31 de dezembro de 2016

Se o particular tem significado, deve haver universais

Michelangelo - Sibyls Erythraea
O mundo real é o mundo das ideias, que contém as formas ideais de tudo.
Nascemos com os conceitos dessas formas ideais em nossas mentes.
O mundo ilusório em vivemos – o mundo dos sentidos – contém cópias imperfeitas das formas ideais.
Reconhecemos as coisas do mundo, como cães, porque reconhecemos que são cópias imperfeitas dos conceitos em nossas mentes. Tudo nesse mundo é uma “sombra” de sua forma ideal no mundo das ideias.
A alma do homem é imortal e imperecível.
O que chamamos de aprendizado é só um processo de reminiscência.
Platão (428-348 a.C.)

A Pedra no Caminho

Marie LoParco
Toma essa pedra em tua mão,
toma esse poliedro imperfeito,
duro e poeirento. Aperta em
tua mão esse objeto frio,
redondo aqui, acolá acerado.

Segura com força esse granito
bruto. Uma pedra, uma arma
em tua mão. Uma coisa inócua,
todavia poderosa, tensa,
em sua coesão molecular,
em suas linhas irregulares.

Ao meio-dia em ponto, na avenida
ensolarada, tu és um homem
um pouco diferente. Ao meio-dia
na avenida tu és um homem
segurando uma pedra. Segurando-a
com amor e raiva.

Rui Knopfly (1932-1997)

30 de dezembro de 2016

Folha de Álbum

Eleanor Fortescue Brickdale
De repente uns desejos fúteis
tivestes, de escutar um pouco
as várias músicas inúteis
das minhas flautas de som rouco.

Esta canção que eu comecei
ante a paisagem, frio e grave
ficou melhor quando a cessei
para olhar vosso olhar suave.

Sim, este vão sopro que expulso
até meu último limite
(meus dedos, hirtos movo a pulso)
falha se imita, embora imite,

o vosso claro, natural,
riso infantil e matinal.

Stéphane Mallarmé (1842-1898)
Tradução: Luís Martins

Os lobos e as ovelhas

William Strutt
Os lobos e as ovelhas que tiveram
Uma guerra entre si, tréguas fizeram:
Os lobos em reféns lhes entregavam
Os filhos; as ovelhas os cães davam.
Os lobinhos, de noite, pela falta
Dos pais, uivavam todos em voz alta:
Acudiram-lhes eles acusando
As ovelhas de um ânimo execrando;
Pois contra o que é razão e o que é direito,
Algum mal a seus filhos tinham feito:
Faltavam lá os cães que as defendessem,
Deu isto ocasião que morressem.

Haja paz, cessem guerras tão choradas;
Mas fiquem sempre as armas e os soldados,
Que inimigos que são atraiçoados,
Tomaram ver potências desarmadas.
Não durmam, nem descansem confiadas
Em ajustes talvez mal ajustados.

Nem creiam na firmeza dos tratados,
Que os tratados às vezes são tratadas.
Só as armas os fazem valiosos;
E ter muitos soldados ali juntos
Respeitáveis a reis insidiosos;
Senão, para os quebrar há mil assuntos;
E mais tratados velhos, carunchosos,
Firmados na palavra dos defuntos.

Esopo (620 a.C. - 564 a.C.)
Tradução: Miguel do Couto Guerreiro

29 de dezembro de 2016

Delidade

Greg Olsen
Creio no homem. Já vi
dorsos despedaçados a chicote,
almas cegas avançando aos saltos
(espanhas a cavalo
de fome e sofrimento). E acreditei.

Creio na paz. Já vi
altas estrelas, recintos chamejantes
a amanhecentes, incendiando rios
fundos, caudal humano
para outra luz: vi e acreditei.

Creio em ti, pátria. Digo
o que já vi: relâmpagos
de raiva, amor em frio e uma faca
chiando, fazendo-se em pedaços
de pão: embora hoje só haja sombra, vi
e acreditei.

Blas de Otero (1916-1979)
Tradução: José Bento

Aviso

Steve Crisp
A cidade é de borracha lisa e negra,
mas tem vielas com odor a estábulo,
a armazéns de cereais, a madeira molhada,
a selaria, a chicória, a esparto.

Há chilreios que mordem, ruídos inumanos,
há bruscas buzinadas que desincham
meu absurdo coração hipertrofiado.

