abstratos, e há certa razão nisso,
mas jezus;
lá se vão doze poemas e eu não tenho cópias deles em
carbono e você está com
minhas
pinturas também, as melhores; é sufocante:
quer me destruir como fez com todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que normalmente
fazem com
os bêbados desacordados na esquina de quem batem
os bolsos das calças.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou cinquenta
contos
mas não meus poemas:
eu não sou Shakespeare
mas vai chegar um tempo em que simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou como quer que
seja;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba cair,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas,
sei muito bem onde coloquei um bocado de poetas
mas não muita
poesia.

Charles Bukowski (1920-1994)
Tradução: Pedro Gonzaga

16 de novembro de 2017

Voo

Gianni Strino
Somos duas águias
que revoam juntas,
por baixo dos céus,
por cima dos montes,
ao vento alongadas,
- que o sol revigora,
cega neve ilude,
e as nuvens perseguem
tênues e emaranhadas.

Nós somos como águias.
Porém quando a Morte
vencer a um de nós,
humano e humilhado,
- possa o outro segui-lo,
e acabar-se o voo!
Fique extinto o fogo.
Seja o livro fechado.

Sara Teasdale (1884-1933)
Tradução: Cecilia Meirelles

14 de novembro de 2017

Adolescência

Renoir
O que havia nas horas que passavam
e ardia, ardia, no ar, imensamente;
o que havia (era tanto!) e já formava
um ser que se buscava e se não via,

era um mas, ou um talvez, era a incerteza
do que, sendo, não sendo, se furtava
à vista que, no entanto, a si se dava
o que, essência de sonho, já floria.

Eram germes de mitos que nasciam,
o amor sorrindo, absurdo, à eternidade
de um momento, não mais, talvez nem isso.

Era a voz das distâncias sem limites,
a alma boiando, fluída, sobre o mundo,
era o medo da morte, sempre a morte.

Emílio Moura (1902-1971)

12 de novembro de 2017

Contranarciso

Ford Maddox Brown
Em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós.

Paulo Leminski (1944-1989)

10 de novembro de 2017

As Atrizes

John Singer Sargent
Naturalmente
ela sorria
Mas não me dava trela
Trocava a roupa
Na minha frente
E ia bailar sem mais aquela
Escolhia qualquer um
Lançava olhares
Debaixo do meu nariz
Dançava colada
Em novos pares
Com um pé atrás
Com um pé a fim

Surgiram outras
Naturalmente
Sem nem olhar a minha cara
Tomavam banho
Na minha frente
Para sair com outro cara
Porém nunca me importei
Com tais amantes
Os meus olhos infantis
Só cuidavam delas
Corpos errantes
Peitinhos assaz
Bundinhas assim

Com tantos filmes
Na minha mente
É natural que toda atriz
Presentemente represente
Muito para mim.

Chico Buarque de Hollanda - Tom Jobim

8 de novembro de 2017

O Farrista

Luis Ricardo Falero
Quando o almirante Cabral
Pôs as patas no Brasil
O anjo da guarda dos índios
Estava passeando em Paris.
Quando ele voltou de viagem
O holandês já está aqui.
O anjo respira alegre:
"Não faz mal, isto é boa gente,
Vou arejar outra vez."
10 O anjo transpôs a barra,
Diz adeus a Pernambuco,
Faz barulho, vuco-vuco,
Tal e qual o zepelim
Mas deu um vento no anjo,
Ele perdeu a memória...
E não voltou nunca mais.

Murilo Mendes (1901-1975)

6 de novembro de 2017

Sol e Amor

Adrienne Stein
Leves e alvas à plaga ocidental,
As nuvens vão: seja por onde for,
Sorri o céu, como o humano labor
Saúda o sol, benigno, triunfal.

Em mil flechas desponta a catedral
E santos de ouro e rosado fulgor,
Radia então a hosana e há o rumor
Dos falcões, este alívolo coral.

Assim, depois que o Amor – riso de calma –
Nuvens rasgou que me agravaram tanto,
Pode exsurgir à luz do sol de minha alma.

E lhe sorri multiplicado o santo
Ideal da existência: é uma harmonia
O pensamento: e o sentimento do canto.

Giosuè Carducci (1835-1907)
Tradução: Olegário Mariano

4 de novembro de 2017

A Lorelai

Rob Gonsalves
Eu Não sei como explicar
Porque ando tão triste à beça;
Uma história de ninar
Não me sai mais da cabeça.

Dia ameno, a noite cai
Sobre o Reno devagar;
Na montanha, a luz se esvai
Faiscando pelo ar.

Uma chuva de centelhas
Repentinas alumbra o céu;
A mais linda das donzelas
No penhasco apareceu.

Com escova de ouro escova
Seus cabelos incendidos;
E as canções que cantarola
Arrebatam os sentidos.

