31 de outubro de 2016

Véu

Antonino Barbagallo
Nenhum véu é capaz de cobrir sua pureza.
Apenas tira a nitidez de seus traços,
Seu sorriso, seu olhar.
Nenhum véu é capaz!
Nem nos seus mais íntimos prazeres
Cobrir a doçura de sua entrega.
Não!
Sua pureza é mágica e escondida.
Guardada em lugar seguro,
Que só se abre com segredos do coração.

Jaak Bosmans

O tempo despiu o seu manto

Vincent Van Gogh
O tempo despiu o seu manto
De chuva e de vente gelado:
Vestiu-se de ouro em brocado,
Fiado do sol claro e santo.

E diz todo bicho, em seu canto
E jargão, sem asas e alado:
O tempo despiu o seu manto.

O córrego, o regato e a fonte,
Em sua libré aristocrata,
De gotas de jóias de prata,
Festejam as roupas do encanto:
O tempo despiu o seu manto.

Charles of Orléans (1394-1465)

30 de outubro de 2016

Os domingos

Stephen Dabirshire
Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.
O tempo inunda a sala, os quadros, a fruteira.
Não há um crédito desmedido de esperança
Nem a verdade dos supremos desconsolos –
Simplesmente a tarde transparente,
Os vidros fáceis das horas preguiçosas,
Adolescência das cores, preciosas andorinhas.

Na tarde – lembro – uma árvore parada,
A alma caminhava para os montes,
Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza.
Domingo – lembro – era o instante das pausas,
O pouso dos tristes, o porto do insofrido.
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de carga;
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;
No declive da encosta, onde a vista não vai,
Os laranjais de infindáveis doçuras geométricas;
Na alma, os azuis dos que se afastam,
O cristal intocado, a rosa que destoa.
Dos meus domingos sempre fiz um claustro.
As pétalas caíam no dorso das campinas,
A noite aclarava os sofrimentos,
As crianças nasciam, os mortos se esqueciam mortos,
Os ásperos se calavam, os suicidas se matavam.
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos.
E uma esperança que não tenho.

Paulo Mendes Campos (1922-1991)

Ultimamente

Gaston Bussière
Os dias vêm
e vão
e isso é tudo o que fazem

como páginas de uma novela
que esqueces
ao passar
à seguinte

ou como quando vás
no comboio
olhando pela janela
e apenas te interessa
a paisagem.

Karmelo C. Iribarren

29 de outubro de 2016

Que estranha

Sigmar Polke
Que estranha
soa
a estas idades
a palavra
amor.
Dize-la,
e não sabes
se te enganas
a ti mesmo,
ou a ela,
ou ele
aos dois.

Karmelo C. Iribarren

A ideia de lirismo no selvagem

Sergey Minaev
A ideia de lirismo no selvagem.
Ser filho de si mesmo, inventar-se,
por mais estranho e diferente
que pareça.

Ser outro em sendo o mesmo.
Tesouro ou castigo. Leveza de rede,
ou peso de pedra, que se carrega,
além da própria força.

Alvoroçar o silêncio,
enchê-lo de palavras,
aniquilar a tristeza com a bomba
explosiva de uma gargalhada.

É tudo uma questão de olhar bem
o que se vê.
Não se deixar esmagar pelo pé
todo poderoso do destino.

Dirce de Assis Cavalcanti

► Dirce de Assis Cavalcanti é filha de ➔ Dilermando de Assis aquele que matou Euclides da Cunha.

28 de outubro de 2016

Ao Silêncio

Sergey Minaev
Ó, voz, única voz: todo o vazio do mar,
todo o vazio do mar não bastaria,
todo o vazio do céu,
toda a caverna da formosura
não bastaria para te conter,
e mesmo que o homem calasse e este mundo afundasse
ó majestade, tu nunca,
tu nunca deixarias de estar em toda parte,
porque te sobra o tempo e o ser, única voz,
porque estás e não estás, és quase meu Deus,
és como meu pai quando estou mais escuro.

Gonzalo Rojas (1917-2011)
Tradução: Antonio Miranda

Ó Viajante

Édouard Manet
Ó viajante!
De onde vens?
E para onde irás?

A lua desce
No caos da madrugada;
Mas, vou andando,
Antes de o Sol nascer.
À procura de luz.

No desejo de varrer
As trevas de minha alma,
A grande árvore eu procuro
E que nunca se abalou,
Na fúria da tempestade.
Nesse encontro ideal,
Sou eu quem surge da terra!

Daisaku Ikeda

27 de outubro de 2016

Ilusões da Vida

Gustav Klimt
Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu,
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.

Francisco Otaviano (1825-1889)

Que farei quando tudo arde?

Albert Bierstadt
Dezarrezoado amor, dentro em meu peito
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.

Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força, faz, desfaz,
sem respeito nenhum, e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.

Doutra parte a razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo: em fim vem o seu dia.

Então não tem lugar certo onde aguarde
amor; trata traições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?