Alugo-me por horas; rio e choro com todos;
mas escreveria um poema perfeito
se não fosse indecente fazê-lo nestes tempos.

Gabriel Celaya (1911-1991)
Tradução: José Bento

28 de dezembro de 2016

Stella

A Sebastião Alves
Lucien Lévy-Dhurmer
"Eu sou fraca e pequena..."
Tu me disseste um dia,
E em teu lábio sorria
Uma dor tão serena,

Que a tua doce pena
Em mim se refletia
_ Profundamente fria,
_ Amargamente amena!...

Mas essa mágoa, Stella,
De golpe tão profundo,
Faz tu por esquecê-la _
Das vastidões no fundo
_ É bem pequena a estrela _
No entanto _ a estrela é um mundo!...

Euclides da Cunha (1866-1909)

Sou cidadão de um dócil território

Margaret Tarrant
Sou cidadão de um dócil território,
obtuso habitante de fulminante aldeia;
vivem em mim inominadas mortes, confusão
de estandartes sombrios, fantasmas de lura.

Irado e louco, pregador enganado,
escrevo o nome ardente com marfim e piche:
tabuleiro de xadrez onde tomam posse
ânsias, afãs, com férreo clamor.

Sou verme condenado, humilhado, atrás
de vaga ardente em mar de limo e lama,
grito na noite, espera desesperada,

e sigo adiante, para além do negro e branco,
alma adentro, arvorando a bandeira:
sobre amarelas dedadas de sangue áspero.

Josep Maria Llompart (1925-1993)
Tradução: Egito Gonçalves

27 de dezembro de 2016

Café Notre Dame

Ruane Manning
Uma espécie de trauma sexual
prende um casal abismado
Ele está segurando as duas mãos dela
nas suas
Ela está beijando as mãos dele
Estão olhando-se
nos olhos
de muito perto
Ela tem um casaco de peles
feito duma centena de coelhos correndo
Ele
tem um casaco clássico sombrio
e calças cinza pardo
Agora estão a examinar as palmas
das mãos um do outro
como se fossem mapas de Paris
ou do mundo
como se estivessem à procura do Metro
que os levasse juntos
através dos caminhos subterrâneos
através das «estações do desejo»
até ao terminal do amor
até às portas da cidade luz
É um caso sem saída
e estão perdidos
nas linhas cruzadas
das suas palmas enlaçadas
suas linhas de cabeça e linhas de coração
suas linhas de sorte e linhas de vida
ilegíveis e misturadas
no mons veneris
da sua paixão.

Lawrence Ferlinghetti
Tradução: André e Isabelle Lima

Morri como mineral

Walter Crane
Morri como mineral,
e tornei-me planta.
Morri como planta,
e surgi como animal.
Morri como animal,
e sou humano…

Por que ter medo?
O que perdi ao morrer?

Mas de novo vou morrer como humano,
para voar com os anjos, abençoado.

E mesmo como anjo, terei de morrer.
Todos perecem, menos Deus…

Quando eu tiver sacrificado
a minha alma de anjo,
me tornarei
o que a mente sequer concebe!

Ah! Que eu não exista!
Pois a não-existência proclama,
como um órgão,
que para Ele voltaremos.

Jalaludin Rumi (1207-1273)
Tradução: Jorge Pontual

26 de dezembro de 2016

Soneto

Claude Lorrain
À margem de uma fonte, que corria
Lira doce dos pássaros cantores
A bela ocasião das minhas dores
Dormindo estava ao despertar do dia.

Mas como dorme Sílvia, não vestia
O céu seus horizontes de mil cores;
Dominava o silêncio entre as flores,
Calava o mar, e rio não se ouvia,

Não dão o parabém à nova Aurora
Flores canoras, pássaros fragrantes,
Nem seu âmbar respira a rica Flora.

Porém abrindo Sílvia os dois diamantes,
Tudo a Sílvia festeja, tudo adora
Aves cheirosas, flores ressonantes.

Gregório de Matos (1636-1695)

Fotógrafo Ambulante

Audrey Hepburn, Fred Astaire. "Funny Face" 1957, Directed by Stanley Donen
Fixador de corações
Debaixo de blusas
Álbum de dedicatórias
Marquereau

Tua objetiva pisca-pisca
Namora
Os sorrisos contidos
És a glória

Oferenda de poesias às dúzias
Tripeça dos logradouros públicos
Bicho debaixo da árvore
Canhão silencioso do sol.

