31 de dezembro de 2017

Para pintar o retrato de um pássaro

Jacob Maris
Pintar primeiro uma gaiola
Com a sua porta aberta
Em seguida pintar
Alguma coisa bonita
Alguma coisa simples
Alguma coisa bela
Alguma coisa útil
Para o pássaro
Pendurar em seguida a tela numa árvore
Num jardim
Num bosque
Ou numa floresta
Se esconder atrás da árvore
Sem falar
Sem se mover...
Às vezes o pássaro chega logo
Mas pode acontecer também que ele demore anos
Para se decidir
Não há que desanimar
Esperar
Esperar durante anos se for o caso
Já que a rapidez ou lentidão da chegada
Do pássaro não tem nenhuma relação
Com o resultado do quadro
Quando o pássaro chega
Se ele chega
Guardar o mais profundo silêncio
Esperar que o pássaro entre na gaiola
E quando estiver dentro
Fechar devagarinho a porta com o pincel
Depois
Apagar uma a uma todas as grades
Tendo o cuidado de não tocar em nenhuma pena do
pássaro
Pintar em seguida a figura da árvore
Escolhendo o galho mais bonito
Para o pássaro
Pintar também o verde das folhas e o frescor do vento
A poeira do sol
E o rumor dos insetos no capim sob o calor do verão
E depois esperar que o pássaro se decida a cantar
Se o pássaro não canta
É mau sinal
Sinal de que o quadro é mau
Mas se ele canta é bom sinal
Sinal de que você pode assinar
Então você arranca delicadamente
Uma pena do pássaro
E escreve seu nome num canto do quadro.

Jacques Prévert (1900-1977)
Tradução: Ferreira Gullar

29 de dezembro de 2017

Calendário

Alphonse Mucha
Juntei as minhas convicções umas às outras e dilatei a tua Presença. Outorguei aos meus dias um novo curso, sustentando-os nessa força imensa. Expulsei a violência que me limitava o ascendente. Agarrei sem ruído o pulso do equinócio. O oráculo deixou de avassalar-me. Penetro: sinto-me ou não em estado de graça.
A ameaça é agora mais polida. A praia que todos os Invernos ficava atravancada de lendas regressivas, de sibilas¹ com os braços pesados de ortigas, apresta-se agora ao socorro das criaturas. Sei que a consciência que se arrisca nada tem que temer da plaina.
René Char (1907-1988)
Tradução: Margarida Vale de Gato
¹ Sibilas são um grupo de personagens da mitologia greco-romana descritas como sendo mulheres que possuem poderes proféticos sob inspiração de Apolo.

27 de dezembro de 2017

Ao rapaz que dorme

Louis-Jean-François Lagrenée
Ao rapaz que dorme
surge o corpo do amor.
O que destrói.
Pedras sem adeus.

Sobre o dia do seu coração
cai a tribo do crepúsculo.
Crescem os braseiros,
os sarros, os saques.

Queres que viva e evite a vida?
Ame e evite amar-te?

Os olhos dizem-lhe que não.
O fatigado alarme do corpo
ergue-se noutra chama.

O mundo vai morrer neste poema.

Joaquim Manuel Magalhães

25 de dezembro de 2017

Amanhecer

Paul Gauguin
Amanhecer: o mais antigo
sinal de vida sobre a Terra.
Amanhecer: ainda o mais novo
sinal de vida sobre a Terra.
Amanhecer e vida humana
se entrelaçam na mesma luz.
Mas andemos. Que tal esses ornatos
de rua, a celebrar os velhos ritos?
Eu acho que o Natal ronda por fora
dos signos natalinos: sua rara
contextura de sonho e de esperança
num Deus garoto abriga-se no esconso
particular da alma; esse, o presépio
mais real, mais tocante; esse, o cardápio
da ceia imaterial, sem mesa posta
e sem badalação, sem jingle e cesta.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

24 de dezembro de 2017

Natal

Heidi Malott: Natividade
Também sei de paisagem
onde há carneiros de lã
e árvores cheias de folhas
e muitas estrelas líquidas
e onde a vida não tem nome
nem tem neve, nem crepúsculo.