Francisco Sá de Miranda (1481-1558)

26 de outubro de 2016

Sabedoria

Childe Hassam
Não sejamos muito exigentes:
nem sempre a sorte é acessível
a todo mundo, a toda a gente.
Ela é só dos menos sensíveis,
ou dos ricos, naturalmente...
Não desejemos o impossível.
Devemos estar contentes
de ser quem somos:
simplesmente namorados intermitentes
loucamente se namorando
de vez em quando.
É já uma grande coisa a gente
ser dois, à parte, entre os mortais,
dois que se bastam mutuamente
e não se aborrecem demais.
E somos mais exigentes,
se às vezes a alma ainda se sente
solteira e triste, isso é explicável:
temos um gênio insuportável...
ou somos muito inteligentes.

Paul Géraldy (1885-1983)
Tradução: Guilherme de Almeida

Breve solilóquio no Jardim das Tulherias

Camille Pissarro
O que quer este menino a andar de bicicleta,
senão lembrar-me do que fui? Senão, tonto de riso,
entre pombos e pardais no chão ensolarado, fingir-me?

Não aceito o ter sido. Não me quero menor
no coração que guardou o assombro e a fábula
de tudo o que viveu como um sonho escondido.

Os dias me cobraram o que era infinito.
E, se agora persigo o pedalar do menino,
é porque sei que sou o final do seu riso.

Alberto da Costa e Silva
Solilóquio = conversar consigo mesmo.

25 de outubro de 2016

O Tempo

Xavier Mellery
A eternidade não depende de nós.
Precários seres, manchados de limites,
incapazes de dar vida
a qualquer coisa que dure para sempre,
já nasceram soletrando o Never More.
Tudo o que o homem faz é perecível.
A começar pelo próprio homem,
ração diária predileta
do tempo, desde o instante
em que o tempo acompanhou
a expansão de uma galáxia:
um pássaro invisível,
as asas cheias de auroras,
de cujo bico escorria
o silêncio do arco-íris.

Thiago de Mello

O Infinito

Harold Silverman
Sempre caro me foi este ermo outeiro,
e aquela sebe, que em tão grande parte
do horizonte final o olhar exclui.
Mas sentado, a mirar intermináveis
espaços além desses, sobre-humanos
silêncios e sossegos profundíssimos,
me afundo no pensar, onde por pouco
meu coração não se amedronta. E, como
ouço o vento roçar contra estas plantas,
o silêncio infinito comparando
vou a tal voz: e sobrevêm-me o eterno,
as mortas estações, mais a presente
e viva, e o seu rumor. Assim, por esta
imensidade o meu pensar se afoga:
e o naufragar me é doce neste mar.

Giacomo Leopardi (1798-1837)
Tradução: Renato Suttana

24 de outubro de 2016

Soneto

Sir Lawrence Alma-Tadema
Cansado pensamento, em paz me deixa
Respirar um momento sossegado
Assaz é tempo enfim que um desgraçado
Ponha termo ao seu pranto, à sua queixa.

Quando o frouxo Morfeu meus olhos fecha
Não perturbes meu sono desejado
Mostrando-me um rival afortunado
Que as armas contra mim, cruel desfecha.

Não sejas tu também meu inimigo,
Se é possível, permite que eu ignore
Ou me esqueça uma vez do meu perigo.

Mas aí de mim! Por mais que ao céu implore
O céu me nega em ti um doce abrigo
E faz que eu sem cessar suspire e chore.

João Baptista de Lara (1764-1828)

A véspera do pródigo

Angelo Bronzino
Eu, o que vigia abrigado na inocência,
sou o eu não partiu quando meu último sopro apagou a vela.
Mas, quem decifrou lentamente os fabulosos signos?
Oh, distante!
Quem buscava nas nuvens o espelho onde dorme a imagem de
secretos países?
Quem ouvia outras vozes a queixar-se o vento contra o cristal batido?
Quem inscreveu com fogo o seu nome nos troncos para que fosse
anúncio ardente nas praias?
Oh, mensageiros!
Outro é o que partiu.
Mas por seu rosto passo às vezes como se ainda se visse no balão
inquieto da infância que o tempo balança:
e às vezes chega a mim, atrás das frondes errantes, o fulgor de sua
mísera realeza. Não me julgueis agora.
Esperai-o comigo.
Sua morte há de alcançar-me tanto como sua vida.

Olga Orozco (1920-1999)
Tradução: José Bento

23 de outubro de 2016

A si mesmo

Gianni Strino
Enfim repousas sempre
Meu lasso coração. Findo é o engano
Que perpétuo julguei. Findou. Bem sinto
Que em nós dos caros erros
Mais que a esperança, o próprio anelo é extinto.
Repousa sempre. Muito
palpitaste. Nenhuma coisa vale
Teus impulsos, nem digna é de suspiros
A terra. Nojo e tédio
É a vida, nada mais, e lama é o mundo.
Repousa. E desespera
A última vez. À nossa espécie o fado
Não deu mais que o morrer. Enfim despreza
A natureza, o rudo
Poder que, oculto, o comum dano gera
A a vacuidade sem final de tudo.