Oswald de Andrade (1890-1954)

25 de dezembro de 2016

Mensagem

Gentil Garcez
Todas as coisas foram pesquisadas,
Conferidas, catalogadas em séries,
Não resta mais nenhum prodígio
No seio da Terra, no seio do ar.
O mundo é um bocejo.
Entretanto (como explicar?)
Chega de manso, infiltra-se em nossas paredes
De casa, de carne,
Impressentida essência
(Melodia, memória)
E nos subjuga: Natal.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

24 de dezembro de 2016

À Procura do Natal

Dante Gabriel Rossetti
Caminharei em busca do presépio
A noite inteira, meu Senhor.
Não haverá, porém, nenhuma estrela,
Para guiar meus passos.
Todas as estrelas estarão imóveis
No céu imóvel.
Caminharei em busca do presépio
A noite inteira, meu Senhor.
As estradas, porém, estarão solitárias,
Tudo estará adormecido,
As luzes das casas, apagadas,
As vozes dos peregrinos terão morrido
na distância sem fim.

Caminharei ansioso à tua procura,
Mas estarei tão atrasado,
O tempo terá caminhado tão na minha frente,
Que me será difícil encontrar teu recanto humilde.
Cansado, encontrarei grandes cidades,
Mas a tua cidade, Senhor, terá desaparecido.

Muitos se rirão de mim, sabendo que te procuro.

Não haverá nenhuma estrela
Para mostrar o lugar em que te encontras.
Todas as estrelas estarão imóveis no céu...

Augusto Frederico Schmidt (1906–1965)

23 de dezembro de 2016

É Natal, nunca estive tão só.

Norman Rockwell
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os diospiros
¹ ardendo na sombra.
Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.

Eugénio de Andrade (1923-2005)
¹ Diospiros = Caqui

22 de dezembro de 2016

À amada esquiva

Edouard Manet
Dessem-nos tempo e espaço afora
não fora crime essa esquivez, senhora.
sentar-nos-íamos tranquilos
a figurar de modos mil os
nossos dias de amor. Eu com as águas
do Humber choraria minhas mágoas;
tu podias colher rubis à margem
do Ganges que eu me declarasse
dez anos antes do dilúvio! teus
nãos voltar-me-iam a face
até a conversão dos judeus.
meu amor vegetal crescendo vasto,
mais vasto que os impérios, e mais lento,
mil anos para contemplar-te a testa
e os olhos levaria. mais duzentos
para adorar cada peito,
e trinta mil para o resto.
um século para cada parte,
o último para o coração tomar-te.
pois, dama, vales tudo o que ofereço,
nem te amaria por mais baixo preço.
mas ao meu dorso eu ouço o alado
carro do tempo, perto, perto,
e adiante há apenas o deserto
sem fim da eternidade.

Tua beleza murchará mais tarde,
teus frios mármores não soarão
com ecos do meu canto: então
os vermes hão de pôr à prova
essa comprida virgindade,
tua fina honra convertendo em pó,
e em cinzas meu desejo. a cova
é ótimo e íntimo recanto. só
que aos amantes não serve de alcova.
agora, enquanto pousa a cor
da juventude em ti como na flor
o orvalho, enquanto por
todo poro teu a alma transpira
com urgentes fogos,
entreguemo-nos aos jogos
do amor e, amantes aves de rapina,
antes de um golpe devoremos nosso tempo
que enlagueçamos em seu lento
queixo. enrolemos nosso alento
e suavidade numa só esfera.
e rasguemos prazeres como feras
pelos portões férreos da vida.
assim, se não sustamos nosso sol,
ao menos o incitamos à corrida.

Andrew Marvell (1621-1678)
Tradução: Augusto de Campos

21 de dezembro de 2016

Soneto menor à chegada do verão

Louis Jean François Lagrenée
Eis como o verão
Chega de súbito,
Com seus potros fulvos,
Seus dentes miúdos,

Seus múltiplos, longos
Corredores de cal,
As paredes nuas,
A luz de metal,

Seu dardo mais puro
Cravado na terra,
Cobras que despertam
No silêncio duro –

Eis como o verão
Entra no poema.