Também sei de uma paisagem
(além da terra do mundo)
que se abre como uma rosa
– Ali nasceremos todos
noutro cartão de natal.

Gilberto Mendonça Teles

21 de dezembro de 2017

Saudade

Sir Edward Burne-Jones
Vem, ó saudade, toma-me em teu carro,
Em teu regaço leva-me dormindo,
Entre fagueiros sonhos embalado
Por esse espaço infindo.
Leva-me além daquele erguido monte,
Que lá campeia quase que sumido
Nas brumas do horizonte.

Leva-me além - oh! muito além ainda;
Do eterno plaino largo campo fende;
E entre escalvadas serranias broncas
O carro teu suspende.
Aí nas abas de sombrio morro
Abate o voo, e deixa-me nos braços
Daquela por quem morro.

Bernardo Guimarães (1825-1884)

19 de dezembro de 2017

Um estranho no meu túmulo

Christian Schad
Chegamos tarde a nós.
Eu tinha a pele gasta, o coração no fio.
Tu eras um longo muro de cimento areado
em que deixava a carne inteira
a caminho do encontro.

A primavera ficava-nos sempre
à esquerda e tu cada vez mais
dentro de mim até não sentir nada,
até estares já do outro lado.
Para trás, a cova matinal na almofada,
o postal entre a leitura suspensa,
o número a chamar de um fantasma.

Se apagar as marcas de onde pousaste
a cabeça sobre a minha vida,
se ganhar novo espaço para o fôlego,
faz-me só um favor:
nunca mais me reconheças.

Inês Dias

17 de dezembro de 2017

Onde Estás Agora

George Dunlop Leslie
Ó sonho, onde estás agora?
Os longos anos já passaram,
Depois que sobre tua fronte
Eu vi a luz morrer,
E devagar tornar-se em podridão.
Ai de nós! Ai de nós! Ó desgraçada,
Eras loura e bela
E faiscante!
Eu não podia imaginar
Que o único fruto de tua imagem
Seria o desespero.
O raio de luar, a tempestade,
E as noturnais, deusas do verão,
A noite silenciosa,
Na calma solene,
A lua ronda, o céu puro,
Outrora,
Eram a trama do teu ser,
Mas já não são mais do que um manto exausto
De dores e de penas.
Ó tu que desamparaste o meu olhar,
Já é sofrer bastante
Ter visto para sempre se extinguir a tua luz!

Emily Brontë (1818-1848)
Tradução: Lúcio Cardoso

15 de dezembro de 2017

Ignoto Deo

Paolo Veronese
Desisti de saber qual é o Teu nome,
Se tens ou não tens nome que Te demos,
Ou que rosto é que toma, se algum tome,
Teu Sopro tão além de quanto vemos.

Desisti de Te amar, por mais que a fome
Do Teu amor nos seja o mais que temos,
E empenhei-me em domar, nem que os não dome,
Meus, por Ti, passionais e vãos extremos.

Chamar-Te amante ou pai..., grotesco engano
Que por demais tresanda a gosto humano!
Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,

Desisti de Te achar no quer que seja,
De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...
– Tu é que não desistirás de mim!

José Régio (1901-1969)

13 de dezembro de 2017

A Imagem Divina

Gustave Doré
A Dó, Piedade, Paz e Amor,
Todos oram em sua aflição;
E a essas virtudes de valor
Retribuem com gratidão.

Pois Dó, Piedade, Paz e Amor
São Deus, nosso pai amado;
E Dó, Piedade, Paz e Amor
São o Homem, seu filho e cuidado.

E humano é o coração da Piedade,
O Dó se mostra em humana face,
O Amor é humana divindade
E a Paz, um humano disfarce.

Cada homem, de cada clima,
Que prece em desespero faz,
Reza à forma humano-divina:
Amor, Piedade, Dó e Paz.

E devem amar ao aspecto humano
Pagão, judeus e muçulmanos.
Onde há Amor, Dó e Piedade,
Também reside a Divindade.