Uma dor logo fulmina
O barqueiro num batel;
Ele olha para cima:
Os escolhos esqueceu.

No final, creio que o rio
Engoliu o batel e - ai! –
O barqueiro que caiu
No canto da Lorelai.

Heinrich Heine (1797-1856)
Tradução: André Vallias

2 de novembro de 2017

O esqueleto lavrador – XCIV

Adolf von Menzel
Nas lâminas de anatomia
Amontoadas no cais poeirento
Onde muito livro ao relento
Dorme como múmia sombria,

Desenhos aos quais a grandeza
E o cabedal de um velho artista,
Conquanto a dor no tema existia,
Comunicaram a Beleza,

Veem-se, o que faz mais completos
Esses fantásticos horrores,
A escavar como lavradores
Escalpelados e esqueletos.

Charles Baudelaire (1821-1867)
Tradução: Ivan Junqueira

31 de outubro de 2017

O amanhecer das criaturas

Vladimir Volegov
O dia forma-se
de quase nada:
um seio nu
por entre pálpebras,

o sol que raia
e a luz acesa
no arranha-céu
que a aurora lava.

A mão incerta
deixa na rósea
carne dormida
o gesto equívoco.

Tudo é lilás
na luminosa
e vã partilha.

No dia imenso
nascem tesouros:
curvos, redondos.

O pão à porta,
depois o leite,
e o erguer dos corpos.

Lêdo Ivo

29 de outubro de 2017

Ode IV.1

Cláudio Dantas
De novo moves, Vênus, guerras
há tanto interrompidas? Poupa-me, rogo-te, rogo-te.
Já não sou quem era, no reinado
da boa Cínara. Deixa, cruel mãe

dos doces Desejos,
de vergar com suaves ordens um homem empedernido
que já quase cinco décadas viveu.
Vai, para onde te reclamam as doces preces dos jovens.

Mais a tempo te irás divertir
para casa de Paulo Máximo,
nos teus purpúreos cisnes voando,
se inflamar procuras um coração que te convenha.

E depois de assaz se ter rido
ao triunfar sobre os sumptuosos presentes do rival,
perto dos lagos albanos
uma estátua de mármore colocará sob um telhado de cedro.

Aí, ao nariz te há de chegar
o perfume de muitos incensos, deleitar-te-ás
com as melodias conjuntas da lira,
da tíbia de Berecinto, e também da siringe.

Ai, duas vezes por dia,
rapazes com gentis virgens, louvando tua divindade,
três vezes no chão hão de bater
com o cândido pé, como é costume dos Sálios.

Quanto a mim, nem mulheres,
o nem rapazes, nem a crédula esperança num amor recíproco
me agradam, nem as ébrias rixas,
nem cingir a testa com frescas flores.

Mas então por que, ah, Ligurino,
porque escorre por minha face rara lágrima?
Por que, a meio de uma palavra,
cai minha eloquente língua no indecoroso silêncio?

Em noturnos sonhos
ora te tenho cativo, ora a ti voando te sigo
através do campo de Marte,
a ti, cruel, através das volúveis águas.

Quinto Horácio Flaco (65 - 8 a.C.)
Tradução: Pedro Braga Falcão

27 de outubro de 2017

O Tolo e o Sábio

Catrin Welz-Stein
O sábio que há em você
não sabe o que sabe
o tolo que não se vê.

Sabe que não se vê
o tolo que não sabe
o que há de sábio em você.

Mas do tolo que há em você
não sabe o sábio que você vê.

Mário Chamie (1933-2011)

25 de outubro de 2017

Céu velho

Paul Guy Gantner
Nasci num astro que esfriou.
A escolta de anjos em que vim, perdi-a.
Ao desprender-se a última asa fria
Meu destino de terra começou.

O salvado dos astros - gorou.
Aonde, aonde a minha origem ia?
Agora, em mim, a noite bebe o dia
Que meus altos cuidados devorou.

Se, bebendo-o, menino me tornasse
E, dando-me uma pena, ora aquecida,
Ao tal astro gelado me levasse?

Já sinto a aragem forte em minha batida
Talvez da escolta de anjos. Volto a face:
Há lá anjo nenhum na minha vida!

Vitorino Nemésio (1901-1978)

23 de outubro de 2017

O poeta começa o dia

Damião Martins
O poeta começa o dia
Pela janela atiro meus sapatos, meu ouro, minha
[alma ao meio da rua.
Como Harum-al-Raschid, eu saio incógnito, feliz
[de desperdício... Me espera o ônibus, o horário, a morte — que
[importa?
Eu sei me teleportar: estou agora
Em um Mercado Estelar... e olha!
Acabo de trocar
— em meio aos ruídos da rua
alheio aos risos da rua —
todas as jubas do Sol
por uma trança da Lua!