Eugénio de Andrade (1923-2005)


Música de Câmara

Pompeo Batoni
Quem me dera nos deitarmos
Em meio ao pinho,
Na sombra fria e funda,
O sol a pino!

Apraz deitar ali,
Beijar – agrada!
Onde a floresta se ergue
Enavilhada!

Teu beijo inda mais doce
Descendo, pelo
Delicado tumulto
Do teu cabelo.

No sol a pino, ao bosque
De pinho, vem,
Vamos os dois agora,
Amor – além.

James Joyce (1882-1941)
Tradução: Alípio Correia de Franca Neto

20 de dezembro de 2016

A Mente é um Oceano

Paul Gauguin
A mente é um oceano.
Quantos mundos estão ali girando,
misteriosos, apenas vislumbrados?

Como uma taça
flutuando no oceano,
assim é nosso corpo.

Há de encher e ir ao fundo,
sem que nenhuma bolha
assinale o lugar em que repousa.

O espírito está tão próximo que não o vês.
Busca-o! Evita ser o cântaro cheio d'água
cuja boca está sempre seca.

Não te pareças ao cavaleiro
que galopa noite adentro
e não vê a própria montaria.

Jalaludin Rumi (1207-1273)
Tradução: José Jorge de Carvalho

19 de dezembro de 2016

Testamento

Peter Paul Rubens
Ser algum pode em nada desfazer-se!
Em todos eles se agita sempre o Eterno.
Confia, alegre e feliz, sempre no Ser!
Que o Ser é eterno: – existem leis
Para conservar vivos os tesouros
Dos quais o Universo se adornou.

O verdadeiro foi há muito achado,
Uniu em aliança nobres espíritos,
O velho verdadeiro – a ele te agarra!
Por ele sê grato, filho da Terra, ao Sábio
Que em torno ao Sol o caminho mostrou
A ela e aos outros seus irmãos.

A seguir volta os olhos para dentro,
É lá que o centro encontrarás
De que nobre algum poderá duvidar.
Nenhuma regra ali te falhará:
Pois a consciência independente
É o sol do teu dia moral.
Nos sentidos tens depois de confiar;
Nada de falso eles te fazem ver
Se a tua razão te conservar desperto.
Com vivo olhar observa alegremente,
E percorre, a passo firme e dúctil,
Os espaços de um mundo repleto de riquezas.

Moderado goza abundância e bênçãos;
Seja a Razão presente em toda a parte
Onde a Vida se alegra de ser Vida.
Então é o passado duradouro,
O futuro antecipadamente vivo,
E o momento presente é Eternidade.

E se enfim assim o conseguires
E estiveres repassado do sentir: –
Só o que é fecundo é que é verdade –
Vês e pesas então o agir da turba,
Terá ela de andar à sua moda,
Tu, vai juntar-te ao mais pequeno número.

E como desde sempre, em seu secreto,
O Filósofo criou e o Poeta
Obra de amor que eles elegeram,
Assim alcanças tu o bem supremo:
Pois pré-sentir às almas nobres
É o mais desejável dos ofícios.

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Tradução: Paulo Quintela

18 de dezembro de 2016

Calw

Tela de Hermann Hesse
“Cada época, cada cultura, cada costume e tradição têm o seu próprio estilo, têm sua delicadeza e sua severidade, suas belezas e crueldades, aceitam certos sofrimentos como naturais, sofrem pacientemente certas desgraças. O verdadeiro sofrimento, o verdadeiro inferno da vida humana reside ali onde se chocam duas culturas ou duas religiões. Um homem da antiguidade, que tivesse de viver na Idade Média, haveria de sentir-se tão afogado quanto um selvagem se sentiria em nossa civilização. Há momentos em que toda uma geração cai entre dois estilos de vida, e toda a evidência, toda a moral, toda salvação e inocência ficam perdidos para ela. Naturalmente isso não atinge a todos da mesma maneira”.
Hermann Hesse (1877-1962)
In ‘O Lobo da Estepe’

Declaração de Bens

Lisa Falzon
Só tenho palavras
para o indizível.

Só tenho voz
para emudecer.

Só trago nome
para o que nunca nasceu.

Uma única certeza
demora em mim:
o que em nós já foi menino
não envelhecerá nunca.