William Blake (1757-1827)
Tradução: Gilberto Sorbini e Weimar de Carvalho

10 de dezembro de 2017

A Um Jovem Poeta

Salvador Dalí
Não escrevas um poema enquanto teu coração
arde. Deixa que a emoção arrefeça.
Depois, em silêncio, com ajuda da cabeça,
põe um tijolo sobre outro tijolo.
Tijolo? Tão frio o barro cozido...
Mas é dentro desse barro que acontecem as cópulas,
e as crianças choram pedindo leite.
Imagina um fruto amadurecido,
que pende de uma árvore: o vento o balança,
e o sol continua a aquecê-lo. Esta dança,
que não se vê,
é a poesia.

Armindo Trevisan

8 de dezembro de 2017

Centauro

Jean Baptiste Regnault
A moça de bicicleta
parece estar correndo
sobre um chão de nuvens.

A mecânica ardilosa
dos pedais multiplica
suas pernas de bronze.

O guidão lhe reúne
num só gesto redondo
quatro braços.

O selim trava com ela
um íntimo diálogo
de côncavos e convexos.

Em revide aos dois seios
em riste, o vento desfaz
os cabelos da moça

numa esteira de barco
– um barco chamado
Desejo onde, passageiros

de impossível viagem,
vão todos os olhos
das ruas por que passa.

José Paulo Paes (1926-1998)

6 de dezembro de 2017

Para o Livro de Literatura de Segundo Grau

Rick Beerhorst
Não leias odes, meu filho, lê os horários
(dos trens, dos ônibus, dos aviões):
são mais exatos. Abre os mapas náuticos
antes que seja tarde demais. Sê vigilante, não cantes.
Chegará o dia em que eles, de novo, pregarão listas
no portão e desenharão marcas no peito daqueles que dizem
não. Aprende a ir incógnito, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de passaporte, de rosto.
Entende da pequena traição,
da salvação suja de todos os dias. Úteis
são as encíclicas para se fazer fogo,
e os manifestos: para a manteiga e sal
dos indefesos. É preciso raiva e paciência
para se soprar nos pulmões do poder
o fino pó mortal, moído
por aqueles, que aprenderam muito,
que são exatos, por ti.

Hans Magnus Enzensberger
Tradução: Kurt Scharf e Armindo Trevisan

4 de dezembro de 2017

O bonde do silêncio

Claude Monet
Já é noite e o bonde do silêncio
permanece intacto.

Nas ruas as pessoas observam os
pássaros a sobrevoarem as
correntezas.

E tudo permanece intacto.

Os amantes, os Deuses, as estátuas.

Só a poesia perambula.

Acaso os versos caminham ágeis e
desapercebidos.

E tudo permanece intacto.

Carlos Cardoso (1951-2000)

2 de dezembro de 2017

Confissão

Guido Reni
Não quero ser Deus por orgulho.
Eu tenho esta grande diferença de Satã.
Quero ser Deus por necessidade, por vocação.
Não me conformo nem com o espaço nem
com o tempo,
Nem com o limite de coisa alguma.
Tenho fome e sede de tudo,
Implacável,
Crescente,
Eterna,
– De mim que me desprezo e me acredito um nada.

Ismael Nery (1900-1934)

28 de novembro de 2017

Poema da Procura

Georges Seurat
Em nenhuma esquina do teu bairro
Encontrarás o Domingo de tua infância
Povoado de pássaros e melodias.
Hoje, o céu é o lamento das aves de metal,
E os realejos se converteram
Em sereias portadoras de cantos funestos.
Inutilmente recordarás
A sombra antiga das mangueiras
E os crepúsculos tranquilos do mundo que perdeste.
Hoje, és o ser penetrado de ruídos
E em redor de tua angústia
Desfilam máquinas estranhas
E a multidão de rostos que não reconheces...
Além do teu corpo sepultado entre blocos de pedra,
Há um anjo da morte em cada esquina do universo...