— Mario Quintana (1906-1994)

20 de outubro de 2017

A árvore sem folhas

Andrew Wyeth
A cerejeira sem folhas
mais alta que o teto
deu ano passado
muita fruta. Como
falar porém de fruta diante
desse esqueleto?
Embora possa estar vivo
não há fruta nele.
Por isso derrubem-no
e usem a lenha contra
este frio cortante.

William Carlos Williams (1883-1963)
Tradução: José Paulo Paes

18 de outubro de 2017

O outro

Monica Barengo
só quero
o que não
o que nunca
o inviável
o impossível

não quero
o que já
o que foi
o vencido
o plausível

só quero
o que ainda
o que atiça
o impraticável
o incrível

não quero
o que sim
o que sempre
o sabido
o cabível

eu quero o outro.

Chacal
(pseudônimo de Ricardo de Carvalho Duarte, poeta do Rio de Janeiro)

16 de outubro de 2017

Perfume exótico

Frederick Carl Frieseke
Quando, cerrando os olhos, numa noite ardente,
Respiro a fundo o odor dos teus seios fogosos,
Percebo abrir-se ao longe litorais radiosos
Tingidos por um sol monótono e dolente.

Uma ilha preguiçosa que nos traz à mente
Estranhas árvores e frutos saborosos;
Homens de corpos nus, esguios, vigorosos,
Mulheres cujo olhar faísca à nossa frente.

Guiado por teu perfume a tais paisagens belas,
Vejo um porto a ondular de mastros e de velas
Talvez exaustos de afrontar os vagalhões,

Enquanto o verde aroma dos tamarineiros,
Que á beira-mar circula e inunda-me os pulmões,
Confunde-se em minha alma à voz dos marinheiros.

Charles Baudelaire (1821-1867)
Tradução: Ivan Junqueira

14 de outubro de 2017

Versos do Prisioneiro

Carl Spitzweg
Não é de amor que careço.

Sofro apenas
da memória de ter amado.

O que mais me dói,
porém,
é a condenação
de um verbo sem futuro.

Amar!

Mia Couto

12 de outubro de 2017

Sinal de ti

Wilhelm Gallhof
Não darei o Teu nome à minha sede
De possuir os céus azuis sem fim,
Nem à vertigem súbita em que morro
Quando o vento da noite me atravessa.

Não darei o Teu nome à limpidez
De certas horas puras que perdi,
Nem às imagens de oiro que imagino
Nem a nenhuma coisa que sonhei.

Pois tudo isso é só a minha vida,
Exalação da terra, flor da terra,
Fruto pesado, leite e sabor.

Mesmo no azul extremo da distância,
Lá onde as cores todas se dissolvem,
O que me chama é só a minha vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

10 de outubro de 2017

Adonais

Alfred Augustus Glendening
A dor perturbou a jovem Primavera, que desprendeu
os rubros botões, como se fosse Outono
e eles folhas mortas; perdida a alegria,
para quem virá ela despertar o tempo doloroso?
Não, nem Jacinto a Febo tanto amou,
nem Narciso a si mesmo, como ambos
te amaram, Adonais. Ei-los pálidos e tristes
entre os desfalecidos companheiros da sua juventude:
era o orvalho lágrimas, e suspiros ou tristeza os aromas.

Percy Bysshe Shelley (1792-1822)
Tradução: Fernando Guimarães

8 de outubro de 2017

Todas as Vidas

John Singer Sargent - The old Chair
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo..,

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.

Cora Coralina (1889-1985)

6 de outubro de 2017

Escrito com tinta verde

Daniel Gerhartz
A tinta verde cria jardins, selvas, prados,
folhagens onde cantam as letras,
palavras que são árvores,
frases que são verdes constelações.

Deixa que minhas palavras, ó branca, desçam
e te cubram
como uma chuva de folhas a um campo de
neve,
como a hera à estátua.
como a tinta a esta página.

Braços, cintura, pescoço, seios,
a fronte pura como o mar,
a nuca de bosque no outono,
os dentes que mordem um fio de erva.

Teu corpo constela-se de signos verdes
como o corpo da árvore de rebentos.
Não te afronte tanta pequena cicatriz
luminosa:
olha o céu e sua verde tatuagem de estrelas.

Octavio Paz (1914-1998)
Tradução: Luis Pignatelli

4 de outubro de 2017

Canção

Ettore Tito
O céu azul sobre o telhado
repousa em calma.
Uma árvore sobre o telhado
balança a palma.

A voz de um sino mansamente
ressoa no ar.
Um passarinho mansamente
põe-se a cantar.

Meu Deus, meu Deus, esta é que é a vida,
simples, tranquila,
como o rumor suave de vida
que vem da vila.

– Tu que aí choras, que é que fizeste,
dize, em verdade,
tu que aí choras, que é que fizeste
da mocidade?

Paul Verlaine (1844-1896)
Tradução: Onestaldo de Pennafort