Mia Couto

17 de dezembro de 2016

Livro

Título: Beije-me Onde o Sol Não Alcança
Autor: Mary Del Priore
Ano: 2015
Páginas: 320
Editora: Planeta do Brasil

Primeiro romance da historiadora Mary del Priore, se passa na segunda metade do século XIX e percorre Paris, São Petersburgo e Rio de Janeiro com uma riqueza de detalhes surpreendente. Apesar do marketing ter frisado bem o triângulo amoroso da trama, o livro, felizmente, vai além e nos traz o retrato de um Brasil que sofre a derrocada do apogeu do café e vivencia os primeiros movimentos de libertação escravagista. O contexto histórico do enredo é riquíssimo e isso se deve à pesquisa minuciosa feita pela autora e também por se tratar de uma história um tanto quanto biográfica.
Conhecemos a história de três personagens reais, dos quais consta, inclusive, as datas de falecimento nas notas finais do livro. Maurice Haritoff é um conde russo que perdeu o prestígio de seu sobrenome com a queda da dinastia Romanov e parte rumo ao Brasil com o propósito de se casar e refazer o seu nome. A escolhida do conde é Nicota Breves, a herdeira de um poderoso barão do café. Simples, tímida e ingênua, ela não é uma moça de grandes atrativos e até mesmo já não se encontra em idade casadoura. Os anos passam e Nicota não consegue engravidar, nem mesmo utilizando de simpatias e outras artimanhas vindas de Maria Gata, uma escrava que está com a moça desde criança.
Ela ama o marido com cada fibra de seu ser e o seu sentimento é palpável no decorrer da leitura, principalmente por Mary del Priore ter retratado fielmente suas cartas de amor ao esposo, que pertencem, hoje, a coleção da sra. Ieda Borges. No entanto, Maurice não compartilha da mesma devoção desenfreada de sua esposa e tanto em suas viagens para o exterior quanto pelas suas andanças na fazenda Bela Aliança, se envolve em relacionamentos extraconjugais, sempre com moças bem jovens. Porém, é com Regina Angelorum - uma jovem escrava alforriada que foi criada como filha por Nicota - que ele se envolve e se vê completamente apaixonado.
Beije-me Onde o Sol Não Alcança é o retrato do Brasil em meio a uma época em que o império do café sofre o seu declínio, principalmente por conta da abolição da escravatura. É também uma aquarela dos costumes de um período envolto por dramas, infidelidades, ambição, poder, religiosidade e opressão feminina. O enredo de Mary del Priore vai além do triângulo amoroso que nos foi vendido e nos descortina a história de nosso país com maestria e exuberância. Narrado em primeira pessoa por quatro personagens distintos - Maurice, Nicota, Regina e um jornalista mulato que nutre uma calorosa afeição pela sinhá moça - o livro mostrou um cunho histórico soberbo.

Sonho

Jean-Honore Fragonard
Não era a pomba
da paz
nem da festa
do Divino Espírito Santo
Tinha olhos vermelhos
asas tensas
e um desespero
batendo nas cortinas
do quarto.

Heitor Ferraz Mello

16 de dezembro de 2016

Inscrição

Nicolas Poussin
Aqui, sob esta pedra, onde o orvalho roreja,
Repousa, embalsamado em óleos vegetais,
O alvo corpo de quem, como uma ave que adeja,
Dançava descuidosa, e hoje não dança mais...

Quem não a viu é bem provável que não veja
Outro conjunto igual de partes naturais.
Os véus tinham-lhe ciúme. Outras, tinham-lhe inveja.
E ao fitá-la os varões tinham pasmos sensuais.

A morte a surpreendeu um dia que sonhava.
Ao pôr do sol, desceu entre sombras fiéis
À terra, sobre a qual tão de leve pesava...

Eram as suas mãos mais lindas sem anéis...
Tinha os olhos azuis... Era loura e dançava...
Seu destino foi curto e bom...
— Não a choreis.

Manuel Bandeira (1886-1968)

Antropófagos

Tarsila do Amaral
Tendo visto que
ao contrário deles
os portugueses
enterravam seus inimigos
até a cintura
para depois os flecharem
e enforcarem
descobriram espantados
a tortura
a crueldade
que não fazia parte
de seus ritos
antropofágicos.

Heitor Ferraz Mello