Paulo Bomfim

26 de novembro de 2017

Estátua

Sir Lawrence Alma-Tadema
Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, de frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.
E o meu ósculo ardente, alucinado,

Esfriou sobre o mármore correto
Desse entreaberto lábio gelado...
Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.

Camilo Pessanha (1867-1926)

24 de novembro de 2017

Varina

Jorge Barradas
Ó Varina, passa,
passa tu primeiro…
que és a flor da raça,
a mais séria graça
do país inteiro!

Teu orgulho seja
sonora fanfarra,
zimbório igreja!
Que logo te veja
quem entra na Barra.

Lisboa, esquecida
que é porto-de-mar,
fica esclarecida
e reconhecida
se te vê passar.

Dá-lhe a tua graça
clássica e sadia.
Ó varina passa…
na noite da raça
teu pregão faz dia!

Vê que toda a gente
ao ver-te, sorri.
Não sabe o que sente,
mas fica contente
de olhar para ti.

E sobre o que pensa
quem te vê passar,
eterna, suspensa,
acena a imensa
presença do mar!

Carlos Queiroz (1909-1949)

22 de novembro de 2017

Cantam ao longe

Miho Hirano
Cantam ao longe. Anoitece.
Faz frio pensar na vida;
E a natureza parece
Dizer em voz comovida,
Que o homem não a merece.

Carlos Queiroz (1909-1949)

20 de novembro de 2017

Morte

Sir Frank Bernard Dicksee
Um bicho à morte ignora
ânsia e temor; contudo
um homem, quando é hora,
anseia e teme tudo;
morreu vezes sem conta
e ergueu-se redivivo.
Um grande homem confronta
gente homicida, altivo,
escarnecendo o corte
do alento. Convivera
com a morte a vida inteira:
o homem criou a morte.

William Butler Yeats (1865 -1939)
Tradução: Nelson Ascher

18 de novembro de 2017

Para a puta que levou meus poemas

Rembrandt
Alguns dizem que deveríamos evitar remorsos
particulares no
poema,
manter-nos abstratos, e há certa razão nisso,
mas jezus;
lá se vão doze poemas e eu não tenho cópias deles em
carbono e você está com
minhas
pinturas também, as melhores; é sufocante:
quer me destruir como fez com todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que normalmente
fazem com
os bêbados desacordados na esquina de quem batem
os bolsos das calças.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou cinquenta
contos
mas não meus poemas:
eu não sou Shakespeare
mas vai chegar um tempo em que simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou como quer que
seja;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba cair,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas,
sei muito bem onde coloquei um bocado de poetas
mas não muita
poesia.

Charles Bukowski (1920-1994)
Tradução: Pedro Gonzaga

16 de novembro de 2017

Voo

Gianni Strino
Somos duas águias
que revoam juntas,
por baixo dos céus,
por cima dos montes,
ao vento alongadas,
- que o sol revigora,
cega neve ilude,
e as nuvens perseguem
tênues e emaranhadas.

Nós somos como águias.
Porém quando a Morte
vencer a um de nós,
humano e humilhado,
- possa o outro segui-lo,
e acabar-se o voo!
Fique extinto o fogo.
Seja o livro fechado.

Sara Teasdale (1884-1933)
Tradução: Cecilia Meirelles

14 de novembro de 2017

Adolescência

Renoir
O que havia nas horas que passavam
e ardia, ardia, no ar, imensamente;
o que havia (era tanto!) e já formava
um ser que se buscava e se não via,

era um mas, ou um talvez, era a incerteza
do que, sendo, não sendo, se furtava
à vista que, no entanto, a si se dava
o que, essência de sonho, já floria.

Eram germes de mitos que nasciam,
o amor sorrindo, absurdo, à eternidade
de um momento, não mais, talvez nem isso.

Era a voz das distâncias sem limites,
a alma boiando, fluída, sobre o mundo,
era o medo da morte, sempre a morte.

Emílio Moura (1902-1971)

12 de novembro de 2017

Contranarciso

Ford Maddox Brown
Em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós.

Paulo Leminski (1944-1989)