Giacomo Leopardi (1798-1837)
Tradução: Alexei Bueno

Passagens

Pierre-Auguste Renoir
A música fala pelos que ficam.
Nenhuma distância é possível
Entre a nítida presença de um corpo
E sua despedida repentina.
Para aquele que viaja em busca do futuro
Eu canto com a impureza do amor
Que me esgota e também me extasia,
Que me leva a produzir o tédio
Com os meus dedos engordurados de vida.
A violência do ódio primitivo canta comigo
E são estas trevas que me acompanham
À dimensão de um tempo sem destino
Em que nada se perde porque nada existe.

- Mariana Ianelli

22 de outubro de 2016

ELA, O OUTRO

Georgy Kurasov
Diz-se muito que a poesia não serve para nada.
diz-se que a poesia não serve para nada
tanto para atacá-la quanto para defendê-la.
tolos dizem que a poesia não serve para nada,
diz-se, mesmo filosoficamente,
que a poesia não serve para nada,
poetas dizem que a poesia
não serve para nada.
Eu mesmo já disse algumas vezes
que a poesia não serve
para nada (como já disse outra coisa
que isso exatamente em um ensaio
chamado “literatura, para que serve?”)
Hoje, mais uma vez, não vou dizer
que a poesia não serve para nada
(pode ser que no futuro eu diga
alguma vez
que a poesia não serve para nada),
hoje eu vou dizer que a poesia serve
a um outro, que a poesia é o lugar de um outro.
quer aprender a alteridade, aprender
a se relacionar com outro
(quer aprender um outro
quem quer que seja esse outro),
mesmo com um outro
que, saiba você ou não, já há
em você, vá ler poesia.

Alberto Pucheu

Há-mar

Foto de Elena Kucher
Há mar.
Há mar cuja beleza é iridescente
Quente ou fria
Não consegui ficar na areia.
A chuva cai como um pranteador
enchendo meus sapatos
Nada podia fazer para impedir
Da tragédia entre o temer e o destemer
Só restou-me um funeral
De quem não quer deixar-te partir
E em ondas jamais sentidas antes,
Afoguei-me, perdi-me
No mar da tua totalidade
Na imensidão dos teus olhos castanhos
Na selvagem maré do des-conhecido
Na nudez da tua alma
Na douçura da tua despedida
Que de repentino
ou de tão perdido
Encontrei-me.

Camylla Gonçalves Cantanheide

21 de outubro de 2016

Ode

Jean Baptiste-Simeon Chardin
Aonde me arrebato?
A humana vista não se atreve a tanto,
Arqueja o coração como oprimido
Com a vasta alegria.
Já se amiúda o palpitar das veias.
São menores as forças que as ideias.

Ouço quebrar nos ares
Os roucos ecos do metal fundido:
Já o purpúreo Véu caiu por terra.
E a respeitosa Almada,
Que viu brilhar primeiro o Régio Vulto,
Como o Ganges, que adora o Sol que nasce,
Sobre as águas do Tejo inclina a face.

António Caetano de Almeida Vilas Boas (1745-1805)

A bela teta

Piero di Cosimo - Simonetta Vespucci
Teta perfeita, branca como um ovo,
Teta de cetim feita, cetim novo,
Teta da qual a rosa tem vergonha,
Teta melhor que tudo o que se sonha,
Teta dura, nem teta, mas enfim

Comparável a bola de marfim,
E no centro da qual somente esteja

Um rubi de morango ou de cereja
Que ninguém vê nem toca por enquanto,
Mas que aposto ser tal como eu o canto:

Teta de bico pois tão encarnado
Que parece por agora sossegado,
Quer ela vá correndo ou vá andando,
Quer ela vá partindo ou vá saltando:
Teta do lado esquerdo, tão matreira,
Sempre longe da sua companheira,
Teta que és testemunha e viva imagem
De compostura tal da personagem
Que só de ver-te assim como te vejo
Nasce dentro das mãos este desejo
De toda te palpar e possuir:
Mas é preciso eu próprio me impedir
De mais me aproximar, pois não duvido
Depois desse desejo outro surgido…
Ó teta nem modesta nem vistosa,
Teta madura, teta apetitosa,
Teta que noite e dia ouço gritar:
“Depressa me casai, quero casar!”

Com justiça, feliz se vai dizer
Aquele que de leite te há de encher,
Fazendo de uma teta de donzela
Teta de dona inteiramente bela.

Clément Marot (1496-1544)
Tradução: David Mourão-Ferreira

20 de outubro de 2016

Nas viradas do acaso

Frederick Arthur Bridgman
O mundo não é eterno e tudo tem um prazo
Nossas vontades mudam nas viradas do acaso;
Pois esta é uma questão ainda não resolvida:
A vida faz o amor, ou este faz a vida?
Se o poderoso cai, somem até favoritos;
Se o pobre sobe surgem amigos irrestritos.
E até aqui o amor segue a fortuna, eu digo;
A quem não precisa nunca falta um amigo.
Mas quem, precisado, prova um falso amigo
Descobre, oculto nele, um inimigo antigo.

William Shakespeare (1564-1616)
Tradução: Millôr Fernandes